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02/06/1940 – T

Segunda Palestra em Oak Grove

Para aqueles que chegaram aqui pela primeira vez hoje, devo explicar brevemente sobre o que falamos no último domingo. Aqueles de vocês que estão acompanhando rigorosamente essas palestras não devem se impacientar, pois vamos tentar pintar com palavras um quadro da vida tão completo quanto for possível. Devemos compreender o quadro inteiro, a atitude total em relação à vida, e não simplesmente uma parte dela.

Eu estava dizendo na semana passada que não pode haver paz e felicidade no mundo a menos que nós, como indivíduos, cultivemos a sabedoria que gera tranquilidade. Existem muitos que pensam que sem considerar sua própria natureza interior, sua própria clareza de propósito, sua própria compreensão criativa, que alterando de algum modo as condições exteriores eles podem produzir paz no mundo. Ou seja, eles esperam ter fraternidade no mundo embora interiormente estejam atormentados por ódio, inveja, ambição e assim por diante. Que essa paz não pode existir a menos que o indivíduo, que é o mundo, produza uma mudança radical em si mesmo é bastante óbvio para aqueles que pensam profundamente.

Nós vemos caos a nossa volta e extraordinária brutalidade depois de séculos de pregação de bondade, fraternidade, amor; facilmente ficamos presos neste sorvedouro de ódio e antagonismo, e pensamos que alterando os sintomas externos teremos a unidade humana. A paz não é uma coisa trazida de fora, ela só pode vir de dentro; isso requer grande seriedade e concentração, não em relação a um único propósito, mas na compreensão do complexo problema de viver.

Peguei a ganância como uma das principais causas de conflito em nós e, por isso, no mundo – ganância, com seu medo, com seu anseio por poder e dominação, social bem como intelectual e emocional. Nós tentamos diferenciar entre necessidade e ganância. Necessitamos de alimento, roupas e abrigo, mas essa necessidade se torna ganância, uma força motriz psicológica em nossas vidas quando nós, pelo anseio de poder, prestígio social e assim por diante, damos às coisas valor desproporcional. Até dissolvermos essa causa fundamental de conflito ou choque em nossa consciência, a simples busca de paz é inútil. Embora com a legislação possamos ter ordem superficial, o anseio por poder, sucesso e assim por diante perturbará constantemente o cimento que mantém a sociedade junta e destruirá essa ordem social. Para gerar paz em nós mesmos e, portanto, na sociedade, esse choque central na consciência causado pelo anseio deve ser compreendido. Para compreender deve haver ação.

Existem aqueles que veem que o conflito no mundo é causado pela ganância, pela afirmação individual de poder e dominação, através da propriedade e, assim, eles propõem que os indivíduos não devem deter os meios de adquirir poder; eles propõem produzir isso através da revolução, através do controle estatal da propriedade – estado sendo aqueles poucos indivíduos que têm nas mãos as rédeas do poder. Você não pode destruir a ganância por meio da legislação. Você pode ser capaz de destruir uma forma de ganância pela compulsão, mas ela inevitavelmente assumirá outra forma que criará caos social mais uma vez.

E existem aqueles que pensam que a ganância ou anseio pode ser destruído por meio de ideais intelectuais ou emocionais, por meio de dogmas religiosos e credos; isso não pode acontecer também, pois ela não pode ser superada através da imitação, exercício, ou amor. A abnegação não é um remédio duradouro para o conflito da ganância. As religiões ofereceram compensação para a ganância, mas a realidade não é uma compensação. A busca de compensação é remover a causa do conflito que é ganância, anseio, a outro nível, a outro plano, mas o choque e o sofrimento ainda estão ali.

Os indivíduos ficam presos no desejo de criar ordem social ou relação humana amistosa entre as pessoas por meio de legislação, e de encontrar a realidade que as religiões prometem como uma compensação por abrirem mão da ganância. Mas, como eu apontei, a ganância não vai ser destruída por legislação ou por compensação. Para trabalhar no problema da ganância devemos estar totalmente conscientes da falácia da simples legislação social contra ela e da atitude religiosa compensatória da ganância que desenvolvemos. Se você não está mais procurando compensação religiosa da ganância, ou se não está preso na esperança da legislação contra ela, então você começará a compreender um processo diferente de dissolução integral desse anseio, mas isso requer seriedade extenuante sem emocionalismo, sem os truques do intelecto astucioso.

Todo ser humano no mundo precisa de alimento, roupas e abrigo, mas por que essa necessidade se tornou um problema tão complexo e doloroso? Não é porque nós usamos as coisas para propósitos psicológicos mais do que por simples necessidade? Ganância é a demanda por gratificação, prazer, e usamos as necessidades como meio de alcançá-los e, por isso, damos a elas muito maior importância e valor do que elas têm. Enquanto se usa as coisas, pois temos necessidade delas, sem estarmos psicologicamente envolvidos nelas, pode haver uma limitação inteligente às necessidades, não baseada em simples gratificação.

A dependência psicológica das coisas se manifesta como miséria social e conflito. Sendo pobres interiormente, psicologicamente, espiritualmente, pensamos em nos enriquecer por meio de posses, com demandas e problemas complexos sempre crescentes. Sem resolver fundamentalmente a pobreza psicológica do ser, a simples legislação social ou o ascetismo não podem resolver o problema da ganância, do anseio. Como isso vai ser superado fundamentalmente, não simplesmente em suas manifestações exteriores, na periferia? Como o pensamento vai se libertar do anseio? Nós percebemos a causa da ganância – desejo de satisfação, gratificação – mas como ela vai ser dissolvida? Pelo esforço da vontade? E que tipo de vontade? Vontade de dominar, vontade de reprimir, vontade de renunciar? O problema é – não é? – sendo ganancioso, avaro, mundano, como se desembaraçar da ganância?

Pois o pensamento é agora o produto da ganância e, portanto, transitório, e não pode compreender o eterno. Aquilo que pode compreender o imortal deve ser imortal também. O permanente só pode ser compreendido através do transitório. Ou seja, o pensamento nascido da ganância é transitório, o que quer que ele crie deve, certamente, ser também transitório, e enquanto a mente estiver retida no transitório, dentro do círculo da ganância, ela não pode se transcender nem se superar. Em seu esforço para se superar, ela cria mais resistências e fica mais e mais enredada nelas.

Como a ganância vai ser dissolvida sem criar mais conflito se o produto do conflito está sempre no âmbito do desejo, que é transitório? Você pode ser capaz de superar a ganância através da simples aplicação da vontade de negação, mas isso não leva à compreensão, ao amor, pois tal vontade é produto do conflito e, por isso, não pode se libertar da ganância. Reconhecemos que somos gananciosos. Existe satisfação na posse. Ela preenche o ser, o expande. Agora, por que você precisa lutar contra isso? Se você está satisfeito com essa expansão, então você não tem problema consciente. Pode a satisfação ser completa, ela não está sempre num estado de fluxo constante, ansiando por uma gratificação depois de outra?

Assim o pensamento fica enredado na sua própria rede de ignorância e sofrimento. Nós vemos que estamos presos na ganância e percebemos também, ao menos intelectualmente, o efeito da ganância. Então como o pensamento vai se desprender dos próprios anseios criados por ele? Só por meio de constante vigilância, da compreensão do processo da própria ganância A compreensão não nasce da simples aplicação de uma vontade unilateral, mas por meio da abordagem experimental que tem a qualidade peculiar da totalidade. Essa abordagem experimental está nas ações de nossa vida cotidiana; tornando-se agudamente consciente do processo do anseio e da gratificação surge a abordagem integral da vida, essa concentração que não é resultado de escolha, mas que é completude. Se você estiver vigilante, observará agudamente o processo do anseio; você verá que nessa observação existe um desejo de escolha, um desejo de racionalizar, mas esse desejo faz parte ainda do anseio. Você tem que estar precisamente consciente da sutileza do anseio, e pelo experimento surge a totalidade da compreensão que apenas ela pode libertar radicalmente o pensamento do anseio. Se você estiver consciente assim, há um tipo diferente de vontade da compreensão que não é a vontade do conflito ou da renúncia, mas da totalidade, da completude que é sagrada. Essa compreensão é a abordagem da realidade que não é produto da vontade de adquirir, a vontade do anseio e do conflito. A paz pertence a essa totalidade, a essa compreensão.

Interrogante: Já que é tão verdadeiro que o indivíduo é um produto da sociedade quanto que a sociedade é um produto do indivíduo que a compõe, e desde que a mudança numa organização social afeta grande número de indivíduos, não é tão importante salientar a necessidade de mudar a sociedade quanto a necessidade de mudar os indivíduos? E desde que as principais causas de catástrofe no mundo nascem do mau funcionamento da organização social, não há perigo em enfatizar demais a necessidade de transformação dos próprios indivíduos, mesmo que a transformação seja necessária afinal?

Krishnamurti: O que é a sociedade? Ela não é a relação de um indivíduo com outro? Se os indivíduos em si mesmos são ignorantes, cruéis, ambiciosos e assim por diante, a sociedade deles refletirá o que eles mesmos são. O interrogante parece sugerir que a relação conflitante dos indivíduos, que é a sociedade, com suas muitas organizações, devia ser transformada. Todos nós vemos a necessidade, a importância, da mudança social. Guerras, fome, brutal busca de poder e assim por diante – todos estão familiarizados com isso, e alguns desejam seriamente mudar essas condições. Como você vai mudá-las? Destruindo os muitos ou poucos que criam a desarmonia no mundo? Quem são os muitos ou os poucos? Você e eu, não? Cada um está envolvido nisso porque somos gananciosos, possessivos, ansiamos por poder. Nós queremos trazer ordem para a sociedade, mas como vamos fazê-lo? Você pensa seriamente que existem apenas poucos que são responsáveis por essa desorganização social, essas guerras, esses ódios? Como você vai se livrar deles? Se você os destruir, usará os mesmos meios que eles empregaram, e fará de si mesmo um instrumento de ódio e brutalidade também. O ódio não pode ser destruído pelo ódio, não importa quanto você queira esconder seu ódio sob palavras sonoras, agradáveis. Os métodos determinam os fins. Você não pode matar para ter paz e ordem; para ter paz você precisa criar paz em si mesmo e, assim, em sua relação com os outros, o que é a sociedade.

Você diz que se deve dar mais ênfase à mudança da organização social. Reformas superficiais podem, talvez, ser feitas, mas certamente mudança radical ou paz duradoura só podem surgir quando o próprio indivíduo se transformar. Você pode dizer que isso levará muito tempo. Por que você está preocupado com o tempo? Na sua avidez você quer resultados imediatos, você está preocupado com os resultados e não com os modos e meios; em sua pressa você se torna um brinquedo de promessas vazias. Você considera que a presente natureza humana, que é o produto de séculos de maltrato, ignorância, medo, pode ser alterada da noite para o dia? Alguns indivíduos podem ser capazes de se transformarem da noite para o dia, mas não uma sociedade cristalizada. Isso não significa um adiamento, mas o homem que pensa claramente, diretamente, não está preocupado com o tempo.

A organização social pode ser um mecanismo independente, mas tem que ser conduzida por nós. Nós a criamos e somos responsáveis por ela, e podemos ser independentes dela apenas quando, como indivíduos, não contribuirmos para o ódio geral, ganância, ambição e assim por diante. Em nosso desejo de mudar o mundo, sempre encontramos oposição – grupos são formados a favor e contra, o que só engendra mais antagonismo, suspeita e competição. A concordância é quase impossível exceto quando existe ódio comum ou medo; todas as ações nascidas de medo e ódio devem aumentar o medo e o ódio. Paz e ordem duradoura só podem ser geradas quando o indivíduo, voluntariamente e inteligentemente, consentir em pensar sem ódio, ganância, ambição e assim por diante. Só desse modo pode haver paz criativa dentro de você e, portanto, em sua relação com o outro, o que chamamos sociedade.

Isso requer atenção vigorosa e direta sem emocionalismo, mas, como a maioria de nós é preguiçosa, esperamos que por meio de alguns acontecimentos miraculosos, a organização social se transformará. Assim, nos rendemos ao sentimento e não ao pensamento claro. Consideramos a asserção de nós mesmos, a agressividade como valorosa, pois fizemos da religião uma coisa de sentimento; negamos o pensamento crítico, experimental nas coisas que mais importam, religião e realidade, e assim, naturalmente, nos tornamos brutos, destrutivos em relação às coisas deste mundo.

Interrogante: Como se controla a emoção?

Krishnamurti: Vamos compreender este problema do controle. O que queremos dizer com controle? O que está envolvido no controle? Nós vemos em nosso processo de pensar uma força dual trabalhando, o desejo de segurar, pegar, e também, o desejo de não segurar, não pegar. Não é assim? Existe no pensamento aquilo que ele é e, também, aquilo que ele quer ser – o agradável, chamado o bem, e o desagradável, o mal. Assim, existe conflito contínuo entre esses dois processos duais, um querendo dominar o outro por meio de disciplina, asserção, negação e assim por diante. Então, na ideia de controle existe sempre dualidade. O pensamento, tendo se dividido em dois processos – aquilo que é agradável e o que não é agradável – cria conflito em si mesmo, e tenta dominar esse conflito por vários meios, ideais, negações, concentração e por aí vai.

Então o ponto principal não é como controlar, mas por que criamos e nos fixamos nesse processo dual? O que faz a pessoa ficar irada primeiro e, depois, descobrir a dor da ira o que a leva a aprender a se controlar? O que faz a pessoa bruta e, depois, tentar cultivar a compaixão? Conscientizando-nos do processo da dualidade, despertaremos a compreensão, a totalidade, a completude que eliminará o conflito da resistência. O que faz nossa vida, pensamento, tão desarticulada, tão descoordenada? Por que nós, em nosso processo de pensamento, criamos essa dualidade, não que não exista essa dualidade?

No exato momento da ira não existe a reação de seu oposto, ficamos irados simplesmente. Depois chegam todas as reações a ela dependendo de nosso condicionamento anterior e, de acordo com ele, nos controlamos, treinamos para não ficarmos irados, e exercitando a vontade, lançamos resistências contra a ira, o que não é a dissolução da ira; nós a encobrimos e, assim, a dualidade continua existindo. Agora, por que ficamos irados? Por muitas razões. Pode ser que nossa segurança social ou financeira esteja ameaçada, ou pode ser por alguma razão psicológica. Agora, sem compreender completamente as razões fisiológicas e psicológicas da ira e, inteligentemente e totalmente nos conscientizando delas, só ficamos profundamente interessados na ideia de nos livrarmos da ira. Simplesmente se livrar da ira é comparativamente fácil, mas isso não dissolve suas causas completamente; mas se você estiver totalmente consciente das causas, fisiológicas bem como psicológicas, consciente sem o desejo de se livrar da ira, então, nessa compreensão integral não só o efeito – a ira – mas as causas definham também, dando lugar para uma qualidade que só a experiência pode revelar. Toda dominação é uma forma de ignorância e violência; só a compreensão pode libertar o pensamento da escravidão.

Interrogante: Por favor, poderia explicar mais completamente “O mundo é a extensão do indivíduo, você é o mundo”?

Krishnamurti: Através da abordagem experimental descobre-se que o homem é a medida de todas as coisas; ou, aceitando a autoridade, existe outra medida além do homem, Deus ou como você queira chamar. O mundo do passado é o mundo de hoje, do “Eu” e do futuro “Eu”. O passado é o mundo de nossos ancestrais, das gerações anteriores, com sua ignorância, medos e assim por diante, que limitam o presente, o “Eu” de hoje e dão origem ao “Eu” de amanhã, o futuro. Cada um de nós é esse passado acumulado, ao qual se incorpora o presente com suas reações e experiências. Os indivíduos são o resultado de variadas formas de influência e limitação, e a relação de um indivíduo com outro cria o mundo – o mundo dos valores. O mundo é a estrutura social, moral, espiritual baseada em valores criados por nós, não? O mundo social, bem como o chamado mundo espiritual, é criado por nós indivíduos através de nossos medos, esperanças, anseios e assim por diante. Nós vemos o mundo do ódio colhendo seu produto presentemente. Esse mundo de ódio foi criado por nossos pais e seus antepassados, e por nós. Assim, a ignorância se estende indefinidamente pelo passado. Ela não se criou por si mesma – ela é o resultado da ignorância humana, um processo histórico, não? Nós como indivíduos cooperamos com nossos ancestrais, que, com seus antepassados, estabeleceram esse processo de ódio, medo, ganância e assim por diante. Agora, como indivíduos, nós tomamos parte desse mundo de ódio enquanto, individualmente, cedemos a ele.

O mundo, então, é uma extensão de você mesmo. Se você como indivíduo deseja destruir o ódio, então, você como indivíduo deve cessar de odiar. Para destruir o ódio, você deve se dissociar do ódio em todas as suas formas grosseiras e sutis e, enquanto estiver preso nele, você faz parte deste mundo de ignorância e medo. Assim o mundo é uma extensão de você mesmo – você mesmo duplicado e multiplicado. O mundo não existe apartado do indivíduo. Ele pode existir como uma ideia, como um estado, como uma organização social, mas para exercer essa ideia, para fazer essa organização religiosa ou social funcionar, deve haver o indivíduo. Sua ignorância, sua ganância, seu medo mantém a estrutura de ignorância, ganância e ódio. Se o indivíduo mudar, ele pode afetar o mundo – o mundo de ódio, ganância e assim por diante? Primeiro assegure-se, assegure-se duplamente, que você, o indivíduo, não odeia. Aqueles que odeiam não têm tempo para pensamento – eles são consumidos por seu próprio intenso excitamento e com seus resultados. Eles não ouvem o pensamento calmo, deliberado; eles são arrastados por seu próprio medo; e você não pode ajudar essas pessoas – pode? – a menos que siga o método delas, que é forçá-las a ouvir, mas tal força não tem valor. A ignorância tem seu próprio sofrimento. Afinal, você está me ouvindo porque não está ameaçado imediatamente, mas se estivesse, provavelmente não ouviria; não estaria atento. O mundo é uma extensão de você mesmo enquanto você estiver descuidado, preso na ignorância, ódio, ganância; mas quando você estiver sério, cuidadoso e consciente, acontece não apenas uma dissociação daquelas causas horríveis que causam dor e sofrimento, mas também nessa compreensão existe uma completude, uma totalidade.

2 de junho de 1940

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