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07/07/1940 – T

 

Sétima Palestra em Oak Grove

O mundo, principalmente agora, está em um estado de confusão e conflito e em profundo sofrimento. Pode-se criar uma concepção teórica de como o mundo deveria ser e tentar se ajustar a essa ideia, mas a longo prazo isso não contribuiria com nossa compreensão do complexo problema da vida, embora possa aliviar nosso sofrimento momentaneamente. O intelecto é a faculdade de discernir e, quando ela está limitada como agora, esperanças teóricas são de pouca utilidade. Quando tantas pessoas estão presas no ódio, na ambição implacável, que está criando tanta confusão e miséria, você, pelo menos como indivíduo, pode se libertar destas causas e ajudar a gerar um mundo mais feliz e saudável. Se você tem um desejo de ajudar o mundo, deve começar com você mesmo, pois o mundo é você. A presente condição do mundo foi gerada consciente ou inconscientemente por cada um de nós, e a fim de alterá-la fundamentalmente, devemos, deliberada e inteligentemente, dirigir nossas mentes e corações para gerar uma completa mudança em nós. Se não compreendermos isso profundamente e tentarmos simplesmente organizar um sistema econômico ou social melhor, nossos esforços – eu percebo – não criarão um mundo mais sadio e melhor. A menos que o indivíduo seja harmonioso nele mesmo, estará fadado a ser antissocial em sua relação com o outro, ou seja, afinal, com a sociedade.

Estivemos tentando compreender o que cria em nós e, consequentemente, em torno de nós, confusão e miséria. O valor desproporcional que damos às coisas, quando dependemos delas psicologicamente, cria ganância. As necessidades humanas não corrompem nossos pensamentos e sentimentos se, psicologicamente, não nos tornarmos dependentes de coisas, posses. Enquanto nossa relação com o outro for possessiva, haverá conflito, pois o conflito surge quando existe dependência fisiológica e psicológica. Eu mostrei como o mundo está fragmentado e dividido em indivíduos e grupos dependendo de crenças, dogmas, teorias, sejam elas políticas, sociais ou religiosas. Essas crenças e dogmas têm sua origem no anseio de cada indivíduo por segurança, não apenas econômica, mas também psicológica e espiritual.

Assim, estamos num mundo dividido em si mesmo, racialmente, socialmente, economicamente, nacionalmente e religiosamente. Estamos conscientes disso. E o que vamos fazer? Como vamos interromper esse círculo vicioso de ganância, amor possessivo e imortalidade pessoal? É possível interromper completamente e não cair em outra forma sutil de avareza, poder e possessividade? Como vamos começar a remover a causa de tanto sofrimento e ilusão? Devemos nos tornar conscientes, cuidadosos.

Vou mostrar o que quero dizer com consciência. Temos que nos tornar conscientes do que somos. Como nos tornamos conscientes do que somos? Estando interessados. Ou seja, estando interessado, há uma concentração natural que produz vontade. Concentração é focalizar todas as energias em alguma coisa na qual estamos interessados. Por exemplo, quando nosso interesse é ganhar dinheiro, e o poder que o dinheiro confere, ou quando estamos absorvidos por um livro ou em alguma atividade criativa, há uma concentração natural. A vontade é criada quando há interesse. Quando não há interesse, há dispersão do pensamento, contradição do desejo. O começo da conscientização é a concentração natural do interesse em que não existe conflito de desejos e escolha e, por isso, existe uma possibilidade de compreensão dos desejos diferentes e opostos. Se o pensamento está em busca de certo resultado definido, então há exclusão ou agregação, que leva a incompletude e não é a conscientização de que falo. Você não pode compreender todo o complexo processo de seu ser se está em busca de resultados ou tentando alcançar um estado que você pensa ser paz ou realidade ou liberação. Conscientização é a compreensão de todo o processo do desejo consciente e inconsciente. No próprio início da conscientização, há a percepção do que é verdadeiro; a verdade não é um resultado ou uma aquisição, mas é para ser compreendida. No próprio processo da compreensão, digamos, por exemplo, da ganância, surge a percepção do que é verdadeiro. Essa compreensão não nasce de simples razão ou emoção, mas é o resultado de conscientização, a integralidade de pensamento-ação.

Quando estamos conscientes, estamos a par do processo dual que funciona em nós – querer e não querer, desejos expandidos e desejos reprimidos. Os desejos preponderantes têm sua própria forma de vontade. A concentração em desejos preponderantes e sua ação, criam um mundo de competição e divisão no mundanismo, de amor possessivo e o anseio de continuidade pessoal. Percebendo as consequências desses desejos preponderantes, que causam dor e sofrimento, há o desejo de reprimir, com seu próprio tipo de vontade. Então existe conflito entre os desejos preponderantes e a vontade de reprimir. Esse conflito cria ou compreensão ou confusão e ignorância. A vontade preponderante e a vontade de reprimir são a causa da dualidade, que não pode ser negada.

Embora os opostos tenham uma causa comum, não podemos desprezá-los ou deixá-los de lado; temos que compreendê-los e, assim, ficarmos livres do conflito dos opostos. Sendo invejosos e, consequentemente, conscientes do conflito e da dor, tentamos cultivar seu oposto, mas não há liberdade da inveja. O motivo para cultivar o oposto importa grandemente; se for um desejo de fugir da luta e da dor da inveja, então seu oposto se torna idêntico a ela mesma, e não há liberdade da inveja. Por outro lado, se você considerar profundamente a causa intrínseca da inveja e ficar consciente de suas várias formas, com seus impulsos, então nessa compreensão está a libertação da inveja, sem a criação de seu oposto. A concentração que surge no processo de conscientização não é resultado do interesse próprio ou de uma introspecção mórbida. Como eu disse, estar interessado é ser criativo, que é felicidade. Essa concentração de interesse surge naturalmente quando há conscientização. Quando há uma compreensão do processo dos desejos proeminentes, com sua chamada vontade positiva e a vontade de reprimir, então surge uma integralidade, uma totalidade que não é criação do intelecto. Intelecto, a faculdade do discernimento, é o instrumento da compreensão e não um fim em si mesmo. A compreensão transcende razão e emoção.

Interrogante: Qual é a melhor atitude em relação a esta terrível guerra na Europa? Podemos fazer alguma coisa pelo pensamento? Eu sinto o horror e o sofrimento dessa guerra. Posso fugir disso? Posso fugir se me dissociar dela? Você vai considerar as condições do mundo atual em suas palestras?

Krishnamurti: Muitas vezes, nós pensamos erradamente que o caos e a miséria do mundo surgem de uma única causa e que a suprimindo, produziremos ordem e felicidade no mundo. A vida é um processo complexo e devemos ter ampla e profunda compreensão para captar sua vastidão. A guerra é o resultado de nossa vida cotidiana, de nossa ambição, de nossa atitude geral em relação a nossos companheiros no chamado tempo de paz. Em nossa vida cotidiana somos competitivos, agressivos, nacionalistas, vingativos, interesseiros, o que culmina inevitavelmente na guerra. Intelectualmente e emocionalmente somos influenciados e limitados pelo passado que produz a presente reação de ódio, antagonismo e conflito. Intelectualmente somos incapazes de discernimento claro e, por isso, ficamos confusos; somos incapazes de discernimento crítico porque nossa capacidade de pensar ficou embotada por influências e limitações anteriores. Até o pensamento se libertar delas, disputa e guerra, dor e sofrimento continuarão. Até nossas próprias vidas não serem mais agressivas e gananciosas, e pararmos de buscar segurança psicologicamente dividindo o mundo em diferentes classes, raças, nacionalidades e religiões, não pode haver paz.

Embora, superficialmente, possa haver a cessação desta mortandade, até direcionarmos nossas mentes e corações séria e vigorosamente para compreender e, assim, nos libertarmos daquelas causas psicológicas da ganância – amor possessivo – e da continuidade do ego, disputa e miséria sempre vão existir. A paz vem de dentro, não de fora. Essa compreensão da paz requer profundo pensamento e seriedade.

Você pergunta se pode fugir da guerra se dissociando dela. Como você pode se dissociar dela? Pois você é a causa da guerra. Por que você está associado com esta guerra que está acontecendo? Ou porque suas relações estão envolvidas nela ou você está preso nela emocionalmente. Se suas relações estão envolvidas, tal sofrimento é compreensível, mas estar emocionalmente envolvido nela é descuido. Se você simplesmente se dissocia desta forma de excitação, inevitavelmente se voltará para outras formas. Assim, a menos que você compreenda por que depende da sensação, dessa constante busca por excitação, que se torna vulgar e degradante, você sempre encontrará novas formas de excitação, satisfação. A causa é profunda e você tem que compreendê-la para ficar livre de suas superficialidades.

Não pense que simplesmente desejando paz você terá paz, quando em sua vida cotidiana de relação, você é agressivo, ambicioso, buscando segurança psicológica aqui ou depois. Você tem que compreender a causa central do conflito e do sofrimento e dissolvê-la e não, simplesmente, buscar paz do lado de fora. Mas você sabe, a maioria de nós é indolente. Somos muito preguiçosos para nos olharmos e compreendermos e, sendo preguiçosos, o que é realmente uma forma de conceito, pensamos que outros resolverão este problema para nós e nos darão paz, ou que devemos destruir as aparentemente poucas pessoas que estão causando as guerras. Quando o indivíduo está em conflito em si mesmo, ele criará conflito do lado de fora inevitavelmente, e só ele pode produzir paz dentro de si mesmo e, portanto, no mundo, pois ele é o mundo.

Interrogante: Deveríamos nos reprimir e não assumir novas responsabilidades a fim de não causar novos desejos?

Krishnamurti: Certamente isso depende de como a pessoa se portou em relação às antigas responsabilidades. Se ela não compreendeu as responsabilidades passadas completamente e, simplesmente, fugiu delas, assumir novas é, simplesmente, a continuação do antigo sob uma forma diferente. Devo explicar melhor?

Interrogante: Sim, por favor.

Krishnamurti: Aquilo que consideramos novas responsabilidades são, de fato, a continuação do antigo sob diferentes condições. Então, antes de assumir novas responsabilidades, deve-se considerar como se realizaram as antigas; se a pessoa não o fez, mas simplesmente fugiu pela raiva, pelo descuido ou obstinação, então tem que considerar por que assumiu novas. A presunção do novo pode ser apenas a continuação do anseio por sensação, por conforto, pelo desejo antigo que não foi totalmente compreendido e dissolvido. O desejo sempre está buscando mais expressão e expansão, e, simplesmente assumir novas responsabilidades não vai realizar o desejo, pois não há fim para o desejo, para o anseio. Mas na compreensão do processo do desejo, tornando consciente de suas implicações e causas, você descobrirá por si mesmo se assume novas responsabilidades ou não. Eu posso, naturalmente, lhe dizer o que você deveria fazer, mas você pode descobrir por si mesmo definitivamente.

Interrogante: Por favor, nos diga qual é sua concepção de Deus?

Krishnamurti: Ora, por que nós queremos saber se Deus existe? Se pudermos compreender profundamente a intenção dessa pergunta, poderemos entender muito. Crença e não-crença são obstáculos definitivos para a compreensão da realidade; crenças e ideias são os resultados do medo. O medo limita o pensamento e, para fugir do conflito, nos voltamos para várias formas de esperanças, estimulações, ilusões. A realidade é autêntica, experiência direta. Se dependermos da descrição do outro, a realidade cessa, pois o descrito não é o real. Se nunca experimentamos sal, nenhuma descrição de seu sabor tem valor. Temos que prová-lo por nós mesmos para saber. Agora, a maioria de nós quer saber o que Deus é porque somos indolentes, porque é mais fácil depender da experiência do outro do que de nossa própria compreensão; isso também cultiva em nós uma atitude irresponsável e, assim, tudo que temos que fazer é seguir o exemplo, moldar nossa vida pelo padrão, ou pela experiência do outro e, seguindo o exemplo, pensamos que alcançamos, chegamos, realizamos. Para compreender o mais elevado, tem que haver libertação do tempo, o contínuo passado, presente e futuro dos medos do desconhecido, de fracasso e sucesso. Você está fazendo essa pergunta porque quer ou comparar sua imagem de Deus com a minha e, assim, se apoiar, ou condenar, o que só leva à argumentação e disputa de opiniões. Esse caminho não leva à compreensão.

Deus, verdade, ou como você queira chamar, a realidade não pode ser descrita. Aquilo que pode ser descrito não é o real. É inútil inquirir se existe Deus, pois a realidade surge quando o pensamento se liberta de suas limitações, seus anseios. Se formos criados na crença em Deus ou em seu oposto, o pensamento é influenciado, um hábito é formado geração após geração. Crença e não-crença em Deus impedem a compreensão de Deus. Estando ancorada na fé, qualquer experiência que você possa ter de acordo com sua crença só pode reforçar sua condição anterior. A simples continuação do pensamento limitado não é uma compreensão da realidade. Quando afirmamos isso por meio de nossa própria experiência de que Deus existe ou não, estamos continuando e repetindo experiências influenciadas pelo passado. Experiências, sem nossa compreensão das causas da sujeição, não nos conferem sabedoria. Se continuarmos a repetir certa influência que chamamos de experiência, tal experiência apenas reforça nossas limitações e não provoca a libertação delas. A mente, como mostrei em minha palestra, é o resultado do anseio e, portanto, transitória, e quando a mente concebe uma teoria de Deus ou da verdade, ela está fadada a ser produto de seu próprio conceito e, por isso, não é real. A pessoa tem que se tornar consciente das várias formas de anseio, medo e assim por diante e, por meio de constante investigação e discernimento, uma nova compreensão surge que não é o resultado do intelecto ou da emoção. Para compreender a verdade, deve haver conscientização constante e determinada.

Interrogante: Qual é a significação de Cristo ou o problema do cristianismo em nosso tempo atual?

Krishnamurti: O que está acontecendo em nosso tempo atual? Há confusão, ódio, medo, ganância, guerra. Ora, qual é a resposta para tudo isso? Existe uma resposta cristã ou hindu ou budista para isso, ou existe apenas uma solução verdadeira? Cada religião e cada grupo dogmático consideram que apenas ela tem a chave para a solução do caos atual. Existe competição entre religiões, com seus sistemas e sacerdotes. A solução do presente caos está em você mesmo e não no outro. Pela autoconfiança você pode gerar paz em você mesmo e, por isso, no mundo, que é uma extensão de você mesmo. Nenhum líder pode lhe dar paz. O importante é compreender como seu próprio pensamento e ação criam o caos atual e a miséria e, só por meio de sua própria autoconfiança e conscientização pode haver liberdade desta recorrente agonia e confusão.

Interrogante: Existe alguma relação entre realidade e a minha pessoa?

Krishnamurti: Você esperançosamente implica – não? – que deveria haver uma relação entre a realidade e você mesmo? Você acredita que a realidade, Deus ou como você chame está em você, mas está encoberta pela ignorância; daí você pergunta qual é a relação entre essa ignorância e a realidade. Pode haver alguma relação entre ignorância e compreensão? Ora, quais são esses revestimentos, essas capas que se supõe encobrirem a realidade? Qual é o ‘Eu’ que faz essa pergunta? O ‘Eu’ não é certa forma, um nome, certo feixe de qualidades, memórias que se dividiram em inferior e elevado, em espiritual e não-espiritual e assim por diante? Tudo isso é o ‘Eu’.

Agora você quer saber se existe alguma relação entre este ‘Eu’ e a realidade. O que é realidade? Você não sabe, mas você tem uma esperança, um anseio por ela. Pode haver alguma relação entre o conhecido, o ‘Eu’, e o desconhecido? Você pode descobrir se existe alguma relação apenas pela compreensão daquilo que você é, não supondo e afirmando que existe relação entre o ‘Eu’ e a realidade. Certamente, se o “Eu’ é transitório, e ele é transitório como podemos observar no dia a dia, então qual é a relação entre o transitório e alguma coisa que não existe? Nenhuma. Compreendendo integralmente o processo do ‘Eu’ e sua transitoriedade e não se apegando nisso, existe a compreensão da realidade. O ‘Eu’ é esse feixe de desejos, de ganância, de amor possessivo, de anseio por imortalidade, aqui ou depois; e por meio de severa conscientização, o processo de ansiar pode ser transformado em paz, o que não é uma esperança teórica, mas uma realidade.

Interrogante: Você afirma que devemos ser alertas e vigilantes a todo momento e que essa vigilância não é a mesma coisa que introspecção. Por favor, explique como elas diferem.

Krishnamurti: Entre conscientização e introspecção existe uma diferença. Introspecção é um tipo de auto-análise em que o pensamento mede sua própria ação e seus resultados, de acordo com prazer e dor, prêmio e punição, formando um julgamento, um padrão. Ou seja, tendo examinado a ação do passado, o pensamento tenta levar aquilo que aprendeu para a ação presente e, assim, determina como agirá no futuro. Observe o que acontece quando você tenta se analisar. Você está sempre analisando uma ação passada; você não pode analisar uma ação que está sendo vivida. Se você fez alguma coisa que causou dor ou conflito, você quer compreendê-la a fim de não agir do mesmo modo outra vez. Então, quando faz isso, você está tentando compreender uma ação passada, uma ação morta, com intenção presente, esperando produzir um resultado futuro. Ou seja, o pensamento está ocupado, neste processo introspectivo, com o resultado, com como ele deveria agir.

Agora, conscientização é diferente. Na conscientização só existe o presente – ou seja, estando consciente, você vê o processo passado de influência que controla o presente e modifica o futuro. Conscientização é um processo integral, não um processo de divisão. Por exemplo, se eu pergunto ‘Eu acredito em Deus?’ – no próprio processo de perguntar, eu posso observar, se estiver consciente, o que está me fazendo perguntar isso; se eu estiver consciente, posso perceber o que foi e quais são as forças funcionando que me levam a fazer essa pergunta. Daí eu estou consciente da várias formas de medo – aqueles de meus ancestrais que criaram certa ideia de Deus e a transmitiram a mim; e, combinando a ideia deles, com minhas reações atuais, eu modifiquei ou mudei o conceito de Deus. Se eu estiver consciente, percebo todo esse processo do passado, seus efeitos no presente e no futuro integralmente, como um todo.

Se a pessoa estiver consciente, ela vê que, pelo medo, nasce seu conceito de Deus; ou talvez tenha havido uma pessoa que teve uma experiência original de Deus e a comunicou para outra pessoa que, em sua ganância, se apoderou dela, e deu impulso ao processo de imitação. A conscientização é o processo da completude, e a introspecção é incompleta. O resultado da introspecção é mórbido, doloroso ao passo que conscientização é entusiasmo e alegria.

Interrogante: Você recomenda a meditação?

Krishnamurti: Tudo depende do que você chama de meditação. Há muita coisa envolvida nessa pergunta. Você já fez a chamada meditação? Talvez alguns de vocês tenham feito de uma forma ou de outra. Talvez tenham refletido profundamente quando houve um problema humano premente que exigia uma resposta; isso pode ser considerado uma forma de meditação. Insistindo continuamente em uma ideia, o que ajuda a eliminar outras ideias que se introduzem, você aprenderá a concentração; isso também é considerado uma forma de meditação. Você deseja despertar certos poderes, os chamados poderes ocultos, porque espera que tendo esses poderes, encontrará maior compreensão. Essas práticas são consideradas uma forma de meditação também.

Estar constantemente alerta e consciente, estar vigilante, é o começo da meditação, pois sem a verdadeira fundação do discernimento, simples concentração e outras formas da chamada meditação se tornam perigosas e não têm significação profunda. Como mostrei, quando você estiver consciente, descobrirá que a mente procura resultado, uma conclusão, desejando aquisição, segurança. Ir em busca de uma conclusão predeterminada não é mais meditação, pois o pensamento estará preso em sua própria rede de imagens.

Vamos considerar o processo da meditação um pouco mais integralmente. É muito difícil fixar o pensamento que vagueia e se dispersa; ele vai de um objeto de sensação para outro, de um interesse para outro. Nesse processo a pessoa se torna consciente da extrema sensibilidade do pensamento. O pensamento vagueia de um grupo de ideias para outro, ou por interesse ou simplesmente porque é preguiçoso e indiferente. Se o pensamento simplesmente controla sua dispersão, ele se torna superficial, limitado e destrutivo. Se o pensamento está interessado em vaguear, então apenas controlá-lo é inútil, pois isso não revelará por que ele está interessado na dissipação de sua própria energia. Mas se você estiver interessado em descobrir por que ele vagueia, daí você começa a discernir e se conscientizar e há, então, uma concentração natural, espontânea. Então, primeiro você deve observar que o pensamento está vagueando e, então, discernir por que ele vagueia. Quando o pensamento percebe que é indolente, preguiçoso, já está começando a ficar ativo, mas apenas controlar o pensamento não gera ação criativa.

Quando há uma concentração natural de interesse, não simples controle, você começa a descobrir que o pensamento fica num processo de constante imitação e que está sempre vagueando por seus muitos níveis de memórias, preceitos, exemplos; ou, tendo tido sensação estimulante ou experiência durante momentos de concentração, ele a recria e tenta vivificar a sensação passada, mas, assim, só refuta seu próprio processo criativo; ou, apartado da vida cotidiana, o pensamento tenta desenvolver várias qualidades a fim de controlar suas ações cotidianas, e viver perde sua significação inerente, e o padrão se torna o mais importante.

Tudo isso é, então, meramente uma forma de aproximação e não meditação criativa. Se você estiver consciente em suas atividades cotidianas – quando fala, quando caminha, quando está ganhando dinheiro ou buscando prazer – nessa consciência, dependendo de sua seriedade, aí tem início uma compreensão, um amor, que não está sob o comando do intelecto ou da emoção. Assim, meditação é um processo de conscientização em ação. Da realidade da vida deve brotar a meditação, e aí meditação é um processo de auto-libertação. Meditação não é a aproximação de um padrão. O acalmar da mente por meio de vontade, escolha, pode atingir certa tranquilidade, mas essa tranquilidade é da morte, produzindo abatimento. Isso não é meditação. Mas a compreensão da escolha, que é um processo muito delicado e enérgico, é a meditação em que existe tranquilidade sem um traço de abatimento ou contentamento. Deve haver vigilância e discernimento enérgico na meditação. Meditação é um processo de completude, totalidade, não uma série de aquisições culminando na realidade.

Interrogante: O que a dieta tem a ver com o processo mental ou a inteligência?

Krishnamurti: Com certeza, muito. Compreender a realidade não depende necessariamente do tipo de alimento que se come; pode-se ser vegetariano e viciado e estúpido, ou carnívoro e ser inteligente no sentido mais amplo. Se a pessoa come demais, é uma indicação de descuido; a dieta moderada e racional é necessária para despertar o pensamento. Muito jejum também embrutece a mente. Não ter raiva, não ser caluniador em nosso falar, não ser insensível, obstinado, não bajular, não receber bajulação – isso é mais importante do que a consideração com o que comemos. De importância fundamental são nossos pensamentos e sentimentos. Asseio de alimento não é asseio de pensamento. Novamente começamos pelo lado errado, com o exterior, esperando alcançar aquele estado de paz interior, que não pode ser realizado pela disciplina e negação, pela imitação e isolamento; nós começamos pela periferia esperando criar paz interior e compaixão, mas devemos começar no centro – o centro do qual surge conflito e sofrimento. Devemos nos conscientizar do processo do anseio e suas expressões exteriores; no discernimento disso, há uma restrição natural não imposta pelo medo.

7 de julho de 1940

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