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14/07/1940 – T

Oitava Palestra em Oak Grove

Todos nós estamos cientes do apavorante caos e da miséria que existem atualmente, não só no mundo a nossa volta, mas também dentro de nós. Para esse problema deve haver uma solução completa. Certos grupos e sistemas de pensamento sustentam que apenas sua panaceia particular resolverá o problema. Qualquer remédio parcial para a complexidade da vida, conquanto fácil e lógico, trará em sua esteira, inevitavelmente, outras complicações. Vamos ver se não podemos encontrar uma solução completa para esse problema, que é econômico, psicológico e espiritual. Devemos entender essa luta, esse sofrimento, tão compreensivelmente quanto possível, não parcialmente por meio da limitação de algum sistema particular: devemos ter uma mente livre que seja capaz de enfrentar o problema como um todo.

Deve haver alguma causa para essa confusão e miséria, não apenas em nós mesmos, mas também em nossa relação com a humanidade que chamamos de sociedade. Se pudermos compreender a causa fundamental, então talvez esse problema seja resolvido para sempre.

Vamos considerar duas diferentes abordagens para o problema do conflito e do sofrimento. Essa divisão é artificial, apenas por conveniência. A primeira é a abordagem do exterior, e a outra do interior. Se tentarmos resolver esse problema de luta e dor inteiramente do exterior, não vamos compreendê-lo, nem compreenderemos se tratarmos apenas do interior. Em nome da clareza apenas, dividimos a vida como o exterior e o interior, mas para compreender o complexo problema da vida, devemos ter uma compreensão integrada.

Em todas as minhas palestras, tenho tentado explicar essa abordagem integrada dos nossos problemas cotidianos de relacionamento, não apenas com o outro, mas também com nosso trabalho e nossas ideias. Quando tentamos resolver o problema da existência pelo lado de fora, digamos assim, logo percebemos que deve haver uma completa mudança econômica e social; vemos que deve haver a eliminação de barreiras – raciais, nacionais, econômicas. Também percebemos que devemos estar livres das barreiras religiosas, com seus dogmas separativos e crenças, que causam a formação de diferentes grupos em competição antagônica uns com outros. As religiões organizadas separaram o homem do homem, elas não uniram a humanidade. Se abordarmos este problema da existência pelo exterior, a ênfase ficará na instituição, na legislação, na importância do estado, com os perigos resultantes disso. Embora a ação do estado possa ter resultados satisfatórios momentaneamente, existem inerente a ela grandes possibilidades de corrupção e brutalidade; em nome de uma ideologia, o homem sacrificará o homem.

Nessa abordagem exterior existe uma possibilidade de a pessoa se perder numa ideologia, num trabalho, no estado e assim por diante; espera-se inconscientemente que através desse esquecimento, seus próprios sofrimentos, angústias, responsabilidades e conflitos desaparecerão. E ainda, apesar da tentativa de sacrificar a si mesmo pelo externo, permanece ainda o “Eu” com suas ambições pessoais limitadas, esperanças, medos, paixões e ganância. A pessoa pode esquecer-se de si pelo estado, mas enquanto o “Eu” permanecer, o estado se torna seu novo meio de expansão, para sua glória, e o pensamento ardiloso produzirá novamente caos e miséria. A competição pela propriedade é principalmente pelo poder que ela dá, e o poder será sempre perseguido enquanto o ‘eu’ existir. A competição é a manifestação externa do conflito interno de ambição, inveja e adoração ao sucesso.

A outra abordagem ao problema do sofrimento e do conflito é de dentro – superar as muitas causas que criam conflito na relação entre os indivíduos e, portanto, com a sociedade. Nós tentamos superar uma causa com outra causa, uma substituição por outra substituição, e o pensamento fica enredado em seu próprio círculo vicioso. Tentamos remover a causa do conflito e da miséria com simples afirmações, com conclusões lógicas e racionais. Nós adoramos Deus ou uma ideia ou um padrão a fim de esquecermos de nós mesmos e ficarmos livres de nossas lutas cotidianas por meio de nosso sacrifício e amor.

Existe a ideia que o indivíduo é uma essência espiritual, e se através de constante afirmação e controle ele puder disciplinar o pensamento e a emoção segundo uma ideia particular, ele será capaz de identificar-se com essa essência espiritual e, assim, escapar de seu conflito cotidiano nas relações e na ação. Assim o padrão, a crença, se torna mais importante que a compreensão da vida. Há sempre competição entre grupos religiosos; seus líderes pensam em termos de conversão e, por isso, não podem se unir. Por trás do peso da tradição, fuga e adoração está sempre o “Eu” com seu mundanismo, amor possessivo e anseio pela própria imortalidade.

Embora possamos tentar nos perder e esquecer de nós mesmos em crenças e dogmas, por trás desse esforço existe um intenso anseio por completude, totalidade. Sem compreender integralmente esse anseio, simplesmente multiplicar ou mudar crenças e dogmas é totalmente inútil.

Existe uma resposta completa para nosso problema de sofrimento e conflito que não se baseia em dogmatismo e teorias. Essa resposta pode ser encontrada quando abordarmos o problema integralmente a partir do centro; ou seja, devemos compreender o processo do “Eu” em sua relação com o outro, com a ação, com a crença. Na transformação voluntária do processo do “Eu” – inteligente e sensatamente e sem compulsão – está a completa solução de nosso conflito e sofrimento. Como a maioria de nós fica relutante em concentrar o pensamento na alteração fundamental no centro, a legislação e as instituições nos forçam a nos ajustar a um padrão exterior na esperança de conseguir harmonia social, mas isso não erradica a causa do sofrimento e do conflito. Compulsão não cria compreensão, seja do lado de fora ou do lado de dentro.

A resposta completa para esse problema do conflito e do sofrimento está na compreensão do processo do anseio, não pelo simples controle e introspecção, mas tornando-se consciente de sua expressão em nosso pensamento cotidiano e ação. Ou seja, se conscientizando da ambição, do amor possessivo e do desejo de continuidade pessoal, surge um entendimento compreensivo sem o conflito da escolha. Isso necessita de abordagem experimental e aplicação severa. Como a maioria de nós é indolente, as influências ambientais e imposições externas, como valores, tradições, opiniões, controlam nossas vidas mantendo nosso pensamento escravizado.

A menos que compreendamos totalmente e, assim, transcendermos o processo do anseio, não importa quão bem o exterior esteja planejado e ordenado, esse processo interior sempre dominará e provocará desordem e confusão. Conquanto cuidadosamente e sensatamente as condições sociais e econômicas sejam organizadas, enquanto o pensamento individual for aquisitivo, possessivo, buscando segurança para si, aqui ou depois, esses bem organizados arranjos sociais serão constantemente desintegrados. O interior sempre supera o exterior e até transcendermos o anseio, a ordem social superficialmente organizada é inútil.

Nós, como indivíduos, devemos dirigir nosso pensamento para essa liberdade onde não existe o sentido do “Eu”, a liberdade do ego. Essa liberdade do ego só pode surgir quando compreendermos o processo de anseio como aquisição, amor possessivo e imortalidade pessoal. Pois o mundo é a extensão ou projeção do indivíduo, e se o indivíduo busca a autoridade e a legislação para provocar uma drástica mudança dentro de si, ele ficará preso no círculo vicioso da negligência da qual não há livramento.

Por meio da conscientização constante e alerta, o pensamento deve se libertar do mundanismo e discernir ambição de necessidade; o pensamento deve se libertar do amor possessivo, e amar completamente, sem medo, sem o pensamento do ego; o pensamento deve se libertar do anseio por imortalidade pessoal por meio de propriedade, família ou raça, ou pela continuação do “Eu” individual. Enquanto o anseio, se expressando dessas três formas complexas, for o motivo da ação, a paz e a unidade humana não podem se realizar. Quando o pensamento não está condicionado pela aquisição, amor possessivo e o desejo de continuação pessoal há o desinteresse, e apenas ele pode provocar uma ordem social sadia e feliz. Isso depende de cada um de nós, e cada um de nós tem que se tornar ativa e sagazmente consciente das expressões do ego e, assim, libertar o pensamento de sua escravidão.

Interrogante: Pode o continuado esforço na meditação nos levar à completa conscientização?

Krishnamurti: Sem verdadeiro discernimento, a simples concentração numa ideia, imagem, ou virtude leva à aridez do pensamento e à destruição do amor. O discernimento chega por meio de constante conscientização de nosso pensamento cotidiano, discurso e ação; sem esse elemento corretivo verdadeiro, a meditação se torna uma fuga, uma fonte de ilusão. Sem compreensão e amor, qualquer forma de meditação leva à ilusão; sem verdadeira conscientização, qualquer forma de meditação é uma fuga da realidade.

Quando existe conscientização, observamos que o pensamento está sempre se aproximando de um padrão, de uma memória, de uma experiência passada; ele fica medindo a si mesmo em relação a uma opinião ou um padrão. Embora a mente possa rejeitar padrões externos, modelos, valores, ela ainda pode ser a continuação do pensamento estreito e preconceituoso e, a menos que a mente se liberte de suas dependências, a meditação apenas reforça sua própria limitação. Assim, por meio da conscientização alerta do pensamento cotidiano, discurso e ação, o pensamento pode se libertar de seus grilhões; essa liberdade é o verdadeiro início da meditação.

Quando o pensamento está ocupado com aproximação, então ele fica preocupado com aquisição, sucesso e não é mais capaz de verdadeiro discernimento, pois o desejo de ganhar, de alcançar, nasce do medo que impede a verdadeira percepção. O medo não pode permitir a compreensão, mas se tornando intensamente consciente das causas do medo em nossa vida cotidiana, interesse e discernimento nascem. Interesse é a concentração natural sem o conflito de desejos opostos. Nós nos forçamos a nos concentrar sem esse interesse e, assim, isso se torna artificial, doloroso, e não tem significação profunda. A compreensão não vem pela compulsão ou por simples controle, mas por constante e severa conscientização de nossos pensamentos e atividades cotidianas, de nosso discurso e trabalho. A meditação deve nascer dessa conscientização. O cultivo dos chamados poderes ocultos, transes e assim por diante, são de muito pouca importância. Sem verdadeiro discernimento, a simples concentração em imagens, padrões e ideias não leva à compreensão. A quietude criativa da mente é necessária para a compreensão da realidade.

Interrogante: Você está numa posição favorável, tudo que precisa lhe é dado por seus amigos. Nós temos que ganhar dinheiro para nós e nossas famílias, temos que competir com o mundo. Como você pode nos compreender a ajudar?

Krishnamurti: Cada um de nós tem que competir com algum ambiente particular. Cada pessoa tem suas próprias limitações e tendências qualquer que seja sua esfera de existência. Ter inveja do outro não nos ajuda a compreender as dores e sofrimentos de nossa própria vida; ser invejoso faz parte de nossa herança, parte de nossa estrutura social. Se sucumbirmos a nossas limitações, então não há possibilidade de compreender o outro; mas se nós, onde quer que estejamos, tentarmos severamente compreender nosso ambiente e livrar o pensamento de nossas tendências particulares e experiências limitadas, então compreenderemos a vida como um todo, e não estaremos limitados pelos preconceitos, as tradições e valores de nosso ambiente particular.

Quaisquer que sejam as circunstâncias de nossa vida, temos que compreendê-las e, assim, transcendê-las. O pensamento deve mergulhar fundo em seus próprios estado conscientes e inconscientes e se libertar dessas influências e servidões que o tornam pessoal, ambicioso, possessivo e cruel. A verdade tem que ser compreendida em nossos pensamentos cotidianos, conduta e atividades. É tolice ter inveja do outro, pois o outro é o que somos.

Interrogante: Em uma de suas recentes palestras você enfatizou a importância da ação. O que faço é de tremenda importância?

Krishnamurti: Eu disse que se o pensamento está limitado por memórias, tradições, preconceitos, pelo passado, então qualquer ação nascida dele só pode criar mais ignorância e sofrimento. Se alguém pensa em termos de uma raça particular ou religião, tal pensamento deve ser limitado, separativo. Sensata e deliberadamente, como indivíduos podemos começar a libertar o pensamento daquelas causas que provocam limitação. Então o que se pensa e faz importa grandemente. Se a pessoa age irrefletidamente, ela aumenta e perpetua a limitação e o sofrimento. Mas se conscientizando do passado e das causas do condicionamento, se se está interessado e, por isso, concentrado, pode se libertar o pensamento de suas servidões. Isso demanda conscientização severa e integral. Também, você é o mundo, e por sua ação ou inação particular, você pode aumentar ou ajudar a diminuir a ignorância.

Interrogante: Sendo ambicioso, eu destruo meu propósito?

Krishnamurti: Se nosso propósito for o resultado do desejo de auto-exaltação, consciente ou inconsciente, para alcançá-lo é necessário ambição. Tal ambição, sendo a expressão do anseio de sucesso pessoal, deve gerar ação anti-social e sofrimento na relação. Deve-se captar a significação subjacente da ambição; ambição é um ardente desejo de distinção pessoal e aquisição, que em ação se torna competitiva e cruel. Nós damos muita importância à auto-expressão sem compreendermos total e profundamente o que está sendo expresso. Na sociedade moderna ser ambiciosamente auto-expressivo é considerado não ser anti-social e até mesmo honrado. Essa forma de ambição é condenada por aqueles que são espiritualmente ambiciosos; ou seja, eles condenam o mundanismo, mas anseiam por aquisição, sucesso, em outras esferas. As duas formas de ambição são a mesma coisa, ambas implicam a expansão do “Eu”, do ego.

Assim, a menos que captemos o significado da auto-expressão, seu propósito e sua ação, simplesmente aspirar um ideal se torna uma forma sutil de auto-exaltação. A menos que vejamos a significação interior do anseio, a simples legislação externa e promessas religiosas não podem refrear o desejo de dominação, de poder pessoal e sucesso. Tornando-se intensamente consciente do processo do anseio, com suas muitas ambições e objetivos, nasce não só a vontade de reprimir, mas também de compreender, cuja expressão criativa não é do ego.

Interrogante: Eu gostaria de devotar minha vida a despertar os homens para um desejo de liberdade. Suas dissertações e textos parecem ser o melhor instrumental, ou cada um deve desenvolver sua própria técnica?

Krishnamurti: Antes de despertarmos o outro, temos que estar certos que nós mesmos estejamos despertos e alertas. Isso não significa que devemos esperar até sermos livres. Somos livres na medida em que começamos a compreender e transcender as limitações do pensamento. Antes de se começar a pregar consciência e liberdade para o outro, o que é bastante simples, deve-se começar consigo mesmo. Em vez de converter os outros à nossa forma particular de limitação, devemos começar a nos libertar da pequenez e estreiteza de nosso próprio pensamento.

Interrogante: Você disse, se bem me lembro, que devemos tratar o problema da insuficiência interior. Como se pode tratar desse problema?

Krishnamurti: Por que as pessoas acumulam coisas, propriedade e assim por diante? Na própria pessoa existe pobreza e, assim, tenta-se enriquecer com as coisas do mundo; esse enriquecimento traz desordem social e miséria. Observando isso, certos estados e seitas religiosas proíbem indivíduos de ter propriedade e ser mundano, mas essa pobreza interior, essa insuficiência dolorosa permanece ainda, e deve ser preenchida. Daí o pensamento procura e anseia por enriquecimento em outras direções. Se não encontramos enriquecimento nas posses, tentamos buscá-lo na relação ou em ideias, o que leva a muitos tipos de ilusões. Enquanto houver anseio, haverá esta insuficiência dolorosa; sem compreender o processo do anseio, a causa, tentamos tratar do efeito, insuficiência, e nos perdemos em suas complexidades. Tornando-se consciente da falácia da suficiência acumulativa, o pensamento começa a se libertar daquelas posses que ele acumulou através do medo da incompletude. Completude, totalidade, não é a agregação de muitas partes ou a expansão do ego; ela se realiza através de compreensão e amor.

Interrogante: Você explicaria outra vez a relação entre conscientização e auto-análise?

Krishnamurti: Penso que expliquei no domingo passado, mas isso foi uma semana atrás. Para a maioria das pessoas é difícil se concentrar com interesse por mais de meia hora. Junto a essa dificuldade, muitos ficam ansiosos para fazer anotações. A menos que sejam especialistas, eles não podem ouvir com atenção e tomar nota ao mesmo tempo. Essas palestras serão impressas, então é mais importante ouvir agora do que tomar notas. Você não tomaria notas se estivesse ouvindo interessadamente um amigo.

O propósito dessas palestras tem sido não fornecer um sistema de pensamento, mas ajudar cada um de nós a ter consciência de si mesmo, de nossa ação cotidiana e relação e, assim, discernir naturalmente nossos preconceitos, medos, anseios; por meio dessa conscientização, há uma concentração natural, induzida pelo interesse, que provoca a vontade de refrear; essa vontade não é o resultado de simples medo e controle, mas de compreensão.

14 de julho de 1940

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