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16/06/1940 – T

 

Quarta Palestra em Oak Grove

Nas três últimas palestras eu tentei explicar a abordagem experimental para o problema da ganância, uma abordagem que não é nem negação nem controle, mas uma compreensão do processo da ganância que pode gerar liberdade duradoura. Enquanto se depender de coisas para a satisfação psicológica e o enriquecimento, a ganância continuará, criando conflito social e individual e desordem. Só a compreensão nos libertará da ganância e do anseio que criaram tanta devastação no mundo.

Devemos agora considerar o problema da relação entre indivíduos. Se compreendermos a causa do atrito entre indivíduos e, consequentemente, na sociedade, essa compreensão ajudará a gerar liberdade da possessividade. Hoje a relação se baseia na dependência, ou seja, uma pessoa depende da outra para sua satisfação psicológica, felicidade e bem-estar. Em geral, não percebemos isso, mas se o fazemos, alegamos que não somos dependentes do outro ou tentamos nos desembaraçar da dependência artificialmente. Aqui, novamente, vamos abordar esse problema experimentalmente.

Agora, para a maioria de nós, a relação com o outro se baseia na dependência, econômica ou psicológica. Essa dependência cria medo, gera em nós possessividade, resulta em atrito, suspeita e frustração. A dependência econômica de outro pode, talvez, ser eliminada por meio de legislação e organização apropriada, mas estou me referindo especialmente àquela dependência psicológica do outro que é o resultado do anseio por satisfação pessoal, felicidade e assim por diante. Podemos nos sentir, nessa relação possessiva, enriquecidos, criativos e ativos; podemos sentir que nossa própria pequena chama de ser é aumentada pelo outro e, a fim de não perder essa fonte de completude, tememos a perda do outro, e os medos possessivos surgem com todos os problemas que deles resultam. Assim, nessa relação de dependência psicológica, deve sempre haver medo consciente ou inconsciente, suspeita, que muitas vezes se esconde atrás de palavras agradáveis. A reação desse medo leva a pessoa sempre para a busca de segurança e enriquecimento através de vários canais, ou ao isolamento em ideias e ideais, ou a buscar substitutos para a satisfação.

Embora se dependa do outro, existe ainda o desejo de ser íntegro, de ser completo. O complexo problema na relação é como amar sem dependência, sem atrito e conflito; como refrear o desejo de se isolar, afastar-se da causa do conflito. Se dependermos para nossa felicidade do outro, da sociedade ou do ambiente, eles se tornam essenciais para nós; agarramo-nos a eles, e qualquer alteração dessas coisas tem nossa oposição violenta, pois dependemos delas para nossa segurança psicológica e conforto. Embora, intelectualmente, possamos perceber que a vida é um contínuo processo de fluxo, mutação, necessitando de constante mudança, emocionalmente ou sentimentalmente nos prendemos aos valores estabelecidos e confortáveis; assim, há uma constante batalha entre a mudança e o desejo de permanência. É possível pôr um fim nesse conflito?

Não pode haver vida sem relação, mas a tornamos muito dolorosa e terrível baseando-a no amor possessivo e pessoal. Pode-se amar e não possuir? Encontraremos a verdadeira resposta não na fuga, em ideais, crenças, mas na compreensão das causas da dependência e da possessividade. Se for possível compreender profundamente este problema da relação entre uma pessoa e outra, então talvez, possamos compreender e resolver o problema de nossa relação com a sociedade, pois a sociedade não é mais do que a extensão de nós mesmos. O ambiente que chamamos de sociedade é criado pelas gerações passadas; nós aceitamos isso, já que isso ajuda a manter nossa ambição, possessividade, ilusão. Nessa ilusão não pode haver unidade ou paz. A simples unidade econômica produzida pela compulsão e pela legislação não pode acabar com a guerra. Enquanto não compreendermos a relação individual, não poderemos ter uma sociedade pacífica. Desde que nossa relação se baseia no amor possessivo, temos que nos conscientizar, em nós mesmos, de seu nascimento, suas causas, sua ação. Tornando-nos profundamente conscientes do processo da possessividade com sua violência, medos, suas reações, surge um entendimento que é integral, completo. Só esse entendimento liberta o pensamento da dependência e possessividade. É dentro de si mesmo que a harmonia na relação pode ser encontrada, não no outro, nem no ambiente.

Na relação, a causa primária do atrito é a própria pessoa, o ego que é o centro do anseio unificado. Se pudermos perceber que não é como o outro age que tem importância fundamental, mas como cada um de nós age e reage, e se essa ação e reação puder ser compreendida fundamentalmente, profundamente, então a relação passará por uma mudança radical e profunda. Nessa relação com o outro, não existe apenas o problema físico, mas também o do pensamento e sentimento em todos os níveis, e só se pode ter harmonia com o outro quando se tem harmonia integral em si mesmo. Na relação, o importante de se ter em mente não é o outro, mas você mesmo, o que não significa que a pessoa deve se isolar, mas compreender profundamente em si a causa do conflito e do sofrimento. Enquanto dependermos do outro para nosso bem-estar psicológico, intelectualmente ou emocionalmente, essa dependência deve, inevitavelmente, criar o medo de onde surge o sofrimento.

Para compreender a complexidade da relação deve haver paciência cuidadosa e seriedade. Relação é um processo de auto-revelação em que se descobrem as causas ocultas do sofrimento. Essa auto-revelação só é possível na relação.

Estou enfatizando a relação, pois compreendendo profundamente sua complexidade, estamos criando compreensão – uma compreensão que transcende razão e emoção. Se basearmos nossa compreensão apenas na razão, haverá isolamento, orgulho e falta de amor; e se basearmos nossa compreensão apenas nas emoções, aí não há profundeza – há apenas um sentimentalismo que logo evapora, e nenhum amor. Só a partir dessa compreensão pode haver completude de ação. Essa compreensão é impessoal e não pode ser destruída. Não está mais sob o comando do tempo. Se não pudermos produzir compreensão a partir dos problemas cotidianos da ganância e de nossa relação, então buscar tal compreensão e amor em outros domínios da consciência é viver em ignorância e ilusão.

Sem compreender totalmente o processo da ganância, simplesmente cultivar bondade, generosidade, é perpetuar a ignorância e a crueldade; sem compreender integralmente a relação, simplesmente cultivar a compaixão, o perdão, é produzir isolamento e se permitir formas sutis de orgulho. Na compreensão total do anseio, existe compaixão, perdão. Virtudes cultivadas não são virtudes. Essa compreensão requer constante e atenta conscientização, uma energia flexível; o simples controle com seu treinamento peculiar tem seu perigo já que é unilateral, incompleto e, portanto, superficial. O interesse traz sua própria concentração natural, espontânea, de onde floresce a compreensão. Esse interesse é despertado pela observação, questionamento de ações e reações da existência de todo dia.

Para abarcar o complexo problema da vida com seus conflitos e sofrimentos, deve-se ter compreensão integral. Isso só pode ser feito quando compreendemos profundamente o processo do anseio, que é a força central em nossa vida agora.

Interrogante: Falando em auto-revelação, você quer dizer revelar-se a si mesmo ou aos outros?

Krishnamurti: Algumas vezes a pessoa se revela aos outros, mas o que é importante – ver a si mesmo como você é ou revelar-se ao outro? Eu tenho tentado explicar que se nós permitirmos, toda relação age como um espelho em que se percebe claramente aquilo que é falso e aquilo que é correto. Ele fornece o foco necessário para ver nitidamente, mas como expliquei, se estivermos cegos pelo preconceito, opiniões, crenças, não podemos, conquanto intensa seja a relação, ver claramente, sem inclinações. Aí a relação não é um processo de auto-revelação.

Nossa primeira consideração é: o que nos impede de perceber verdadeiramente? Não somos capazes de perceber, porque nossas opiniões sobre nós mesmos, nossos medos, ideais, crenças, esperanças, tradições – tudo isso atua como dissimulações. Sem compreender as causas dessas perversões, tentamos alterar ou manter aquilo que é percebido e isso cria mais resistências e mais sofrimento. Nossa principal consideração deveria ser não a alteração ou aceitação do que é percebido, mas estar consciente das muitas causas que geram essa perversão. Alguns podem dizer que não têm tempo para ficar conscientes, são muito ocupados e assim por diante, mas não é uma questão de tempo, mas de interesse. Então, em qualquer coisa que estejam ocupados, há o começo da conscientização. Buscar resultados imediatos é destruir a possibilidade da compreensão completa.

Interrogante: Você usou várias vezes a palavra treinamento nas palestras anteriores. Como a ideia de treinar em muitos de nós está associada com controle levando eventualmente à possibilidade de rigidez e inércia, você poderia dar uma definição desse termo? Ele é para ser compreendido no sentido de inquebrantável vontade, de vigilância, adaptabilidade e constante flexibilidade?

Krishnamurti: Nós nos controlamos a partir do medo? Nós controlamos a fim de não sermos magoados, para obter certos resultados e recompensas? O controle resulta da busca por mais e maior satisfação duradoura e poder? Se for assim, então ele deve levar à rigidez e à inércia. O simples autocontrole resulta, no final, na esterilidade da compreensão e do amor. Aquele que, pelo simples exercício da vontade, gerou autocontrole, conhecerá seus terríveis resultados.

Eu estou falando da compreensão que transcende razão e emoção. Nessa compreensão existe uma adaptabilidade natural e criativa, uma conscientização atenta e infinita flexibilidade, mas o simples controle não cria compreensão. Se tentarmos cultivar a virtude, não é mais virtude. A virtude é um subproduto da compreensão e do amor. Aqueles que são gananciosos podem treinar para não ser gananciosos através do simples exercício da vontade, mas desse modo eles não compreenderam completamente o processo da ganância e, por isso, não estão livres da ganância. Eles pensam que pela agregação de muitas virtudes, chegarão ao todo. Eles buscam confinar a vasta extensão da vida em virtudes. Para compreender, deve haver a clareza de propósito não estabelecida pelo outro, mas que surge quando a pessoa compreende sua relação com as coisas e pessoas. Essa abordagem experimental gera aquela compreensão que não é o resultado de simples controle. Se essa investigação for severa e constante, então haverá a restrição natural sem medo, sem a vontade de desejos expansivos. Essa compreensão não é parcial, mas completa. Por meio da constante conscientização dos muitos problemas óbvios e sutis da ganância, nasce uma delicada e definitiva flexibilidade que, como eu disse, é um subproduto da compreensão e do amor.

Interrogante: Como se cultivam virtudes?

Krishnamurti: Todas as virtudes cultivadas não são mais virtudes. Compreensão e amor são de fundamental importância e virtudes são de importância secundária. Dever, coragem, caridade, como virtudes, são semelhantes aos seus próprios opostos e, portanto, sem compreensão e amor, podem ser mal usadas e tornarem-se fontes de grave perigo. Tome, por exemplo, o dever como virtude. Ele pode e está sendo usado brutalmente e tragicamente de modo errado. Sem compreensão e amor, as virtudes podem se tornar instrumentos de barbaridade e crueldade. Muitos de nós fomos condicionados pelas virtudes e, como não temos pensamento profundo e compreensão, aqueles que são muito limitados são explorados por pessoas astutas e ambiciosas. Sem compreender a natureza da ganância, simplesmente cultivar seu oposto não nos liberta da ganância. O que nos liberta da ganância é compreender o processo do anseio, e fazendo isso, descobriremos que as virtudes surgem naturalmente. O que é de fundamental importância é compreender – e nessa esteira segue a compaixão

Interrogante: O que você quer dizer com autoconfiança?

Krishnamurti: As religiões organizadas não nos tornaram autoconfiantes, pois nos ensinaram a buscar nossa salvação através de outra pessoa – salvadores, Mestres, personalidades deificadas, através de cerimônias, sacerdotes e assim por diante. As tendências modernas também nos encorajam a não sermos autoconfiantes psicologicamente insistindo que a ação coletiva é da maior importância. A regeneração psicológica não pode ser provocada através da autoridade da tradição, do grupo ou de outra pessoa, mesmo importante; não pode haver autoconfiança – que pode nos ajudar a compreender a realidade – se preservamos a psicologia de massa. Mas existe um grave perigo desta autoconfiança se tornar ação individualista, cada um por si. Porque a presente estrutura social foi o resultado dessa ação individualista, agressiva, nós temos sua reação no coletivo, a adoração do estado. A verdadeira ação coletiva e cooperativa surge apenas quando psicologicamente o indivíduo é autoconfiante. Enquanto o indivíduo for ganancioso, possessivo em sua relação, e depender para seu enriquecimento psicológico de crenças, dogmas e por aí vai, a ação cooperativa, instada pela necessidade econômica, apenas o torna mais astucioso, mais sutil em seus apetites individualistas de poder e aquisição.

Nós consideramos que a autoexpressão é uma forma de criatividade; nós temos desejo intenso de nos expressar e, assim, a autoexpressão assumiu a maior importância. Estou tentando explicar alguns dos problemas envolvidos na autoconfiança, e devemos compreender completamente, se for possível, a significação subjacente em tudo isso. Quando confiamos psicologicamente no outro, ou num grupo, ou num líder para nossa compreensão, para nossa esperança, o que acontece em nós? Isso não cria medo? Ou, tendo medo, não dependemos do outro para nosso bem-estar? Então o medo é engendrado ou continua nos dois casos. Mas onde existe medo, consciente ou inconsciente, a compreensão inteligente da vida se torna impossível. O medo só pode gerar medo e, assim, a ignorância continua. Esse medo não pode ser compreendido e dissolvido exceto por meio da conscientização vigorosa da própria pessoa.

Se você pensa que compreensão, amor podem lhe ser dados por outra pessoa, então autoridade e crença se tornam muito importantes. E o dogma assume o lugar da compreensão autoconfiante. Onde existe dogma deve haver estreiteza de mente e coração. O ruído do dogma, da crença, cria intolerância e crueldade. A autoconfiança, no profundo sentido psicológico, é negada quando você está em busca de promessas e recompensas compensatórias religiosas ou mundanas. Apenas quando você está completamente autoconfiante, totalmente independente de qualquer salvador, Mestre, existe serenidade, sabedoria, realidade. Do mesmo modo, quando você simplesmente confia num grupo ou organização particular para seu bem-estar social, você se tornará mero instrumento em mãos astuciosas e ambiciosas. Isso não significa que as organizações sociais não devam existir, o que seria absurdo, mas organizações sociais cooperativas verdadeiras de inteligente harmonia só podem existir quando existe profunda autoconfiança psicológica.

Nós somos o resultado do passado, e sem a compreensão crítica disso, se simplesmente expressamos isso, então tal autoexpressão ou ação só pode dar prosseguimento à ignorância e ao conflito. As ideias que temos atualmente veem parcialmente de outros que as pensaram e parcialmente surgem por meio da ação e reação atuais. Elas são o resultado do anseio, do medo, possessividade e ganância. Como estamos preocupados com a autoexpressão, devemos nos perguntar o que está se expressando. Se eu for hindu, terei certas crenças, dogmas, restrições sociais, certa herança, o resultado do anseio de meu pai e de meu avô, ambição, medo e sucesso, a que eu adicionei minhas próprias experiências condicionadas e conhecimento. Se eu tentar expressar a mim mesmo tão originalmente e completamente quanto possível, o que estarei expressando? Certamente, não estou repetindo, talvez com modificação e variações, essencialmente os pensamentos limitados e sentimentos do passado que eu considero ser eu mesmo?

A expressão do ego parece vitalmente importante para a maioria de nós. Tentamos expressar a nós mesmos de acordo com o tempo e o espaço, e como não sabemos profundamente o que está se expressando, estamos fadados a criar confusão, sofrimento, antagonismo e competição. Em outras palavras, a ignorância está se expressando, criando mais ignorância; e se ela for contrariada em uma de suas expressões, tentamos subjugar essa resistência através de violência, raiva, ou outra ação impetuosa. Em seu mais completo escopo e expressão, o ego, que nasce da ignorância, deve criar, quando atua a partir de si mesmo, suas próprias limitações e sofrimento. Sem compreender a total implicação da autoexpressão, a autoconfiança se torna simplesmente um meio de maior e maior expressão da ação individualista ignorante e estreita.

Até começarmos a romper este círculo vicioso de ignorância que só cria mais ignorância, a autoconfiança não pode produzir liberdade do sofrimento. Para compreender esta continuidade da ignorância e do sofrimento, cada pessoa deve se tornar totalmente autoconfiante para ser capaz de investigar o anseio, o medo, tendências, memórias e assim por diante. A simples autoexpressão não é criatividade, e para ser verdadeiramente criativo, é preciso compreender o processo do ego e, assim, libertar-se dele. Por meio da conscientização severa daquilo que está se expressando, começamos a compreender as causas limitadas do passado que controlam o presente, e nessa compreensão vigorosa surge a liberdade da causa da ignorância. A verdadeira autoconfiança, não a autoconfiança com o propósito de simples expressão agressiva do ego, surge apenas por meio da compreensão do processo do anseio, com seus valores limitados, medos e esperanças; então a autoconfiança tem grande significação, pois através de sua própria conscientização vigorosa, há uma totalidade, uma completude.

16 de junho de 1940

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