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23/06/1940 – T

 

Primeira Palestra em Oak Grove

Durante os últimos quatro domingos, estivemos tentando compreender o que queremos dizer com ganância e alguns dos problemas implicados na relação. Dividimos a ânsia em ganância, amor possessivo e dependência de crenças, mas de fato, não existe tal divisão; fizemos isso para compreender a ânsia mais completamente. Existe apenas uma unidade complexa de ânsia e sua divisão artificial é por conveniência apenas. Dissemos que a ânsia se expressa de três maneiras: pelo mundanismo, pelo amor possessivo e pelo desejo de imortalidade pessoal. Talvez alguns de vocês tenham refletido e visto a significação do que tenho falado e tenham se conscientizado de como isso se expressa na relação. Naturalmente há muitos problemas envolvidos nisso, como por exemplo, ganhar a vida. Ganhar o sustento de modo humano e inteligente parece quase impossível, já que a organização social se baseia no ganho pessoal, mas não podemos esperar produzir uma completa mudança no sistema até que haja uma completa mudança em nossa própria consciência. Para provocar essa mudança necessária, nós, como indivíduos, temos que abandonar nossos interesses próprios. Pois, como tentei explicar, o indivíduo é o mundo – suas atividades, seus pensamentos, seus afetos e conflitos produzem o ambiente, que não é nada além de seu reflexo. Como parece quase impossível, sob as condições existentes, ganhar a vida humana honestamente, a primeira coisa é compreender o processo da ganância e, assim, libertar o pensamento daquelas ânsias psicológicos que distorcem nossas vidas.

Para transcender as condições que limitam o pensamento e o mantém em constante conflito, devemos compreender a ânsia expressada em nossa relação com o outro, com a sociedade. Eu expliquei de que maneira isso é feito não através de simples controle, não através de simples disciplina ou negação, mas através de constante vigilância do processo da ânsia. Isso exige aplicação extenuante, paciência e constante vigilância. Tornando-se ativamente consciente do processo da ânsia, você perceberá que a ânsia, como possessividade de coisas e pessoas, passará por uma mudança fundamental. Também tentei explicar que a expressão da ganância criou uma sociedade em que se dá grande importância às coisas, à propriedade, à matéria e outros mundanismos, o que é, parcialmente, a causa dos conflitos separativos, antagonismos raciais e guerras.

Também vimos como a ânsia se expressa na relação como sensação, gratificação, possessividade. Possessividade não pode ser amor, ela é resultado do medo. Medo e sofrimento permeiam nosso ser através de nossa desatenção ao processo da ânsia. A ânsia por prazer e gratificação precisa possuir o outro – continuando, assim, com o medo e o sofrimento. Onde existe medo não pode haver compreensão, compaixão. Até resolvermos esse problema individual de relação, não podemos resolver nosso problema social, pois a sociedade não é nada além da extensão do indivíduo, de seus pensamento e atividades.

Então, a ânsia se expressa através do mundanismo e do amor possessivo. Quando o pensamento é limitado pela ganância, por esse desejo possessivo que chamamos amor, certamente haverá sofrimento e conflito; e a fim de escapar desse conflito e sofrimento, inventamos várias crenças e esperanças que imaginamos vão durar e serão satisfatórias, sem consciência de que elas são ainda criação da ânsia e, por isso, transitórias.

Nossas ideias, crenças, esperanças estão tão profundamente entranhadas em nós que fogem de nossa observação crítica. Contudo, sem o conhecimento de sua causa e origem, não pode haver a verdadeira compreensão. Se nossas ideias e crenças nascem da ignorância e do medo, então nossa vida e ação devem ser limitadas e sempre em conflito e sofrimento. Mas a ignorância é difícil de erradicar.

Qual é a base de nosso pensamento? Qual é a origem da mente? Aqueles de vocês que experimentaram com a ganância irão se conscientizar de seu processo e das várias expressões da ânsia; também irão se conscientizar da origem do amor possessivo. Agora, do mesmo modo, talvez possamos descobrir por nós mesmos de que fonte o processo de nosso pensamento cotidiano começa. O simples controle das muitas expressões do pensamento não revelará sua verdadeira fonte.

Qual é a base, a raiz, de nosso processo de pensamento? É importante descobrir, não? Se a raiz de uma árvore está doente ou deteriorada, qual a utilidade de podar seus galhos? Do mesmo modo, não devemos primeiro discernir a origem de nosso pensar antes de nos preocuparmos com suas variadas expressões e alterações? Compreendendo verdadeiramente a fonte, por meio de profunda conscientização, nosso pensamento humano se tornará livre de ilusão e medo. Cada pessoa tem que descobrir por si mesma essa fonte, e com conscientização vital transformar radicalmente o processo de pensar.

Nosso pensamento não tem sua origem na ânsia? O que chamamos mente não é o resultado da ânsia? Através da percepção, contato, sensação e reflexão, o pensamento se divide em gostar e desgostar, ódio e afeição, dor e prazer, mérito e demérito – as séries de opostos, o processo do conflito. Esse processo é o conteúdo de nossa consciência, a consciente bem como a inconsciente, e que chamamos a mente. Estando presa nesse processo e temendo a incerteza, a cessação, a morte, cada pessoa anseia por permanência e continuidade. Procuramos estabelecer essa continuidade por meio de propriedade, nome, família, raça e, dubiamente, percebendo a insegurança dessas coisas, novamente buscamos essa continuidade e permanência através de crenças e esperanças, através de conceitos de Deus e alma e imortalidade.

Tendo acumulado várias experiências, muitas memórias e aquisições, nos identificamos com elas, mas existe sempre dentro de nós a corrosão da incerteza e a apreensão da morte, pois tudo decai, passa e é um fluxo contínuo. Assim, alguns começam a se justificar pelo completo abandono dos prazeres deste mundo e sua severa auto-expansão; outros, crendo na continuidade, se tornam observadores, angustiados, e vivem suas vidas temendo uma punição futura ou esperando por uma recompensa depois, talvez no céu ou talvez em outra vida na terra.

Existem várias formas sutis de querer imortalidade, recompensa e sucesso. O pensamento está profunda e ativamente preocupado com a ideia de continuidade de si mesmo em diferentes formas, grosseiras e sutis. Não é essa nossa principal preocupação na vida, a continuidade do ego nas posses, na relação, nas ideias? Nós ansiamos por certeza, mas a ânsia sempre cria ignorância e ilusão, e estabelece instrumentos de fé e autoridades que irão recompensar ou punir. Ir ao encalço do ego é morte.

A base de nosso pensar é a ânsia, que cria o ego, e o pensamento se expressa no mundanismo, no amor possessivo e na crença na continuidade de si mesmo. O que acontece com uma mente que está ocupada consigo e com suas expressões, consciente ou inconscientemente? Ela se limitará e dá importância a si mesma. O pensamento, ocupado assim, engendra confusão, conflito, sofrimento. Estando preso em sua própria rede, ele tenta escapar para o futuro e para aquelas atividades que asseguram esquecimento imediato – os chamados serviços sociais, adoração do estado ou da pessoa, antagonismos racial e social e por aí vai. Assim o pensamento fica mais e mais enredado na rede de seus próprios desejos e fugas. Enquanto o pensamento estiver preocupado com sua própria importância pessoal e continuidade, ele será incapaz de se conscientizar de seu próprio processo.

Como vamos nos conscientizar? Atenciosa e desinteressadamente, observar o trabalho da mente sem correção imediata, sem controlar, negar ou julgá-la. O presente impulso para julgar, corrigir, não vem da compreensão; ele brota da ânsia, do medo. Há uma transformação profunda e fundamental do ego quando existe compreensão do processo da ânsia. A compreensão transcende a simples razão e emoção. A mente-intelecto é agora o instrumento da ânsia, com sua racionalização e desejos expansivos; confiar apenas neles para compreender e amar é continuar na ignorância e sofrimento.

Interrogante: O que você quer dizer com experimentar?

K: Se consciente ou inconscientemente estamos simplesmente buscando resultados, não estamos experimentando. A experimentação com seu próprio pensamento e sentimento se torna impossível se estamos meramente nos ajustando a um padrão, antigo ou moderno. Podemos achar que estamos experimentando, mas se nosso pensamento é influenciado e limitado, digamos por uma crença, então a experimentação não é possível e a maioria de nós está cega às nossas próprias limitações. A verdadeira experimentação consiste em compreender através de nossa observação atenta, conscientização, as causas que condicionam o pensamento. Por que o pensamento é condicionado? Sendo inseguro, medroso, ele se prende às certezas, resultados definidos e aquisições, ou de alguém que ele considera grande ou de suas próprias memórias asseguradas. Ou seja, o pensamento sai do conhecido para o conhecido, de uma certeza para outra, de uma segurança para outra, de um substituto para outro. A realidade não é o conhecido. O que é concebido não pode ser o real quando a mente é o instrumento da ânsia. A ânsia sempre gera ignorância seguida de sofrimento. A verdadeira experimentação consiste em não tentar descobrir o desconhecido, mas antes em conhecer as forças, as causas, que fazem o pensamento se prender ao conhecido. Na compreensão desse processo, sempre profundamente, pacientemente, surge um novo elemento que transcendeu a simples razão e emoção.

Interrogante: Qual deveria ser minha atitude em relação à violência?

K: A violência cessa através da violência, ódio através de ódio? Se você me odeia e eu odeio você de volta, se você age violentamente e eu ajo de mesmo jeito em relação a você, qual é o resultado? – mais violência, mais ódio, mais amargura, não? Existe alguma outra consequência além dessas? Ódio gera ódio. Mal gera mal. Muito frequentemente em nossa relação, individual ou social, esse espírito de retaliação gera só mais violência e mais antagonismo.

O espírito de vingança é desmedido no mundo. Você pode ter alguma outra atitude frente à violência? Nós nos sentimos poderosos sendo violentos. Para usar uma expressão comercial – há dividendos maiores e mais rápidos no ódio. O indivíduo criou a estrutura social existente devido ao ódio dentro dele, devido ao seu desejo de retaliar e agir violentamente. O mundo a nossa volta está nessa condição inflamada de ódio e violência devido à sua força astuciosa e determinada; a menos que nós mesmos estejamos livres do ódio, somos levados facilmente pela corrente brutal. Se você estiver livre disso, então a questão de qual atitude se deve tomar em relação às muitas expressões do ódio não aparece. Se você estiver profundamente consciente do ódio em si e não simplesmente de suas expressões astuciosas, verá que o ódio só gera ódio. Se você tem ódio dentro de si, responderá ao ódio do outro, e como o mundo é você, você está fadado a reagir a seus medos, ignorância e ganância. Certamente você está fadado ao ódio, a agir vingativamente, se seu pensamento estiver confinado ao ego. Ganância e amor possessivo geram má vontade, e se o pensamento não se liberta deles, haverá a constante ação de ódio e violência. Como apontei, nossas crenças e esperanças são o resultado do anseio, e quando a dúvida é lançada sobre elas, o ressentimento e a raiva aparecem. Na compreensão da causa do ódio surge a bondade, a benevolência. Amor e compreensão chegam através da constante conscientização.

Interrogante: Não é natural amar os Mestres, sabendo instintivamente sem analisar que a resposta deles estimula nosso amor, pois somos um? Isso não é um esforço de expansão, pois o amor é a própria vida.

K: Há dois tipos de gurus, Mestres, ou professores – aqueles com quem os alunos estão em contato direto neste plano da existência, e aqueles com que se supõe estar em contato indiretamente. O professor com quem o aluno está em contato diretamente, fisicamente, observa o aluno enquanto o ajuda e guia. Isto é rigoroso e difícil o suficiente para o aluno. Agora os ‘Mestres’ não estão em contato direto, físico com o aluno exceto com aqueles que afirmam ser intermediários. Nessa relação, que tem suas próprias recompensas e angústias, a mente pode se iludir ilimitadamente.

Agora, o interrogante quer saber se nosso amor por um Mestre não estimula nosso amor? Por que você busca um Mestre para amar quando não sabe amar seres humanos? Por que você afirma unidade com os Mestres e não com os seres humanos? Amar um ideal, um Mestre, um deus, um estado, é mais fácil, não? Pois eles podem ser criados à nossa imagem, segundo nossas esperanças, medos, ilusões. É mais conveniente, embora talvez mais exigente de modo diferente, ter um ideal, uma imagem longínqua para amar, pois entre ela e nós não pode haver reação desagradável, pessoal, que causa tanto sofrimento na relação humana. Tal amor não é amor, mas uma criação intelectual chamada amor. Não estando diretamente em contato com um Mestre, deve-se depender ou de um intermediário ou da chamada intuição própria. A dependência de um intermediário destrói a compreensão e o amor e condiciona mais a mente; e a chamada intuição tem seus graves perigos, pois pode ser apenas desejo projetado.

Agora, por que você quer depender de um mediador ou da intuição? Para aprender a não ser ganancioso, não ter maldade, ser compassivo? Por que você quer olhar para um ideal distante quando compreensão e amor só podem ser despertados nas relações humanas? Quando amamos o outro, nossas paixões, nosso amor possessivo e ciúmes brotam; encontramos sofrimento e conflito nessa relação e, porque não podemos resolver essa dor aqui, tentamos fugir dela.

Porque não sabemos como amar seres humanos, amamos Mestres, ideais, deuses. Mas você pode dizer que amar um Mestre é também amar a humanidade, amar o mais elevado é amar o inferior também. Mas isso em geral não acontece. Isso não é estranho, complicado e artificial? Se não podemos amar o outro sem possessividade, sem constante conflito e dor, com o que estamos tão familiarizados, se não compreendemos isso, como podemos compreender e amar alguma outra coisa, especialmente quando nessa outra coisa há grande possibilidade de auto-ilusão? Onde o amor começa – com deuses e Mestres e ideais ou com seres humanos? Como pode haver amor quando temos orgulho de nossos preconceitos individuais, antagonismos raciais, ódios nacionais e conflitos econômicos? Como podemos amar o outro quando estamos interessados principalmente com nossa própria segurança, nosso próprio crescimento, nosso próprio bem estar? Esse chamado amor por ideais, Mestres, deuses é romântico e falso; não sei se as pessoas veem a brutalidade disso. A adoração de Mestres, ideias, é idolatria e destrói a compreensão, o amor.

Amor e compreensão não são produtos do intelecto. O amor não é para ser dividido intelectualmente como amor a Deus e amor ao homem. Se for dividido assim, não é mais amor. Ame completamente, totalmente, sem o pensamento do ego e, assim, liberte-se verdadeiramente do medo que necessita de várias formas de fuga e de esquecimento.

Interrogante: O que você faria se seu filho fosse atacado?

K: Não tenho resposta para problemas hipotéticos. Como se reagirá instantaneamente à violência dependerá do condicionamento da mente da pessoa. Se você foi condicionado a enfrentar a violência com violência, então agirá violentamente, mas, se você se conscientizou da causa e do processo da violência, então sua ação vai depender da profundidade de sua conscientização e da plenitude de sua compreensão e amor. Nosso problema é: pode o pensamento dissipar o centro da violência que está em nós mesmos? Pode, através de constante conscientização e compreensão. Assim, se a violência chegar a você inesperadamente, você saberá como agir, mas simples especulação de como se agiria no futuro é inútil. O problema não é como agiremos quando a violência nos chegar, mas como podemos, agora, ficar livres da violência em nossos pensamentos e sentimentos? A maioria de nós não tem consciência de nosso estado de ser; agimos irrefletidamente e o sofrimento nos alcança.

Interrogante: Pode se ser autoconfiante apesar da expressão própria frustrada? O processo de autorevelação não faz parte da necessária autoconfiança?

K: Devemos descobrir por nós mesmos o que em nós está se expressando antes de dar tanta importância à auto-expressão. O indivíduo se expressa através de seu condicionamento, e essa limitação que ele acentua em sua auto-expressão não é nada além de sofrimento e frustração. O que é isso que fica constantemente procurando se expressar em nossa ação cotidiana? Ânsia sob diferentes formas, como poder, sucesso, satisfação, não?

Eu disse que relação é um processo de auto-revelação. Se o pensamento se permite, sem nenhum obstáculo, perceber seu próprio processo na ação e interação da relação, então há o começo da compreensão das causas do conflito e do sofrimento; essa compreensão é autoconfiança verdadeira. Até que se compreenda totalmente o processo de ansiar com seu medo autoprotetor, que é muitas vezes revelado na relação com o outro e com a sociedade, a auto-expressão se torna apenas uma barreira entre o homem e o homem. Essa conscientização compreensiva demanda interesse vigoroso e discernimento, que é verdadeira meditação.

23 de junho de 1940

 

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