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11/06/1944 – T

 

Quinta palestra em Oak Grove

Até compreendermos os problemas envolvidos no ansiar, como eu estava explicando no domingo passado, o conflito e a aflição da nossa vida diária não podem ser dissolvidos. Há três formas principais que a ânsia assume: a sensualidade, a mundanidade e imortalidade pessoal – a gratificação dos sentidos, o desejo de prosperidade, poder pessoal e fama.

Ao analisar o anseio pela gratificação dos sentidos, percebemos sua insaciabilidade, seus tormentos, suas sempre crescentes demandas; isso resulta em sofrimento e conflito. Quando examinamos o mundanismo, ele também revela incessante luta, confusão e dor. A ânsia pela imortalidade pessoal nasce da ilusão, pois o “eu” é um resultado, ele é construído, e aquilo que é construído, que é um resultado, jamais pode compreender aquilo que é sem causa, aquilo que é imortal.

O caminho do ansiar é muito complexo e difícil de dissolver; é a causa do nosso sofrimento, da nossa confusão e conflito. Sem pôr fim a isso, não há paz; sem sua completa extinção, o sentir-pensar está em tormento e a vida se torna uma feia batalha. O ansiar é a raiz de todo egoísmo e de toda ignorância. É a causa da frustração e da desesperança. Sem transcendê-lo, não há felicidade, não há paz criativa.

O anseio por sensualidade indica pobreza interior; o desejo de acumular cria um mundo competitivo e brutal; os valores dos sentidos e o desejo por imortalidade pessoal ou poder pessoal têm de gerar autoridade, mistério, milagre, que impedem a descoberta do real. A violência e as guerras são o resultado dos desejos mundanos, e só pode haver paz quando o ansiar, em todas as suas diferentes formas, for compreendido e transcendido.

Se não compreendermos esse motivo primário, mas apenas desenvolvermos a virtude, estaremos tão somente fortalecendo o “eu”, a causa da ignorância e da tristeza, o “eu” que assume diferentes papéis e cultiva diferentes virtudes para gratificar a si mesmo. Temos de compreender essa qualidade variável do desejo, sua astuta capacidade de adaptação e seus modos de proteção auto-gratificantes. O desenvolvimento da virtude torna-se a fortaleza do eu, mas liberar o sentimento-pensamento do ansiar é a verdadeira virtude.

Essa liberdade em relação ao ansiar, a qual é virtude, é como uma escada; não é um fim em si mesmo. Sem virtude, sem a liberdade quanto ao ansiar, não pode haver compreensão nem paz. Desenvolver a virtude como um oposto ainda é dar força ao ego. Pois todo ansiar, todo desejo é separativo, limitado; sendo separativo, por mais que você tente torná-lo nobre, virtuoso, ele permanecerá sempre limitado, pequeno e, portanto, será a causa do conflito, do antagonismo e do sofrimento. Ele sempre conhecerá a morte.

Assim, enquanto a semente do ansiar permanecer, em qualquer forma, haverá tormento, pobreza e morte. Se desenvolvemos a virtude sem compreender o desejo, não estamos produzindo aquela quietude criativa da mente-coração, somente na qual existe a Verdade. Sem compreender as sutilezas do ansiar, apenas nos ajustarmos ao nosso ambiente, visando trazer a paz ao nosso relacionamento com a família, com o próximo, com o mundo, será em vão, pois o eu, o instrumento do ansiar, ainda é o ator principal.

Como é possível libertar o sentimento-pensamento do ansiar? Tornando-se cônscio; ao estudar e compreender o “eu” e as suas ações, existe a liberdade quanto ao ansiar. Para compreender, toda negação ou aceitação, julgamento ou comparação, deve ser posto de lado. Ao nos tornarmos cônscios, descobriremos o que é a honestidade, o que é amor, o que é o medo, o que é a vida simples e o complexo problema da memória.

Uma mente que é incerta, autocontraditória, não pode saber o que é franqueza, honestidade. A honestidade exige humildade, e só pode haver humildade quando você está cônscio do seu próprio estado de contradição, de sua própria incerteza. A autocontradição e a incerteza sempre existirão se houver ânsia, incerteza relativa a valores, à ação, ao relacionamento. Aquele que é determinado é obstinado, irrefletido. Aquele que sabe não sabe. Ao tomar consciência dessa incerteza, por certo você está desenvolvendo o desapego, a imparcialidade.

O começo da humildade é o desapego. E, certamente, esse é o primeiro degrau da escada. Esse degrau tem de estar gasto, pois você o pisou com bastante frequência. Um homem que é consciente do desapego deixa de ser desapegado; mas aquele que se interessou pela ânsia e suas direções está se tornando virtuoso sem batalhar pela virtude; ele é desapaixonado sem buscar por isso. Sem consciência desinteressada, a compreensão e a paz não são possíveis.

Interrogante: Além de desperdiçar tanto papel, você pretende seriamente que anotemos cada pensamento e sentimento?

Krishnamurti: Sugeri no outro dia que, para compreendermos a nós mesmos, devemos nos tornar cônscios, e para estudar a nós mesmos, o pensamento-sentimento deve desacelerar-se. Se você se tornar cônscio de seu próprio sentimento-pensamento, perceberá quão rápido ele é – um desconectado sentimento-pensamento seguindo outro, vagando e distraído – e é impossível observar, examinar tal confusão. Para gerar ordem e, dessa forma, clareza, sugeri que todo pensamento-sentimento fosse escrito.

Essa maquinaria giratória deve desacelerar-se para ser observada, de modo que escrever cada pensamento-sentimento pode ser útil. Assim como, em um filme em câmera lenta, você é capaz de ver todos os movimentos, da mesma forma, ao diminuir a velocidade da mente, você é capaz de observar cada pensamento, seja trivial ou importante. O trivial leva ao importante, e não o desconsidere como sendo insignificante. Uma vez que aí está, ele é uma indicação da mesquinhez da mente, e ignorá-lo não torna a mente menos trivial, menos estúpida. Empurrá-lo para o lado ajuda a manter a mente pequena, estreita, mas estar cônscio dele, compreendê-lo, leva a grandes riquezas.

Se algum de vocês tentou escrever, como sugeri há algumas semanas, saberá como é difícil anotar todo pensamento e sentimento. Você não apenas usará muito papel, mas não será capaz de anotar todos os seus sentimentos-pensamentos, pois sua mente é muito rápida em suas distrações. Mas se você tem a intenção de anotar cada pensamento-sentimento, por mais trivial e estúpido que seja, tanto o infame quanto o agradável, por pequeno que seja o seu sucesso no começo, logo descobrirá uma coisa peculiar acontecendo. Como você não tem tempo para escrever todos os pensamentos-sentimentos, pois precisa prestar atenção a outros assuntos, descobrirá que uma das camadas da consciência está registrando cada sentimento-pensamento. Embora não dedique sua atenção diretamente a escrever, ainda assim você está interiormente consciente e, quando tiver tempo para escrever novamente, descobrirá que os registros de consciência interior virão à tona.

Se der uma olhada no que escreveu, você se verá condenando ou aprovando, justificando ou comparando. Essa aprovação ou negação impede o florescimento do pensamento-sentimento e, assim, detém a compreensão. Se você não condenar, justificar ou comparar, mas ponderar, tentar compreender, descobrirá então que esses sentimentos-pensamentos são indícios de algo muito mais profundo. Dessa forma, você está começando a desenvolver aquele espelho que reflete seus sentimentos-pensamentos sem qualquer distorção. E ao observá-los, você está compreendendo suas ações e respostas, e assim o autoconhecimento se torna mais amplo e profundo. Você não apenas compreende a presente ação momentânea e a reação, mas também o passado que produziu o presente. E para isso você tem de ter quietude e solidão. Mas a sociedade não permite que você as tenha. Você deve estar com as pessoas, externamente ativo a todo custo. Se você está sozinho, você é considerado anti-social ou estranho, ou tem medo de sua própria solidão. Mas, nesse processo de autoconsciência, você descobrirá muitas coisas sobre você e sobre o mundo.

Não trate essa escrita como um novo método, uma nova técnica. Tente. Mas o importante é se conscientizar de todo pensamento-sentimento; disso surge o autoconhecimento. Você deve começar a jornada de autodescoberta; o que você encontra não depende de técnica alguma – a técnica impede a descoberta – e é a descoberta que é libertadora e criativa. O importante não é sua determinação, conclusão, escolha, mas o que você descobre, pois isso trará compreensão.

Se você não deseja anotar, então torne-se cônscio de todo sentimento-pensamento, o que é muito mais difícil. Torne-se cônscio, por exemplo, do seu ressentimento, se tiver algum. Estar cônscio disso é estar cônscio do que o causou, por que e como ele foi armazenado, como está moldando suas ações e respostas e como ele é seu companheiro constante. Certamente, estar ciente do ressentimento, do antagonismo, envolve tudo isso e muito mais, e é muito difícil estar cônscio disso completamente, de forma abrangente, como num piscar de olhos; mas, se você estiver, descobrirá que ele logo se transforma. Se você não pode estar tão cônscio, anote seus pensamentos-sentimentos, aprenda a estudá-los com um desapego tolerante e, pouco a pouco, todo o conteúdo de seus sentimentos-pensamentos é descoberto. É essa descoberta, essa compreensão, que é o fator libertador e transformador.

Interrogante: Você se referiu seriamente ao que disse, quando sugeriu, na semana passada, que o indivíduo deveria se afastar do mundo quando tem cerca de quarenta e cinco anos?

Krishnamurti: Eu sugeri isso seriamente. Quase todos nós, até a morte nos alcançar, estamos tão presos na mundanidade que não temos tempo algum para investigar profundamente, para descobrir o real. Retirar-se do mundo exige uma mudança completa nos sistemas educacional e econômico, não é? Se você se retirasse, estaria despreparado, estaria perdido, ficaria sozinho, não saberia o que fazer com você mesmo. Você não saberia como pensar. Provavelmente formaria novos grupos, novas organizações, com novas crenças, distintivos e rótulos, e mais uma vez estaria ativo externamente, promovendo reformas que precisarão de mais reformas. Mas não é isso o que quero dizer. Para se afastar do mundo, você deve estar preparado pelo tipo certo de ocupação, criando o tipo certo de ambiente, estabelecendo o estado correto, com educação correta e assim por diante. Se você estiver assim preparado, então, retirar-se da vida mundana, em qualquer idade, é a sequência natural, não anormal; você se retira para mergulhar na pura e profunda consciência; não se isola, mas encontra o real, para ajudar a transformar a sociedade e o estado, sempre conflitantes e sem entusiasmo.

Tudo isso envolveria um tipo totalmente diferente de educação, uma reviravolta em nossa ordem social e econômica. Tal grupo de pessoas seria completamente dissociado da autoridade, da política, de todas aquelas causas que produzem guerra e antagonismo entre os indivíduos. Uma pedra pode dirigir o curso de um rio; portanto, um pequeno número pode direcionar o curso de uma cultura. Certamente, qualquer coisa importante é feita dessa maneira.

Você provavelmente dirá que a maioria de nós não pode se retirar do mundo, por mais que queira. Todos, naturalmente, não podem, mas alguns de vocês podem. Viver sozinho ou em um pequeno grupo requer muita inteligência. Mas se você realmente achasse que valeria a pena, então começaria, não como um ato maravilhoso de renúncia, mas como algo natural e inteligente para um ente humano ponderado fazer. Quão extraordinariamente importante é que haja pelo menos uns poucos que não pertençam a grupo algum ou raça em particular, ou a religião ou sociedade específica alguma! Eles criarão a verdadeira irmandade humana, pois estarão buscando a verdade. Para se libertar das riquezas exteriores, deve haver a consciência da pobreza interior, que traz riquezas incalculáveis. A corrente de cultura pode mudar seu curso por meio de umas poucas pessoas despertas. Esses não são estranhos, mas são você e eu.

Interrogante: Não há momentos em que os problemas são tão importantes que precisam ser abordados de fora, como também por meio da compreensão individual? Por exemplo, o derramamento de narcóticos mortais na China pelo Japão. Esta é apenas uma das muitas formas de exploração pelas quais somos realmente responsáveis. Existe alguma maneira, sem violência, com que possamos contribuir para deter esse procedimento horrível, ou devemos esperar que a consciência individual siga seu curso?

Krishnamurti: Periodicamente, um grupo explora outro grupo, e a exploração produz uma crise violenta. Isso vem acontecendo ao longo dos tempos – uma raça dominando, explorando, assassinando outra raça e, por sua vez, sendo oprimida, ludibriada, atingida pela pobreza. Como isso pode ser resolvido? É para ser ajustado apenas por meio da legislação externa, organização externa, educação externa, ou pela compreensão das conflitantes causas internas que produziram o caos e o sofrimento exteriores? Você não pode compreender o interior sem compreender o exterior. Se você simplesmente tentar dominar uma raça que explora ou oprime outra, então você se tornará o explorador, o opressor. Se você adotar métodos malignos para um fim justo, o fim é transformado pelos meios. Assim, até compreendermos isso profundamente, de forma duradoura, a mera reforma do mal por métodos malignos é produtora de mais mal; portanto, a reforma sempre precisa de mais reformas. Achamos que vemos sua obviedade e, no entanto, nos permitimos ser persuadidos pelo contrário através do medo, da propaganda e assim por diante – o que realmente significa que não compreendemos sua verdade.

Assim como é o indivíduo, assim é a nação, assim o estado; você pode não ser capaz de transformar outro, mas pode estar certo de sua própria transformação. Você pode, por métodos violentos, por sanções econômicas, e tudo o mais, deter um país que está a explorar outro, mas que garantia existe de que a própria nação que está pondo um fim à crueldade de outra não será também opressiva, implacável? Não há garantia, não há garantia alguma. Pelo contrário, ao combater o mal por meios malignos, a nação, o indivíduo, torna-se aquilo contra o que está combatendo. Você pode elaborar uma estrutura externa e superficial de excelente legislação para controlar, para impedir, mas se não houver boa vontade e amor fraterno, o conflito interno e a pobreza explodirão e produzirão o caos. Mera legislação não impede o Ocidente de explorar o Oriente, ou talvez o Oriente de explorar, por sua vez, o Ocidente; mas, enquanto nós, individualmente ou em grupos, nos identificarmos com essa ou aquela raça, nação ou religião, haverá guerras e exploração, opressão e fome. Enquanto você aceitar a divisão, a longa lista de divisões absurdas, como um americano, inglês, alemão, hindu e assim por diante, enquanto não estiver cônscio da unidade e da conexão humanas, continuará a haver morticínio em massa e dor. Um povo que é guiado, dominado por mera legislação, é como uma flor artificial, bonita de se olhar, mas vazia dentro de si.

Você provavelmente dirá que o mundo não esperará pelo despertar individual ou pelo despertar de uns poucos para alterar o seu curso. Sim, ele continuará no seu caminho cego e obstinado. Mas despertará através de cada indivíduo que puder desfazer-se de sua escravidão à divisão, à mundanidade, à ambição e poder pessoal. Por meio de sua compreensão, de sua compaixão, a brutalidade e a ignorância podem ser levadas a um fim. Apenas em seu despertar há esperança.

Interrogante: Eu quero ajudar as pessoas, prestar serviços a elas. Qual é a melhor maneira?

Krishnamurti: A melhor maneira é começar a compreender a si mesmo e transformar-se. Nesse desejo de ajudar o outro, de servir ao outro, há orgulho oculto, presunção. Se você ama você serve. A determinação para ajudar nasce da vaidade.

Se você quer ajudar o outro, você deve conhecer a si mesmo, pois você é o outro. Externamente, podemos ser diferentes – amarelos, negros, marrons ou brancos -, mas somos todos movidos pelo desejo, pelo medo, pela ganância ou pela ambição; internamente somos muito parecidos. Sem autoconhecimento, como você pode ter conhecimento das necessidades do outro? Sem compreender a si mesmo, você não pode compreender o outro, servir ao outro. Sem autoconhecimento, você está agindo na ignorância e, portanto, criando sofrimento.

Vamos considerar isso. A industrialização está se espalhando rapidamente pelo mundo, estimulada pela ganância e pela guerra. A industrialização pode dar emprego, alimentar mais pessoas, mas qual é o resultado maior? O que acontece a indivíduos altamente desenvolvidos em técnica? Serão mais ricos, haverá mais carros, mais aviões, mais aparelhos, mais espetáculos de cinema, casas maiores e melhores; mas o que acontece com eles como seres humanos? Tornam-se cada vez mais impiedosos, cada vez mais mecanizados, cada vez menos criativos. A violência tem de se espalhar e o governo é, então, a organização da violência. A industrialização pode trazer melhores condições econômicas, mas com resultados terríveis! – favelas, antagonismo do trabalhador contra o não trabalhador, o patrão e o escravo, o capitalismo e o comunismo, todo o negócio caótico que está se espalhando em diferentes partes do mundo. Dizemos, com alegria, que ela elevará o padrão de vida, a pobreza será eliminada, haverá trabalho, haverá liberdade, dignidade e assim por diante. A divisão dos ricos e dos pobres, o homem poderoso e o que busca o poder – essa interminável divisão e o conflito continuarão.

Qual é o resultado disso? O que aconteceu no Ocidente? Guerras, revoluções, contínua ameaça de destruição, extremo desespero. Quem está trazendo ajuda para quem, e quem está servindo a quem? Quando tudo está sendo destruído ao seu redor, o indivíduo que é ponderado deve indagar sobre as causas mais profundas, o que tão poucos parecem fazer. Um homem que é expulso de sua casa por uma bomba deve invejar o homem primitivo. Você certamente está trazendo a civilização para o chamado povo atrasado, mas a que preço! Você pode estar prestando serviços, mas considere o que vem na sequência. Mas poucos percebem as causas mais profundas do desastre. Você não pode destruir a indústria, você não pode acabar com o avião, mas pode erradicar totalmente as causas que produzem o seu uso indevido. As causas de seu uso terrível estão em você. Você pode erradicá-las, o que é uma tarefa difícil; uma vez que você não vai enfrentar essa tarefa, você tenta legalizar a guerra; você tem pactos, ligas, segurança internacional, e assim por diante, mas a ganância e a ambição prevalecem sobre eles e a guerra e a catástrofe seguem-se inevitavelmente.

Para ajudar o outro, você deve conhecer a si mesmo; da mesma forma que você, ele é o resultado do passado. Estamos todos interligados. Se você está internamente doente por ignorância, má vontade e ódio, você inevitavelmente espalhará doenças e trevas. Se você é interiormente saudável e integrado, espalha luz e paz; do contrário, você ajuda a produzir um caos maior, um sofrimento maior. Compreender a si mesmo requer paciência, consciência tolerante; o “eu” é um livro de muitos volumes, que você não pode ler em um dia. Mas, quando você começa a ler, você deve ler cada palavra, cada frase, cada parágrafo, pois neles estão as insinuações do todo. O começo dele é o final dele. Se você sabe como ler, a suprema sabedoria esta aí para ser descoberta.

Interrogante: O estar cônscio só é possível durante as horas de vigília?

Krishnamurti: Quanto mais você está consciente de suas emoções-pensamentos, mais você está consciente de todo o seu ser. Então as horas de sono tornam-se uma intensificação das horas de vigília. A consciência funciona mesmo no chamado sono, do qual estamos bem cônscios. Você pensa sobre um problema de forma detalhada e cuidadosa, e ainda assim não consegue resolvê-lo; você dorme sobre ele, como costumamos dizer. Pela manhã, descobrimos que suas soluções são mais claras, e parecemos saber o que fazer; ou percebemos um novo aspecto que ajuda a esclarecer o problema. Como isso acontece? Podemos atribuir muito mistério e absurdos a isso, mas o que acontece? Nesse assim chamado sono, a mente consciente, essa fina camada, está quieta, talvez receptiva; ela preocupou-se com o problema e agora, cansada, a tensão desaparece. Então, os estímulos das camadas mais profundas da consciência são discerníveis e, quando você acorda, o problema parece ter se tornado mais claro e fácil de resolver. Assim, quanto mais você está cônscio de seus pensamentos-sentimentos durante o dia, não por alguns segundos ou durante um período determinado, a mente se torna mais quieta, passivamente alerta e, portanto, capaz de responder e compreender as intimações mais profundas. Mas é difícil estar tão cônscio; a mente consciente não está acostumada com tanta intensidade. Quanto mais atenta é a mente consciente, mais a mente interior coopera com ela, e assim há uma compreensão mais profunda e mais ampla.

Quanto mais você está atento durante as horas de vigília, menos sonhos existem. Os sonhos são indícios de sentimentos-pensamentos, ações não concluídas, não compreendidas, que precisam de interpretação renovada, ou são frustradas esperanças do pensamento que precisam ser plenamente compreendidas. Alguns sonhos não são importantes. Aqueles que têm significado devem ser interpretados, e essa interpretação depende de sua capacidade de não identificação, de inteligência aguçada. Se você está profundamente cônscio, a interpretação não é necessária; mas você é muito preguiçoso e, se puder pagar, vai a um especialista em sonhos; ele interpreta seus sonhos de acordo com a compreensão dele. Você gradualmente se torna dependente; ele se torna o novo sacerdote, e você tem outro problema adicionado aos seus. Mas se você está cônscio, mesmo por um breve período, verá que a percepção breve e aguda, por mais fugaz que seja, começa a despertar um novo sentimento, que não é o resultado do ansiar, mas uma faculdade que está livre de todas as tendências e limitações pessoais. Essa faculdade, esse sentimento, ganhará força à medida que você se tornar mais profunda e amplamente cônscio, de modo que você esteja cônscio mesmo que sua atenção seja dada a outros assuntos. Embora você esteja ocupado com as necessárias obrigações e dedique sua atenção à existência diária, a percepção interior continua; é como uma chapa fotográfica sensível, na qual toda impressão, todo pensamento-sentimento está sendo impresso para ser estudado, assimilado e compreendido. Essa faculdade, esse novo sentimento, é da maior importância, pois revelará o que é eterno.

11 de junho de 1944.

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