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18/06/1944 – T

 

Sexta Palestra em Oak Grove

Tenho afirmado, em minhas palestras, que o autoconhecimento é o começo do pensamento correto e, sem o autoconhecimento, o pensamento verdadeiro não é possível. Com o autoconhecimento, vem a compreensão; nele está a raiz de toda a compreensão. Sem autoconhecimento, não há compreensão do mundo ao nosso redor. Para gerar essa compreensão, deve haver empenho correto, pois, sem ela, como expliquei, o pensamento-sentimento sempre estará no conflito da dualidade, do mérito e do demérito, o ‘eu’ e o ‘meu’ em oposição ao ‘não eu’ e ao ‘não meu’, o que causa profunda angústia e sofrimento. Esse conflito dos opostos sempre existirá se o ansiar não for observado, compreendido e transcendido. O anseio pelo mundanismo e pela imortalidade pessoal é a causa do sofrimento. Ansiar por eles, em diferentes formas, gera ignorância, antagonismo e aflição. O desejo de imortalidade pessoal não é apenas a continuação do ‘eu’ no futuro, mas também no presente, o que se expressa no orgulho da família, do nome, da posição, no desejo por posses, por fama, autoridade, mistério e milagre. O anseio por essas coisas é o começo da aflição, e, ao ceder a elas, não há fim para o sofrimento.

Assim, libertar o sentimento-pensamento do ansiar é o começo da virtude. A virtude é negar o ‘eu’, em vez do positivo vir a ser do ‘eu’, pois a compreensão negativa é a forma mais elevada de pensamento-sentimento. O assim chamado vir a ser positivo e as qualidades do “eu” são auto enclausurantes, auto restritivas, e, portanto, nunca há o libertar-se do conflito e da aflição. O desejo de se tornar, embora nobre e virtuoso, está ainda na estreita esfera do ‘eu’, e, assim, tal desejo é o meio de produzir conflito e confusão. Esse processo de constante transformação, supostamente positivo, traz a morte, com seus medos e esperanças. Libertar do ansiar o pensamento, embora possa parecer negação, é a essência da virtude, pois esse libertar não está erigindo o processo do “eu”, do “mim” e do “meu”.

Tornar-se cônscio da ignorância é o começo da franqueza, da honestidade. Desconhecer a ignorância gera obstinação e credulidade. Sem estar cônscio da ignorância, tentar tornar-se honesto só leva a mais confusão. Sem o autoconhecimento, a mera sinceridade é estreiteza e ingenuidade. Se o indivíduo começa a ser cônscio de si mesmo e observa o que é franqueza, então a confusão cede à clareza. É a falta de clareza que leva à desonestidade, à pretensão. Estar cônscio das fugas, das distorções, dos obstáculos, traz ordem e clareza. A ignorância, que é a falta de autoconhecimento, leva à confusão, à desonestidade. Sem compreender a natureza contraditória do ‘eu’, ser sincero é ser áspero e produzir mais e mais confusão. Por meio do estar cônscio e do autoconhecimento, há ordem, clareza e pensamento correto.

A forma mais elevada de pensamento é a compreensão negativa. Pensar-sentir de forma assertiva, sem compreender o desejo, é gerar valores que são separativos, perturbadores e sem criatividade.

O amor, agora, é doloroso; estamos cônscios de que há no amor tristeza, amargura, desilusão; a dor do amor é uma tortura; nela conhecemos o medo e o ressentimento. Não há como escapar do amor, mas nele há tormento. Os tolos culpam o amor, sem compreender a causa da dor; sem entender esse conflito, não há o transcender a angústia. Sem tornar-se cônscio da fonte do conflito, do ansiar, o amor traz aflição. É o ansiar, não o amor, que cria dependência e todas as questões dolorosas que surgem daí. É o ansiar, no relacionamento, que dá origem à incerteza, não o amor; e essa incerteza gera possessividade, ciúme e medo. Nessa possessividade, nessa dependência, existe um falso senso de unidade, que sustenta e nutre o transitório sentimento de bem-estar; mas isso não é amor, pois nele há medo e suspeita. Essa estimulação externa da aparente unidade é parasitária, um vivendo do outro; não é amor, pois interiormente há vazio, solidão e necessidade de dependência.

A dependência gera medo, não amor. Sem compreender o desejo, não há dominação, opressão, tomando a forma de amor? No relacionamento com um ou com muitos, tal amor ao poder e à dominação, com sua submissão e aceitação, traz conflito, antagonismo e dor. Tendo a semente da violência dentro de si mesmo, como pode haver amor? Tendo a semente da contradição e da incerteza dentro de si mesmo, como pode haver amor? O amor está além e acima de tudo isso; transcende a sensualidade. O amor é em si mesmo eterno, não dependente, não é um resultado. Nele há misericórdia e generosidade, perdão e compaixão. Com amor, a humildade e a gentileza surgem; sem amor, elas não têm existência.

Interrogante: Eu já sou introvertido, e parece-me que, pelo que você tem dito, não há o perigo de eu me tornar mais e mais egocêntrico, mais introvertido?

Krishnamurti: Se você é um introvertido em oposição a um extrovertido, então há um perigo de egocentrismo. Se você se coloca em oposição, então não há compreensão; dessa forma, seus pensamentos, sentimentos e ações, enclausuram-se em si mesmos, são isolantes. Ao compreender inteligentemente o exterior, você irá inevitavelmente ao interior e, assim, cessa a divisão entre o exterior e o interior. Se você se opõe ao exterior e se apega ao interior, ou se você nega o interior e afirma o exterior, então há o conflito dos opostos, no qual não há compreensão. Para compreender o exterior, o mundo, você deve começar consigo mesmo, pois você, seus pensamentos e ações são o resultado tanto do exterior quanto do interior. Você é o centro de toda existência objetiva e subjetiva, e, para compreendê-la, de onde você começará, senão com você mesmo? Isso não incentiva o desequilíbrio, pelo contrário, trará compreensão criativa, paz interior.

Mas se você nega o exterior, o mundo, se você tenta escapar dele, se você o distorce, moldando-o às suas fantasias, então seu mundo interior é uma ilusão, que isola e cria obstáculos. Dessa maneira, é um estado de ilusão que traz sofrimento. Ser é estar relacionado, mas você pode bloquear, distorcer essa relação, tornando-se, assim, cada vez mais isolado e autocentrado, o que leva à desordem mental. A raiz da compreensão está dentro de você, no autoconhecimento.

Interrogante: Você, da mesma forma que muitos orientais, parece ser contra a industrialização. Por quê?

Krishnamurti: Eu não sei se muitos orientais são contra a industrialização, e, se são, não sei quais seriam as suas razões; mas penso ter explicado porque considero que a mera industrialização não é uma solução para o nosso problema humano, com seus conflitos e tristezas. A mera industrialização estimula os valores dos sentidos – banheiros maiores e melhores, carros maiores e melhores, distrações, diversões e tudo o mais. Valores externos e temporais adquirem precedência sobre o valor eterno. A felicidade, a paz, é procurada em posses, feitas pela mão ou pela mente, com o apego a coisas e ao mero conhecimento. Caminhe por qualquer rua principal, e você verá loja após loja vendendo a mesma coisa, em diferentes cores e formas – inúmeras revistas e milhares de livros. Queremos ser distraídos, entretidos, levados para longe de nós mesmos, pois somos muito pobres e infelizes, vazios e tristes. E onde há demanda, há produção e a tirania da máquina. E pensamos que pela mera industrialização iremos resolver o problema econômico e social. Iremos? Temporariamente, sim, mas com isso vêm as guerras, as revoluções, a opressão, a exploração, trazendo a assim chamada civilização – a industrialização, com todas as suas implicações – para os não-civilizados.

A industrialização e a máquina estão aqui, você não pode acabar com elas; elas assumem o seu devido lugar apenas quando o homem não é dependente de coisas para a sua felicidade, apenas quando ele cultiva as riquezas interiores, os imperecíveis tesouros da verdade. Sem estes, a mera industrialização traz horrores incalculáveis; com tesouros internos, a industrialização tem um significado. Este problema não é de nenhum país ou raça; é uma questão humana. Sem o poder do equilíbrio da compaixão e da não-mundanidade, você terá, através do mero aumento da produção de coisas, de fatos e de técnica, guerras maiores e melhores, opressão econômica e fronteiras de potências, modos mais sutis de engano, desunião e tirania.

Uma pedra pode mudar o curso de um rio; portanto, alguns que compreendam talvez possam desviar esse curso terrível do ente humano. Mas é difícil resistir à pressão constante da civilização moderna, a menos que se esteja constantemente cônscio e, assim, esteja descobrindo os tesouros que são imperecíveis.

Interrogante: Você acha que a meditação em grupo é útil?

Krishnamurti: Qual é o propósito da meditação? O pensar correto não é a base para a descoberta do supremo? Com o pensamento correto, o incognoscível, o incomensurável, surge. Você deve descobri-lo, e, para o descobrir, sua mente tem de ser totalmente não influenciada. Sua mente tem de estar completamente silenciosa, imóvel, e criativamente vazia. A mente deve libertar-se do passado, das influências condicionadoras, cessar de criar valor. Você é o único e os muitos, o grupo e o indivíduo; você é o resultado do passado. Não há compreensão de todo esse processo, a não ser por meio do resultado; você deve estudar e examinar o resultado, que é você mesmo. Para observar, você tem de ser desapegado, não influenciado, deixar de ser um escravo da propaganda, a sutil e a vulgar. A influência do ambiente molda o pensamento-sentimento, e disso também tem de haver liberdade, para que se descubra a verdade – só ela liberta. Quão facilmente somos persuadidos a acreditar ou não acreditar, a agir ou não agir; revistas, jornais, cinemas, rádios, moldam diariamente nosso sentimento-pensamento, e quão poucos conseguem escapar de sua influência limitadora!

Um grupo religioso acredita nisso e outro naquilo; seus pensamentos-sentimentos são imitativos, influenciados, moldados. Nessa confusão e afirmação imitativas, que esperança há de encontrar o verdadeiro? Para compreender essa louca confusão, o sentimento-pensamento tem de se livrar dela e, assim, tornar-se claro, imparcial e simples. Para descobrir a verdade, a mente-coração tem de se libertar da tirania do passado; deve tornar-se puramente só. Quão facilmente a coletividade, a congregação, é usada, persuadida e drogada! A descoberta da verdade não deve ser organizada; a verdade deve ser buscada por cada um, não por coação, não incentivada por recompensa ou punição. Quando a mente deixa de inventar, há criação.

Interrogante: A crença em Deus não é necessária neste mundo terrível e implacável?

Krishnamurti: Temos acreditado em Deus por séculos e séculos, mas ainda assim criamos um mundo terrível. O selvagem e o sacerdote altamente civilizado acreditam em Deus. O primitivo mata com arcos e flechas e dança loucamente; o sacerdote civilizado abençoa os navios de guerra e os bombardeiros, e os racionaliza. Não estou dizendo isso com espírito cínico e desdenhoso; então, por favor, não sorria. É um assunto grave. Ambos acreditam, e também há o outro que é descrente, mas ele também recorre ao extermínio daqueles que estão em seu caminho. Apegar-se a uma crença ou a uma ideologia não elimina a matança, a opressão e a exploração. Pelo contrário, tem havido e continua a haver terríveis e implacáveis guerras, ​​destruição e perseguição, em nome da paz, em nome de Deus. Se pudermos deixar de lado essas crenças e ideologias conflitantes e produzir uma mudança profunda em nossa vida cotidiana, haverá uma chance de um mundo melhor. É a nossa vida cotidiana que traz essa e outras catástrofes e horrores; nossa falta de consideração, nossos privilégios e barreiras nacionais e econômicas exclusivas, nossa falta de boa vontade e compaixão, trouxeram essas guerras e outros desastres. A mundanidade irá constantemente irromper em caos e sofrimento.

Somos o resultado do passado, e, sem compreendê-lo, construir sobre ele é convidar a um desastre. A mente, que é um resultado, um agregado, não pode esperar compreender aquilo que não é inventado, aquilo que é sem causa, atemporal. Para compreender o incriado, a mente tem de deixar de criar. Uma crença é sempre do passado, do que é inventado, e tal crença se torna um obstáculo à experiência do real. Quando o pensamento-sentimento é ancorado, tornado dependente, a compreensão da verdade não é possível. Tem de haver um estar livre do passado, amplo e estável, um fluxo espontâneo de silêncio; nisso apenas o real pode florescer. Quando você vê um pôr do sol, nesse momento de beleza há uma alegria espontânea e criativa. Quando deseja repetir essa experiência, não há alegria no pôr do sol; você tenta receber essa mesma felicidade criativa, mas ela não está ali. Sua mente, não esperando, não querendo, foi capaz de receber, mas, tendo recebido, tem ganas por mais, e é essa ganância que cega. A cobiça é acumulativa e sobrecarrega a mente-coração; está sempre acumulando, armazenando. O pensamento-sentimento corrompe-se pela ganância, pelas ondas corrosivas da memória. Apenas por meio do profundo estar cônscio é que esse processo do passado é encerrado. A ganância, como o prazer, é sempre separativa, limitante, e como pode o pensamento nascido da ganância compreender aquilo que é imensurável?

Em vez de fortalecer crenças e ideologias, torne-se cônscio de seus sentimentos-pensamentos, pois a partir deles surgem os problemas da vida. O que você é o mundo é; se você é cruel, lascivo, ignorante, ganancioso, assim é o mundo. Sua crença ou sua descrença em Deus é de pouca importância, pois, por seus pensamentos-sentimentos-ações, você torna o mundo terrível e implacável, pacífico e compassivo, bárbaro ou sábio.

Interrogante: Qual é a fonte do desejo?

Krishnamurti: A percepção, o contato, a sensação, o querer e a identificação causam desejo. A fonte do desejo é a sensação em suas formas mais baixas e mais elevadas. E quanto mais você exige para estar sensualmente satisfeito, mais tem de mundanidade, que procura continuidade no futuro. Uma vez que a existência é sensação, o que temos de fazer é compreendê-la, não nos tornar escravos dela; compreendê-la, para libertar o pensamento, para transcender em consciência pura. O desejo de estar satisfeito tem de produzir os meios de satisfação, a qualquer custo. Tal demandar, tal ansiar pode ser observado, estudado, inteligentemente compreendido e transcendido. Ser escravizado pelo ansiar é ser ignorante, e o sofrimento é o seu resultado.

Interrogante: Você não acha que existe no ente humano um princípio de destruição, independentemente de sua vontade de destruir e de seu desejo, ao mesmo tempo, pela vida? A vida em si parece ser um processo de destruição.

Krishnamurti: Em todos nós há a vontade adormecida de destruir – como raiva e má vontade, que, ampliadas, levam a catástrofes mundiais – e também dentro de nós há o desejo de ser atencioso e compassivo. Portanto, há em ação dentro de nós esse processo dual, um conflito aparentemente interminável. O interrogante quer saber se a própria vida não parece ser um processo destrutivo. Sim, é, se compreendermos a destruição com o significado de que na negação se encontra a maior compreensão. Essa negação é a destruição daqueles valores que são baseados no positivo, no “eu” e no “meu”. Enquanto a vida for o vir a ser, envolvida pelo pensamento-sentimento de “eu” e “meu”, ela se torna um processo destrutivo, cruel e sem criatividade. O vir a ser positivo e assertivo é, em última instância, o transacionar com morte, o que é obviamente evidente no mundo atual. A vida vivida positivamente como o “eu” e o “meu” é conflitante e destrutiva. Quando a esse positivo, agressivo querer ou não querer é posto um fim, há a consciência do medo, da morte, do nada. Mas se o pensamento puder ir acima e além desse medo, então há a verdade última.

18 de junho de 1944

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