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15/07/1945 – T

Oitava Palestra em Oak Grove

O problema da relação não é facilmente compreendido, ele requer paciência e flexibilidade da mente-coração; simples ajustamento ou conformidade a um sistema de conduta não gera compreensão da relação; tal ajustamento e conformidade encobrem e intensificam a luta. Se quisermos compreender profundamente a relação ela deve ser abordada de novo todo dia, sem cicatrizes ou memórias das experiências de ontem. Estes conflitos na relação constroem um muro de contínua resistência, e em vez de trazer unidade mais ampla e profunda, criam insuperáveis diferenças e desunião.

Como você leria um livro interessante sem pular uma página, do mesmo modo a relação deve ser estudada e compreendida; a solução do problema da relação não vai ser encontrada fora dela, mas nela; a resposta não está no final do livro, mas é para ser encontrada na maneira como abordamos a relação. Como você lê o livro da relação é de muito maior importância do que a resposta, ou a superação da disputa que existe nela. Ela deve ser abordada cada dia de novo sem o fardo do ontem; é essa liberdade do ontem, do tempo, que traz compreensão criativa.

Viver é estar em relação; não existe tal coisa como ser isolado. Relação é um conflito dentro e fora; o conflito interno ampliado se torna o conflito do mundo. Você e o mundo não estão separados; seu problema é o problema do mundo; você carrega o mundo em você; sem você ele não existe. Não existe isolamento e não existe objeto que não esteja em relação. Este conflito não deve ser compreendido como um problema da parte, mas do todo.

Você está consciente – não está? – do conflito na relação, da constante disputa entre você e o outro, entre você e o mundo? Por que existe conflito na relação? Ele não surge devido à interação de dependência e conformidade, de dominação e possessividade? Nós nos conformamos, nós dependemos, nós possuímos pela deficiência interior, que dá origem ao medo. Nós não conhecemos este medo na relação íntima, próxima? A relação é uma tensão, e é preciso profunda conscientização para compreendê-la.

Por que ansiamos por possuir ou dominar? Não é devido ao medo da deficiência? Estando com medo, queremos ficar seguros; emocionalmente e mentalmente desejamos estar salvos e bem ancorados nas coisas, nas pessoas, nas ideias. Internamente ansiamos por segurança, que se expressa exteriormente em dependência, conformismo, possessividade e assim por diante. É o vazio abrasador e aparentemente incessante que nos leva a encontrar um refúgio, uma esperança, na relação, e confundimos o ímpeto para evitar nossa agonia da solidão com amor, dever, responsabilidade.

Mas qual é a verdadeira significação da relação? Ela não é um processo de autorrevelação? A relação não é um espelho onde, se estivermos conscientes, podemos observar sem distorção nossos pensamentos e motivos particulares, nosso estado interior? Na relação o processo sutil do eu, do ego, é revelado, e só através da conscientização sem escolha a deficiência interior pode ser transcendida. Essa transcendência é amor. O amor não tem motivo; ele é sua própria perenidade.

Interrogante: Como posso me tornar integrado?

Krishnamurti: O que você quer dizer com integração? Isso quer dizer se tornar íntegro, não ter conflito e sofrimento?

A maioria de nós tenta estar integrado dentro dos níveis superficiais de nossa consciência; tentamos nos integrar para funcionar normalmente dentro do padrão da sociedade; desejamos nos ajustar num ambiente que aceitamos como sendo normal; mas não questionamos a significação ou o valor da estrutura social a nossa volta. Conformidade a um padrão é considerado integração; a educação e a religião organizada nos apoiam nesse conformismo.

A integração não tem um significado mais profundo do que o ajustamento à sociedade e seus padrões? Conformidade é integração? Integração não é puro existir e não apenas a satisfação de nosso desejo de fazer parte de um todo, se tornar normal? O motivo por trás do ímpeto por integração tem grande significado certamente.

O ímpeto por integração pode surgir da ambição, do desejo de poder, por medo da deficiência e assim por diante. A coordenação é necessária para se obter um resultado, mas considere o que está implicado na ideia de realização do desejo; auto-afirmação, inveja, inimizade, a trivialidade do sucesso, disputa e dor. Algumas pessoas suprimem o anseio por sucesso mundano, mas cedem ao anseio de se tornarem virtuosas, serem um Mestre, alcançar a glória espiritual, mas o anseio para conseguir leva sempre ao conflito, à confusão e ao antagonismo. Isso, novamente, não é verdadeira integração. A verdadeira integração chega quando há conscientização e, portanto, compreensão em todos os níveis da consciência. Nossa consciência superficial é o resultado de educação, influência, e só quando o pensamento transcende a própria limitação criada por ele, pode haver verdadeira integração. As muitas partes opostas e contraditórias de nossa consciência só podem ser integradas quando o criador dessas divisões deixa de existir; dentro do padrão do ego só pode haver conflito, não pode haver integração, completude.

A integração chega com a liberdade do anseio. Ela não é um fim em si mesmo, mas se você busca autoconhecimento, sempre profundamente, então a integração se torna um caminho para a realidade.

Interrogante: Você pode ser sábio sobre algumas coisas, mas por que você, como me foi mostrado, é contra a organização? Poderia explicar por que você a considera um obstáculo em nossa busca da realidade?

Krishnamurti: Por que organizamos? Não é por eficiência? Organizamos nossa existência a fim de vivermos; podemos organizar nosso pensamento-sentimento de modo a fazê-lo eficiente, mas eficiente para quê? Para matar, oprimir, ter poder?

Se certas ideias, crenças, doutrinas o atraem, você se une a outras pessoas para difundir efetivamente aquilo em que acredita, e para isso você cria uma organização. Mas a compreensão da realidade é resultado de propaganda, crença organizada, conformismo forçado ou sutil? A realidade é descoberta através das doutrinas de igrejas, cultos, ou seitas? A realidade é para ser encontrada por meio de compulsão, de imitação?

Nós pensamos – não? – que pelo conformismo, pela formulação de crenças, conheceremos o real. O pensamento-sentimento não deve transcender todo o condicionamento para descobrir o real? Agora o pensamento-sentimento experimenta aquilo em que é educado, em que acredita, mas tal experiência é limitada e estreita; tal mente não pode experimentar o real. O conformismo pode ser organizado eficientemente; aderir a uma fórmula, a uma doutrina pode ser manipulado efetivamente, mas levará à realidade? A realidade não aparece quando há completa libertação de toda autoridade, de toda compulsão e imitação? Este estado de ser nós só experimentamos quando o pensamento está completamente quieto. Só na liberdade está a experiência do real.

A organização do pensamento-sentimento em nome de religião, paz e liberdade se faz atrativa e aceitável; sua tendência é aceitar a autoridade; seu desejo é ser guiado; você olha para os outros para dirigir sua conduta. O rádio, filmes, jornais, governos, igrejas modelam seu pensamento e sentimento, e porque você quer se adaptar, a tarefa deles fica mais fácil. Seu anseio por segurança cria medo e é o medo que permite a opressão da autoridade; o medo força você não a como pensar, mas o que pensar. Só na liberdade do medo está a descoberta do real.

O esforço do grupo, sem se conformar à autoridade, podia ser muito significativo pela revelação de motivos e propósitos individuais; o grupo podia espelhar as atividades do ego e, através da relação, despertar a consciência de si. Mas se o grupo é usado para auto-afirmação através de propaganda ou como meio de fuga, então ele se torna um obstáculo à descoberta da realidade.

A criatividade surge quando o pensamento-sentimento não está ligado a algum padrão, alguma formulação. O ego é resultado do conformismo, do condicionamento, da memória acumulada; assim, o ego nunca está livre para descobrir; ele só pode se expandir em seu próprio condicionamento e se organizar para ser eficiente e sutil em suas afirmações, objetivos e demandas, mas não pode ser livre. Só quando o ego deixa de se tornar surge o real. Para estar livre para descobrir, a memória de ontem deve cessar; é o fardo do passado que dá continuidade, e continuidade é conformismo. Não se ajuste para ser livre, pois isso não traz liberdade, e só na liberdade existe ser criativo. A liberdade não pode ser organizada, e quando ela é, deixa de ser liberdade. Tentamos fechar a verdade viva dentro de padrões gratificantes de pensamento-sentimento e, assim, a destruímos.

Interrogante: Gostaria de perguntar se os Mestres não são uma grande fonte de inspiração para nós. Como a vida é desigual deve haver Mestre e discípulo, certamente?

Krishnamurti: Essa desigualdade não é resultado da ignorância? Essa divisão do homem em superior e inferior não nega o real? Esta dominação e submissão do homem não é resultado da ignorância e da negligência?

Nossa estrutura social está construída sobre divisão e diferença de níveis – do balconista e do executivo, o general e o soldado, o bispo e o padre, aquele que sabe e aquele que não sabe. Essa divisão se baseia no valor dos sentidos, que coloca o homem contra o homem.. Esse padrão social gera infinita oposição e antagonismo, e só pode haver um fim dentro desse padrão quando o pensamento-sentimento transcende a ganância, a má vontade e a ignorância.

Com nossa mentalidade aquisitiva e competitiva tentamos captar a realidade e construir uma escada para a realização; criamos o elevado e o inferior, o Mestre e o pupilo. Pensamos na realidade como um fim a ser alcançado, como uma recompensa pela retidão; pensamos que ela é para ser alcançada com o tempo e, assim, mantemos a divisão constante entre Mestre e pupilo, o bem sucedido e o ignorante.

O sábio, o compassivo não pensa no homem em termos de divisão; o tolo fica preso na divisão social e religiosa do homem. Aqueles que estão conscientes dessa divisão e sabem que ela é falsa e estúpida superam, mas persistem na divisão em relação àqueles que eles chamam de Mestres. Se você percebe a miséria causada neste mundo de sensação pela divisão entre elevado e inferior, por que não está consciente disso em todos os planos da existência? No mundo da sensação a divisão do homem contra o homem é o resultado de ganância e ignorância, e também é a ganância e a ignorância que criam o seguidor e o líder, o Mestre e o pupilo, o liberto e o não iluminado.

O interrogante pergunta se um Mestre ou um santo não é fonte de inspiração. Quando você tira inspiração do outro, é apenas uma distração, por isso não criativa e ilusória. A inspiração é buscada de muitas formas mas, invariavelmente, ela gera dependência e medo. O medo impede a compreensão, ele põe fim à comunhão, é uma morte em vida.

Não será o ser criativo da realidade a norma? Você busca o outro por esperança e orientação porque é vazio e pobre; você se volta para livros, quadros, professores, gurus, salvadores para inspirá-lo e fortalecê-lo, você está sempre faminto, sempre procurando, mas nunca encontrando. Só no ser criativo da realidade está a cessação do conflito e do sofrimento. Mas separação e desigualdade serão mantidas enquanto houver um se tornar; enquanto o pupilo quiser se tornar Mestre. Esse anseio por se tornar nasce da ignorância, pois o presente é o eterno. Só na solidão da realidade existe completude; nessa chama de ser criativo não existe nada além do ‘o único’.

Apenas através do meio correto a realidade pode ser descoberta, pois o meio é o fim; o meio e o fim são inseparáveis; através da consciência de si e do autoconhecimento está a chama da realidade. Ela não se encontra no outro, mas através de seu próprio pensamento desperto. Ninguém pode levar você a ela; ninguém pode resgatá-lo de seu próprio sofrimento. A autoridade do outro é ofuscante; só em completa liberdade o supremo pode ser encontrado. Vamos viver no tempo atemporalmente.

Interrogante: Você acredita em progresso?

Krishnamurti: Existe o movimento chamado progressão – não existe? – do simples para o complexo. Existe o processo de constante ajustamento ao ambiente que provoca modificação ou mudança, assumir novas formas. Existe interação constante entre o exterior e o interior, cada um ajudando na transformação do outro. Isso não demanda crença, podemos observar a sociedade se tornando mais e mais complexa, mais e mais eficientemente organizada para sobreviver, explorar, oprimir, e matar. A existência que era simples e primitiva se tornou muito complexa, altamente organizada e civilizada. Nós “progredimos”, temos rádios, filmes, meios de transporte rápidos e todo o resto. Podemos matar, em vez de poucos, milhares e milhares num instante; podemos varrer, como se diz, cidades inteiras e seus moradores em poucos segundos abrasadores. Estamos bem conscientes disso, e alguns chamam isso de progresso; maiores e melhores casas, mais luxo, mais divertimentos, mais distrações. Isso pode ser considerado progresso? A expansão de desejo sensorial é progresso? Ou o progresso está na compaixão?

Queremos dizer com progresso também – não é? – a constante expansão do desejo, do ego. Agora, nesse processo de expansão e se tornar, pode haver um fim para o conflito e o sofrimento? Se não, qual é o propósito de se tornar? Se for para a continuação da disputa e da dor, qual o valor do progresso, da evolução do desejo, da expansão do ego? Se na expansão do desejo tivermos a cessação do sofrimento, então o se tornar teria significação, mas não é da própria natureza do anseio criar e continuar com o conflito e o sofrimento?

O ego, o ‘eu’, este feixe de memórias, é o resultado do passado, o produto do tempo, e esse ego, não importa quanto possa ter evoluído, experimenta o eterno? Pode o ‘eu’, se tornando maior, mais nobre ao longo do tempo, experimentar o real?

Pode o ‘eu’, a memória acumulada, conhecer a liberdade? Pode o ego que anseia, e assim causa ignorância e conflito, conhecer a iluminação? Só na liberdade pode haver iluminação, não na escravidão e na dor do anseio. Enquanto o ‘eu’ pensar em si como ganhando ou perdendo, se tornando e não se tornando, o pensamento estará preso ao tempo. O pensamento retido na escravidão do ontem, do tempo, não pode experimentar o eterno.

Nós pensamos em termos de ontem, hoje e amanhã; eu fui, eu sou, e eu serei. Pensamos-sentimos em termos de acumulação; estamos constantemente criando e mantendo a ideia de tempo, de contínuo se tornar. Ser íntegro não é diferente de se tornar? Só podemos ser quando compreendemos o processo e significado de se tornar. Se compreendêssemos profundamente deveríamos ficar em silêncio, não? A própria grandeza de um problema chama pelo silêncio como o faz a beleza. Mas você ficará perguntando, como eu me torno silencioso, como eu paro esse incessante tagarelar da mente? Não existe se tornar silencioso; existe ou não existe silêncio. Se você está cônscio da imensidão de ser, então há silêncio; sua própria intensidade traz tranquilidade.

O caráter pode ser modificado, mudado, se harmonizar, mas caráter não é realidade. O pensamento deve transcender a si mesmo para compreender o eterno. Quando pensamos em progresso, crescimento, não estamos pensando-sentindo dentro do padrão do tempo? Há um se tornar, modificar ou mudar no processo horizontal; esse se tornar conhece a dor e o sofrimento, mas levará à realidade? Não é possível, pois se tornar está sempre ligado ao tempo. Só quando o pensamento se liberta do tornar-se, se liberta do passado por meio de conscientização diligente, está totalmente tranquilo, é que existe o eterno.

Essa tranquilidade da compreensão não é produzida por um ato da vontade, porque a vontade ainda faz parte do se tornar, do anseio, a mente-coração só pode ficar tranquila quando a tempestade e o conflito do anseio cessam. Como o lago fica calmo quando o vento pára, a mente fica tranquila na sabedoria quando compreende e transcende seu próprio anseio e distração.

Esse anseio tem que ser compreendido conforme vai sendo revelado na ação cotidiana do pensamento-sentimento; por meio de constante conscientização os caminhos do anseio, do se tornar, são compreendidos e transcendidos. Não dependa do tempo, mas seja incansável na busca do autoconhecimento.

Interrogante: Respondendo a uma pergunta sobre como resolver um problema psicológico de modo duradouro, você falou sobre as três fases consecutivas no processo de resolver tal problema, a primeira sendo considerar sua causa e efeito; em segundo lugar, a compreensão desse problema particular como parte do conflito dualista; e depois, a descoberta de que o pensador e o pensamento são a mesma coisa. Parece a mim que o primeiro e o segundo passos são comparativamente fáceis, enquanto o terceiro nível não pode ser atingido numa progressão similar simples, lógica.

Krishnamurti: Será que você observou por si mesmo as três fases que sugeri ao tentar resolver um problema psicológico? A maior parte de nós pode estar consciente da causa e efeito de um problema e também estar consciente de seu conflito dualista, mas o interrogante sente que o terceiro passo, a descoberta de que o pensador e o pensamento são a mesma coisa, não é tão fácil, nem pode ser compreendido logicamente. Só sugeri esses três estados ou passos por conveniência da comunicação verbal; eles fluem de um para o outro; eles não estão fixados numa moldura de níveis diferentes. É realmente importante compreender que eles não são diferentes estágios, um superior ao outro; eles pendem na mesma linha de compreensão. Existe uma inter-relação entre causa e efeito e o conflito dualista e a descoberta de que o pensador e seu pensamento são o mesmo.

Causa e efeito são inseparáveis; na causa está o efeito. Para estar consciente da causa-efeito de um problema é preciso certa flexibilidade imediata da mente-coração, pois a causa-efeito vai sendo constantemente modificada, passa por contínua mudança. O que foi uma vez causa-efeito pode ter se modificado agora, e estar consciente dessa modificação ou mudança é certamente necessário para a verdadeira compreensão. Acompanhar a mudança de causa-efeito é extenuante, porque a mente se prende e se abriga no que era causa-efeito; ela se apega à conclusões e, assim, se condiciona ao passado. Deve haver consciência desse condicionamento de causa-efeito; ele não é estático, mas a mente é quando logo se prende a uma causa-efeito que passa imediatamente. Carma é a dependência de causa-efeito. Como o pensamento em si é o resultado de muitas causas-efeitos, ele tem que se desprender de suas próprias dependências. O problema de causa-efeito não é para ser observado superficialmente e ignorado. Ele é a contínua cadeia de memória condicionada que deve ser observada e compreendida; estar consciente dessa cadeia sendo criada e acompanhá-la através de todos os níveis da consciência é trabalhoso; contudo isso deve ser profundamente explorado e compreendido.

Enquanto o pensador estiver preocupado com seu pensamento, haverá dualismo; enquanto ele lutar com seus pensamentos, o conflito dualista continuará. Existe solução para um problema no conflito dos opostos? O criador do problema não é mais importante do que o próprio problema? O pensamento só pode ir além e acima de seu conflito dualista quando o pensador não estiver separado de seu pensamento. Se o pensador estiver agindo sobre seu pensamento, ele se manterá separado e será sempre a causa do conflito de opostos. No conflito do dualismo não há resposta para nenhum problema, pois nesse estado o pensador está sempre separado de seu pensamento. O anseio permanece e, contudo, o objeto do anseio muda constantemente; o importante é compreender o anseio em si, não o objeto do anseio.

O pensador é diferente de seu pensamento? Eles não são um fenômeno único? Por que o pensador se separa de seu pensamento? Não é para sua própria continuidade? Ele está sempre buscando segurança, permanência, e como os pensamentos são impermanentes, o pensador pensa em si mesmo como o permanente. O pensador se esconde atrás de seus pensamentos e, sem se transformar, tenta mudar a moldura de seu pensamento. Ele se oculta por trás da atividade de seus pensamentos para se resguardar. Ele é sempre o observador manipulando o observado, mas ele é o problema e não seus pensamentos. Esse é um dos modos sutis do pensador se atormentar com seus problemas e, assim, evitar sua própria transformação.

Se o pensador separa seu pensamento de si mesmo e tenta modificá-lo sem se transformar radicalmente, conflito e desilusão inevitavelmente se seguirão. Não há saída para esse conflito e ilusão a não ser através da transformação do próprio pensador. Essa completa integração do pensador com seu pensamento não está no nível verbal, mas é uma experiência profunda que só acontece quando a causa-efeito é compreendida e o pensador não está mais preso na oposição dualista. Pelo autoconhecimento e a meditação correta, a integração do pensador com seu pensamento acontece, e só então o pensador pode ir além e acima de si mesmo. Só então o pensador deixa de existir. Na meditação correta o concentrador é a concentração; como é praticada geralmente, o pensador é o concentrador, se concentrando em alguma coisa ou se tornando alguma coisa. Na meditação correta o pensador não está separado de seu pensamento. Em raras ocasiões nós experimentamos essa integração em que o pensador cessa completamente; só então existe criação, ser eterno. Até o pensador estar em silêncio ele é o criador de problemas, de conflito e sofrimento.

15 de julho de 1945.

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