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17/06/1945 – T

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OJAI

4ª PALESTRA

1945

Pode cada um que é responsável pelo conflito e pela infelicidade em si próprio, e portanto no mundo, permitir que a sua mente-coração seja embotada pelas filosofias e ideias erroneas? Se você que criou esta luta e sofrimento não mudar fundamentalmente, os sistemas, as conferências, os planos originarão ordem e boa vontade? Não é imperativo que se transforme a si próprio, porque, o que você é o mundo é? Os seus conflitos internos expressam-se em desastres externos. O seu problema é o problema do mundo e só você pode resolvê-lo, não outro; não pode deixá-lo para os outros. O político, o economista, o reformista, ele é como você, um oportunista, um astuto planificador; mas o nosso problema, este conflito e misérias humanas, esta existência vazia que produz tão agonizantes desastres, necessita mais que uma manobra tática, astuta, mais que as reformas superficiais do político e do propagandista. Necessita de uma mudança radical da mente humana, e ninguém pode originar esta transformação salvo você mesmo. Porque aquilo que você é, o seu grupo, a sua sociedade e o seu líder são. Sem você o mundo não existe; em você está o princípio e o fim de todas as coisas. Nenhum grupo, nenhum líder pode estabelecer o valor eterno, salvo você mesmo.

As catástrofes e a miséria chegam quando os valores sensoriais transitórios dominam sobre o valor eterno. O permanente, o valor eterno não é o resultado da crença; a sua crença em Deus não significa que você esteja experimentando o valor eterno, só o percurso da sua vida mostrará a sua realidade. A opressão e a exploração, a agressividade e a crueldade economica seguem-se inevitavelmente quando perdemos a Realidade. Perdeu-a quando professando o amor a Deus consente e justifica o assassínio dos seus semelhantes, quando justifica o massacre em nome da paz e da liberdade. Enquanto der importância suprema aos valores sensoriais haverá conflito, confusão e dor. Matar outro jamais pode ser justificado e perdemos o significado imenso do homem quando os valores sensoriais permanecem predominantes.

Teremos miséria e tribulação enquanto a religião estiver organizada para fazer parte do Estado, para ser a criada do Estado. Ela ajuda a justificar a força organizada como política do Estado; e encoraja assim a opressão, a ignorância e a intolerância. Como pode então a religião aliada ao Estado desempenhar a sua única verdadeira função, a de revelar e manter o valor eterno? Quando a Realidade se perde e não é procurada há desunião e o homem estará contra o homem. A confusão e a infelicidade não podem ser banidas pelo processo de esquecimento do tempo, pela ideia reconfortante da evolução que apenas engendra indolência, aceitação presunçosa e o impulso contínuo em direção à catástrofe; não devemos deixar que o curso das nossas vidas seja dirigido por outros, para outros, ou a bem do futuro. Nós somos responsáveis pela nossa vida, não outra pessoa; somos responsáveis pela nossa conduta, não outra pessoa; não é outra pessoa que nos pode transformar. Cada um tem que descobrir e experimentar a Realidade e só nisso é que há alegria, serenidade e a mais elevada sabedoria.

Como podemos então chegar a esta experiência, através da mudança das circunstâncias exteriores ou através da transformação a partir do interior? A mudança externa implica o controle do meio através da legislação, através da reforma economica e social, através do conhecimento dos fatos e através da melhoria flutuante, quer violenta quer gradual. Mas a modificação das circunstâncias externas alguma vez originará a transformação interna? Não é a transformação interna necessária primeiro para originar um resultado externo? Você pode, através da legislação, proibir a ambição uma vez que a ambição gera crueldade, auto-assertividade, competição e conflito, mas pode a ambição ser extirpada a partir do exterior? Não pode ela, suprimida de uma maneira, impor-se de outra? O motivo interno, o pensamento-sentimento privado não determina sempre o externo? Para originar uma transformação pacífica exterior, não deveria ter lugar primeiro uma mudança psicológica profunda? Pode o externo, ainda que agradável, originar o contentamento duradouro? A ânsia interna modifica sempre a externa. Psicologicamente o que você é, é também a sua sociedade, o seu Estado, a sua religião; se você for luxurioso, invejoso, ignorante, então o seu meio é aquilo que você é. Nós criamos o mundo em que vivemos. Para originar uma mudança radical e pacífica tem que haver uma transformação interna voluntária e inteligente; esta mudança psicológica não é certamente para ser originada através da compulsão e se o for, então haverá tal conflito e confusão internas, que de novo precipitarão a sociedade no desastre. A regeneração interna tem que ser voluntária, inteligente, não obrigada. Temos primeiro que procurar a Realidade e só então pode haver paz e ordem ao nosso redor.

Quando o problema da existência é abordado a partir do exterior, o processo dual é imediatamente posto em funcionamento; na dualidade há conflito interminável e este conflito apenas embota a mente-coração. Quando se aborda o problema da existência a partir do interior não há divisão entre o interno e o externo, a divisão cessa porque o interno é o externo, o pensador e os seus pensamentos são um, inseparáveis. Mas nós falsamente separamos o pensamento do pensador e tentamos assim lidar só com a parte, educar e modificar a parte, esperando desse modo transformar o todo. A parte torna-se sempre cada vez mais dividida e há assim cada vez mais conflito. Portanto devemos preocupar-nos com o pensador a partir do interior e não com a modificação da parte, o seu pensamento.

Mas infelizmente a maior parte de nós é apanhada entre a incerteza do externo e a incerteza do interno. É esta incerteza que tem que ser compreendida. É a incerteza do valor que origina o conflito, a confusão e a mágoa e impede que sigamos um curso claro de ação quer do externo, quer do interno. Se seguíssemos o externo com plena consciência, percebendo o seu completo significado, então tal direção conduziria inevitavelmente ao interno, mas infelizmente perdemo-nos no externo porque não somos suficientemente flexíveis na nossa auto-indagação. À medida que você examina os valores sensoriais pelos quais os nossos pensamento-sentimentos são dominados, e se torna consciente deles sem escolha, perceberá que o interior se torna claro. Esta descoberta trará liberdade e alegria criativa. Mas esta descoberta e a sua experiência não podem ser feitas para si por outro. Ficará a sua fome satisfeita ao ver outro comer? Através da sua própria auto-consciência você tem que despertar para os falsos valores e assim descobrir o valor eterno. Só pode haver mudança fundamental dentro e fora, quando os pensamentos-sentimentos se desembaraçarem daqueles valores sensoriais que causam conflito e dor.

Interlocutor: Nas verdadeiramente grandiosas obras de arte, na poesia, na música, é expressado e transmitido algo indescritível que parece refletir a Realidade ou Verdade ou Deus. Contudo é um fato que nas suas vidas privadas, a maior parte daqueles que criaram tais obras nunca tiveram êxito em desembaraçar-se do círculo vicioso do conflito. Como pode ser explicado que um indivíduo que não se libertou seja capaz de criar algo em que o conflito dos opostos é transcendido? Ou colocando a questão ao contrário, não tem que concluir que a criatividade nasce do conflito?

Krishnamurti: É o conflito necessário para a criatividade? O que quer dizer com conflito? Nós ansiamos ser, positiva ou negativamente. Esta ânsia constante gera conflito. Consideramos este conflito inevitável, quase virtuoso; consideramo-lo essencial para o desenvolvimento humano.

O que acontece quando você está em conflito? Através do conflito a mente-coração torna-se cansada, indolente, insensível. O conflito fortalece as capacidades auto-protetoras, o conflito é a substância em que o ego prospera. Na sua própria natureza o ego é a causa de todo o conflito, e onde está o ego, não está a criação.

É o conflito necessário para o ser criativo? Quando é que sente aquele êxtase criativo abrumador? Só quando cessou todo o conflito, só quando o ego está ausente, só quando há completa tranquilidade. Esta tranquilidade não pode ter lugar quando a mente-coração está agitada, quando está em conflito; isto apenas fortalece o processo auto-confinante. Como a maior parte de nós está num estado de luta constante conosco próprios, raramente temos tais momentos de elevada sensibilidade ou tranquilidade, e quando eles ocorrem são acidentais. Tentamos portanto recapturar esses momentos acidentais, e só sobrecarregamos mais a mente-coração com o passado morto.

O poeta, o artista, não passa pelo mesmo processo que nós? Talvez ele possa ser mais sensível, estar mais alerta e portanto ser mais vulnerável, aberto, mas certamente que ele, também experimenta a criação em momento de auto-abnegação, de auto-esquecimento, em momentos de tranquilidade completa. É esta experiência que ele tenta expressar no mármore ou na música; mas não surge o conflito ao expressar essa experiência, ao aperfeiçoar o mundo, e não no momento da própria experiência? A criação só pode ter lugar quando a mente-coração está tranquila, e não pode ser apanhada na rede do devir. A passividade aberta à Realidade não é o resultado da ânsia com a sua vontade e conflito.

Tal como nós o artista tem momentos de tranquilidade em que a criação é experimentada; depois ele coloca-a na pintura, na música, na forma. A sua expressão assume grande valor porque foi ele que a pintou, ela é o seu trabalho. A ambição, a fama tornam-se importantes e ele é apanhado numa luta estúpida, infindável. Contribui assim para a infelicidade do mundo, para a inveja e para o derramamento de sangue, para a paixão e a malevolência. Perde-se nesta luta, e quanto mais perdido está mais a sua sensibilidade, a sua vulnerabilidade à verdade, se desvanecem. Os seus conflitos mundanos debilitam a clareza jubilosa mesmo embora a sua capacidade técnica o ajude a continuar com as suas visões vazias e endurecedoras.

Mas nós não somos grandes artistas, músicos ou poetas; não temos dons especiais ou talentos; não temos libertação através do mármore, da pintura ou através da grinalda das palavras. Estamos em conflito e em sofrimento, mas nós também temos momentos ocasionais da imensidade da Verdade. Esquecemo-nos então momentaneamente de nós próprios, mas em breve estamos de volta à nossa confusão, embotamento e endurecimento diário da nossa mente-coração. A mente-coração nunca está tranquila; se o está, é o silêncio do cansaço, mas um tal estado não é o silêncio da compreensão, da sabedoria. Este vazio criativo, expectante, não é originado pela vontade ou pelo desejo; surge quando o conflito do ego cessou.

O conflito só cessa quando há uma revolução completa no valor, não uma mera substituição. Só através da auto-consciência pode a mente-coração libertar-se de todos os valores; este transcender de todos os valores não é fácil, não chega com a prática mas com o aprofundamento da consciência. Não é um dom, um talento da minoria, mas todos os que forem enérgicos e ávidos podem experimentar a Realidade criativa.

Interlocutor: O presente é um horror trágico não mitigado. Porque é que insiste que no presente está o Eterno?

Krishnamurti: O presente é conflito e sofrimento, com um flash ocasional de alegria passageira. O presente entrelaça-se para trás e para a frente no passado e no futuro, e portanto o presente está incessantemente em movimento. O presente é o resultado do passado, o nosso ser está alicerçado sobre ele. Como pode compreender o passado salvo através do seu resultado, o presente? Não pode escavar no passado com qualquer outro instrumento que não seja o que você tem, que é o presente. O presente é o umbral para o passado e se o desejar, para o futuro. O que você é, é o resultado do passado, do ontem, e para compreender o ontem tem que começar com o hoje. Para se compreender a si próprio tem que começar consigo próprio tal como é hoje.

Sem compreender o presente que está enraizado no passado, não terá compreensão. A presente miséria do homem é compreendida quando, através da porta do presente ele é capaz de estar consciente das causas que o produziram. Não pode pôr de lado o presente ao tentar compreender o passado, mas só através da consciência do presente é que o passado começa a revelar-se. O presente é trágico e sangrento, certamente que não o compreenderemos rejeitando-o, justificando-o. Temos que o encarar tal como é e pôr a descoberto as causas que originaram o presente. Como considera o presente, como a sua mente está condicionada a ele, revelará o processo do passado; se você for preconceituoso, nacionalista, se odiar, o que você é agora perverterá a sua compreensão do passado; o seu fervor, malevolência e ignorância, o que você é agora, corromperão a sua compreensão das causas que conduziram ao presente. Ao compreender-se a si mesmo, tal como é agora, o papel do passado revela-se.

O presente é da maior importância; o presente, ainda que trágico e doloroso, é a única porta para a Realidade. O futuro é a continuação do passado através do presente; através da compreensão do presente o futuro é transformado. O presente é a única altura para compreender porque se estende ao ontem e ao amanhã. O presente é o todo do tempo; na semente do presente está o passado e o futuro; o passado é o presente e o futuro é o presente. O presente é o Eterno, o Intemporal. Mas nós consideramos o presente, o agora, como uma passagem para o passado ou para o futuro; no processo de devir, o presente é um meio para um fim e desse modo perde o seu imenso significado. O devir gera continuidade, perpetuação, mas não é o Intemporal, o Eterno. O ansiar para vir a ser tece o padrão do tempo. Não experimentou em momentos de grande êxtase a cessação do tempo; não há passado, não há futuro mas uma consciência intensa, um presente intemporal? Tendo experimentado um tal estado a ganância começa a suas atividades e recria o tempo, relembrando, revivendo, contando com o futuro para mais experiência, reordenado o padrão do tempo para capturar o Intemporal. Assim a ganância, o devir, mantém o pensamento-sentimento na dependência do tempo.

Esteja portanto consciente do presente, ainda que doloroso ou agradável; ele revelar-se-á então como um processo do tempo e se o pensamento-sentimento puder seguir os seus caminhos sutis e tortuosos e transcendê-los, então aquela mesma consciência extensiva é o presente intemporal. Conte só com o presente, nem com o passado nem com o futuro, porque o amor é o presente, o Intemporal.

Interlocutor: O senhor condena a guerra e contudo não a está a apoiar?

Krishnamurti: Não estamos todos nós a manter este terrível massacre? Somos responsáveis, cada um de nós, pela guerra; e guerra é um resultado final da nossa vida quotidiana; ela surge através do nosso pensamento-sentimento-ação diário. Projetamos aquilo que somos nas nossas relações ocupacionais, sociais, religiosas; o que nós somos o mundo é.

A menos que compreendamos as questões principais e secundárias envolvidas na responsabilidade pela guerra, estaremos confusos e seremos incapazes de nos desenredarmos do seu desastre. Temos que saber onde colocar a ênfase e só então compreenderemos o problema. O fim inevitável desta sociedade é a guerra; ela está adaptada para a guerra, a sua industrialização conduz à guerra; os seus valores promovem a guerra. Seja o que for que fizermos dentro das suas fronteiras contribui para a guerra. Quando compramos algo, o imposto vai para a guerra; os selos de correio ajudam a sustentar a guerra. Não podemos fugir da guerra, formos para onde formos, especialmente agora, uma vez que a sociedade está organizada para a guerra total. O mais simples e inofensivo trabalho contribui para a guerra de uma maneira ou de outra. Quer gostemos quer não, pela nossa própria existência estamos a ajudar a sustentar a guerra. O que havemos portanto de fazer? Não podemos retirar-nos para uma ilha ou para uma comunidade primitiva, porque a cultura atual está em todo o lado. Que podemos portanto fazer? Recusar-nos-emos a sustentar a guerra não pagando impostos, não comprando selos? É essa a questão principal? Se não é, e se é apenas a secundária, então não nos deixemos distrair por ela.

Não é a questão principal muito mais profunda, a da causa da própria guerra? Se pudermos compreender a causa da guerra então a questão secundária pode ser abordada de um ponto de vista totalmente diferente; se não compreendermos, então perder-nos-emos nela. Se pudermos nos libertar das causas da guerra então talvez o problema secundário possa nem surgir.

A ênfase deve portanto ser colocada na descoberta dentro de nós próprios da causa da guerra; esta descoberta tem que ser feita por cada um e não por um grupo organizado, porque as atividades de grupo tendem a acarretar irreflexão, simples propaganda e slogans, que só geram mais intolerância e discórdia. A causa tem que ser auto-descoberta e assim cada um através da experiência direta liberta-se dela.

Se pensarmos profundamente nós estamos bem conscientes das causas da guerra: cólera, malevolência e ignorância; sensualidade, mundaneidade e a ânsia de fama pessoal e continuidade; ganância, inveja e ambição; nacionalismo com as suas soberanias separadas, fronteiras economicas, divisões sociais, preconceitos raciais e religião organizada. Não pode cada um estar consciente da sua ganância, malevolência, ignorância e assim libertar-se delas? Agarramo-nos ao nacionalismo porque ele é uma saída para os nossos instintos cruéis, criminosos; em nome do nosso país ou ideologia podemos matar ou liquidar com impunidade, tornarmo-nos heróis, e quanto mais matamos os nossos semelhantes mais honras recebemos do nossos país.

Ora não é a libertação da causa do conflito e do sofrimento a questão principal? Se não colocarmos ênfase nisto, como é que a solução dos problemas secundários acabará com a guerra? Se não extirparmos as causas da guerra de dentro de nós, de que serve consertar os resultados externos do nosso estado interno? Temos, cada um de nós, que escavar profundamente e remover a luxúria, a malevolência e a ignorância; temos que abandonar completamente o nacionalismo, o racismo e aquelas causas que geram inimizade. Temos que nos preocupar integralmente com aquilo que é de importância primordial e não ser confundidos com as questões secundárias.

Interlocutor: O senhor é muito deprimente. Eu procuro inspiração para continuar. O senhor não nos anima com palavras de coragem e esperança. É errado procurar inspiração?

Krishnamurti: Porque é que quer ser inspirado? Não é porque em si próprio é vazio, não criativo, solitário? Você quer preencher esta solidão, este vazio doloroso; deve ter tentado diferentes maneiras e espera fugir-lhe de novo vindo aqui. Este processo de encobrir a solidão árida é chamado inspiração. A inspiração torna-se então uma mera estimulação, e tal como toda a estimulação, em breve traz o seu próprio aborrecimento e insensibilidade. Passamos então de uma inspiração, de uma estimulação, para outra, cada uma trazendo o seu próprio desapontamento e cansaço; a mente-coração perde assim a sua flexibilidade, a sua sensibilidade, a capacidade interna de tensão perde-se através deste processo constante de extensão e relaxamento. A tensão é necessária para descobrir mas a tensão que exige relaxamento ou uma estimulação em breve perde a sua capacidade de se renovar, de ser flexível, de estar alerta. Esta flexibilidade alerta não pode ser induzida a partir do exterior; ele chega quando não está dependente da estimulação, da inspiração.

Não é toda a estimulação similar no efeito? Quer tome uma bebida ou seja estimulado por uma imagem ou por uma ideia, quer vá a um concerto ou a uma cerimónia religiosa, quer desenvolva um ato ainda que nobre ou ignóbil, não embota tudo isto a mente-coração? Uma ira justa, o que é um absurdo, por muito estimulante e inspiradora que possa ser, acarreta insensibilidade; e não é a mais elevada forma de inteligência, de sensibilidade, de receptividade, necessária para experimentar a Realidade? A estimulação gera dependência e a dependência digna ou não causa medo. É relativamente sem importância como se é estimulado ou inspirado, quer através da igreja organizada ou da política ou através da distração, porque o resultado será o mesmo – insensibilidade causada através do medo e da dependência.

As distrações tornam-se estimulações. A nossa sociedade encoraja essencialmente a distração, a distração sob qualquer forma. O nosso próprio pensar-sentir tornou-se um processo de deambular longe do centro, da Realidade. É portanto extremamente difícil retirarmo-nos de todas as distrações, porque nos tornamos quase incapazes de estar conscientes sem escolha do que é. Surge portanto o conflito que mais distrai o nosso pensamento-sentimento, e é só através da consciência constante que o pensamento-sentimento é capaz de se desembaraçar da rede de distrações.

Além disso, quem lhe pode dar ânimo, coragem e esperança? Se confiarmos em outro, ainda que notável e nobre, estamos totalmente perdidos porque a dependência gera possessividade na qual há luta e dor infindáveis. O ânimo e a felicidade não são fins em si; são, tal como a coragem e a esperança, incidentes na procura de algo que é em si um fim. É este fim que tem que ser procurado paciente e diligentemente, e só através da sua descoberta é que cessarão a confusão e a dor. O caminho para a sua descoberta encontra-se dentro de si próprio; qualquer outra viagem é uma distração conduzindo à ignorância e à ilusão. A viagem dentro de si próprio deve ser empreendida não para um resultado, não para resolver o conflito e a dor; porque a própria busca é devoção, inspiração. Então o próprio viajar é um processo revelador, uma experiência que é constantemente libertadora e criativa. Não reparou que a inspiração chega quando não a procura? Ele chega quando todas as expectativas cessaram, quando a mente-coração está tranquila. O que é procurado é auto-criado e portanto não é o Real.

Interlocutor: O senhor diz que a vida e a morte são uma e a mesma coisa. Por favor detalhe esta assombrosa afirmação.

Krishnamurti: Conhecemos o nascimento e a morte, a existência e a não-existência; estamos conscientes deste conflito entre os opostos, o desejo de viver, de continuar, e do medo da morte, da não-continuação. A nossa vida está confinada no padrão do vir a ser ou não vir a ser. Podemos ter teorias, crenças e por conseguinte experiência, mas elas continuam dentro do campo da dualidade, do nascimento e da morte.

Nós pensamos-sentimos em termos de tempo, de viver, de vir a ser, ou não vir a ser, ou de morte, ou de estender este vir a ser para além da morte. O padrão do nosso pensamento-sentimento move-se do conhecido para o conhecido, do passado para o presente, para o futuro; se houver medo do futuro, ela apega-se ao passado ou ao presente. Estamos presos no tempo e como podemos nós, que pensamos-sentimos em termos de tempo, experimentar a realidade da Intemporalidade, na qual a vida e a morte são uma!

Não experimentou em momentos de grande intensidade a cessação do tempo? Uma tal cessação é geralmente forçada em nós; é acidental, mas dependendo do nosso prazer nela, desejamos repetir de novo a experiência. Tornamo-nos portanto uma vez mais prisioneiros do tempo. Não é possível para a mente-coração parar de formular, estar completamente tranquila e não ser forçada à tranquilidade por um ato da vontade? A vontade e a determinação continuam a ser auto-continuação e estão portanto dentro do campo do tempo. A determinação de ser, a vontade de vir a ser, não implica auto-desenvolvimento, tempo, o qual acarreta o medo da morte?

Tal como o cepo de uma árvore morta no meio de uma corrente congrega os restos flutuantes, assim amontoamos, assim nos apegamos à nossa acumulação; estamos assim separados, nós e a corrente imortal da vida. Sentamo-nos no cepo morto da nossa acumulação e consideramos a vida e a morte; não soltamos o processo sempre acumulativo e pertencemos às águas vivas. Para nos libertarmos da acumulação tem que haver um auto-conhecimento profundo, não o conhecimento superficial de algumas camadas da nossa consciência. A descoberta e a experiência de todas as camadas da consciência é o início da verdadeira meditação. Na tranquilidade da mente-coração está a sabedoria e a Realidade.

A Realidade é para ser experimentada, não especulada. Esta experiência só pode existir quando a mente-coração cessa de acumular. A mente-coração não cessa de acumular através da rejeição ou através da determinação, mas somente através da auto-consciência; através do auto-conhecimento é descoberta a causa da acumulação. Só é experimentada quando o conflito dos opostos cessa. Só o pensar correto, que chega com o auto-conhecimento e com a meditação correta, pode originar a unidade da vida e da morte. É somente pelo morrer a cada dia que pode haver a renovação do eterno.

É difícil morrer assim se estiver no processo do vir a ser, se estiver a amontoar, sentado no cepo da acumulação morta. Tem que o abandonar, mergulhar nas águas sempre vivas; tem que morrer cada dia para a acumulação do dia, morrer para ambos o agradável e o desagradável. Apegamo-nos ao agradável e largamos o desagradável; fortalecemo-nos assim na gratificação e conhecemos a morte. Sem procurar recompensa, abandonemos as nossas acumulações e só então poderá existir o imortal. A vida não se opõe então à morte nem a morte é um obscurecimento da vida.

17/06/1945.

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