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24/06/1955 – T

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=508&chid=4827&w=

4ª palestra em Londres.

Parece-me que um dos problemas mais difíceis é a questão de como realizarmos uma mudança fundamental em nós mesmos. Costumamos pensar que a transformação do indivíduo não é importante, mas que devíamos, em vez disso, preocupar-nos com as massas, com o todo. Acho que isso é uma ideia deveras errônea. Acho que a transformação precisa começar pelo indivíduo – se é que existe uma entidade individual. Precisa haver uma mudança fundamental em você e em mim.

Pode-se ver que qualquer mudança consciente não é mudança nenhuma. O processo deliberado de fazer melhorias, o cultivo deliberado de determinado padrão ou forma de ação, não produz nenhuma mudança real, pois é meramente uma projeção do próprio desejo da pessoa, seu background, como uma reação. Entretanto, estamos, a maioria de nós, interessados nesta questão da mudança, pois estamos tateando, estamos confusos. E aqueles dentre nós que são dados a seriedade, precisam investigar de modo vital essa questão de como produzir uma mudança em nós mesmos. A dificuldade, quer-me parecer, está em compreender o fato de que qualquer forma de mudança na mente condicionada só resulta em condicionamento diferente, não em uma transformação. Se eu, como hindu, ou cristão, ou seja o que for, tentar mudar dentro desse padrão, essa mudança não será de modo algum real; será apenas, talvez, um condicionamento aparentemente melhor, mais conveniente, mais adaptativo, porém, fundamentalmente, não será uma mudança. Acho que uma das maiores dificuldades que temos é que pensamos poder mudar dentro do padrão. Ao passo que, certamente, para uma mente que é condicionada pela sociedade, por qualquer forma de cultura, realizar uma mudança consciente dentro do padrão é ainda um processo de condicionamento. Se isso estiver bem claro, então acho que a nossa investigação para descobrir o que é a transformação, como é possível realizar uma mudança radical em nós mesmos, torna-se questão muito interessante e vital. Pois a cultura – isto é, a sociedade em torno de nós – jamais produzirá um homem religioso; ela pode engendrar “religião”, mas não pode produzir um homem religioso.

Agora, se eu puder fazer uma digressão – a maioria de nós tem uma forte reação à palavra religião. Alguns gostam dela; a própria palavra dá-lhes um senso de satisfação emocional; outros são repelidos pela palavra. Mas eu acho importante descobrir como escutar verdadeiramente aquilo que está sendo dito. Como é que a pessoa escuta? Você escuta a palavra religião e, ou você gosta dela ou tem-lhe aversão. Essa mesma palavra age como uma barreira à maior compreensão, à melhor exploração, porque a pessoa reage a ela. Pode-se escutar sem essa reação? Porque, se pudermos escutar sem reação alguma, sem nossos preconceitos, nossas peculiaridades, nossas idiossincrasias, sem a interferência das nossas crenças, então acho que podemos ir muito longe. Mas é muito difícil colocar de lado nossos preconceitos e prestar total atenção a algo que está sendo dito. A atenção se torna estreita, excludente, quando está concentrada apenas em determinada ideia. A maioria de nós tem ideias, certos preconceitos, e, enquanto pensarmos ao longo dessas linhas, podemos estar prestando atenção, mas ela será realmente apenas uma forma de exclusão – coisa que não é, de modo algum, atenção.

O que estou sugerindo é que, para realmente escutar, é preciso estar cônscio dos próprios preconceitos, das próprias reações emocionais e neurológicas a determinada palavra – como Deus, religião, amor, e coisas assim – e pôr de lado essas reações. Se a pessoa puder escutar desse modo, muito atentamente, não procurando nenhuma ideia que possa estar de acordo com a nossa, ou uma que esteja em discordância com a nossa, então penso que estas palestras valerão a pena.

Então, como eu estava dizendo, a cultura só pode produzir religiões, jamais um homem religioso. E acho que só o homem religioso pode realmente realizar uma mudança radical em si mesmo. Qualquer mudança, qualquer alteração dentro da mente condicionada em dada cultura, não é, de modo algum, mudança real; é somente continuação da mesma coisa, porém modificada. Penso ser bastante óbvio – se se pensar no assunto – que, enquanto eu tiver o padrão de um hindu, cristão, budista ou o que for, qualquer mudança que eu fizer dentro desse padrão é uma mudança consciente, é ainda parte do padrão e, portanto, não é mudança nenhuma. Então, surge a pergunta: “Posso realizar uma mudança por meio do inconsciente?”Noutras palavras, ou eu começo conscientemente a mudar o padrão da minha vida, o modo como penso, para eliminar conscientemente meus preconceitos – o que é um processo de esforço deliberado na busca de determinado objetivo, ideal – ou procuro realizar uma mudança mergulhando no inconsciente.

Certamente, em ambas as abordagens, há o problema do esforço. Vejo que preciso mudar – por várias razões, por vários motivos – e conscientemente dedico-me a mudar. Então percebo – se realmente pensar sobre isso – que essa mudança não é real, e, então, mergulho no inconsciente, penetro muito profundamente, esperando, mediante várias formas de análise, realizar uma mudança, uma modificação, ou um ajustamento mais profundo. E como é que pergunto a mim mesmo se tal esforço consciente e inconsciente de mudar produz alguma mudança? Ou, será que alguém precisa ir além do consciente e do inconsciente para realizar uma mudança radical? Como pode ver, tanto o desejo consciente como a compulsão inconsciente de mudar implicam esforço. Se você penetrar bem fundo, verá que, na tentativa de transformar-se em outra coisa, há sempre o elemento que faz o esforço e também aquele que é estático, sobre o qual o esforço é exercido. Então, nesse processo de realizar uma mudança – seja consciente ou inconsciente – há sempre o pensador e o pensamento, o pensador tentando mudar seu pensamento – aquele que diz “Preciso mudar”, e o estado que ele deseja mudar. Então, há essa dualidade, e estamos para sempre, eternamente, tentando construir uma ponte sobre essa lacuna por meio de esforço. Vejo em mim mesmo que há, no consciente e também no inconsciente, aquele que faz o esforço e aquilo que ele deseja mudar. Há uma divisão entre aquilo que sou e aquilo que desejo ser. O que significa que há uma divisão entre o pensador e o pensamento e, portanto, há um conflito. E o pensador está sempre tentando superar esse conflito, conscientemente ou inconscientemente.

Estamos bem familiarizados com esse processo; é o que fazemos todo o tempo; toda a nossa estrutura social, toda a nossa estrutura moral, ou nossos ajustamentos, estão fundamentados nisso. Mas será que isso produz mudança? Se não, então será que a mudança não precisa dar-se em um nível totalmente diferente, que não esteja nem no campo do consciente nem do inconsciente? Certamente, a totalidade da nossa mente, o consciente tanto quanto o inconsciente, está condicionada pela cultura de cada um. Isso é bem óbvio. Enquanto eu for hindu, budista, cristão ou outra coisa qualquer, a própria cultura na qual fui criado condicionará todo o meu ser. Todo o meu ser abrange tanto o consciente quanto o inconsciente. No campo do inconsciente estão todas as tradições, o resíduo do passado do homem, o herdado bem como o adquirido; e, no campo do consciente, estou tentando mudar. Tal mudança só pode verificar-se de acordo com o meu condicionamento, e, portanto, jamais poderá resultar em liberdade. Então, a transformação, obviamente, é coisa que não pode ser da mente; ela precisa estar em nível completamente diferente, noutra profundidade, noutra altura. Então, como é que vou me transformar? Vejo a verdade – pelo menos, vejo alguma coisa nisso – de que a mudança, a transformação, precisa começar em um nível que não possa ser alcançado pela mente consciente nem pela inconsciente, pois a totalidade da consciência está condicionada. Então, que devo fazer? Espero estar esclarecendo o problema. Noutras palavras, será que a minha mente, o consciente e o inconsciente, pode ficar livre da sociedade? – sociedade sendo toda a educação, a cultura, as normas, os valores, os padrões. Se a mente não se libertar, então qualquer mudança que tente produzir dentro daquele estado condicionado será ainda limitada e, portanto, não será mudança nenhuma. Se vejo a verdade disso, o que a mente deve fazer? Se digo que deve ficar quieta, então essa própria quietação é parte do padrão; é o resultado do meu desejo de produzir uma transformação em um nível diferente.

Então, posso olhar sem nenhum motivo? A minha mente pode existir sem incentivo algum, sem nenhum motivo para mudar ou deixar de mudar? Porque, qualquer motivo é resultado da reação de determinada cultura, nasce de determinado background. Então, a minha mente pode ficar livre da cultura na qual fui criado? Esta é uma pergunta realmente importante. Porque, se a mente não ficar livre da cultura na qual se formou e foi cultivada, certamente a pessoa jamais ficará em paz, jamais terá liberdade. Seus deuses e seus mitos, seus símbolos e toda a sua diligência são limitados, pois estão ainda dentro do campo da mente condicionada. Não importa que esforços faça ou deixe de fazer, dentro desse campo limitado – serão realmente fúteis no mais profundo sentido dessa palavra. Pode haver uma melhor decoração da prisão – mais luz, mais janelas, melhor comida – mas continua sendo a prisão de determinada cultura.

Então, será que a mente pode – compreendendo a totalidade de si mesma, não só as camadas superficiais ou certas profundidades – será que ela pode chegar a esse estado em que a transformação não seja resultado de um esforço consciente nem inconsciente? Se essa questão estiver clara, então surge a reação ao problema – como a pessoa pode alcançar tal estado? Certamente, a própria pergunta “como” é outra barreira. Pois o “como” implica a busca e a prática de certo sistema, certo método, os “passos” em direção àquela transformação fundamental, profunda, inevitável, em um nível diferente. Compreende? O “como” implica o desejo de alcançar, o impulso de atingir; e essa própria tentativa de ser algo é produto da nossa sociedade, que é aquisitiva, que é invejosa. Então, estamos novamente enredados.

Então, o que a mente deve fazer? Vejo a importância da mudança. E vejo que qualquer mudança, em qualquer nível da mente consciente ou inconsciente, não é mudança alguma. Se realmente compreendo isso, se eu tiver percebido a verdade disso – que, enquanto houver o fazedor do esforço, o pensador, o “eu”, tentando alcançar um resultado, precisa haver uma divisão e, daí, o desejo de fazer uma integração entre as duas coisas, o que implica conflito – se vejo a verdade disso, então o que acontece?

Eis o problema: Será que percebo que qualquer esforço que eu faça dentro do campo do pensamento – o consciente e o inconsciente – necessariamente acarreta uma separação, uma dualidade e, portanto, conflito? Se percebo a verdade disso, então o que acontece? Então tenho eu – tem a mente consciente ou inconsciente – de fazer alguma coisa? Por favor, isto não é nenhuma filosofia oriental de nada fazer ou de entrar em algum tipo de transe misterioso. Ao contrário, isto requer muito esforço, penetração e investigação. Não se pode chegar a isso a menos que se tenha percorrido todo o processo de compreensão do consciente e do inconsciente, e não apenas dizer: “Muito bem, não pensarei e, então, as coisas acontecerão.”As coisas não acontecerão. É por isso que é muito importante ter autoconhecimento. Não o autoconhecimento de acordo com algum filósofo ou psicanalista, grande ou pequeno – isso é mera imitação; é como ler um livro e tentar ser o livro; isso não é autoconhecimento. Autoconhecimento é realmente descobrir, em si mesmo, o processo do pensamento, do sentimento, dos motivos, das respostas – o real estado em que estamos, e não o estado desejado.

É por isso que é muito importante ter autoconhecimento do que quer que sejamos: feios, bons, maus, bonitos, alegres, tudo isso – conhecer o próprio condicionamento superficial como também o mais profundo, o inconsciente, o condicionamento de séculos de tradição, de compulsões, desejos, imitações, conhecer, realmente experimentar a totalidade por meio do autoconhecimento. Então penso que descobriremos que a mente consciente e a inconsciente já não faz nenhum movimento para alcançar uma mudança, mas a mudança acontece, a transformação acontece em um nível totalmente diferente – numa altura, numa profundidade que nem a mente consciente nem a inconsciente jamais poderá tocar. A transformação precisa acontecer ali, e não no nível consciente ou inconsciente, que é produto de dada cultura.

É por isso que é tão importante ficar livre da sociedade por meio do autoconhecimento. E penso então que – quando todo esse processo de reconhecimento pela sociedade tiver cessado, quando a mente não estiver mais preocupada com qualquer tipo de reforma – então haverá uma transformação radical que não poderá ser tocada pela mente consciente ou inconsciente, e, a partir dessa transformação, poder-se-á criar uma sociedade diferente, um Estado diferente. Esse Estado, essa sociedade, não podem ser concebidos – isso é coisa que deve proceder das profundezas do autodescobrimento. Portanto, parece-me que o que é importante é essa investigação do ego, do “eu”, e conhecer o “eu” como ele é, com suas ambições, invejas, exigências agressivas, suas fraudes, a divisão entre alto e baixo – desvendar o ego de modo que se revele não só a mente consciente, mas também a inconsciente, que é o armazém das tradições do passado, os séculos de depósitos de todos os tipos de experiências. Conhecer a totalidade disso é o fim disso. Então a mente, não estando interessada na sociedade, no reconhecimento, em reformas, nem mesmo na transformação de si mesma, descobre que há uma mudança, que há uma transformação que não resulta de esforço proposital de produzir um resultado.

Interrogante: Sou um artista e muito me interesso pela técnica da pintura. Seria possível que esse próprio interesse seja impedimento à verdadeira expressão criativa?

 Krishnamurti: Pergunto-me por que a maioria de nós, o artista inclusive, estamos tão interessados em técnica. Estamos todos perguntando como – como é que vou ser mais feliz, como é que vou encontrar a Deus, como é que vou ser um artista melhor, como é que vou fazer isto ou aquilo. Estamos todos interessados no “como”. Sou violento e quero saber como ser não-violento. Estando tão interessados na técnica, e, como o mundo só tem isso a oferecer, ficamos escravizados a ela. Buscamos a técnica porque queremos resultados. Quero ser um grande artista, engenheiro, músico; quero alcançar fama, notoriedade. Minha ambição leva-me a buscar o método.

Será que um artista, ou qualquer pessoa que esteja buscando uma técnica, pode realmente ser um artista? Ao passo que, se a pessoa ama aquilo que faz, não será ela um artista? Mas não compreendemos o que essa palavra significa. Será que posso amar alguma coisa por si mesma, por causa dela mesma, se sou ambicioso, se quero ser conhecido? Se eu quiser ser o melhor pintor, o melhor poeta, o maior santo, se eu estiver à procura de um resultado, será que realmente posso amar uma coisa por ela mesma? Se sou invejoso, se sou imitador, se houver algum temor, alguma competição, será que posso amar aquilo que estou fazendo?

Se eu amar uma coisa, então posso aprender a técnica – como misturar cores ou outra coisa qualquer. Mas, agora, não temos esse senso de real amor por uma coisa. Estamos cheios de ambição, de inveja; queremos ser um sucesso. Então, estamos aprendendo técnicas e perdendo a coisa real; aliás, não estamos perdendo a coisa, pois nunca a tivemos. Presentemente, toda a nossa mente está entregue a adquirir uma técnica que nos leve a algum lugar. Se amo aquilo que faço, certamente, então, não há problema algum, não há competição, não é verdade? Estou fazendo o que quero fazer – não porque isso me dê publicidade; para mim, isso não tem importância. O importante é amar totalmente o que se está fazendo, e então esse amor é o guia.

Se os pais quiserem que seu filho siga suas pegadas, para ser alguma coisa; se os pais tentam se realizar por meio dos filhos, então não há amor; é só autoprojeção. O próprio amor da criança desenvolverá sua própria cultura, não é mesmo? Mas, infelizmente, não pensamos assim. Então, há todo esse problema, esse impressionante desenvolvimento da técnica.

Interrogante: Estou inteiramente ocupado com os cuidados, as alegrias e tristezas da vida diária. Estou muito consciente de que a minha mente é exclusivamente tomada pela ação, reação e pelo motivo, mas não consigo ir além disso. Desde que comecei a ler seus livros e ouvir suas palestras, percebo que existe um modo de viver completamente diferente, mas não encontro a chave que abrirá a porta da minha diminuta, estreita morada, e me levará à liberdade. Que devo fazer?

 Krishnamurti: Pergunto-me se estamos conscientes das coisas de que a nossa mente se ocupa! Como diz o cavalheiro que fez a pergunta, a mente está ocupada somente com coisas superficiais – ganhando o sustento, cuidando dos filhos, e tudo o mais. Mas, sabemos do que a nossa mente se ocupa em um nível mais profundo? Fora as ocupações diárias, sabemos com que se preocupa a nossa mente em um nível diferente, o inconsciente? Ou está a nossa mente consciente de tal modo ocupada durante o dia, todo o tempo, que não sabemos com que se preocupa o inconsciente? Estamos conscientes das coisas com que nos ocupamos além da rotina diária, da existência diária?

Para a maioria de nós, a nossa ocupação é com o processo diário de viver, e estamos preocupados com como produzir uma mudança nisso – um melhor ajustamento, mais felicidade, menos disto e mais daquilo. Manter a felicidade superficial, livrar-nos de certas coisas que nos causam dor, evitar certas tensões e desconfortos, ajustar-nos a certos relacionamentos, etc. – eis toda a nossa ocupação.

Podemos por de lado essa ocupação – deixá-la continuar, na superfície, e descobrir, bem no fundo, com o que a nossa mente está ocupada inconscientemente? Todos nós percebemos que precisa haver algum tipo de ajustamento na superfície. Mas, será que estamos preocupados com a ocupação profunda da mente? Será que eu sei, e será que você sabe, com o que a mente mais profunda está ocupada? Certamente deveríamos descobri-lo, pois tal ocupação pode traduzir-se nas ocupações e ajustamentos superficiais, com suas alegrias e tristezas, suas misérias e provações. Portanto, a menos que você e eu conheçamos as ocupações mais profundas da mente, a simples alteração na superfície terá muito pouco significado.

Certamente, toda ocupação superficial deve findar se eu quiser encontrar a “outra coisa”. Se a minha mente estiver ocupada todo o tempo com ajustes superficiais, nivelando o quadro que alguém desnivelou, sempre preocupada com as coisas de casa, com as crianças, com a esposa, com o que a sociedade pensa e não pensa, com a opinião do meu vizinho, etc. – poderá tal mente, que está sempre ocupada, descobrir sua própria ocupação profunda? Ou não precisará terminar a ocupação superficial? Noutras palavras, podemos deixar que isso continue, ajustar-nos sem esforço, mas também investigar profundamente aquilo com que a nossa mente está ocupada em um nível mais profundo? Com o que ela está ocupada em um nível mais profundo? Será que você e eu o sabemos? Ou apenas conjeturamos sobre isso ou achamos que outra pessoa no-lo possa dizer? Certamente não posso descobrir, a menos que não esteja totalmente ocupado com os ajustes superficiais. Noutras palavras, é preciso ficar livre do superficial para descobrir. Mas não ousamos livrar-nos, não ousamos abandonar, porque não sabemos o que há por baixo; estamos assustados, apavorados. É por isso que estamos ocupados, a maioria de nós. Bem no fundo, precisa haver completa solidão, uma sensação de profunda frustração, medo, ambição torturante, ou o que você quiser – pois disso não estamos completamente conscientes. Mas, estando um pouco conscientes, ou estando levemente alertas, estamos assustados com tudo isso. Então estamos preocupados com a sala, os quadros, os abajures, com quem vem e com quem vai, com as festas; lemos livros, ouvimos o rádio, juntamo-nos a grupos – todas as coisas deploráveis. Tudo isso pode ser uma fuga da questão mais profunda. E, para examinar a questão mais profunda, é preciso abandonar a sala e o conteúdo da sala. Infelizmente, queremos a sala, e a descoberta da “outra coisa” é algo que nunca nos permitimos experimentar.

Não é questão de tentar alcançar o nível mais profundo. Tentar é sempre uma questão de tempo. Se desejo investigar a questão mais profunda e vejo a necessidade de abandonar as coisas superficiais, então não há tentativa. Não tento abrir a porta e conscientemente fazer um movimento para sair da casa. Sei que preciso sair e saio – a porta está lá. Não há nenhuma tentativa de alcançar aquela porta; você não está pensando em termos de tentativa. Compreensão e ação acontecem ao mesmo tempo. Mas tal integração não pode ocorrer se você estiver preocupado apenas com o nível superficial.

Interrogante: Os sonhos têm alguma importância real? O que acontece durante o sono?

Krishnamurti: Acho que seria bom se pudéssemos entrar muito a fundo nessa questão. Portanto, se eu puder sugerir, não se limite a escutar a descrição, mas realmente experimente o que está sendo dito. Então talvez possamos entrar juntos no significado de todo esse processo de dormir e sonhar.

Durante o dia, as horas de vigília, estamos de tal modo ocupados com nossas aflições, com nossos sofrimentos, com nossos pequenos brinquedos, com o emprego, o ganha-pão, as modas efêmeras, e tudo o mais, que nunca recebemos uma insinuação, uma pista das coisas mais profundas; a mente superficial está demasiado ocupada, demasiado ativa. Então, quando dormimos, começamos a sonhar, e você pode ver que os sonhos tomam várias formas, vários símbolos, que contêm as insinuações, as pistas. Então, compreendendo que esses sonhos têm algum tipo de importância, buscamos interpretações, procuramos traduzi-los para o nosso dia-a-dia. Assim, o intérprete torna-se muito importante, e gradualmente começamos a depender de outras pessoas psicologicamente. Ou interpretamos por nós mesmos de acordo com nossos gostos e aversões, e, novamente, ficamos aprisionados.

É possível nunca sonhar? Os psicólogos dizem que é impossível – dizem que, embora não nos lembremos dos sonhos, há sempre um processo de sonho se desenrolando. Mas será que eu posso, que você e eu podemos receber as insinuações, as dicas, nas horas de vigília, durante o dia, quando a mente está alerta? – pelo menos, supostamente alerta. Noutras palavras, será que a minha mente consegue não deixar passar nem um único pensamento – por favor, escutem – não deixar passar um único pensamento sem conhecer todo o conteúdo desse pensamento? O que não significa que eu esteja tão concentrado que não deixe nenhum pensamento escapar-me; você não consegue concentrar-se a esse ponto. O pensamento lhe escapará, mas haverá outros pensamentos.

Então, será que uma pessoa pode brincar com um pensamento (estou empregando a palavra brincar deliberadamente) e descobrir todo o seu conteúdo? – o motivo, a reação, e ainda outra reação daquele motivo. Isso significa não condenar aquele pensamento, não o justificar, não fazer comparação, não fazer avaliação, mas apenas observar aquele pensamento enquanto ele surge. Será que podemos vigiar cada pensamento, enquanto ele passa, de modo que a mente se torne cônscia da profundidade de cada pensamento e comece a purgar-se de todo o conteúdo de seus próprios pensamentos? – e nem há tantos pensamentos assim. E, quando a mente tiver terminado de observar o pensamento, de seguir o pensamento, poderia ela então convidar o pensamento, de modo que todos os pensamentos ocultos, acumulados na escuridão, possam ser trazidos à baila, examinados, olhados, investigados – novamente, sem condenação, sem avaliação – só observados para se conhecer todo o seu conteúdo?

Não estou descrevendo um método. Por favor, não traduza isso como um método de esvaziar a mente para não sonhar. Porque todos os sonhos, como dissemos, são meras insinuações, pistas, as quais se tornarão desnecessárias se, durante a vigília, estivermos extraordinariamente alertas, vivos, cônscios de todas as coisas interiores. Então, o que acontece quando a pessoa vai dormir? Como a mente consciente descobriu todas as insinuações, pistas, advertências, e entrou fundo no inconsciente durante o dia, ela ficou fatigada e quieta. Então não há contradição, não há conflito entre o consciente e o inconsciente; há quietude. Então a mente pode ir além, pode alcançar algo que a mente consciente e a inconsciente jamais poderá alcançar.

Não sei se você já fez uma experiência com isso, só para se divertir – não para alcançar algum resultado, não para descobrir um estado de consciência que não tenha sido tocado, corrompido, por nenhum ser humano, pois então isso se torna uma barganha, um negócio. Mas, se a pessoa puder, realmente sem motivo, somente descobrir, então o sono tem muita importância. O que estou dizendo nada tem a ver com o plano astral e todas essas coisas, as imaginações e peculiaridades de determinado condicionamento – tudo isso precisa desaparecer, é claro. Tudo aquilo que a pessoa adquiriu, aprendeu, precisa desaparecer totalmente. Somente então é possível, durante o estado que chamamos de sono, a existência de algo que a mente não pode perceber; e, ao despertar, a mente se faz nova. Uma fonte passou a existir que não é produto das nossas ambições, invejas, desejos e buscas.

Acho muito importante entender tudo isso. E, para entender isso, a pessoa precisa ter autoconhecimento – como a mente trabalha durante o dia, seus motivos, suas ações e reações – de modo que, ao fim do dia, a mente consciente se torne muito quieta. Então, a contradição entre o consciente e o inconsciente tendo sido compreendida, a mente torna-se realmente quieta – em vez de forçada a quietar-se. A mente forçada a quietar-se é uma mente morta, uma mente corrompida. Mas a mente que está quieta porque compreendeu, a mente que chega à quietude em decorrência do autoconhecimento – tal mente, durante o sono, poderá talvez alcançar algo, ou melhor, algo mais poderá alcançar a mente, algo que a própria mente não consiga alcançar. Então, parece-me que um sono assim tem importância nas horas de vigília.

Mas isso exige um grande mergulho, e não aferrar-se a coisa alguma que se tenha descoberto. Porque, se estiver preso ao seu conhecimento, ou ao conhecimento alheio, você não consegue ir muito longe. É preciso que haja a morte para tudo aquilo que foi acumulado, para cada experiência com que se tenha regozijado ou da qual se tenha afastado. É só então que algo que está além da mente pode tocá-la.

24 de junho de 1955.

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