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26/06/1955 – T

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6ª palestra em Londres

Acho importante descobrir por nós mesmos o que é que estamos buscando e por que o estamos buscando. Se pudermos examinar isto em profundidade, penso que descobriremos muitas coisas aí implicadas. A maioria das pessoas busca algum tipo de preenchimento. Estando descontentes, queremos encontrar contentamento – seja em algum relacionamento, seja realizando certas aptidões, seja procurando algum tipo de ação que seja inteiramente satisfatória. Ou, caso não tenhamos tal perfil, então geralmente buscamos o que pensamos ser a verdade, Deus, etc. A maioria das pessoas busca alguma coisa, e, se pudéssemos descobrir, por nós mesmos, o que é que estamos buscando e por que é que o buscamos, acho que isso revelaria muita coisa.

Estando descontentes com nós mesmos, com nosso ambiente, com nossas atividades, nosso emprego, a maioria de nós quer um emprego melhor, uma posição melhor, melhor compreensão, atividades mais amplas, uma filosofia mais satisfatória, uma capacidade que seja inteiramente gratificante. Exteriormente, isso é o que desejamos, e, quando isso não nos satisfaz, vamos um pouco mais fundo: buscamos filosofias, participamos de reformas, juntamo-nos a vários grupos de discussão, e assim por diante – e, mesmo assim, há descontentamento.

Parece-me que é importante descobrir se o motivo da nossa busca é compreender o descontentamento, ou encontrar satisfação. Sendo satisfação aquilo que estamos buscando, em qualquer nível, então obviamente nossas mentes tornam-se muito insignificantes. Mas talvez haja um descontentamento sem um objeto, descontentamento em si mesmo, que não seja o impulso de alcançar um resultado, de chegar a algum lugar. Penso que a maioria de nós, insatisfeita com os seus relacionamentos, seus estilos de vida, suas atitudes, com os valores que tem, está tentando livrar-se deles todos e encontrar outro conjunto de valores, outros relacionamentos, outros ideias, outras crenças; mas, por trás de tudo isso, encontra-se o impulso de autossatisfação. Penso que seria importante podermos descobrir, por nós mesmos, se há realmente um descontentamento sem motivo, que não seja resultante de alguma frustração – porque esse próprio descontentamento sem motivo pode ser a qualidade que é necessária.

Presentemente, quando buscamos, a nossa busca resulta da insatisfação, do descontentamento, e o nosso motivo é encontrar gratificação de uma forma ou de outra. Especialmente quando falamos sobre a verdade, ou Deus, estamos – não é mesmo? – buscando algum estado mental que seja completamente satisfatório. Não importa se a mente é ampla, engenhosa, tenha muita ou pouca capacidade, se estiver buscando satisfação – conquanto sutil – então os seus deuses, suas virtudes, suas filosofias, seus valores, serão obrigatoriamente insignificantes, pequenos, superficiais.

Será possível a mente ficar livre de toda busca? Isso significa, realmente, ficar livre daquele descontentamento que tem por fim encontrar satisfação. Porque, por mais engenhosa e inteligente que seja a mente, e sejam quais forem as virtudes que tenha cultivado, se estiver apenas buscando alguma forma de gratificação, certamente será incapaz de compreender o que é verdadeiro. Certamente, todo o processo de pensamento é insignificante, muito limitado. Afinal, o pensamento é o resultado de memória acumulada, de associação, de experiência, de acordo com o nosso condicionamento; o pensamento é a reação dessa memória, é a resposta de uma mente condicionada. Quando esse condicionamento cria insatisfação, então qualquer resultado dessa insatisfação será, certamente, condicionado. Nossa investigação permanece absolutamente fútil enquanto estiver baseada em um descontentamento que é mera reação a determinado condicionamento.

Se a pessoa vê isso, então se pergunta se existe outra forma de descontentamento – se há um descontentamento que não seja canalizado, que não tenha nenhum motivo, que não esteja buscando preenchimento. E pode ser que esse descontentamento sem nenhum motivo, o descontentamento que não seja resposta a um condicionamento, seja o descontentamento essencial. Presentemente, o nosso pensamento, a nossa investigação, tem um motivo, e esse motivo baseia-se na nossa exigência de encontrar algum estado permanente de completa satisfação, em que não haja perturbação de nenhum tipo – estado que chamamos de paz, que chamamos de Deus ou verdade, e o propósito de toda a nossa busca é alcançar esse estado.

Portanto, para a maioria de nós, a busca baseia-se na exigência de satisfação, de um estado de permanência em que jamais sejamos perturbados. E pode tal mente, pensando a partir do motivo que é encontrar satisfação, descobrir o que é verdadeiro? Parece-me que a pessoa precisa compreender, por si mesma, por que ela busca, e não ficar satisfeita com nenhuma palavra escolhida, com nenhum fim ou objetivo escolhido, por mais enobrecedor, inspirador ou ideal que possa parecer. Porque, certamente, o próprio caminho do ego, do “eu”, é esse constante processo de descontentamento dirigido para um preenchimento; isso é tudo que conhecemos. Quando não há preenchimento, há frustração, e então surgem os muitos problemas de como superar essa frustração. Então, a mente busca um estado no qual não haja frustração alguma, nenhuma dor. Portanto, nossa própria busca da chamada verdade pode não passar de preenchimento, de expansão do ego, do “eu”. Somos, então, apanhados por esse círculo vicioso.

Se a pessoa estiver consciente de tudo isso completamente, totalmente, então não há sentimento de preenchimento em nenhuma crença, em nenhum dogma, em nenhuma atividade, em nenhum estado específico. A busca de preenchimento implica dor, frustração; e, vendo a verdade disso, a mente já não busca.

Penso haver uma diferença entre a atenção que é dada a um objeto e a atenção sem objeto. Podemos concentrar-nos em determinada ideia, crença, objeto – que é um processo excludente, e há também uma atenção, um percebimento, que não é excludente. Semelhantemente, há um descontentamento que não tem motivo, que não é resultado de alguma frustração, que não pode ser canalizado, que não pode aceitar nenhum preenchimento. Talvez eu não esteja usando a palavra certa para isso, mas penso que esse extraordinário descontentamento é o essencial. Sem isso, todas as outras formas de descontentamento tornam-se um caminho para a satisfação.

Então pode a mente, estando consciente de si mesma, conhecendo seus próprios modos de pensar, pôr um fim a essa exigência de autopreenchimento? E, quando isso chega ao fim, pode a pessoa continuar sem buscar e ficar em completo estado de vazio, sem esperança e sem medo? Não é preciso chegar a esse estado em que há completa cessação de toda busca? – pois só então é possível acontecer alguma coisa que não seja produto da mente.

Afinal, o nosso pensamento é resultante do tempo, de muitos ontens; e, por meio do tempo, que é pensamento, estamos tentando encontrar aquilo que está além do tempo. Estamos usando a mente, instrumento do tempo, para encontrar algo que não pode ser medido. Então, será que a mente pode cessar totalmente, para que algo mais aconteça? O que não significa, de modo algum, um estado de amnésia, de branco, uma ausência de pensamento. Ao contrário, isso exige grande vigilância, uma percepção na qual não existe nenhum objeto nem uma entidade que esteja cônscia.

Acho importante compreender isso. Presentemente, quando estamos cônscios no dia-a-dia, nessa percepção existe condenação, julgamento, avaliação; essa é a nossa percepção normal. Quando olhamos para um quadro, imediatamente inicia-se todo o processo de condenação, comparação, avaliação, e nunca vemos o quadro, porque o filtro que é o processo de avaliação interpõe-se entre você e o quadro. Seria possível olhar para aquele quadro sem nenhuma avaliação, sem nenhuma comparação? Igualmente, posso olhar para mim mesmo, seja eu o que for – todos os erros, misérias, fracassos, tristezas alegrias – e ver tudo isso sem avaliação, apenas estar cônscio disso, sem introduzir o filtro da condenação ou comparação?Se a mente for capaz de fazer isso, então descobriremos que essa mesma percepção elimina a raiz de qualquer problema específico.

Quando a mente está desse modo cônscia, totalmente cônscia, então não há busca; a mente já não está comparando, buscando satisfação, pensando em termos de realizações. Nesse caso, será que a mente não é, ela mesma, atemporal? Enquanto a mente estiver comparando, condenando, julgando, estiver condicionada, então ela está no tempo; mas, quando tudo isso tiver cessado, então não é a própria mente aquele estado que pode ser chamado de eterno?Nele não há observador algum, nenhum experimentador com suas associações, com suas lembranças, que esteja buscando – coisas que são, todas elas, produtos do tempo. Enquanto o experimentador estiver buscando, tentando preencher-se, tentando acumular experiência, mais conhecimento, tentando encontrar campos mais vastos nos quais viver, ele estará criando tempo, e, quaisquer que sejam suas ações, elas sempre estarão no campo do tempo. Aquilo que não tem medidas jamais poderá ser encontrado pelo experimentador, pelo que busca. É só naquele estado em que a mente já não está buscando, quando a mente não está cultivando, mediante a busca, um fim a ser alcançado – só então a realidade poderá manifestar-se.

Pergunta: Estou deveras interessado no que o senhor está dizendo e sinto-me cheio de entusiasmo. O que posso realmente fazer sobre isso?

Krishnamurti: O entusiasmo logo acaba. Se o senhor estiver inspirado apenas pelo que está sendo dito, essa inspiração logo desaparecerá e o senhor procurará outra forma de inspiração ou outra sensação. Mas, se o que está sendo dito for parte da sua própria descoberta, se for resultado da sua própria investigação interior, então essa coisa é sua, não é coisa de outrem. Mas, se for coisa de outrem, então o senhor estará lidando com todo o complicado, cansativo e corrosivo processo de construção de uma autoridade e de adoração da autoridade. Se o senhor tiver ouvido, e tiver compreendido, então, naturalmente, fará alguma coisa a respeito; mas, se estiver apenas entusiasmado, “inspirado”, então o senhor se unirá a grupos, formará sociedades, organizações – o que se tornará outro obstáculo.

Afinal, do que é que estamos falando? Não estou dizendo nada de novo. Só estamos tentando compreender como olhar para nós mesmos, como observar o inteiro processo da consciência – o que nós somos. Para a pessoa se compreender, deve haver autoconhecimento, uma percepção na qual não haja condenação, comparação, julgamento – apenas a capacidade de ficar atento, de conhecer o caminho do nosso pensamento, o caminho do nosso ego; e, para isso, certamente não há necessidade de autoridade alguma. Depende de você, como indivíduo, descobrir por si mesmo.

A dificuldade é que queremos encorajamento, queremos companheirismo; queremos que nos digam que estamos indo bem; queremos encontrar outros que pensem como nós – coisas que são distrações. Isto é coisa que precisa ser feita por você mesmo, totalmente. Você descobrirá – se me permite sugerir, ao aprofundar-se mais e mais no todo da questão – descobrirá espontaneamente um estado que agirá por si mesmo; você não precisará fazer nada. Se você descobrir algo real, essa verdade operará por si mesma. Mas nós queremos operar sobre a verdade; queremos fazer algo a respeito dela. Portanto, começamos a condicionar-nos ainda mais, com cada tipo de experiência, para satisfazer nossa particular vaidade por meio de ação.

Mas acho que há uma atividade que passa a existir, não em decorrência de escutar umas poucas palestras ou ler alguns livros; é uma atividade que surge porque você mesmo experimentou um estado além da mente. Mas, se você se aferrar a essa experiência e tentar agir a partir dela por pensar que compreendeu alguma coisa, então ela se torna o seu próprio impedimento.

Pergunta: Como podemos ter paz neste mundo?

Krishnamurti: Antes de mais nada, vejamos se alguém pode nos dar paz. Os políticos não nos podem dar paz. Não haverá paz enquanto houver nacionalistas, enquanto houver exércitos, governos separados entre si, barreiras de raça e, acima de tudo, barreiras de crenças, barreiras religiosas – pelo menos, a assim chamada religião. Pode haver paz por meio do terror, mas, certamente, isso não é paz. Paz é coisa inteiramente diferente, não é mesmo? Paz é a cessação da violência interior – aquela violência que se expressa por meio da ambição, da competição. E, estamos, você e eu, querendo abdicar das nossas ambições? Ser como nada?

Paz é um estado mental que não pode ser comprado. E como é que se pode chegar a esse sentimento interior de paz? Não mediante auto-hipnose, nem afirmando “Vou ser pacífico”, nem praticando a virtude da não-violência. Isso não passa de um processo de auto-hipnose para entrar em determinado estado mental. Será que a pessoa pode realmente, interiormente, psicologicamente, pôr de lado toda nacionalidade, toda ambição, todo sentimento de comparar-se com outra pessoa? – pois todas essas coisas produzem violência e inveja. Só então será possível, certamente, termos um mundo que possamos chamar de nosso.

O mundo não é nosso agora. A civilização ocidental está em oposição à civilização oriental, e há o mundo inglês, ou o mundo americano, ou o mundo dos comunistas, e assim por diante. Não é o nosso mundo, seu e meu, para nele vivermos. E o nosso mundo não poderá existir se qualquer um de nós tiver algum sentimento de nacionalidade, algum sentimento de competição, de tentar atingir um resultado, de tornar-se alguma coisa. Enquanto eu estiver tentando tornar-me alguma coisa, haverá violência – que se expressa em competição, em crueldade. Então, será possível que você e eu, realmente, não teoricamente, nos tornemos nada? – não como forma de fuga porque minhas ambições não foram realizadas e, por isso, tento tornar-me nada, ou porque não tenho oportunidades para minhas capacidades, e, portanto, tento tornar-me pacífico, mas porque compreendi todo o processo, a natureza interna, da violência.

Se amo alguma coisa por si mesma, não há necessidade de competição, não é mesmo? Se amo o que estou fazendo, não pelo que me trará – a recompensa, a punição, a realização, a notoriedade, e tudo o mais – mas pela coisa em si mesma, então todo o impulso de competição terá sido desarraigado de mim, pois já não estou interessado em quem é maior e quem é menor. E, por não pensarmos nesses termos, temos violência. Pode haver pactos, legislação talvez, que nos tragam paz superficial, mas interiormente estamos buscando, interiormente estamos competindo, lutando, tentando nos expressar, ser alguma coisa. E, enquanto existir essa violência, não haverá paz, faça você o que fizer.

Para haver paz, precisa haver compreensão profunda dos caminhos do ego, do “eu” que está competindo, tentando tornar-se alguma coisa. É muito difícil compreender e abandonar isso. Toda a nossa tradição, toda a nossa educação, nossa cultura social, tudo nos tem condicionado a ser alguma coisa, e pensamos que, se formos nada, seremos destruídos. De fato, estamos nos destruindo porque estamos tentando ser algo, quer como grupo, como indivíduos, quer como nação ou como classe; isso é o que está realmente acontecendo. Estamos nos destruindo porque exigimos ser alguma coisa. Mas, se pudermos entender o inteiro processo desse impulso para ser algo, então talvez, sendo nada, possamos encontrar um modo de vida diferente que talvez seja o único modo de vida correto.

Isso, porém, exige revolução total – não a revolução comunista ou qualquer outro tipo de revolução, mas a completa revolução interior, na qual não há divisão como no caso da sua religião e da minha religião, sua crença e minha crença. Então, este é o nosso mundo para nele vivermos. A partir deste sentimento de que o mundo é nosso, poderá surgir um tipo de cultura, de governo, de poder, totalmente diferente.

Pergunta: O senhor diz que, se a pessoa pensar completamente um pensamento que surja, ele não criará raízes e a pessoa ficará, assim, livre dele. Mas, mesmo quando eu fiz isso do melhor modo possível, o pensamento sempre voltou. Como posso lidar com isso?

Krishnamurti: O senhor tenta pensar um pensamento completamente porque deseja livrar-se dele, não é mesmo? Não é esse o seu motivo para tentar pensar um pensamento completamente? Pois o interrogante diz: “Não consigo livrar-me dele, ele sempre volta.” Então ele está interessado em livrar-se de determinado pensamento; este o motivo da sua investigação. Por conseguinte, ele não o está pensando completamente, pois tudo o que ele quer é ficar livre de determinado pensamento que seja cansativo, que seja doloroso. Se fosse agradável, obviamente ele o conservaria; portanto, não há problema algum; é do pensamento desagradável que ele quer se livrar. Então esse é o motivo para pensá-lo até o fim. E, se ele estiver interessado em determinado pensamento só com a ideia de livrar-se dele, já o estará condenando, não é mesmo? Ele só se opõe a um pensamento com o desejo de eliminá-lo.Então, como pode ele compreender o pensamento completamente quando sua intenção é livrar-se dele?

Portanto, o importante não é como pensar completamente um pensamento, mas compreender que você não pode pensar completamente se houver qualquer sentimento de condenação – o que é bem óbvio, não é? Se quero compreender uma criança, preciso estudar a criança, não devo condená-la, não deve dizer: “Esta criança é melhor do que aquela”, ou identificar-me com a criança. Preciso observar a criança – quando ela estiver brincando, quando estiver chorando, gritando, comendo, dormindo. Então, será que a minha mente pode observar um pensamento sem dar nome a ele? Pois o dar nome a um pensamento já é condená-lo.

Esse processo é deveras complexo, mas, se vocês fizerem a gentileza de escutar, estou certo de que compreenderão sua importância. Digamos que eu seja ávido, invejoso, quero entender a inveja completamente, e não somente livrar-me dela. A maioria de nós quer livrar-se dela e tenta várias maneiras de o fazer, por várias razões, mas nunca somos capazes de livrar-nos dela; e continua indefinidamente. Mas, se realmente quero compreendê-la, chegar à raiz da inveja, então certamente não devo condená-la. Sinto que a própria palavra “inveja” tem um sentido condenatório. E será que a mente consegue dissociar da palavra o sentimento chamado de inveja? Porque o nomear, o dar um nome àquele sentimento como inveja, com essa própria palavra eu já a condenei, não é verdade? À palavra inveja está associado todo o significado psicológico e religioso de condenação. Então, posso fazer a dissociação entre sentimento e palavra? Se a mente for capaz de não associar o sentimento à palavra, então será que existe uma entidade, um “eu”, que esteja observando? Porque, certamente, o observador é a associação, é a palavra, é a entidade que a está condenando.

Entremos um pouco mais neste assunto. Por favor, se me permitem sugerir, observem a própria mente em operação; não me escutem apenas intelectualmente, verbalmente, mas examinem qualquer sentimento de inveja ou de violência com o qual estejam acostumados, e o examinem comigo.

Digamos que eu seja invejoso. A reação comum a isso seria justificar a inveja ou condená-la.Estou justificando quando digo a mim mesmo: “Não sou realmente invejoso. Meu desejo de tornar-me alguém faz parte da cultura, faz parte da minha sociedade, e, sem isso, serei um ninguém.” Ou eu a condeno porque sinto que não é espiritual, ou por quaisquer outras razões. Então, eu abordo esse sentimento que chamo de inveja, ou justificando-o, ou condenando-o. Agora, se não fizer nem uma coisa nem outra – o que é extremamente difícil porque isso significa que tenho de libertar a mente de todos os meus condicionamentos do passado, da cultura na qual fui criado – se a mente ficar livre disso, então a mente precisará também livrar-se da palavra, pois essa palavra “inveja” implica condenação. Compreendem? Agora, minha mente é feita de palavras, de símbolos, de ideias; esses símbolos, ideias, palavras, sou “eu”. E pode haver um sentimento de inveja quando não há verbalização, quando há a cessação de tudo quanto está associado com o “eu”, que é a própria essência da inveja? Portanto, será possível experimentar inveja quando esse “eu” está ausente? – porque esse “eu” é a própria essência da condenação, da verbalização, da comparação.

Para pensar completamente um pensamento, para ir à própria raiz do pensamento, é preciso haver uma percepção na qual não exista nenhum sentimento de condenação, de justificação, e tudo o mais, nem sentimento de tentar superar um problema. Pois, se estou apenas tentando dissolver um problema, então a minha atenção está focada na dissolução dele e não na compreensão do problema. O problema é o modo como penso, o modo como ajo; e, se condeno o modo como sou, isso obviamente bloqueia uma investigação mais profunda. Se eu digo: “Não devo ser isto, e preciso ser aquilo”, então não há compreensão dos caminhos do “eu”, cuja própria natureza é inveja, impulso de aquisição.

A questão é: “Posso ficar de tal modo cônscio, sem sentimento algum de condenação ou comparação?” – pois só então será possível pensar completamente um pensamento.

Pergunta: O senhor parece descartar a ioga como coisa inútil, e concordo com o senhor em que a ioga é, com frequência, praticada como um método de fuga àquilo que é. Mas, se evitarmos a fixação artificial da mente em um objeto escolhido, e permitirmos que a nossa chamada meditação tome a forma de uma investigação sobre todo o campo do que é, sem esperarmos nenhuma respostas específica, isso certamente é o que o senhor recomenda. O senhor não acha também que poderemos fazer essa coisa difícil com mais facilidade se tivermos aprendido a aquietar o corpo e a respiração?

Krishnamurti: O interrogante quer saber, realmente, como meditar – se a quietação do corpo e a estabilização da respiração não ajuda na meditação – que é o processo de investigar o inteiro campo do que é, e não fugir dele. Então vamos descobrir como meditar.

Agora, se puderem gentilmente escutar sem focar a atenção em nenhuma sentença particular, em nenhuma frase da resposta, poderemos investigar toda a questão de como meditar. Para mim, o “como” não é, de modo algum, o problema. O problema é: “O que é meditação?” Se eu não souber o que é meditação, o simples inquirir sobre como meditar não tem significado nenhum. Portanto, minha investigação não consiste em como meditar, que método seguir, como ficar consciente daquilo que é, sem fugir, como sentar-se quieto, como repetir certas palavras, e assim por diante. Não estamos discutindo nada disso. Se eu souber o que é meditação, então a questão de como meditar não será um problema, certamente.

O que é meditação? Como não sabemos o que é meditação, não temos ideia de como começar a meditar; então, precisamos abordar este assunto com a mente aberta, não é verdade? Vocês entenderam? Vocês precisam abordar este assunto com uma mente livre, que diga “eu não sei”, e não com uma mente ocupada, que pergunte “como é que devo meditar?” Por favor, se quiserem mesmo seguir isto – e não aferrar-se ao que estou dizendo, mas realmente experimentar a coisa enquanto prosseguimos – então vocês descobrirão, por si mesmos, o significado da meditação.

Até agora abordamos este problema com uma atitude de perguntar como meditar, qual sistema seguir, como respirar, quais práticas de ioga realizar, e tudo o mais – porque pensamos saber o que é meditação e que o “como” nos levará a alguma coisa. Mas, realmente, sabemos o que é meditação? Eu não sei, nem vocês, penso eu. Então, ambos precisamos abordar a questão com uma mente que diga “Eu não sei” – embora possamos ter lido centenas de livros e praticado muitas disciplinas de ioga. Vocês não sabem realmente. Vocês apenas esperam, vocês apenas desejam, vocês apenas querem, por meio de determinado padrão de ação, de disciplina, chegar a determinado estado. E tal estado pode ser totalmente ilusório; ele pode ser apenas o seu desejo. E certamente é assim; ele é a sua projeção, uma reação à miséria da existência diária.

Portanto, a primeira coisa essencial não é como meditar, mas sim descobrir o que é meditação. Assim, a mente precisa abordar esse assunto sem conhecimento prévio – e isso é extremamente difícil. Estamos de tal modo acostumados a pensar que determinado sistema é essencial à meditação – seja a repetição de palavras, como oração, ou o assumir dada postura corporal, ou fixar a mente em dada frase ou num quadro, ou respirar regularmente, fazer o corpo ficar muito quieto, ter controle completo da mente; com tais coisas estamos familiarizados. E acreditamos que essas coisas nos levarão a algo que pensamos estar além da mente, além do transitório processo de pensamento. Pensamos já saber o que queremos, e agora estamos tentando comparar qual é o melhor caminho. Essa questão de “como meditar” é completamente falsa. Mas, posso descobrir o que é meditação? Esta é a pergunta real. Meditar, saber o que é meditação, é algo extraordinário; assim, descubramo-lo.

Certamente, meditação não consiste em seguir nenhum sistema. Será que minha mente tem condições de eliminar completamente essa tradição de seguir uma disciplina, um método? – que existe não só aqui, mas também na Índia? Isso é essencial porque não sei o que é meditação. Sei como me concentrar, como controlar, como disciplinar, o que fazer, mas não sei o que é que está no fim disso. A única coisa que me disseram foi: “Se você praticar essas coisas, conseguirá o que deseja”; e, sendo eu ambicioso, realizo essas práticas. Então, será que posso eliminar essa exigência de método para descobrir o que é meditação?

A própria investigação de tudo isso é meditação, não é verdade? Já estou meditando no próprio instante em que começo a investigar o que é meditação – em vez de procurar saber como meditar. No momento em que começo a descobrir por mim mesmo o que é meditação, minha mente, não sabendo, precisa rejeitar tudo quanto ela conhece – o que significa que preciso pôr de lado o meu desejo de alcançar um estado. Porque o desejo de alcançar é a raiz, a base, da minha busca de um método. Já conheci momentos de paz, de tranquilidade, e um sentido da “outra coisa”, e quero alcançar isso de novo, torná-lo um estado permanente; então, procuro o “como”. Penso que já sei o que é o outro estado e que um método me levará a ele. Mas, se já sei o que é a outra coisa, então essa coisa não é verdadeira; é somente uma projeção do meu desejo.

Minha mente, quando está realmente investigando o que é meditação, compreende o desejo de alcançar, de chegar a um resultado, e, assim, fica livre dessas coisas. Portanto, ela descartou completamente toda autoridade, porque não sabemos o que é meditação e ninguém pode ensinar-nos. Minha mente está completamente num estado de “não-saber”; não há método nenhum, nenhuma oração, nenhuma repetição de palavras, nenhuma concentração, pois ela sabe que a concentração é só outra forma de alcançar alguma coisa. A concentração da mente numa determinada ideia, esperando assim treinar-se para avançar por meio de exclusão, implica novamente um estado de “saber”. Então, se eu não souber, todas essas coisas precisam desaparecer. Já não penso em termos de alcançar, chegar. Já não há um sentimento de acumulação que me ajudará a alcançar a outra margem.

Assim, quando eu tiver feito isso, porventura não terei descoberto o que é meditação? Não há conflito, não há luta; há um sentimento de não-acumulação – todo o tempo e não em um momento específico. Portanto, meditação é o processo de completo desnudamento da mente, a purgação de todo sentimento de acumulação e realização – que é a própria essência do ego, do “eu”. A prática dos diversos métodos só faz fortalecer esse “eu”. Você pode encobri-lo, pode embelezá-lo, refiná-lo, mas ele continua sendo o “eu”. Então, meditação é o desnudamento dos caminhos do ego.

E você descobrirá, se puder aprofundar-se nisso, que nunca há um momento em que a meditação se torna um hábito. Pois o hábito implica acumulação, e, onde houver acumulação, há o processo do ego pedindo mais, exigindo mais acumulação. Tal meditação está dentro do campo do conhecido e não significa nada senão um meio de auto-hipnose.

A mente só consegue dizer “Eu não sei” – realmente e não só verbalmente – quando tiver varrido de si, mediante percepção, mediante autoconhecimento, todo esse sentimento de acumulação. Então, meditação é morrer para as próprias acumulações – e não alcançar um estado de silêncio, de quietação. Enquanto a mente for capaz de acumular, haverá sempre o desejo de mais. E o “mais” exige o sistema, o método, o estabelecimento de autoridade – coisas que constituem os próprios caminhos do ego. Quando a mente tiver visto completamente a falácia disso, então ela estará em constante estado de “não-saber”. Tal mente terá condições de receber aquilo que não pode ser mensurado e que só se manifesta de momento a momento.

26 de junho de 1955

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