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07/07/1963 – T

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=749&chid=5066&w=

 

1ª palestra em Saanen, Suíça.

Como haverá dez palestras, acho que deveríamos estabelecer as bases corretas na primeira palestra, não só verbalmente, mas também, de modo mais significativo e diferente. Este modo diferente irá requerer a ativa cooperação de todos nós, e não o ouvir passivo ao que está sendo dito, que não é realmente de grande importância. Mas se conforme ouvirmos, pudermos deliberada e seriamente examinar nossos próprios corações e mentes e estabelecer a base correta em nós mesmos, então estas reuniões terão uma grande significação.

Agora, se puder, eu gostaria de explicar o que quero dizer com a palavra sério. A maioria de nós considera que somos sérios, ou seja, dados à consideração deliberada dos problemas da vida – e até certo ponto somos; de outro modo, não estaríamos aqui. Vocês gastaram um bocado de dinheiro, energia, e tempo, e se submeteram aos incômodos de viajar para chegar aqui, então vocês devem ser de algum modo sérios; mas vamos descobrir juntos o que queremos dizer com essa palavra.

Vocês sabem, a mente pequena, uma mente que é superficial, pode também tornar-se muito séria; mas quando ela se torna séria é um tanto absurda. Não sei se vocês já notaram que as pessoas de mente vazia são muitas vezes muito sérias. Elas usam muitas palavras; assumem um ar superior, e para tal mente tudo se torna um problema a ser estudado, analisado, examinado; mas ela continua sendo uma mente superficial. E existe a mente que leu muito, que pode argumentar engenhosamente, analisar, que é capaz de falar a partir de um grande depósito de informação. Como vocês sabem muito bem, esse tipo de mente é astuta, afiada, capaz, mas eu não a chamaria de mente séria mais do que faria com a mente superficial que tenta ser séria. Existe também a mente que é sentimental, emocional, facilmente levada a um tipo superficial de sentimento que é chamado devoção; mas, para mim, tal mente também não é séria.

Por mente séria quero dizer uma mente que é profundamente religiosa. Uma mente religiosa pode ser intelectual; ela pode argumentar, discutir, mas tem sua base num nível completamente diferente. Uma mente religiosa não é aquela que pertence a alguma sociedade particular, grupo, ou religião organizada. Tais pessoas não são sérias de fato, embora possam se tornar monges e freiras e ir à igreja todos os dias, ou três vezes por dia, ou o que quer que façam. Não estou sendo dogmático ou intolerante, mas vocês verão conforme avançarmos, quão necessário, quão imperativo é ter uma mente que não fica meramente buscando, pois a mente que fica buscando está sempre em conflito. Investigarei tudo isto durante estas dez palestras.

O que é importante é ter uma mente que tenta – ou antes, eu preferiria não usar a palavra tentar, pois é uma palavra burguesa, se posso falar assim sem implicar condenação. Eu não dou à palavra burguês o significado que os comunistas dão. Quero dizer apenas que é uma mente tola, comum, que diz, “Eu vou tentar”. Seriedade não é uma questão de tentar; é uma questão de ser.

Chamo de mente séria aquela que está constantemente olhando, observando, estando cônscia de si mesma e dos outros, vendo seus próprios gestos, palavras, o modo como fala, o modo como anda; e que está também cônscia das coisas a sua volta, as pressões, as solicitações, a influência do meio, da cultura na qual foi criada, e de todos os seus próprios condicionamentos. Tal mente, estando totalmente cônscia, eu a chamo de uma mente séria. Só tal mente pode deliberadamente considerar e dar sua energia para descobrir algo além das coisas que foram reunidas pelo homem – algo que pode ser chamado de Deus, ou o que você quiser.

Assim, penso que ser realmente sério é absolutamente necessário durante estas três semanas, se quisermos chegar a um entendimento das coisas sobre as quais estamos falando. Como eu disse, a maioria de nós considera que somos sérios, mas receio que a qualidade que vemos como seriedade deve ser completamente mudada, porque no sentido em que estou usando a palavra, não somos sérios. Muitos de vocês me ouviram repetidamente, feliz ou infelizmente, nos últimos quarenta anos, e se tivessem sido sérios, estariam completamente transformados. E o mundo precisa de tal transformação, uma completa mutação da mente. Mas essa mutação não pode acontecer por nenhuma prática deliberada, ou se aderindo a uma série de ideias astuciosas, teológicas ou práticas. A transformação a que me refiro não é gerada por uma ideia – “ideia” sendo uma conclusão racionalizada, lógica, um sistema de palavras e pensamentos organizados. Por mais que a pessoa possa organizar o pensamento e agir sobre ele, através desse pensamento e dessa ação a mutação não pode acontecer. É algo totalmente diferente; é uma qualidade completamente diferente, e sobre isto eu vou falar durante estes vários encontros.

Agora, uma das principais perguntas que nos fazemos é: Quão fundo ou a que profundidade pode a mente penetrar em si mesma? Essa é a qualidade da seriedade, porque implica estar cônscio de toda a estrutura do seu próprio ser psicológico – com suas ânsias, suas compulsões, seu desejo de preenchimento e suas frustrações, suas misérias, solicitações e angústias, suas lutas, sofrimentos, e seus inumeráveis problemas. A mente que perpetuamente tem problemas não é de fato séria, mas a mente que compreende cada problema conforme ele surge e o dissolve imediatamente de modo que ele não seja levado para o dia seguinte – tal mente é séria.

Mas infelizmente somos educados de forma errada. Nunca somos realmente sérios exceto quando alguma crise surge, quando alguma demanda tremenda nos é feita, ou recebemos algum choque terrível. Então tentamos ser sérios, tentamos fazer alguma coisa – mas aí é muito tarde. Por favor, acreditem em mim, não estou sendo cínico; estou apenas mostrando fatos.

Em que estamos mais interessados? Se temos dinheiro, nos voltamos para as chamadas coisas espirituais, ou para distrações intelectuais, ou discutimos arte, ou vamos pintar para nos expressar. Se não temos dinheiro, nosso tempo é usado dia após dia para ganhá-lo, e ficamos presos nessa miséria, na infindável rotina e enfado disso. A maioria de nós é treinada para funcionar mecanicamente em algum trabalho, sai ano e entra ano. Temos responsabilidades, esposa e filhos para prover, e presos neste mundo louco, tentamos ser sérios, tentamos nos tornar religiosos, vamos à igreja, nos unimos a esta organização religiosa ou àquela – ou talvez ouvimos a respeito desses encontros e porque temos folga, chegamos aqui. Mas nada disso provocará esta extraordinária transformação da mente. O mundo está num estado de crise, e há desintegração, degeneração. Estamos presos nesta onda de degeneração, e parecemos ser completamente incapazes de sair dela. Agora, se estas palestras tiverem que ter algum valor, alguma significação, devemos discutir o que fazer, como sair desta onda de degeneração. A maioria de nós está envelhecendo; aqueles que me ouviram, feliz ou infelizmente, durante os últimos trinta ou quarenta anos estão obviamente muito mais velhos do que estavam quando começaram a ouvir. Eles degeneraram fisicamente, e psicologicamente – bem, eles sabem se degeneraram ou não. E durante estas palestras, e durante as perguntas e respostas depois, eu gostaria que descobríssemos por nós mesmos, sem nenhuma sombra de dúvida, a extraordinária energia que surge espontaneamente e que natural e inevitavelmente nos puxará desta onda de degeneração. Não que nós vamos ficar mais jovens fisicamente – essa é uma daquelas ideias absurdas, fantasiosas, românticas. Estou falando de um estado interno da mente que não se degenera.

A degeneração surge quando há conflito de qualquer espécie, e é esse conflito que faz de você o chamado indivíduo. Através do conflito você desenvolve o caráter, e dentro da estrutura psicológica da presente sociedade, você tem conflito e assim tem caráter. Aí, caráter é resistência. Para deixar o mundo e se tornar monge, você precisa de caráter. Mas nós não estamos falando de caráter, que é comparativamente fácil de adquirir. Estamos falando de uma mente que está completamente livre de conflito, e só tal mente – uma mente que está totalmente livre de conflito de qualquer espécie, consciente assim como inconsciente – não tem problema. Se algum problema surge, ela pode encará-lo e dissolvê-lo imediatamente. Tal mente é individual no verdadeiro sentido da palavra; ela é única. E me parece extraordinariamente importante que devemos ser tais indivíduos – mas não somos. Por individualidade quero dizer uma mente que está completamente sozinha. Embora tenha passado por milhares de experiências, conhecido milhares de memórias, vivido milhares de anos, tal mente encarou a si mesma e não é mais escrava da estrutura psicológica da sociedade. Está sozinha – com isso não quero dizer que está isolada. Existe uma enorme diferença entre as duas coisas. A mente que se isola torna-se neurótica. A mente isolada identificou-se com uma ideia particular ou crença – ou seja, com uma forma particular de conforto psicológico – e quanto mais ela assim se isola, mais espera libertar-se do conflito. Mas o próprio processo de isolamento é conflito, é resistência. Discutiremos isto conforme avançarmos, mas estamos falando agora sobre a mente que se tornou um indivíduo através do estar cônscia de seus próprios processos e de compreender a estrutura, a psique de si mesma, a consciente assim como a inconsciente. É possível ir além do inconsciente, mas este não é o momento de entrar em detalhes sobre o que é o inconsciente, e como ir além dele. O que estamos fazendo esta manhã é estabelecer a base para investigação posterior.

Agora, só uma mente que está completamente só pode descobrir a realidade. E existe uma realidade – não uma realidade teórica, não algo inventado pelos cristãos ou pelos hindus ou vivenciado por alguns santos de acordo com seu condicionamento particular, mas uma realidade, uma imensidão que pode ser descoberta apenas por uma mente que viu através de seus próprios caminhos e compreendeu a si mesma.

Vocês sabem, é uma coisa extraordinária descobrir por si mesmo, o que significa compreender alguma coisa imediatamente, sem uma porção de palavras – ver um fato como um fato, completamente, sem argumentação. A partir desse ato de ver, a pessoa pode argumentar, discutir, entrar em detalhes; mas primeiro a pessoa tem que ter essa espantosa intensidade de ver, pois é o próprio ato de ver – ver sem pensamento – que provoca a transformação. Isto pode parecer um tanto absurdo, mas não é, como vocês descobrirão quando investigarmos mais tarde.

Nós olhamos para tudo, ouvimos tudo, como vocês estão ouvindo agora. Vocês ouvem apenas palavras, e as palavras produzem certas reações, conscientes ou inconscientes, e essas reações interpretam o que vocês ouvem. Vocês já sabem sobre o que o orador está falando porque o ouviram durante trinta anos, ou leram muito, não só sobre o que ele fala, mas sobre outras coisas também. Desse background as palavras geram uma reação, e essa reação impede você de ouvir, impede você de ver. Imagino se vocês já notaram, quando de repente você vê alguma coisa bela – uma montanha majestosa, ou um rio correndo ligeiro, ou um lindo sorriso no rosto de uma criança – como você olha para ela, como a vê. No primeiro momento não há pensamento – a coisa é muito bela para palavras. Mas um segundo depois a verbalização ocorre, e você começa a interpretar, traduzir; você volta para sua memória. Todas essas ações impedem o ver, impedem o ouvir.

Agora, mesmo que tenham me ouvido inúmeras vezes, podemos nós, conforme avancemos nestas palestras três vezes por semana, descobrir por nós mesmos o que é este ato de ver, este ato de ouvir? Se pudermos fazer isso, tudo o mais se segue porque o próprio ato produz a transformação. Mas para ver, para ouvir, a mente deve estar completamente e espontaneamente quieta – não forçada, não empurrada para a quietude. Só uma mente quieta pode ouvir, pode ver, não uma mente que tem inumeráveis problemas. Quando a mente percebe que não pode ver porque tem muitos problemas, esse próprio saber que ela não pode ver provoca o ato de ver.

Tudo isto demanda uma extraordinária atenção. Quando você pode dar toda atenção, não só atenção intelectual ou verbal, mas quando todo o seu ser – corpo, mente, e emoção – está atento, você está então num estado da mais alta sensibilidade, e apenas tal mente é virtuosa.

Por favor, ouçam isto. O homem que se esforça pela virtude não é um homem virtuoso. O homem que se esforça para ser bom, amável, não é bom ou amável, porque bondade, amabilidade, ou amor só surgem quando a mente está tão completamente atenta que não tem conflito.

Espero que entendamos todas estas coisas conforme caminhamos juntos nas próximas três semanas. Talvez agora vocês poderão fazer perguntas sobre o que estive falando esta manhã, e podemos discutir algumas delas.

Interrogante: A deterioração da mente que está ocorrendo em cada um de nós não é resultado da distração?

Krishnamurti: Ora, senhor, por que somos distraídos? E por que não seríamos distraídos? Enquanto estou falando, é distração ouvir àquele riacho, ouvir os pássaros, ver as folhas verdes brilhando ao sol? Certamente, torna-se uma distração só quando você quer colocar tudo de lado a fim de concentrar-se no que estou dizendo. Distração implica conflito, não é? Você quer prestar atenção ao que estou dizendo, mas sua mente vagueia para o pássaro, para o rio, para o trem, para a folha. Você faz objeção a este vaguear; quer interrompê-lo, trazer a mente de volta, e aí se torna uma distração, um conflito. Por outro lado, se você ouve o riacho e ao mesmo tempo ouve o que está sendo dito, não há distração, nem contradição. Estando atento, você não está repelindo a distração. No momento em que luta com a distração, você tem conflito e consequentemente deterioração.

Assim, para uma mente que está cônscia, não existe distração. Experimente comigo enquanto estou falando. Escute àquele riacho, esteja cônscio do pássaro que está cantando, repare na folha – se você puder vê-la, como eu posso daqui – que está brilhando ao sol; veja todas estas pessoas usando cores diferentes, olhando para direções diferentes, ouvindo de modos diferentes, e não se irrite com a amolação destas moscas. Então você descobrirá que não existe absolutamente distração, e assim a mente fica extraordinariamente alerta. Mas a mente que está constantemente repelindo a distração porque quer se concentrar em alguma coisa, está em conflito, e portanto num estado de deterioração.

Interrogante: É possível para o cérebro ficar quieto?

Krishnamurti: Este é realmente um problema enorme porque o cérebro é o resultado do tempo; ele surge através da associação, através das reações nervosas, e acumulou durante séculos um background de memória ou conhecimento instintivo a partir do qual ele reage. Isto é um fato; não é minha explicação especulativa. O cérebro humano se desenvolveu a partir daquele do macaco, desde o homem primitivo até o chamado civilizado. Ele aprendeu; juntou tremenda experiência. Ele sabe quando existe perigo; busca o prazer e tenta evitar a dor. Tem inumeráveis desejos, ambições, impulsos, exigências, todos puxando em diferentes direções.

Agora, a pergunta é: Em vista de tudo isso, é possível para o cérebro, que acumulou uma extraordinária quantidade de experiência como memória, e que é neurologicamente sensível, constantemente ouvindo, olhando, sentindo, interpretando – é possível para tal cérebro estar completamente quieto? Pode ele estar vivo, sensível, e ainda completamente parado? Eu digo que pode, não teoricamente, mas de fato, e é só então que a mente, o cérebro, é capaz de meditação. O ato de meditar é a coisa mais maravilhosa – mas não vou examinar isto esta manhã.

Então o interrogante pergunta, “É possível para o cérebro estar quieto – o cérebro que é tão altamente desenvolvido, com um enorme background de memória a partir do qual ele constantemente reage? Sendo o resultado de associação, experiência, memória, o resultado do tempo, pode o cérebro ficar parado?” A maioria das pessoas está em estado de conflito; está dilacerada por inumeráveis desejos: o desejo de realização de si mesmo através da pintura, da escrita, de fazer isto ou aquilo. Elas querem ser conhecidas, tornar-se alguma coisa neste mundo monstruoso, estúpido. E é tal cérebro – que é tanto o consciente como o inconsciente – capaz de estar completamente silencioso? Nesse caso, então como é saltar de um estado para o outro? Vamos discutir este problema conforme avançarmos.

Interrogante: Quando se olha uma flor através de associação e memória, imediatamente se nomeia, se diz que é uma rosa ou uma violeta. Já que esta verbalização acontece muito instantaneamente, o que se pode fazer a respeito?

Krishnamurti: Vocês entenderam a pergunta? Por favor, não estou sendo condescendente, mas todos vocês entenderam a pergunta? Sim? Tudo bem.

Agora, isso também não acontece com vocês? Quando você olha para uma flor, não diz imediatamente que é uma violeta, é isto, é aquilo? Quando olha para uma mulher, um homem, um amigo, você diz é assim e assim, não é? E quando este processo de nomear ocorre, ele impede você de ouvir com uma mente fresca o que aquela pessoa está dizendo, ou você não está olhando realmente para aquela flor pois sua mente está presa numa palavra, com todas as suas associações passadas. Então o que está de fato acontecendo? Examinaremos um pouco mais e vocês verão.

Quando você vê uma certa flor, sua reação imediata é dizer que é um narciso, porque através do tempo, da educação, aquela flor particular ficou associada na sua mente com a palavra narciso, e sua memória responde instantaneamente com esse termo. Então o que aconteceu? Você deu ao que viu um nome; disse que é um narciso, e por nomeá-la, fixou mais essa imagem, com todas as suas associações, em sua memória. Este processo de nomear impede você de olhar para a flor não botanicamente, isto é, sem o background de seu conhecimento botânico. Você está compreendendo?

Agora, é possível olhar sem nomear? Pode a pessoa olhar para outro ser humano sem dizer que ele é alemão, ele é russo, é comunista, é capitalista, é hindu, é negro, é isto, é aquilo? Certamente, para olhar sem nomear, a pessoa tem que estar livre das palavras. Sua mente é escrava das palavras porque você não pode pensar sem palavras. Para qualquer forma de comunicação, você tem que usar palavras, e toda palavra tem suas associações, suas gradações de significado. Mas você pode simplesmente ignorar a palavra e olhar. Você tem que estar cônscio em si mesmo deste extraordinário processo do nomear, do associar, você tem que ver o imenso valor que damos às palavras pela educação e memória. Para perceber todo esse processo e libertar-se dele é necessária extraordinária vigilância. Se você tentar – não “tentar” mas se o fizer, descobrirá. Não tem significado “tentar” alguma coisa. Ou você faz, ou você não faz.

Comentário: Quando vemos uma flor, ou uma árvore, geralmente há dois estados mentais, um seguido do outro. Durante um segundo ou dois não estamos conscientes de ver, apenas vemos, mas um segundo depois começamos a traduzir o que vemos nos termos de nossas ideias estabelecidas; queremos descobrir se podemos fotografar, e assim por diante.

Krishnamurti: Exatamente, senhor. Você olha para aquela montanha, que é tão imensa, tão magnífica, e a própria beleza dela nocauteia sua consciência e a mantém quieta por um segundo. Então você sai daquele choque, e todo o processo da memória entra em operação.

Esta questão requer muita consideração. Durante o primeiro ou segundo momento, sua consciência fica quieta como resultado de uma influência; a beleza da árvore, da montanha, subjugou você e o aquietou. Mas essa é a verdadeira quietude? Esse não é um processo que está ocorrendo no mundo o tempo todo? Se você vai à igreja, assiste à missa – a beleza, o esplendor dela faz você se sentir tremendamente santificado, reverente, inspirado, e você fica quieto. Mas esse não é um processo de entorpecer a mente? Por favor, compreendam isto.

Se alguma coisa externa, pela influência de sua beleza, sua majestade, sua pompa, força a mente a ficar quieta, tal mente está alerta? Ou a mente alerta é aquela que já está silenciosa quando vê a montanha, e não tendo se aquietado pela beleza do que vê, não fica presa na verbalização? Tal mente observa sem nomear; ela está em estado de silêncio o tempo todo – mas não usarei as palavras “tempo todo” porque você vai compreendê-las mal. É isso que vocês querem – adquirir este estado e ficar nele todo o tempo, o que é completa infantilidade.

Primeiro olhe o problema, a beleza do problema. Por um momento ficamos em silêncio por um incidente: por um acidente de automóvel, ao ver uma montanha majestosa ou uma bela árvore, pela morte de alguém que amamos. E daí começa o processo verbal de nomear, associar, de dizer, “Estou sofrendo; que beleza; que terrível; que coisa bonita é essa.” Todos vocês conhecem estes dois estados: o estado do silêncio forçado, seguido pelo estado de perpétua verbalização. Então surge o problema: Como conseguir esse estado no qual a mente pode olhar sem nomear, esse silêncio que não é provocado pela grandeza de alguém, ou pela esmagadora grandiosidade de uma montanha? Não sei se vocês compreenderam o problema.

Interrogante: Qual é a relação do indivíduo com a sociedade?

Krishnamurti: “Qual é a relação do indivíduo – o indivíduo verdadeiro sobre quem eu estive falando – com a sociedade?” E qual é nossa relação atual – a relação do chamado indivíduo – com a sociedade? E o que queremos dizer com relação?

Vamos começar com a relação. O que queremos dizer com essa palavra? Estar em relação é estar em contato, ter comunhão com outro que me compreende e a quem compreendo; é ter companheirismo, amizade com o outro. Seja uma relação entre esposa e marido, entre pai e filho, ou a relação do indivíduo com a sociedade, queremos dizer com essa palavra um sentido de comunicação, um sentido de contato, pequeno ou grande, superficial ou profundo. Acho que é isso que geralmente queremos dizer com relação.

Agora, estamos em relação com alguém? Você está em relação com sua esposa ou marido? Por favor, questione, não admita simplesmente que está. Para estar em relação com alguém, temos que estar em contato com essa pessoa, não só fisicamente, mas emocionalmente, intelectualmente – em todos os níveis. E estamos? Receio que não. Nossas atitudes, nossas atividades, nossa autoexpressão, nosso orgulho, nos isola; e a partir desse estado de isolamento tentamos estabelecer uma relação com o outro, com a sociedade. Isto é um fato; não é invenção minha. Nós gostaríamos de estar em relação, mas não estamos. No processo que chamamos de relação, que é a sociedade, consideramos que somos indivíduos porque temos um nome, uma família, uma conta no banco; nossos rostos são diferentes, nos vestimos diferentemente, e assim por diante. Tudo isto nos dá um peculiar sentido de individualidade. Mas somos realmente indivíduos, ou meramente o produto condicionado de uma sociedade particular, de certas influências ambientais?

Ser um indivíduo é ser único, internamente apartado, quieto, sozinho. Uma mente que está sozinha libertou a si mesma de todo o seu condicionamento. E qual é sua relação com a mente que está condicionada? Qual é a relação da mente que está livre com a mente que não está? Pode haver uma relação entre elas? Se você vê e eu não, qual é nossa relação? Você pode me ajudar, pode me guiar, pode me dizer isto, aquilo, ou aquilo outro, mas podemos ter uma relação – no sentido verdadeiro da palavra – só quando nós dois vemos, isto é, quando podemos nos comunicar imediatamente no mesmo nível ao mesmo tempo. Certamente, é só então que existe a possibilidade de comunhão – que é amor, não é?

7 de julho de 1963.

 

 

 

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