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23/07/1963 – T

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=756&chid=5073&w=

Oitava palestra em Saanen, Suiça.

Vocês devem ter observado que, durante as sete reuniões que tivemos aqui, não falei em termos de teoria, crença ou ideal algum.Para um homem religioso, não há teoria nenhuma, nem há crenças ou ideais, porque ele está sempre vivendo completamente no presente ativo. Qualquer dependência de uma ideia, qualquer conformação a um padrão, qualquer ajustamento a uma teoria ou crença, é completamente estranho a uma mente que esteja em busca do que é verdadeiro.

Para a maioria de nós, certas palavras – palavras como morte, desgraça, conflito, oração, deus – são carregadas de significado especial; têm extraordinária importância para a mente, e estamos sobrecarregados com essas palavras. Elas moldam nossa vida, levando-nos a nos conformar, a imitar, a disciplinar-nos segundo um padrão estabelecido. E esta manhã vou usar uma palavra assim – uma palavra que, para muitos, pode ser algo estranho, mas, para outros que tenham lido alguma coisa sobre o assunto, terá algum significado. Tal palavra é meditação. Meditação, para a maioria dos ocidentais, é algo exótico, estranho, asiático; e, para pessoas de todas as partes, do Oriente ou do Ocidente, é algo que a pessoa tem de fazer se quiser encontrar a verdade ou deus. Vou falar sobre isso porque, para mim, uma vida sem meditação é uma vida desperdiçada. Se a pessoa não sabe o profundo significado e a importância da meditação, sua vida diária torna-se muito superficial. Mas, entender o conteúdo dessa palavra, e transcender a palavra, requer um pensar muito claro – uma mente que seja alerta e ativa. Antes de entrarmos nessa questão da meditação, precisamos ser muito claros quanto ao que entendemos por disciplina. Para a maioria, disciplina implica controle, moldar o pensamento e a atividade de acordo com certo padrão ideal. Conformar-se, ajustar-se, suprimir, seguir, imitar – tudo isso está implicado na palavra disciplina.

Por favor, acompanhem isso com muito cuidado. Este assunto vai ficar muito difícil, árduo; e, a menos que vocês exercitem a mente vigorosamente à medida que me aprofundo no assunto, ficarão totalmente perdidos. Acompanhar o que o orador vai dizer, exigirá toda a sua energia.

No que diz respeito à maioria de nós, a mente é condicionada por meio da disciplina; é moldada por inúmeras influências, pensamentos, experiências, ações; e a disciplina tornou-se quase que nossa segunda natureza. Começamos e disciplinar-nos na escola, e continuamos do mesmo jeito pelo resto da vida, ajustando-nos às exigências da sociedade, conformando-nos ao padrão social e moral estabelecido, reprimindo-nos pelo medo, ajustando-nos à opinião pública, ao que pensamos ser o certo, e assim por diante. Nossa mente é condicionada a buscar segurança por meio de disciplina, e pensamos que, pela disciplina, descobriremos o que é a verdade. Mas, para descobrir o que é a verdade, a pessoa precisa livrar-se de toda disciplina imposta de fora ou autoimposta. Só se pode descobrir o que é verdadeiro quando se está livre da conformidade, livre de todo medo – e então há disciplina de natureza completamente diferente. Não se trata mais de disciplina no sentido de imitação, supressão, ou conformidade a um padrão. É um movimento livre – e não se trata de deixar de fazer alguma coisa pelo desejo de obter determinado resultado, ou porque se tem medo. Portanto, é preciso ficar claramente entendido que cada forma de disciplina, tal como a conhecemos, indica desejo de conformidade, de ficar a salvo, e que, por trás desse desejo, há medo – o medo de ficar inseguro, de não obter o que se quer, de não descobrir a verdade final, e assim por diante. Outra coisa muito necessária é ficarmos cônscios de quão condicionados estamos pela sociedade, pelas inúmeras experiências que tivemos – o que significa que precisamos ficar totalmente cônscios de toda a nossa consciência, e não só de certas partes dela. Ficar cônscio implica observação através do espaço – isto é, implica você ter espaço na mente, de modo que seja capaz de observar sem opinião, sem avaliação, sem conclusão. A maioria de nós não temos espaço na mente porque abordamos cada coisa que observamos com uma conclusão, com uma ideia, com uma opinião, com um julgamento ou uma avaliação; condenamos, aprovamos ou justificamos o que vemos, ou identificamo-nos com a coisa, de modo que não sobra espaço no qual observar.

Por favor, não façam disso uma teoria, algo que vocês tenham de praticar, o que seria terrível, pois o que vocês praticam torna-se um hábito. Infelizmente, a maioria vive numa série de hábitos, quer agradáveis, quer desagradáveis – coisa que é totalmente destrutiva para a inteligência. Vocês podem ver a verdade ou a falsidade disto, observando-se a si mesmos.

Vocês sabem o que é aprender? Aprender, no verdadeiro sentido da palavra, não é um acréscimo. Você não empilha conhecimentos e, então, olhando, experimentando, faz acréscimos ao que previamente aprendeu. Quando você apenas junta informações e as acrescenta ao que já sabe, nunca há liberdade para observar; portanto, você não está aprendendo. Vocês entendem? Caso não tenham entendido, nós discutiremos o assunto.

Por percepção, refiro-me a um estado de vigilância no qual não há escolha. Você apenas observa o que é. Mas você não pode observar o que é, se tem uma ideia ou uma opinião sobre o que vê, dizendo que é bom ou ruim, ou avaliando-o de outro modo. Você tem de estar totalmente cônscio dos movimentos do seu pensamento, dos seus sentimentos; você tem de observar suas atividades, tanto conscientes quanto inconscientes, sem avaliação. Isso requer uma mente extraordinariamente alerta, ativa. Mas, no que respeita à maioria de nós, a mente é embotada, semi adormecida; só partes dela estão ativas, as partes especializadas, a partir das quais funcionamos automaticamente por meio de associação, por meio da memória, como um cérebro eletrônico. Para ser alerta, ativa, sensível, a mente precisa ter espaço no qual olhar para as coisas sem o background daquilo que já sabe; e é uma das funções da meditação trazer vigilância, atividade e sensibilidade imensas à mente.

Vocês estão acompanhando tudo isto?

Estar consciente é vigiar sua atividade corporal, o modo como você anda, o modo como se senta, os movimentos das suas mãos; é ouvir as palavra que usa, observar todos os seus pensamentos, todas as suas emoções, todas as suas reações. Isso inclui estar consciente do inconsciente, com suas tradições, seu conhecimento instintivo, e a imensa tristeza que acumulou – não apenas a tristeza pessoal, mas a tristeza do homem. Você tem de estar consciente de tudo isso; mas não consegue ficar cônscio disso se estiver meramente julgando, avaliando, dizendo: “Isto é bom e aquilo é ruim”, “Isto eu vou aceitar e aquilo vou rejeitar”, coisas que tornam a mente embotada, insensível.

Da conscientização vem a atenção. A atenção flui da percepção, quando nessa percepção não há escolha, não há escolha pessoal, não há experimentar – coisas de que vou falar presentemente – mas só observação. E, para observar, você precisa ter na mente um espaço muito amplo. A mente aprisionada pela ambição, pela avidez, pela inveja, que está em busca de prazeres e de satisfação pessoal, com a inevitabilidade da tristeza, da dor, do desespero, da angústia – tal mente não tem espaço no qual observar, no qual fazer-se presente. Ela está abarrotada com os próprios desejos, dando voltas e mais voltas no próprio remanso de reações. Você não pode ficar atento se a sua mente não for altamente sensível, penetrante, razoável, lógica, saudável, sem a menor sombra de neurose. A mente tem de explorar cada canto de si mesma, sem deixar um único ponto oculto, porque, se houver na mente um único canto escuro que a pessoa tenha medo de explorar, desse canto brotará ilusão.

Quando um cristão vê Cristo em sua meditação, em sua contemplação, pensa ter alcançado algo extraordinário, mas suas visões não passam de projeções do seu condicionamento. Acontece o mesmo com o hindu que se senta à margem do rio e entra num estado de êxtase. Também ele tem visões nascidas do seu condicionamento, e o que ele vê, portanto, não é, de modo algum, uma experiência religiosa. Mas, mediante percepção, observação sem escolha – que só é possível quando há espaço na mente para observar – toda forma de condicionamento é dissolvida, e, então, a mente deixa de ser hindu, budista ou cristã, porque todas as ideias, crenças, esperanças e temores desapareceram. Disso advém a atenção – não a atenção dada a alguma coisa, mas um estado de atenção no qual não há experimentador, e, portanto, não há experiência. É tremendamente importante compreender isto – para o homem que esteja realmente buscando saber o que é a verdade, o que é religião, o que é Deus, o que está além das coisas forjadas pela mente.

No estado de atenção, não há reação: a pessoa está somente atenta. A mente explorou e compreendeu todos os recessos de si mesma, todos os motivos, exigências, realizações, compulsões, tristezas inconscientes; portanto, no estado de atenção, há espaço, há vazio; não há experimentador que esteja experimentando alguma coisa. Estando vazia, a mente não está projetando, buscando, querendo, tendo esperança. Ela entendeu todas as suas reações e respostas, sua profundidade, sua superficialidade, e nada foi deixado para trás. Não há divisão entre observador e coisa observada. No instante em que há divisão entre observador e observado, há conflito – a própria lacuna entre eles é conflito. Já discutimos isso e vimos quão importante é ficar completamente livre de conflito.

Talvez isso seja um pouco mais complicado que a coisa com a qual você está acostumado, pois estou falando de meditação, que é algo que transcende todas as palavras.

Só no estado de atenção, você pode ser uma luz para si mesmo, e, então, cada ação da vida diária procede dessa luz – cada ação, quer você esteja fazendo seu trabalho, cozinhando, fazendo uma caminhada, remendando roupas, o que quer que seja. Todo esse processo é meditação, e, sem isso, a religião não tem nenhum sentido, tornando-se apenas uma superstição explorada pelos sacerdotes.

Para a maioria das pessoas que praticam aquilo que chamam de meditação, ela é uma forma de auto-hipnose. Havendo tomado lições de meditação ou lido livros sobre o assunto, sentam-se de pernas cruzadas e fazem todos os truques que aprenderam, respirando com muita regularidade, controlando os pensamentos, e assim por diante. Há muitos sistemas de meditação, mas se você compreender um deles, terá compreendido todos, pois todos eles consistem em controlar-se ou hipnotizar-se a si mesmo para ter certas experiências consideradas maravilhosas, mas que são, de fato, ilusão. Essa forma de meditação é completamente infantil; não tem sentido. Você pode praticá-la durante dez mil anos, sem jamais descobrir o que é verdadeiro. Você poderá ter visões, experimentar o que pensa ser Deus, a verdade, e tudo o mais; porém, isso tudo será projetado pelas suas reações, pelo seu condicionamento, e não terá, portanto, nenhuma importância.

O que estou falando é coisa inteiramente diferente: libertar a mente, mediante intensa percepção, de todas as suas reações, e, assim, realizar – sem controle, sem volição deliberada – um estado de quietude interior. Só a mente muito intensa, altamente sensível, pode estar realmente tranquila, e não a mente paralisada pelo medo, pela tristeza, pela alegria, ou mortificada pela conformação a inúmeras exigências sociais e psicológicas.

A verdadeira meditação é a mais alta forma de inteligência. Ela não tem nada a ver com sentar-se de pernas cruzadas num canto com os olhos fechados, ou de cabeça para baixo, ou seja lá o que você faça. Meditar é estar completamente cônscio enquanto anda, enquanto está no ônibus, enquanto trabalhando no escritório ou na cozinha – completamente cônscio das palavras que usa, dos gestos que faz, do modo como fala, da maneira como come, e como você tiraniza as pessoas. Meditar é estar consciente, sem escolha, de tudo ao seu redor e dentro de você. Se você estiver assim consciente da propaganda política e religiosa que acontece a todo instante, consciente das muitas influências à sua volta, verá quão rapidamente entende cada influência e dela se livra ao entrar em contato com ela.

Mas muito pouca gente chega tão longe, pois está sobremodo condicionada por suas tradições. Isso é particularmente verdade se se vive na Índia, onde as pessoas precisam realmente fazer certas coisas. Elas precisam controlar o corpo completamente, e, assim, controlar completamente o pensamento. Por meio disso, elas esperam alcançar o Supremo, mas o que elas alcançam será resultado da sua auto-hipnose. No mundo cristão, faz-se a mesma coisa, mas de modo diferente. Mas estou falando de algo que requer a mais alta forma de inteligência.

A mente que deseja experiência não é inteligente; se você observar, verá que a maioria das pessoas deseja experiências. Estando cansados do diário desafio e resposta que há tanto tempo conhecemos, voltamo-nos para a chamada meditação, ou frequentamos uma igreja, na esperança de, por meio disso ou de outro meio misterioso, ter uma experiência mais profunda. Mas, uma mente que esteja num estado de desejar experiência, conquanto exaltada, não é inocente; portanto, não haverá experiência religiosa. É a mente que sente saudades, que busca, que tateia, que sente medo, ansiedade, desespero – é só uma mente nesse estado que exige experiências. Uma mente altamente sensível, sendo uma luz para si mesma, não quer nem necessita experiência, e, portanto, está num estado de inocência; e é só uma mente inocente, altamente sensível, que pode permanecer completamente quieta. Quando a mente está completamente quieta – porque cada parte dela está viva, sensível – encontra-se, então, num estado de meditação, e, a partir daí, pode continuar para descobrir o que é verdadeiro. Mas, até que ela esteja nesse estado de meditação, qualquer tentativa – por parte da mente, de descobrir o que é a verdade, o que é Deus, o que é aquela coisa que a transcende – será completa perda de tempo e só conduzirá a ilusões. Ficar nesse estado de meditação requer extraordinária energia, e você terá muito pouca energia enquanto estiver em conflito, enquanto tiver os problemas do desejo. É por isso que, como eu disse desde o início, cada conflito, cada exigência de realização, com suas esperanças e desesperos, precisa ser compreendida e dissolvida. Então a mente não tem ilusões, pois já não tem o poder de criar ilusão.

A mente emaranhada em problemas, em medo, em desespero, no desejo de realizar-se, está sempre criando ilusão; está, portanto, em estado de neurose. Essa é a primeira coisa que se precisa compreender. Mas, quando a mente é altamente sensível e livre de ilusões, dessa claridade e sensibilidade advém inteligência, e, só então, a mente pode ficar completamente quieta, sem esforço. Esse estado de quietude completa e sem esforço é o começo da meditação.

Portanto, primeiro há uma percepção, uma observação sem escolha, de todos os seus pensamentos e sentimentos, de tudo quanto você faz. Disso advém um estado de atenção que não tem limites, mas no qual a mente pode concentrar-se; e, desse estado de atenção, advém a quietude da mente. E, quando a mente está completamente quieta, sem ilusão alguma, sem nenhum tipo de auto-hipnose, há o surgimento de algo que não é construído pela mente.

Como podem ver, agora vem a dificuldade de tentar expressar em palavras algo que é inexprimível – e esse algo é o que estamos buscando. Todos queremos encontrar algo além deste mundo de agonia, tirania, de força e dominação, este mundo que é tão indiferente, insensível, brutal. Com nossas ambições, nossos nacionalismos, nossa diplomacia, nossas mentiras, estamos continuamente precipitando os horrores da guerra; e, estando fartos de tudo isso, queremos paz. Queremos encontrar, algures, um estado de tranquilidade, de bem-aventurança; por isso inventamos um Deus, um salvador, ou outro mundo que nos ofereça a paz que queremos, se fizermos ou acreditarmos em certas coisas. Mas, uma mente condicionada, por mais que queira a paz, atrai para si a própria destruição, e isso é o que realmente está acontecendo no mundo. Todos os políticos do mundo, tanto da direita quanto da esquerda, usam essa palavra – paz -, mas ela não tem sentido algum. O que estou falando é algo que está muito além de tudo isso.

Portanto, meditação é o esvaziamento da mente de todas as coisas que a mente fabricou. Se você fizer isso – talvez você não o queira, mas isso não importa, apenas escute – descobrirá que há um espaço extraordinário na mente, e esse espaço é liberdade. Por conseguinte, você precisa exigir liberdade logo no início, e não apenas aguardar, na esperança de obtê-la no fim. Você precisa descobrir a importância da liberdade em seu trabalho, em seus relacionamentos, em tudo quanto faça. Então descobrirá que meditação é criação.

Criação é uma palavra que usamos demais, com muita facilidade. O pintor coloca na tela umas poucas cores e fica muito entusiasmado com isso. É a sua realização, o meio pelo qual se expressa; é o seu mercado, no qual ganha dinheiro ou reputação – e ele chama isso de “criação”. Todo escritor “cria”, e há escolas de redação “criativa”, mas nada disso é criação. Tudo isso é resposta condicionada de uma mente que vive em determinada sociedade.

A criação da qual falo é algo inteiramente diferente. É uma mente que está no estado de criação. Ela pode, ou não, expressar esse estado. A expressão tem muito pouco valor. Esse estado de criação não tem causa, e, portanto, uma mente nesse estado está morrendo a cada momento, e vivendo, e amando, e sendo. A totalidade disso é meditação.

Querem discutir este assunto?

Pergunta: Como é que a atenção que flui da percepção pode ser mantida?

Krishnamurti: Permita-me dizer isto com muito respeito, senhor, acho que fez a pergunta errada. Por que é que queremos manter a atenção? O que é que está por trás da palavra manter? Quero manter determinado relacionamento com a minha mulher, com o meu marido, com um amigo. Quero manter o relacionamento em certo nível, com certa tensão, de modo que sempre amemos e respondamos um ao outro de modo completo. Ou quero manter determinado sentimento. E como é que vamos mantê-lo? Dizendo: “Vou manter este relacionamento” – isto é, pela volição, pela vontade. E o que acontece quando você mantém alguma coisa pela vontade? Ela se torna frágil e é destruída. Pode-se conservar o amor por meio da volição, da vontade? Portanto, deve haver uma abordagem diferente para esta questão.

Digamos que eu perceba, num relance, o que significa estar cônscio. Percebo-o completamente, e não só verbalmente. Eu me peguei estando cônscio sem escolha, e realmente o compreendi. Por um segundo, estou cônscio, e vejo a extraordinária liberdade, a beleza, a alegria disso. Então, digo a mim mesmo: “Preciso manter isto”, e, no instante em que quero manter esse estado, ele já se tornou memória. O que estou mantendo não é o fato, mas a minha lembrança do fato, e, portanto, já é coisa morta. Por favor, percebam isso realmente.

Lembro-me do meu irmão, meu filho, minha mulher, meu marido, que está morto, e vivo nessa lembrança, mantenho essa lembrança, com todos os seus prazeres, desesperos, saudades – vocês sabem o que a pessoa passa. Mas eu não descobri o que significa a morte de uma pessoa; não estou consciente da inteira significação da morte. Portanto, é preciso ficar cônscio do significado do fato, e não apenas viver numa lembrança. O senhor entende, cavalheiro? Não viver numa lembrança é jamais falar de uma experiência de relacionamento: “Quero mantê-lo, quero que isso continue.” Então, se alguém morre, isso não importa. Isto não é insensibilidade nem indiferença. Fique vivo para o presente a cada minuto, e você verá.

Será que transmiti alguma coisa?

A verdade não tem continuidade, porque está além do tempo, e, aquilo que tem continuidade não é a verdade. A verdade precisa ser vista instantaneamente e esquecida – esquecida no sentido de que você não leva consigo como memória a verdade que foi vista. E, porque a sua mente não está apinhada com lembranças, em qualquer momento – no minuto seguinte, no dia seguinte, ou algum tempo depois – a verdade virá novamente.

A verdade, não tendo continuidade, só pode ser vista quando a mente toda estiver livre desse processo de manter, lembrar, reconhecer. Isso exige atenção extraordinária porque é muito fácil cometer o deslize de dizer: “Bom, eu vi a verdade ontem e vou viver com ela.” Se você viver com isso, estará vivendo com uma lembrança, que é coisa morta e sem significação, e ela o impedirá de ver a verdade de um modo novo. Para ver a verdade ou a beleza daquela montanha, sua mente precisa ser extraordinariamente sensível, não embotada pela lembrança de coisas que aconteceram; e isso requer – como você saberá se vigiar a si mesmo – atenção intensa. Portanto, você não pode permitir que seu corpo se torne embotado, indolente. Você precisa ter um corpo altamente alerta, sensível, porque a condição do corpo influencia o cérebro, e o cérebro influencia o seu pensamento, e assim por diante. Psicossomaticamente, a pessoa tem de ser plenamente consciente.

A memória é mecânica e, obviamente, tem o seu lugar. Sem memória, você não saberia onde mora, não saberia ler, etc. Mas, para a maioria de nós, a memória, que é o passado, interfere na observação. Quando você tiver entendido esse fato, terá espaço para observar; e, nesse espaço, por uma fração de segundo, por dez minutos, por uma hora – o período de tempo não importa – há percepção. Mas, se você fizer dessa percepção uma lembrança, jamais verá novamente.

A maioria de nós vive de lembranças: lembranças dos tempos agradáveis da nossa juventude, lembranças de sexo, lembranças das nossas alegrias e desesperos, etc. Vivemos no passado, de sorte que a nossa mente é embotada, e o nosso treinamento técnico, portanto, contribui para nos tornarmos autômatos. Estou falando de coisa inteiramente diferente: tornar a mente espantosamente ativa e muito sensível, ficando cônscia de tudo o que você faz e não faz.

Comentário: Quando estou escutando o que é dito aqui, sinto-me muito vivo e sensível; mas, quando saio sozinho ou estou em casa, esta sensibilidade desaparece.

Krishnamurti: Se você só é sensível enquanto está aqui, está sendo influenciado, e isso não tem valor nenhum. É mera propaganda e, portanto, deve ser evitada, afastada, destruída, pois desse modo você cria mestres, professores, autoridades. Mas, se você se observou enquanto escutava o que eu dizia; se você esteve cônscio de suas reações a cada minuto, enquanto caminhávamos juntos por mais de uma hora; se você esteve desperto, não só para o que foi dito pelo orador, mas também para os movimentos do seu pensamento e do seu sentimento – então, quando você deixar esta tenda e for embora sozinho, conhecerá o seu próprio estado mental e jamais ficará cegamente preso nele de novo.

Pergunta: O senhor acha que o desejo de libertar-se é, em parte, a causa do condicionamento da pessoa?

Krishnamurti: Certamente, senhor, o desejo de libertar-se do condicionamento apenas favorece o condicionamento. Mas, se, em vez de tentar suprimir o desejo, a pessoa entender o inteiro processo do desejo, nessa mesma compreensão fica livre do condicionamento. Libertar-se do condicionamento não é um resultado direto. Vocês entenderam? Se eu me dedicar deliberadamente a livrar-me do condicionamento, esse desejo cria o seu próprio condicionamento. Posso destruir uma forma de condicionamento, mas sou apanhado noutra. Ao passo que, se houver entendimento do próprio desejo, o que inclui o desejo de ser livre, então essa mesma compreensão destrói todo o condicionamento. Ficar livre do condicionamento é um subproduto; não é importante. O importante é compreender o que é que cria condicionamento.

23 de julho de 1963

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