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25/07/1963 – T

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Nona Palestra em Saanen

Observa-se que na civilização moderna, onde tudo é altamente organizado, há menos e menos liberdade na ação. Estamos perdendo a espontaneidade e a paixão na ação. Para a maioria de nós, a ação se tornou uma rotina. Seja ir ao escritório todos os dias, lavar a louça na cozinha, escrever, pintar, ou o quer que você vá fazer, nossa ação está se tornando mais e mais canalizada, moldada de acordo com uma série de padrões; e quando tudo que fazemos é, assim, reduzido a uma rotina, não há, obviamente, questionamento da ação, nenhuma investigação total da ação. A questão do que é a coisa certa a fazer surge quando temos problemas, mas então nós meramente tentamos analisar nossos problemas, ou tateamos, esperando achar uma solução. Essa é a única ação que conhecemos. Mas me parece que existe um tipo completamente diferente de ação que é a inércia, e eu gostaria, se eu puder, de investigá-la de maneira mais profunda nessa manhã.

Nunca nos perguntamos ou tentamos descobrir o que é a ação, além da resposta rotineira às demandas diárias da sociedade, ou além dos nossos esforços para resolver algum problema particular urgente. Dentro desse estreito campo, tentamos descobrir qual é a coisa certa a fazer. Mas eu acho que existe um campo mais vasto de investigação e de uma maior profundidade de busca para se descobrir o que é a ação; e se nós pudéssemos descobrir isso, então nossas ações limitadas, na resposta às exigências de uma determinada sociedade, seja capitalista ou socialista, teriam um significado muito maior.

Então, o que é ação? Não estamos tentando descobrir o que um indivíduo deve fazer em um determinado conjunto de circunstâncias – isso será respondido um pouco mais tarde. Se nos limitarmos à questão do que fazer no que diz respeito a um determinado assunto, então a ação se torna superficial, limitada, e não muito significante. A questão não é o que fazer, mas sim: O que é ação?

Para a maioria de nós, a ação tem vários motivos, ou é uma aproximação de algum ideal. Nosso comportamento é guiado por um conceito, por uma fórmula, por uma ideia, então, existe uma lacuna entre a ação e a ideia. Essa lacuna, essa divisão, gera conflito e, assim, perdemos energia, e sem energia não existe ação verdadeira. A ação precisa da energia da liberdade, da espontaneidade; e se a ação é condicionada, limitada por uma ideia, moldada de acordo com uma fórmula ou de um sistema racionalizado de pensamento, então a ação perde sua dinâmica, seu curso espontâneo. Eu espero que eu seja capaz de explicar o que eu quero dizer enquanto prosseguimos. Eu não estou falando teoricamente. Como eu já apontei várias vezes, não estou criando teorias, nem meras ideias. Em todas essas conversas estamos preocupados com fatos, com a ação.

Agora, enquanto a ação é limitada, confinada por uma ideia, essa ação não somente cria conflito e, assim, perde energia, mas ela também carece de espontaneidade, que é tão produtiva de energia. Nós conhecemos somente a energia limitada que é gerada em nós pelo conflito, pela competição, pelo atrito. Nossa resposta ao desafio depende de um conceito, de uma ideia, de uma fórmula, o que significa que a nossa resposta é limitada – e assim, me parece, perdemos a extraordinária vitalidade da ação.

Para colocar de outra maneira, se você observar a si mesmo, você verá que existe um conceito, uma imagem, uma ideia segundo a qual você está vivendo. Você está sempre aproximando sua ação da ideia, e assim, criando atrito, conflito, e perdendo energia. Mas para pensar claramente, para ser muito sensível, para sentir apaixonadamente qualquer coisa, precisa-se de tremenda energia. Então, me parece que o problema, para a maioria de nós, é que nos falta energia interiormente, embora por fora parecemos ser muito ativos – indo ao escritório, fazendo coisas em casa, e todo o resto. Interiormente não temos energia suficiente para enfrentar um problema diretamente e resolvê-lo imediatamente. Persistimos com o problema diariamente, e assim, nos tornamos carregados de problemas.

Agora, é possível agir sem ideia? Isto é, pode-se viver completamente no presente? Como vimos no outro dia, para viver completamente no presente, para dar atenção completa ao presente, é preciso morrer para o passado. Isso exige percepção, não somente dos movimentos conscientes da mente, mas também dos seus movimentos inconscientes. Devemos estar cientes de todos os nossos pensamentos e sentimentos, de todas as nossas ações – não de acordo com uma ideia ou uma fórmula, mas estar simplesmente conscientes deles sem interpretação – e assim, viver tão completamente no presente que a ação é imediata e não uma aproximação de uma ideia ou ideal.

Se vocês estão todos conscientes do funcionamento de suas mentes, vocês saberão que estão constantemente observando com uma conclusão, e de acordo com essa conclusão você aprova, condena, interpreta, ou tenta modificar o que você vê. Agora, se não há nenhuma conclusão, nenhuma interpretação, mas pura observação, então essa observação é a ação sem ideia. Afinal, o refinamento do pensamento, porém necessário, não é amor. O amor, ao que me parece, é ação direta, não um plano, ação ideacional.

Eu me pergunto se eu estou comunicando o que eu quero transmitir?

Você vê, cada um de nós precisa de uma mutação total; deve haver uma transformação profunda total, na própria raiz de nossa consciência; de outra forma, somos meros autômatos vivendo de forma falsa, em um mundo superficial com todos seus conflitos, tristezas, misérias, e respondendo somente às exigências e ânsias mais superficiais. Para trazer essa revolução interna fundamental, deve-se investigar a ação, deve-se descobrir se existe uma ação que não é ditada pelas circunstâncias, pela ambição, pelas demandas sociais, por ideais reformatórios, por nacionalistas ou outras pressões. Para descobrir se existe tal ação, me parece que devemos ir profundamente em nós mesmos – tão profundamente que a mente não mais está operando de acordo com ideias, conclusões, memórias, e portanto, capaz de viver nesse total presente, que em si próprio modifica a natureza da ação.

Eu estou com medo de não estar transmitindo isso completamente.

O que é comunicação? Eu quero transmitir uma coisa que eu sinto ser muito importante; e que se é para ser transmitida, deve obviamente haver cooperação entre nós, entre o ouvinte e o orador. Então, como vocês cooperam? Como vocês ouvem o que está sendo dito? Vocês ouvem apenas para capturar a ideia, o significado das palavras? Ou vocês estão ouvindo e ao mesmo tempo observando suas próprias reações e respostas, tanto conscientes como inconscientes? Isto é, vocês estão ouvindo no presente ou meramente aproximando seu pensamento ao que está sendo dito? Eu quero dizer uma coisa, que é isto: Pode-se viver completamente no presente, sem uma ideia fixada, sem um pensamento preconcebido, e esse viver completamente no presente dá tremenda energia, que é necessária para trazer uma revolução total na mente. Isso é o que eu quero transmitir, e não somente em palavras. Eu quero transmitir de tal maneira que vocês sintam a realidade disso, então, quando vocês deixarem este lugar, uma mutação, uma tremenda revolução terá tomado lugar.

Como eu dizia no outro dia, para a maioria de nós, o pensamento se tornou tremendamente importante – o pensamento sendo uma ideia, racional ou irracional, neurótico ou chamado normal. O pensamento guia nossas vidas, molda os nossos fins, e controla nossas ações. Agora, para o orador, o que chamamos de pensamento não tem nenhuma importância, porque é apenas a resposta da memória, a voz da tradição, das experiências acumuladas do passado; e o passado não pode encontrar o presente em constante mudança. Para encontrar o presente, a mente deve estar totalmente desprovida de pensamentos, assim, há observação sem ideia, e é essa observação sem ideia que dá tremenda energia para dar lugar a mutação. Isto é, a mente deve estar vazia de todas as coisas que a memória colocou nela. Precisamos da memória para funcionar, para operar, para fazer coisas; devemos ter o passado como conhecimento, mas sem deixá-lo interferir de alguma forma no presente, que é ação, que é energia.

Agora, vocês ouviram o que acaba de ser dito. E como vocês ouviram isso? Vocês ouviram e observaram e então veem o fato por si próprios? Ou vocês meramente ouviram com a ideia de que vocês devem viver no presente e captaram seu significado? Cada um vê o fato ou tem uma ideia sobre o fato e assim interpreta o fato de acordo com essa ideia.

Vocês veem, em nossas vidas há muito pouco amor; nós realmente não sabemos o que isso significa. Conhecemos o chamado amor, que traz consigo ciúmes, inveja, raiva, confusão, miséria. Todos nós conhecemos isso o suficiente. Mas nós não sabemos o que isso significa de verdade, estar em um estado de amor, sabemos? Podemos amar alguém em particular, mas não conhecemos esse estado de ser extraordinariamente vital, puro, que é o amor. A maioria de nós tem muito pouco amor no coração, e é por isso que procuramos nos outros. Sem amor, geralmente encontramos libertação ao longo de uma avenida de auto satisfação – ou sexual ou intelectual ou de alguma forma neurótica – assim, nossos problemas aumentam e se tornam mais e mais fortes.

Agora, eu estou falando de uma mente que não tem problemas – ou melhor, quando um problema surge, ela entende e lida com ele imediatamente para que não haja resíduos, e para que o problema não deixe uma marca. Isso é ação; isso é viver no presente. Teremos problemas a todo o momento, problemas de vários tipos; e quando cada problema surge, não podemos lidar com ele tão completamente de modo que ele não vá deixar uma marca – a memória de alguma coisa que aprendemos e com a qual nos aproximamos de um outro problema? Se nos aproximarmos de um novo problema com uma memória, não podemos resolver esse problema. O que eu estou tentando transmitir é que existe uma ação na qual a ideia não é de forma alguma envolvida, e portanto, a ação é direta, e não o resultado de uma memória mecânica. Tal ação libera tremenda energia, e vocês precisarão de tremenda energia para descobrir o que é verdadeiro, para descobrir o que está além das medidas que o homem estabeleceu para si próprio, além das coisas construídas pela mente.

Deixe-me colocar a questão de outra maneira. A maioria de nós, leva uma vida superficial, e por um tempo, ficamos satisfeitos para viver nesse caminho banal, limitado. Então, nos dando conta de que estamos vivendo superficialmente, nos sentimos descontentes e tentamos achar um caminho para nos tornarmos profundos. Mas uma mente superficial tentando se tornar profunda ainda é superficial. Uma mente pequena pode tentar encontrar Deus, mas ela ainda será pequena, e seu Deus também será pequeno. Agora, como transformar completamente a mente insípida, superficial, estúpida, para que ela esteja totalmente viva? – essa é a questão.

As espantosas condições no mundo exigem que vocês tenham uma mente nova, fresca, porque senão os problemas vão aumentar. Haverá mais derramamentos de sangue, mais guerras, mais confusão, mais competição, mais o chamado progresso e escravidão às coisas. Se sua mente não é nova, ela será capturada pelas circunstâncias. Não apenas isso, mas vocês também precisam de uma mente fresca, nova para descobrir se existe alguma coisa além do mensurável, além das coisas colocadas pela sociedade, além das crenças e dogmas inventados pelos padres. Para isso vocês precisam de tremenda energia – uma energia que não é resultado do conflito, uma energia que não tem motivo. E você pode despertar essa energia destrutiva, libertadora, clara, somente quando você entendeu e resolveu em si próprio todas as formas de conflito. O conflito chega ao fim quando há autoconhecimento – conhecimento da totalidade da sua própria consciência. Falamos sobre isso – como investigar a si mesmo – por isso não vou repetir.

Sem amor, vivemos em dor e miséria, em eterno conflito. E certamente o amor não tem conflito. Você pode dizer, “Isto é apenas uma ideia, um ideal, um estado teoricamente perfeito”, mas não é. O amor surge quando realmente começamos a entender a totalidade de nós mesmos. Então, o que é importante é descobrir por si próprio que podemos ser pegos por palavras, ideias. Somos escravos de fórmulas, de conceitos, e a percepção desse fato modifica a própria natureza da ação. Na mutação da ação há paixão, que é energia; e quando ela tem essa energia, que é parte do amor, parte da criação, a mente pode entrar em algo que não seja concebido ou formulado – algo desconhecido. Podemos talvez discutir isso?

Interrogante: Para estar ciente, deve-se meditar, e a meditação implica completa harmonia de pensamento e sentimento. Se alguém é incapaz dessa completa harmonia, como pode estar ciente?

Krishnamurti: Quando você fala de estar ciente, o que você quer dizer com essa palavra? Eu estou ciente de você, e você está ciente de mim. Eu vejo várias faces, várias cores; eu vejo a tenda, eu ouço o barulho do rio e a canção de um pássaro; por aquela brecha eu vejo agitação de uma folha no vento, e assim por diante. Eu estou ciente de tudo isso e das minhas reações a isso. Eu também estou ciente de que essas reações surgem de acordo com o meu condicionamento, minhas memórias, meu conhecimento acumulado. Eu vejo que interpreto tudo o que ouço em termos de gostar ou não gostar, de acordo com meus preconceitos particulares. Eu estou totalmente ciente dos meus motivos conscientes e não conscientes, demandas, ânsias. Usando a palavra consciência, o orador inclui tudo isso, mas talvez o questionador não.

Comentário: Se alguém é neurótico ou louco, esse alguém não pode estar ciente.

Krishnamurti: Obviamente. Agora, espere um minuto.Você está falando por alguém que é neurótico, ou você percebe que você mesmo é neurótico? Não, por favor, não ria por isso. Essa é uma questão muito séria que eu tenho para colocar para vocês.Se alguém está ciente de que é neurótico – e estar ciente disso é uma coisa muito difícil de fazer – então, esse alguém já está saindo desse neurose. Mas a maioria de nós não está ciente das nossas peculiaridades, dos nossos estados ligeiramente desequilibrados, dos nossos exageros, idiossincrasias e fixações. Para estar ciente delas devemos ter constante atenção e, a maioria de nós, não tem nem energia, nem tempo, nem inclinação para nos observar. Preferimos ir a um analista, a alguém que fará o trabalho por nós, e assim, complicamos mais ainda nossas vidas. Então, se você é neurótico, assim como a maioria de nós é, então, para trazer uma mudança, você deve estar ciente de si mesmo, não só superficialmente, mas profundamente. Você deve prestar atenção a cada palavra, tudo o que você sente e pensa, investigar a si mesmo profundamente. Então, talvez, fora dessa consciência, surge a meditação. Mas nós já vimos isso, e eu não vou investigar novamente.

Interrogante: Quando uma mãe dá à luz, ela cuida da criança imediatamente.Nesta ação não há amor, mesmo que a mulher não tenha uma mente inocente?

Krishnamurti: Senhor, você não quer descobrir por si próprio o que é ação? O senhor não quer descobrir o que significa viver totalmente no presente? O senhor não quer se livrar de todas essas coisas falsas que a sociedade e o ambiente impuseram sobre você e descobrir o que é verdade, qual é o significado de todo esse negócio de viver? Isso exige uma grande quantidade de investigação, o que a maioria de nós, aparentemente, está sem vontade de fazer, e por isso fazemos perguntas que eu temo serem bastante irrelevantes.

Senhor, você sabe o que está acontecendo no mundo: as ameaças de guerra, a agitada competição, as brutalidades absurdas. Qual é a sua resposta para tudo isso? Você não quer descobrir como agir em relação à isso? Ou estamos todos tão preocupados com nós mesmos que não temos tempo para as questões maiores? Talvez você tenha uma resposta para tudo isso, que foi lhe dada por alguma autoridade, e por isso você é capaz de responder – mas apenas verbalmente, não profundamente, não de coração e mente, de dentro de você. É por isso que esta manhã eu falei sobre a ação. Um ser humano tem que agir; sua própria vida é ação, mas essa a ação nos levou a uma grande miséria, corrupção, confusão; e portanto, temos que encontrar uma forma completamente diferente de agir, uma forma diferente de viver. Não podemos simplesmente viver de acordo com alguma definição, de acordo com as ideias de Marx, Lenin, ou qualquer outra autoridade. Temos que destruir tudo isso e descobrir por nós mesmos o que é verdadeiro.

Interrogante: Para pensar claramente, para observar diretamente, você diz que precisamos de espaço na mente – espaço entre si e aquilo que se vê. A maioria de nós não tem esse espaço, nossas mentes estão lotadas com ideias, confusa com memórias. Como vamos adquirir esse espaço?

Krishnamurti: Nós já falamos sobre isso! Pergunto-me com qual urgência, com que intensidade vivemos! O mundo como é exige uma ação clara de uma mente não confusa, uma mente que não é neurótica, uma mente que não tem nenhum ponto fixo a partir do qual ela começa a pensar. Primeiramente, vocês veem a necessidade de tal mente? E se você vê a necessidade de tal mente, como você conseguirá tê-la? Alguém pode dar a você? Certamente, você tem que trabalhar furiosamente; você tem que dar toda a sua energia para isso. Mas vocês veem, a maioria de nós não tem essa energia, porque têm tanto medo. Estamos com medo pelas nossas próprias pequenas seguranças, pelos nossos pequenos quintais, e esse medo nos priva de alguma energia que temos. Então você tem que enfrentar tudo isso, você tem que estar livre de todos os medos. Discutimos isso durante essas nove palestras, e como eu disse, quando você vê que sua mente não está clara, está receosa, esse mesmo ato de ver traz uma ação que vai destruir o medo.

Interrogante: Existe diferença entre observar a si próprio e observar algo fora?

Krishnamurti: Quando dizemos fora e dentro, o que queremos dizer com essas palavras? Lá fora existem as montanhas, as árvores, o rio, as pessoas. Dentro estão meus pensamentos, esperanças, medos, reações; e também, há o pensador que observa, julga, condena, avalia. Portanto, existe a divisão psicológica do pensador e do pensamento, ou o experimentador e da coisa experimentada, que é um aspecto do interior e do exterior; e existe a mais óbvia divisão do mundo objetivo fora e do mundo subjetivo dentro. Minha esposa está fora, e eu estou dentro – o ‘eu’ sendo a minha ambição, a minha ganância, a minha brutalidade, a minha crueldade, meu amor, e todo o resto. Agora, como você observa o exterior, e como você observa o interior? Você observa com uma mente que apenas reage, ou seja, com uma mente que diz,”Isso é bom, isso é ruim”, “Isso é uma montanha, isso é uma árvore”? Ou você observa sem pensamento, sem ideia?

Talvez eu possa tornar isso um pouco mais claro colocando de forma diferente.

Quando você vê uma flor, você a observa botanicamente, ou não botanicamente? Isto é, você dá um nome a flor, ou você simplesmente a observa sem dar a ela um nome? Vocês veem a diferença?

Vamos investigar isso mais um pouco. Pelas nossas circunstâncias, pela nossa criação, pela nossa educação e assim por diante, a maioria de nós é desatenta; somos meio inativos, e precisamos ser desafiados; caso contrário, vamos cair completamente adormecidos. Agora, sendo desafiado, sou forçado a observar. Geralmente eu observo muito pouco. Eu só observo as coisas que estão imediatamente à minha volta, as coisas com as quais estou diretamente preocupado. Mas o desafio do mundo exterior – a sociedade, os problemas econômicos, os problemas do relacionamento, a morte, e assim por diante – tiram-me da letargia, do meu estado de desatenção, da minha preguiça, e eu fico um pouco mais atento, inteligente, sensível. Começo a questionar a mim mesmo, a indagar, a pesquisar, a procurar incertamente, a pedir, a exigir, então eu não mais preciso de um desafio exterior; e para o homem que não precisa de um desafio exterior, não há divisão entre o exterior e o interior. Ele está em um estado de investigação, um estado de revolução; ele está constantemente observando, questionando tudo ao seu redor e dentro de si. Então, se ele vai ainda mais longe, ele torna-se uma luz de si próprio; ele fica completamente atento, e, portanto, não precisa de desafios. Mas isso está muito distante para a maioria de nós.

Dizemos de há o fora e o dentro, mas existe tal divisão psicologicamente? Ou é como a maré que vai e vem? Se você ouviu essa pergunta e foi dentro de si próprio para descobrir a verdade, então como você olha para a montanha, para a árvore, para sua esposa, para seus filhos, para seu vizinho, para as ideias? Qual é a sua relação com a disputa, o mal que está acontecendo no mundo? Você faz parte disso? Você é o resultado da sociedade, ou do seu ambiente? Ou você entendeu e saiu disso? Se você saiu, então você já é algo completamente diferente; existe uma mutação tomando lugar que te dá claridade, uma urgência, um sentimento de amor sem motivo.

Interrogante: A ação espontânea é a ação certa?

Krishnamurti: Você sabe como é difícil ser verdadeiramente espontâneo? Quando estamos tão condicionados pela sociedade, quando vivemos de memórias, sobre o passado, como é possível sermos espontâneos? Certamente, fazer alguma coisa espontaneamente é agir sem motivo, sem cálculo, sem qualquer sentimento de auto-interesse. Não é ação autocentrada. Você só faz isso na plenitude do seu ser. Mas para ser realmente espontâneo é preciso sair completamente do passado. Somente a mente inocente pode ser espontânea.

25 de julho, 1963

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