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30/10/1982 – T

 

Palestra 1 – Nova Deli

Se me permitem apontar, isso não é uma conferência como se entende em geral, um discurso sobre um assunto específico com suas instruções. Então isso não é uma conferência, mas antes uma conversa entre duas pessoas, entre você e o orador, não sobre um assunto específico instruindo, guiando e moldando seu pensamento ou opiniões. Somos dois amigos sentados num parque, num banco, conversando juntos sobre seus problemas. Assim, por favor, tenham isso em mente ao longo destas palestras – amanhã e no fim da semana, no próximo fim de semana – dois amigos, você e o orador, que estão interessados profundamente com o que está acontecendo no mundo, sua confusão, o caos, quase anarquia que existe mundo afora. Mas estamos conversando juntos sobre o que está acontecendo nesta parte do mundo.

Imagino se você tem um amigo com quem converse, a quem exponha seus próprios sentimentos, seus próprios conceitos, suas ideias e desilusões e assim por diante. Se você tem tal amigo – e espero que tenha – se você tem tal amigo com quem está discutindo, está conversando, nem um nem outro tentando persuadir o outro, guiar ou moldar seu pensamento particular. Então, se você quiser, vamos conversar desse jeito – explorando, investigando, não aceitando o que o outro diz, não expressando suas próprias opiniões fortes, mas antes, sem nenhuma tendência, com grande amizade, o que significa com grande afeição, respeitando um ao outro, sem segundas intenções, ou seja, tendo algum tipo de pensamento oculto, motivo oculto.

Então, estamos juntos nesta tarde para investigar, não afirmar, pois nessa investigação não existe autoridade. O orador não tem autoridade. Ele não é seu guru, graças a deus. Ele não é um conferencista declarando certos pontos de vista ou introduzindo um novo tipo de filosofia ou ideias. Deve ficar perfeitamente claro que ele não é uma autoridade, mas que vamos juntos investigar o que está acontecendo neste país, ou seja, o que está acontecendo não apenas externamente no mundo da política, negócios econômicos e ambiente, mas também vamos discutir juntos como dois amigos, sua própria vida interior, sua confusão, sua miséria, seu sofrimento e assim por diante.

Então, por favor, somos ambos, você e o orador são responsáveis como dois amigos, não o orador está fazendo uma conferência, dizendo a você o que fazer ou o que pensar ou propondo um novo conjunto de sistemas, ideologias e assim por diante. Nós dois somos iguais. Nós dois estamos interessados em nossas próprias vidas e nas vidas de outros. Então, primeiro, vamos olhar o que está acontecendo a nossa volta, externamente, sem nenhuma tendência, não como indiano, não como alemão, inglês ou americano ou russo. Somos seres humanos seja qual for o país a que pertençamos. Somos seres humanos enfrentando um mundo muito perigoso, enfrentando muita incerteza, confusão. E quando a mente está confusa, buscamos algum tipo de autoridade como meio de segurança. Então, vamos considerar primeiro, se quiserem, o que está acontecendo aqui.

Como se pode observar, o país está passando por grande confusão, grande incerteza, há caos, as pessoas não têm direção. Mas, infelizmente, quando estamos confusos, inseguros, incertos, somos condicionados a tentar e encontrar uma solução no passado, voltar às antigas tradições. É isso que vem acontecendo mundo afora. Existem os fundamentalistas que aceitam a Bíblia como sua autoridade, os fundamentalistas do Islã que buscam o Corão. Há os fundamentalistas que olham para Marx. Assim, quando estamos inseguros, confusos, grandemente perturbados, confiamos em algum tipo de autoridade, algum tipo de livro, no passado, para encontrar uma direção. Agora, nesse país, como você observa, não há muitos livros ou, melhor, há livros demais, líderes demais. Então nossa tradição é incerta. Eles têm todos os líderes, todos os gurus, todos os chamados santos não ajudaram a humanidade, porque somos realmente o que somos no momento.

E qual é a causa básica de toda essa confusão? Porque quando se pode descobrir a causa, então podemos acabar com ela. Uma causa tem fim. Certo? Espero que estejamos nos entendendo. Então estamos perguntando qual é a causa, ou as causas, dessa confusão, dessa falta de integridade, dessa sensação de desesperada degeneração. Qual a origem de tudo isso? A maioria de nós joga com os sintomas. Nós dizemos que é a superpopulação, maus governos, no mundo inteiro é a mesma coisa – falta de liderança, falta de moralidade. Todos esses são sintomas. Mas nunca se pergunta qual a causa de tudo isso. E quando você começa a investigar na causa, cada um de nós tem diferentes opiniões. Quanto mais instruído você é, maiores afirmações de causa ou causas. Mas não somos pessoas muito instruídas. Somos pessoas comuns. Somos leigos. Não somos muito brilhantes, muito inteligentes. Mas estamos presos nisso, nesse grande tumulto que existe no mundo, e aqui, há guerras. Toda nação, todo grupo está se preparando para a guerra. Pergunto-me se você está consciente disso tudo. Todo país, especialmente os países industrializados estão fornecendo armamentos para o resto do mundo. Outro dia em Londres, na televisão, um industrial estava sendo entrevistado e o industrial disse ‘Mandamos para o exterior 80%de nossos armamentos e 20% permanecem aqui’. Isso está acontecendo em todo país industrializado. E ninguém diz por que temos que ter guerra, por que temos que matar uns aos outros, assassinarmos um ao outro. Eles falam sobre cessar a guerra nuclear, mas não sobre cessar todas as guerras. Por quê? Por que os seres humanos se reduziram a essa condição? Por favor, é muito importante fazer essa pergunta. Por que temos que matar outras pessoas, para quê? Por sua nação, por seu grupo particular? A ideia da guerra é um grande processo histórico que nós aceitamos e que se tornou uma grande realidade. Mas a origem dela é, nós vivemos numa ilusão, a ilusão de que nosso país deve ser protegido. O que é seu país? Por favor, faça essas perguntas! O que você está protegendo – sua casa, seu lar, suas ideias, sua conta no banco? Quando o mundo inteiro está se degenerando, caindo aos pedaços e não estamos investigando as causas fundamentais.

Então nós vamos juntos como dois amigos – por favor, tenham isso em mente – como dois amigos que não estão um contra o outro, que são cordiais, que têm certa afeição um pelo outro e estão encarando este problema, isto é, por que nós, seres humanos, nos tornamos o que somos – confusos, inseguros, seguindo qualquer líder que apareça, desagregação do país, fragmentação continuada – os ‘sikhs’, os muçulmanos, os hindus e assim por diante. Qual a causa disso? Vocês estão esperando que o orador lhes diga, ou sua mente, seu cérebro está ativo o suficiente para investigar, não depender do orador para lhes dizer? Nós vamos conversar juntos, o que significa que sua mente, seu cérebro deve estar tão ativo quanto o do orador. E ele só pode estar ativo se você não estiver dizendo eu sou um hindu, budista, o que seja. Nós somos livres para investigar. Investigar quer dizer, primeiro, olhar o que está de fato acontecendo, não uma teoria do que está acontecendo, realmente observar com seu coração, com sua mente, com sua capacidade, com sua energia para olhar.

Agora, qual é a causa disso? É porque procuramos alguém para nos ajudar? Procuramos os líderes políticos, líderes religiosos, líderes econômicos com suas ideias particulares, seus sistemas particulares, de modo que você está sempre dependendo dos outros para guiá-lo, dizer-lhe o que fazer. Essa é a causa original? Ou você culpa o ambiente? Compreende minha pergunta? Você culpa o ambiente, que é o governo, sem líder apropriado, sem guru correto. Esse é o ambiente, alguma coisa fora de você. É essa a causa disso? O que significa que você confiou inteiramente na autoridade – autoridade da tradição, autoridade dos livros, autoridade de líderes, gurus e assim por diante. E quando você depende, gradualmente se torna fraco, se torna frágil. Você é incapaz de pensar claramente, pois você depende. Isso é um fato. Os jornais lhe dizem o que pensar. Em todas as reuniões de que você participa, eles discursam, instruem. Assim, a autoconfiança, o sentido de responsabilidade por si mesmo, não depender do outro, essa pode ser a causa original disso, que nos tornamos irresponsáveis porque dependemos. Você compreende esse fato?

Interrogante: Senhor…

Krishnamurti: Um momento, senhor. Você poderá fazer perguntas, talvez, no final da palestra, se tivermos tempo, mas, por favor, calmamente, você e eu estamos conversando juntos. Eu não estou, o orador não está afirmando nada. Ele não quer que você siga. Ele não é seu guru. Ele não é seu líder. Mas você e eu, o orador, que quer lhe mostrar um modo diferente de viver. Não que você deva aceitá-lo, mas investigar, colocar sua mente e seu coração nisso para descobrir por que nos tornamos o que somos, tão completamente egoístas, completamente preocupados conosco mesmo, e nesse estado de mente e cérebro você pergunta qual é a causa original disso. Você é incapaz de investigar, descobrir, pois nosso condicionamento é para depender, ser dirigido, ser orientado sobre o que fazer, no que acreditar. Isso é um fato, não?

Então, é possível ser uma luz para si mesmo e não depender de uma única pessoa? Naturalmente você depende do leiteiro, do carteiro, do policial que mantém a ordem no cruzamento. Você depende do cirurgião, do médico. Mas internamente, psicologicamente, pensar claramente por si mesmo, observar as próprias reações e respostas e perguntar se você pode ser uma luz para si mesmo completamente. Você compreende o que isso significa, ser uma luz para si mesmo, não autoconfiança, não auto-suficiência. Autoconfiança é parte do egoísmo. É parte do egocentrismo. Mas ser uma luz para si mesmo requer grande liberdade, um cérebro muito claro, não um cérebro condicionado. Nós vamos examinar, olhar a atividade do cérebro, qual é a relação do cérebro com a mente. Vamos examinar tudo isso presentemente. Mas deve-se estar muito ativo, não simplesmente intelectualmente, verbalmente, ativo com suas próprias ideias. Eu não, o orador não quer dizer isso. Ter um cérebro ativo, desafiar, questionar, duvidar. Isso significa ter energia. Mas quando você depende de outros, você perde energia. É isso que está acontecendo.

Então estamos perguntando se essa é a origem principal de toda esta confusão, incerteza, insegurança, a desagregação desse país em partidos, tudo isso indicando um estado de caos. E nós somos responsáveis por isso. Cada um de nós é responsável pelo que está acontecendo. Então nós vamos juntos seriamente, amistosamente, com grande sentido de afeição um pelo outro, investigar e ver se não podemos ir além disso. Então você está aqui com esse propósito, não para ser instruído, não para lhe dizerem ou darem uma direção. Nós tivemos tudo isso no passado. E essa pode ser a… e o resultado é esta total falta de responsabilidade pessoal. Então vamos prosseguir daqui. Essa é a causa. Onde existe uma causa existe um fim. Se eu tenho câncer, que é a causa de minha dor, ele pode ser removido. Então onde existe uma causa para qualquer problema, existe um fim para esse problema. Mas devemos estar muito claros sobre a causa de um problema particular ou de muitos problemas, não apenas explicarmos verbalmente os problemas.

Assim, por favor, estamos escutando um ao outro ativamente, sem nenhuma tendência. Se essa é a causa da presente degeneração da humanidade, pode essa degeneração acabar? Esse é o problema. Então, sua mente, seu cérebro é condicionado? Você compreende essa expressão ser ‘condicionado’? Quando nascemos, desde o momento em que nascemos o cérebro vai sendo condicionado, moldado pela tradição, por sua religião, pela literatura que você lê, pelos jornais, por seus pais, você vai sendo condicionado. O cérebro está condicionado. Ele viveu durante milhões de anos. Ele teve muitas experiências. Enfrentou guerras, sofrimento, prazer, dor, agonia, grande perturbação. E ele está condicionado como hindu, está condicionado como ‘sikh’, como muçulmano, como cristão. Por que ele está condicionado? Por favor, investigue comigo. Por que o cérebro da pessoa está condicionado, se você está consciente de que ele é condicionado. Você é condicionado, não? Você chama a si mesmo hindu e eu me chamo muçulmano, por quê? Seus pais, seus livros lhe disseram, você é hindu, eu sou muçulmano. Ou seja, anos de propaganda. Dois mil anos de cristianismo, a repetição de certa fórmula, rituais, condicionaram o cérebro. O cérebro do muçulmano também está condicionado como o cérebro hindu com seus rituais, com sua autoridade, com seu conhecimento de instruções prévias e assim por diante.

Então estamos investigando – por favor, ouçam isso – estamos investigando seriamente se o cérebro que é condicionado – se você estiver consciente disso – pode esta condição ser resolvida? Nós dois vemos, realmente, que somos condicionados? Certo? Nós dois concordamos com isso pelo menos? Sim? Se você é condicionado significa que seu ser condicionado se torna mecânico – certo? – você repete que você é hindu, eu sou muçulmano, eu sou marxista e assim por diante. E seu cérebro se torna mecânico, rotineiro, repetindo a mesma coisa vezes e vezes – como a guerra é necessária, a liderança é necessária, que você deve depender. Uma criança depende de sua mãe até certa idade mas,depois disso, ela parte. Mas nós, pela dependência, mesmo quando crescemos nos tornamos infantis. Certo? Então estamos interessados, primeiro, se o cérebro pode se libertar de seu condicionamento. Você compreende, se ele for condicionado, eu, o orador como muçulmano e você como hindu, nós vamos ter guerra. Vamos lutar um com o outro, vamos matar um ao outro. É isso que está acontecendo. E se você gosta de viver em estado de perpétua guerra é seu problema. Mas se você for sério, se estiver preocupado com a existência humana, com o futuro do homem, você deve, é preciso aprender se é possível libertar o cérebro de seu condicionamento. Existe todo um grupo de pessoas que diz que o cérebro não pode ser libertado de seu condicionamento. Ele sempre será condicionado, mas modificado. Essa é uma das teorias do comunismo, do marxismo, que o cérebro não pode se libertar de seu condicionamento e, portanto, o condicionam de uma nova forma, que é o marxismo, ler o que diz Marx, aceitá-lo como um deus, talvez não como deus, como seu santo e assim por diante. Se eu sou cristão, fui condicionado, aceito a Bíblia e assim por diante.

Então, em primeiro lugar, nós percebemos, nós dois conversando como amigos, nós percebemos, realmente, que somos condicionados? Então perguntaremos, se formos sérios, se é possível libertar o cérebro de ser hindu, muçulmano, cristão, marxista. Nós somos seres humanos, não rótulos. Mas rótulos contam muito. É isso que está acontecendo. Os ‘sikhs’ querem sua própria… questãozinha. Então, em primeiro lugar, perceber como dois amigos que estão conversando juntos, grande amizade que temos, nossos cérebros são condicionados e nós vemos as conseqüências de ser condicionado.

Onde existe condição, não existe liberdade, não pode haver amor, não pode haver afeição. Então é imperativo, absolutamente essencial para o futuro da humanidade que estejamos interessados no cérebro que é condicionado. Se a pessoa estiver consciente disso, então podemos prosseguir se é possível libertar o cérebro. A relação entre o cérebro e a mente surge, existe, é realizada, quando o cérebro está completamente livre. Aí o cérebro é a mente. Vamos entrar nisso mais tarde conforme avançarmos.

Então somos condicionados, e estamos perguntando se é possível ser livre. Não diga que é ou não é, pois isso seria absurdo; ao passo que, se você investiga, então está aprendendo e não sendo instruído. Você está aprendendo por si mesmo pela investigação, pelo exame. Certo. Então vamos descobrir. Onde você começa, onde você começa a investigar se é possível libertar o cérebro de seu condicionamento? Compreende? Ou seja, você está investigando se é possível não ser um hindu ou um muçulmano ou um ‘sikh’, mas um ser humano com toda a labuta da humanidade, com as ansiedades, as incertezas, a profundidade de sofrimento e dor. Onde você começa? Você começa a investigar do exterior ou começa a investigar do interior? Compreende minha pergunta? Isto é, o exterior, o mundo, não o mundo físico, não a natureza, mas o mundo que a humanidade criou – esse mundo é diferente do mundo em que você vive por dentro? Compreende minha pergunta?A sociedade, a moral, os sistemas, o mundo exterior, ele é diferente de você, ou você o criou, você que deseja segurança, você que deseja ter um status diferente: o mais poderoso, o menos poderoso, o mais ganancioso e o menos ganancioso, o santo religioso e o homem comum. Você criou tudo isso. O mundo é você e você é o mundo. Certo? Isso é um fato ou apenas uma ideia? Compreende? É muito importante compreender isso. Nós, em nossa desordem, em nossa confusão, no desejo de segurança, nós criamos um mundo fora de nós como sociedade que é corrupto, imoral, confuso, eternamente em guerra, porque nós mesmos, em nós estamos confusos. Nós estamos em conflito. Queremos matar alguém a partir da raiva, violência porque queremos proteger nossa imagem como hindus. Certo? E o muçulmano quer proteger sua imagem como muçulmano. E o cristão faz a mesma coisa. O orador acabou de voltar da Europa. Ele visitou muitos países. Cada país diz inglês, inglês, inglês, francês, francês, francês – certo? Eles nunca se consideram como seres humanos, mas entidades isoladas, grupos isolados, isso faz parte de nosso condicionamento.

E estou perguntando, o orador está perguntando, onde você começa, sabendo que você criou este mundo. Então você tem que começar com você mesmo, não com a alteração ou o sistema do mundo exterior, ou seja, não procurar um novo líder, novo sistema, nova filosofia, novos gurus, mas olhar para si mesmo como você é. E você pode observar a si mesmo como observaria seu rosto num espelho? Compreende minha pergunta? Você pode observar suas reações, suas respostas, porque suas reações e suas respostas são aquilo que você é. Então vamos começar aí, investigar.

A vida é um processo de relação. Não existe vida sem relação. Compreende? Isso é um fato. Você pode ser um eremita, pode ser um monge, você pode se retirar de toda a sociedade, mas você está em relação. Como ser humano, você não pode fugir de estar em relação. Certo? Está claro? Você está em relação com sua esposa, com seu marido, com seus filhos, você está em relação com seu governo, está em relação com o eremita que se retirou, pois você o alimenta e ele está em relação com as ideias dele. Assim a relação é a base da existência humana. Sem relação não há existência. Você ou está relacionado com o passado, que é com toda a tradição, todas as memórias, todos os livros, ou você está em relação com alguma ideação futura. Então relação é a coisa mais importante na vida. Você vê isso? Não verbalmente, intelectualmente, mas de fato com seu coração e mente. Você vê a verdade disso?

E estamos investigando qual é sua relação com o outro, seja íntima ou não. Continue, senhor. Estamos investigando, senhor, não durma. Qual é sua relação? É que somos feridos, magoados psicologicamente desde a infância – você está ferido, magoado? – a partir dessa ferida, a partir dessa mágoa psicológica, você gera violência? E as conseqüências de ser ferido interiormente, magoado, é que você se fecha mais e mais para não ser ferido. E sua relação com o outro se torna muito estreita, limitada. Então, primeiro, devemos examinar se é possível descobrir se você pode não ser ferido. E estamos investigando qual é a origem de ser ferido, qual a causa disso? Quando eu digo que eu estou ferido, meu orgulho está ferido, o que isso significa? Meu professor me feriu, meus pais me feriram. Todos estamos feridos. Todos estamos feridos por um acidente, por uma palavra, por um olhar, por um gesto. Então o que é isso que se fere? Você dirá Eu estou ferido. O que é esse Eu que é ferido? Não é uma imagem que você criou de si mesmo? Você não tem imagens? O cérebro – que cidade barulhenta é essa! Tudo bem, vamos continuar. Provavelmente é uma manifestação contra esse encontro. O mundo todo quer se manifestar sobre uma coisa ou outra.

Então estamos fazendo uma pergunta muito séria: o que é isso que se fere? O cérebro tem a capacidade de criar imagens. As imagens são as ilusões que temos. Ilusões, como guerra é uma ilusão. Nós as aceitamos. Aceitamos matar outro ser humano, outra vida como parte da imagem que temos. Nós temos muitas, muitas imagens. E uma das imagens é, eu estou sendo ferido. Então estamos investigando qual é a entidade que está sendo ferida. A entidade é a imagem que construí sobre mim mesmo. Certo? Eu acho que sou muito esperto, um grande homem. Você chega e me diz que sou um idiota. Você fica ferido – eu fico ferido. Onde existe comparação, existe ferida. Você entende isso? Quando eu me comparo com outra pessoa que é mais esperta, mais brilhante, mais inteligente, que é quando aparece a medida, deve haver ferida. Então, por favor, investigue se você pode viver sem comparação, sem medida. Compreende? Ou seja, estamos sempre nos comparando com alguém. Isso começa na escola, quando se diz ao menino que ele deve ser tão bom quanto seu irmão, isso é comparação, isso é medida e o processo continua pela vida afora.

Então, é possível – por favor, investigue – é possível viver sem comparação, sem medida? Essa é uma pergunta tremendamente importante. Porque a palavra ‘melhor’ é medida. A palavra ‘mais’ é medida. Auto-aperfeiçoamento é medida. Então descubra se é possível viver sem medida, o que significa sem comparação. Você sabe que parte da meditação é investigar o não-se tornar, que é medida. Examinaremos isso quando chegarmos lá. Então, é possível em nossa relação um com o outro, conquanto íntima seja, não haver medida? O que significa que seu cérebro deve estar ativo em sua relação, não apenas rotina – ela é minha esposa ou marido – você sabe – continuar como uma máquina. Assim, deve-se investigar em nossa relação, se nessa relação existe ferida e essa ferida produz maior medo, maior fechamento em si mesmo e, portanto, isolamento – entende? – isolamento. Todo país se isola. A Inglaterra está isolada. A França está isolada. A América está isolada em seu modo de considerar a vida. E onde existe isolamento deve haver conflito. Se eu sou judeu e você é árabe, ou seja, você está isolado como árabe, eu estou isolado como judeu, nós vamos lutar. Então, por favor, veja a importância disso. Enquanto houver isolamento, seja externamente ou internamento, deve haver conflito.

E estamos perguntando, o cérebro foi condicionado no isolamento como hindu, budista e assim por diante. Assim, para investigar a questão de se o cérebro pode resolver seu próprio condicionamento, devemos investigar a relação. Qual é sua relação com outra pessoa, com sua esposa, seu marido, seus filhos? Comece aí, perto de casa, não lá longe. Vocês sabem, senhores, para ir muito longe, você tem que começar muito, muito perto.. Para ir muito longe, você tem que colocar sua casa em ordem. Então, você pode estar cônscio, alerta de modo que esteja olhando sua relação e aprendendo dessa conscientização como você responde, quais são suas reações? Isso é vida, isso é vida cotidiana. E tudo isso requer constante atenção a cada reação, cada pensamento. Mas a maior parte de nós é muito preguiçosa. E nos tornamos preguiçosos porque dependemos dos outros. Então por favor, como dois amigos, nós chegamos a certa questão de relação e investigaremos mais na natureza dessa relação. Se o cérebro humano, se é o seu cérebro ou é o cérebro da humanidade. Essa é, realmente, uma questão muito séria: é seu cérebro ou é o cérebro da humanidade? Quando você afirma que é seu cérebro, ou seja, quando você afirma que é minha consciência, é sua consciência, consciência individual ou é a consciência da humanidade? Vou entrar nessa questão agora muito, muito brevemente, você pode investigá-la. Você sofre, você é inseguro, você crê, é ansioso, está em agonia, dor. Você é isso. Sua crença, seu conhecimento, seu caráter, é isso que você é. E isso é exatamente o que seu vizinho é. Ele sofre, ele passa por agonias, sofrimento, dor, problema. Certo? Então, sua consciência está separada do resto da humanidade? Não, naturalmente não.

Então, por favor, se você admite isso, se você vê a verdade disso, você é um indivíduo? Você pode pensar que é um indivíduo, porque é escuro, é pequeno, toda a atividade periférica faz você pensar que você é um indivíduo, mas profundamente você não é o restante da humanidade? Portanto, quando você perceber isso, a verdade disso, nunca mais matará o outro, porque estará matando a si mesmo. A partir daí surge grande compaixão, amor. Nós vamos parar. Falamos durante uma hora. Você quer fazer perguntas?

I: O que é uma ação impessoal?

K: O que é uma ação impessoal. Em primeiro lugar, o que é ação? O que você quer dizer com a palavra ‘ação’? Ou você age de acordo com um padrão – certo? – ou age de acordo com alguma ideia, age de acordo com sua experiência que é passado, age de acordo com seu conhecimento, que é o passado, ou age de acordo com algum ideal que está no futuro, ou age de acordo com sua conveniência. Então, o que você quer dizer com essa palavra? A palavra significa agir, não ter agido ou agirá. Mas ação significa agir no presente. Se essa ação está correta, verdadeira, real, depende da qualidade de seu cérebro, de seu coração, não apenas teoria. Primeiro, portanto, senhores, examinem o que é ação. Todos nós ficamos agindo de manhã até a noite. Vocês estão sentados aí e o orador está sentado aqui. E vocês escutam e ele fica falando, isso é ação. Se vocês escutam, isso é uma ação ou se não escutam, isso é uma ação. Como vocês escutam é uma ação, se estão realmente ouvindo ou se pensam que estão ouvindo.

E o que você quer dizer com impessoal? Você sabe que temos conceitos. O que você quer dizer com pessoa? O que você quer dizer com a palavra ‘pessoa’; palavra, nome, forma? Você é um indivíduo para chamar a si mesmo… e então perguntar Eu posso ser impessoal? Você é um indivíduo? Eu sei que todos vocês se consideram como indivíduos. Toda sua tradição, religiosa e todas as outras, dizem que você é um indivíduo. Você é? Você não é o resultado de séculos de empenho humano? Veja, você não quer questionar todas essas coisas. Você tem medo. Se você não for um indivíduo, o que lhe aconteceria? Individualidade é uma forma de isolamento e, portanto, estamos todos na garganta uns dos outros todos os dias de nossa vida.

Nós não temos amor um pelo outro. Falamos do amor de deus, mas não nos amamos. E, além disso, deus é invenção do homem. Certo? Eu sei que, provavelmente, todos vocês acreditam em deus, mas vocês inventaram essa entidade. Se deus existisse e se ele existe, se nos criou, que deus miserável ele deve ser! Certo? Vocês não querem olhar isso desse modo. Você adora uma ilusão e você gosta dessa ilusão. Você pensa que na ilusão existe segurança. E você está descobrindo que não existe segurança em ilusões. Seu deus o traiu e, contudo, você o adora. O deus cristão, o deus hindu, o deus muçulmano, entendem? É tudo tão absurdamente infantil.

Então, por favor, senhores. Vamos descobrir por nós mesmos se podemos ser uma luz para nós mesmos, não depender de ninguém, psicologicamente, internamente, não depender de sua esposa ou seu marido ou seu guru, ou de um livro, mas viver uma vida, livre, cheia de vitalidade, energia, de modo que seu cérebro seja ativo, não mecânico. Hoje nossos cérebros se tornaram uma forma de computador, mas o computador é muito mais eficiente, muito mais rápido. Vamos entrar nisso, se tivermos tempo. Então, por favor, investiguem num modo de viver diferente.

I: Senhor, temos uma pergunta.

K: Eu acho que é suficiente, senhor, por esta tarde.

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