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24/04/1935 – T

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=96&chid=4456&w=

2ª palestra em São Paulo

Amigos,

Muitas questões tem sido dirigidas à mim, relativas ao futuro pessoal de indivíduos e de suas expectativas; alguns perguntam se eles serão bem sucedidos em certos negócios, outros se eles deveriam deixar esse país e estabelecerem-se na América do Norte, quem é a pessoa certa para se casar e assim por diante. Eu não posso responder a tais questões, pois não sou cartomante. Eu entendo que são questões reais e preocupantes, mas elas devem ser resolvidas pela própria pessoa.

Eu escolhi entre as inumeráveis questões colocadas para mim aquelas que são representativas, mas eu sinto que seria fútil e uma perda de tempo para você e para mim se o que eu vou dizer, e já tenho dito, for aceito como alguma teoria filosófica com a qual a mente pode entreter-se. Eu tenho algo vital para dizer que é aplicável a vida, algo que quando entendido, o ajudará a solucionar os muitos problemas de sua vida diária. Eu não respondo estas questões a partir de qualquer ponto de vista, porque eu sinto que todos os problemas deveriam ser tratados não separadamente, mas como um todo. Se pudermos fazer isso, nossos pensamentos e ações tornar-se-ão sãos e equilibrados.

Por favor, não descarte algumas dessas questões como sendo burguesas ou como perguntadas pela classe abastada. Elas são questões humanas e assim devem ser consideradas, não como pertencentes a qualquer classe em particular.

Pergunta: O que você pensa sobre mediunidade e  comunicação com espíritos dos mortos?

Krishnamurti: Você pode zombar disso ou levar isso a sério. Em primeiro lugar, não nos preocupemos em discutir se espíritos existem ou não, mas vamos considerar o desejo que nos prontifica a comunicar-se com eles, pois essa é a parte mais importante da questão.

Com a maioria das pessoas que se interessam por este tipo de coisa, na comunicação com os mortos, há o desejo de ser guiado, de ser orientado no que fazer, pois eles estão em constante dúvida em relação às suas ações, e esperam que em se comunicando com àqueles que estão mortos eles encontrarão orientações, então poupando-se do problema de pensar. Logo o desejo é de aconselhamento, de direção, para que não cometam erros e sofram. Essa é a mesma atitude que alguns tem em relação aos Mestres, aqueles seres que são considerados mais avançados e portanto capazes de dirigir o homem através de seus mensageiros e assim por diante.

A adoração da autoridade é a negação do entendimento. O desejo de não sofrer alimenta a exploração. Logo, a busca pela autoridade destrói a completude da ação e o aconselhamento traz irresponsabilidade, porque há um forte desejo de passar pela vida sem conflito, sem sofrimento. Por essa razão têm-se crenças, ideais, sistemas, na esperança que a luta e o sofrimento possam ser evitados. Mas essas crenças, ideais, que tornaram-se fugas são a verdadeira causa do conflito, criando ilusões e sofrimentos ainda maiores. Enquanto a mente procurar conforto por meio de conselhos, por meio da autoridade, a causa do sofrimento, ignorância, nunca poderá ser dissolvida.

Pergunta: Para atingir a verdade deve-se abster do casamento e da procriação?

Krishnamurti: Veja, a verdade não é um fim, uma finalidade que pode ser alcançada por meio de certas ações. Ela é aquele entendimento nascido do ajuste contínuo à vida, que demanda grande inteligência; e porque a maioria das pessoas não é capaz desse ajuste autodefensivo ao movimento da vida, elas criam certas teorias e ideais, aos quais esperam que as guiarão. Logo, o homem é seguro na moldura das tradições, preconceitos e moralidades obstinadas, ditado pelo medo e pelo desejo de autopreservação. Isto acontece porque ele não é capaz de discernir continuamente o significado da vida em seu constante movimento, e então ele desenvolve certos “devo” e “não devo”. Uma vida completa e rica, ou seja, uma vida mais inteligente, não autoprotecionista, não uma existência defensiva, demanda que a mente seja livre de todos os tabus, medos e superstições, sem “devo” e “não devo”, e isto somente pode acontecer quando a mente  entender inteiramente o significado e a causa do medo.

Para a maioria das pessoas há conflito, sofrimento e um incessante ajustamento no casamento e para muitos o desejo de alcançar a verdade não é mais do que um escape dessa luta.

Pergunta: Você nega religião, Deus e imortalidade. Como a humanidade pode tornar-se mais perfeita, e portanto mais feliz, sem acreditar nestas coisas fundamentais?

Krishnamurti: Como você somente crê em Deus, em imortalidade, como você meramente acredita nestas coisas é que há tal miséria, sofrimento e exploração. Você pode descobrir se há verdade, imortalidade, somente na completude da própria ação, não por meio de crença, qualquer que seja, não por meio da asserção autoritária do outro. Somente na completude da própria ação, a realidade é revelada.

Agora, para a maioria das pessoas, religião, Deus e imortalidade são simples formas de escape. A religião tem meramente ajudado o homem a escapar do conflito em sua vida, dos problemas com sexo, exploração, ciúme, crueldade e assim por diante, considerando que você não deseja fundamentalmente entendê-los – pois para entendê-los requer-se ação, ação inteligente – e como você não está disposto a esforçar-se, você inconscientemente tenta escapar para aqueles ideais, valores, crenças que foram proferidas. Então imortalidade, Deus e religião têm-se tornado meramente abrigos para a mente em conflito.

Para mim, ambos os que acreditam e os que não acreditam em Deus e imortalidade estão errados, porque a mente não pode compreender a realidade até que ela esteja completamente livre de todas as ilusões. Somente então você pode afirmar, não crer ou negar, a realidade de Deus e a imortalidade. Quando a mente estiver completamente livre dos muitos obstáculos e limitações criadas pela autoproteção, quando ela estiver aberta, totalmente nua, sensível ao entendimento da causa da ilusão autocriada, somente então todas as crenças desaparecem, cedendo lugar à realidade.

Pergunta: Você é contra a instituição da família?

Krishnamurti: Eu sou, se a família é o centro da exploração, se ela está baseada em exploração. (Aplausos) Por favor, qual a vantagem de meramente concordar comigo? Você deve agir para alterar isto. O desejo de perpetuação cria a família que torna-se o centro da exploração. Então a pergunta correta seria realmente: pode-se viver sem exploração? Não, se a vida em família é certa ou errada, não, se ter filhos é certo ou errado, mas se família, posses, poder não são o resultado do desejo por segurança, autoperpetuação. Enquanto houver desejo, a família torna-se o centro da exploração.

Podemos alguma vez viver sem exploração? Eu digo que podemos. Haverá exploração enquanto houver luta por autoproteção; enquanto a mente estiver procurando por segurança, conforto – por meio da família, religião, autoridade ou tradição – haverá exploração. E a exploração cessa somente quando a mente discerne a falsidade da segurança e não é mais ludibriada pelo seu próprio poder de criar ilusões. Se você experienciar o que eu digo, você entenderá que eu não estou destruindo o desejo, e sim que você pode viver nesse mundo ricamente, sadiamente, um vida sem limitações, sem sofrimento.  Você pode descobrir isto, somente pela experiência, não pela negação, não por meio da resignação, nem pela mera imitação. Onde a inteligência está funcionando – e a inteligência deixa de funcionar quando há medo e desejo por segurança – não pode haver exploração.

A maioria das pessoas está esperando que o acontecimento de uma mudança alterará milagrosamente este sistema de exploração. Elas estão esperando por revoluções que concretizem suas esperanças e desejos não realizados; mas nessa espera elas estão morrendo lentamente. Eu penso que meras revoluções não mudarão os desejos fundamentais do homem. Mas se o indivíduo começar a agir com inteligência, sem compulsão, sem compromisso com as condições presentes ou com o que revoluções prometem no futuro, então haverá uma riqueza, uma completude cujo êxtase não pode ser destruído.

24 de abril de 1935.

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