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25/08/1935 – T

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Palestras em Rosário e Mendonza

Amigos,

Quando a pessoa ouve alguma coisa nova, está apta a deixá-la de lado sem pensar; e como eu cheguei da Índia, as pessoas estão inclinadas a imaginar que eu lhes trouxe um misticismo oriental que não tem valor na vida cotidiana. Por favor, ouçam esta palestra sem preconceito, e não a deixem de lado me chamando de místico, ou anarquista, ou algum outro nome. Se você ouvir gentilmente sem preconceito, mas criticamente, verá que o que tenho a dizer tem um valor fundamental. É muito difícil ser verdadeiramente crítico, porque a pessoa está tão acostumada a examinar ideias e experiências através do viés de oposição e preconceito que perverte a clareza da compreensão. Se vocês são cristãos, como a maioria de vocês é, estão fadados a examinar o que eu digo pela tendência particular que sua religião lhes deu. Ou, se acontece de você pertencer a algum partido político, naturalmente, vai considerar o que digo através da tendência de seu partido particular. Nós não podemos resolver os problemas humanos por meio de alguma tendência, seja de um sistema, partido ou religião.

Em todo o mundo há constante sofrimento, que parece não ter fim. Existe a exploração de uma classe por outra. Vemos o imperialismo com toda a sua estupidez, com suas guerras e a crueldade de interesses investidos, seja em ideias, crença ou poder. E há o problema da morte e a busca de felicidade e certeza em outro mundo. Uma das razões fundamentais por que você pertence a uma religião ou seita religiosa é que ela lhe promete uma residência segura na próxima vida.

Nós vemos tudo isto, aqueles de nós que estão ativamente, inteligentemente interessados na vida, desejosos de uma mudança fundamental e pensamos que deve haver um movimento de massa. Ora, para criar um movimento verdadeiramente coletivo, deve haver o despertar do indivíduo. Eu estou interessado nesse despertar. Se cada indivíduo desperta em si mesmo essa inteligência verdadeira, então ele produzirá bem estar coletivo, sem exploração e crueldade. Se você é levado a cooperar pelo medo, nunca pode haver realização individual. Assim, não estou interessado em criar uma nova organização ou partido, ou oferecer uma nova substituição, mas em despertar essa inteligência, pois só ela pode resolver os muitos sofrimentos e misérias humanos.

Ora, a maior parte de nós não são indivíduos, mas simplesmente a expressão de um sistema coletivo de tradições, medos e ideais. Só pode haver verdadeira individualidade quando cada um, pelo conflito e sofrimento, discerne a profunda significação do ambiente em que vive. Se você é, meramente, a expressão do coletivo, não é mais um indivíduo; mas se você compreende toda a significação da consciência coletiva que agora domina o mundo, então você começará a despertar essa inteligência que se torna a verdadeira expressão e realização do indivíduo. Hoje não somos mais do que a expressão, o resultado do ambiente passado e presente; somos o resultado de compulsão e imposição, modelados num padrão particular, o padrão da tradição, de certos valores e crenças, de medo e autoridade. Por conveniência, dividimos este modelo que nos mantém, como externo e interno, o religioso e o econômico, mas em realidade tal divisão não existe.

Religião não é mais do que um sistema organizado de crença, baseado no medo e no desejo de segurança. Onde existe interesse próprio, o desejo de segurança, deve haver medo; e por meio da religião você busca o que é chamado de imortalidade, uma segurança na vida futura, e aqueles que lhe asseguram e prometem essa imortalidade se tornam seus guias, seus mestres e autoridades. Assim, a partir de seu próprio desejo de continuidade egocêntrica, você cria exploradores.

Quando a mente busca segurança na imortalidade, ela cria autoridade, e essa autoridade se torna a causa constante do medo e da opressão. E para guiar e prender você, existem ideais, crenças, dogmas e credos, a partir dos quais nasce o que é chamado religião. Para contribuir para suas necessidades ilusórias, geradas pelo medo, existem sacerdotes que se tornam seus exploradores. Assim, você tem as religiões com seus interesses investidos, medo, opressão e exploração, prendendo o homem e impedindo a verdade, o despertar da inteligência e a realização do indivíduo. As religiões também separam o homem do homem. Nesse molde cada indivíduo é mantido consciente ou inconscientemente, sutil ou grosseiramente. Externamente criamos um sistema de segurança individual baseado na exploração. Pela ganância e o sistema de família, nós criamos a distinção de classes, cultivamos a doença do nacionalismo, imperialismo e essa grande estupidez, a guerra.

Você tem este modelo, este ambiente do qual quase todos nós não temos consciência, pois ele é parte de nós, é a própria expressão de nossos desejos, medos e esperanças. Enquanto vocês se adaptam, conscientemente ou sem pensar, a este sistema, vocês não são indivíduos. A verdadeira individualidade só pode surgir quando você começa a questionar este modelo de tradição, valores, ideais. Você só pode compreender seu verdadeiro significado quando está em conflito, não de outro modo. Com todo o seu ser você deve se voltar contra o ambiente, o que então cria conflito, sofrimento, e daí vem a clareza da compreensão.

Como pode haver realização individual se você está inconsciente desta máquina, deste modelo que está lhe prendendo, modelando, guiando você? Como pode haver completude, alegria, quando estes valores inquestionáveis estão, continuamente, se opondo, pervertendo sua compreensão integral? Quando vocês como indivíduos se tornarem integralmente conscientes desta prisão e se libertarem dela, só então pode haver verdadeira realização. Apenas a inteligência pode resolver a miséria e o sofrimento humano.

Interrogante: É possível viver sem algum tipo de preconceito? Você mesmo não é preconceituoso contra organizações religiosas e espirituais?

Krishnamurti: Eu não acho que sou preconceituoso contra organizações religiosas ou espirituais. Eu pertenci a elas, e vi sua completa estupidez e seus meios de exploração. Não há ilusão em relação a elas e, por isso, não há preconceito.

Agora, isso nos leva para outro ponto que é: pode o homem viver sem nenhuma ilusão? Num mundo onde existe tanto sofrimento, tanta angústia mental e emocional, onde existe tal crueldade desumana e exploração, pode se viver sem algum meio de fuga deste horror? Onde existe um desejo de fugir, deve haver a criação da ilusão em que a pessoa se abriga. Se em sua vida, em seu trabalho, não há realização, então deve haver uma fuga para alguma ideia romântica ou ilusão. Assim, onde existe conflito entre você mesmo e a vida, deve haver preconceito e ilusão, que lhe oferece uma fuga. Pode ser uma fuga pela religião, por simples atividade ou pela sensação.

Se você compreende profundamente os obstáculos que causam conflito entre você e a vida, e assim, fica livre deles, então a mente não precisa de ilusões. Seu interesse é descobrir por si mesmo se você está fugindo da vida, não em me julgar ou ao outro. A fuga destrói o funcionamento inteligente da mente. A ilusão e o preconceito, cessam quando por meio do conflito a mente se liberta de todas as fugas sutis que ela estabeleceu em busca de autodefesa.

Interrogante: Muitas das discussões em torno de suas ideias são provocadas por seu uso frequente da palavra exploração. Pode nos dizer, exatamente, o que você quer dizer com exploração?

Krishnamurti: Onde existe medo, que é o resultado da busca de segurança, deve haver exploração. Ora, libertar a mente do medo é uma das coisas mais difíceis de fazer. As pessoas afirmam muito prontamente que não têm medo, mas se realmente quiserem descobrir se estão livres do medo, elas têm que testar a si mesmas em ação. Têm que compreender toda a estrutura de tradição e valores, e, em se separando disto, elas criarão conflito, e nesse conflito, descobrirão se estão livres. Agora, a maioria de nós age conforme certos valores estabelecidos. Nós não sabemos seu verdadeiro significado. Se você quer descobrir a consistência de seu ser, saia dessa rota e você discernirá os muitos medos sutis que escravizam sua mente. Quando a mente se liberta do medo, então não haverá exploração, crueldade e sofrimento.

Interrogante: Que conselho você pode dar àqueles que estão ansiosos para compreender seus ensinamentos?

Krishnamurti: Se você começa a viver e, assim, compreende a vida, então não pode evitar captar o significado do que estou ensinando. Vocês não veem, senhores, se você segue alguém, não importa quem ele seja, você está criando mais compulsão, mais limitação, e assim, destruindo a inteligência, a verdadeira realização. A verdade não é de ninguém. Se na ação a pessoa se liberta da limitação do medo e, assim, da autoridade, da compulsão, então surge a compreensão daquilo que é verdade..

Interrogante: Você afirma que os ideais são uma barreira à compreensão da vida. Como isto é possível? Certamente um homem sem ideais é pouco mais que um selvagem.

Krishnamurti: Não vamos considerar quem é e quem não é selvagem, pois neste mundo isso é difícil de determinar. (Riso) Antes vamos considerar se ideais são necessários para a plenitude e a compreensão rica. Eu afirmo que ideias, crenças fundamentalmente impedem o homem de viver plenamente.

Os ideais parecem necessários quando a vida é caótica, carregada de sofrimento e cruel. Preso neste tumulto, você se prende a ideais como forma de escapar, como uma necessidade de cruzar o mar de confusão, e assim, eles são falsos e enganosos. Quando você não compreende o sofrimento presente e a agonia, você foge para um ideal. Quando você não ama seu vizinho, fala sobre o ideal da fraternidade. Do mesmo modo, quando fala do ideal da paz, você não está discernindo, verdadeiramente, a causa que cria separação, guerra, com todas as suas brutalidades e estupidez. Nossas mentes estão tão entrevadas, sobrecarregadas de ideias, que não podemos ver claramente o real. Então liberte sua mente de seus ideais, que são apenas esperanças frustradas, e só então ela será capaz de discernir o presente com todo seu significado. Em vez de fugir, aja no presente. Essa ação revela a beleza que nenhum ideal pode revelar.

Interrogante: O que você quer dizer, exatamente, com “ação incompleta”? Pode nos dar exemplos de tal ação?

Krishnamurti: Cada um de nós é criado com certa base. Essa base é memória. Estas memórias estão, continuamente, impedindo a completude da ação. Ou seja, se você foi criado em certa tradição, essa memória impede a compreensão completa da experiência ou da ação; ela cresce e se torna uma limitação ampliada, obstáculo, se separando do movimento da vida. Onde há incompletude de ação, não há realização, o que provoca medo. Daí surge a busca de segurança na vida futura. Completude de ação é o contínuo movimento ou fluxo de vida, realidade, sem a limitação da memória auto protetora.

Interrogante: Ocasionalmente, algum indivíduo rico que perde seu dinheiro comete suicídio. Desde que a riqueza não parece conferir felicidade duradoura, o que se deve fazer para ser realmente feliz?

Krishnamurti: Pessoas que acumulam riqueza dependem, para sua felicidade, do poder que o dinheiro dá. Quando esse poder é removido, elas ficam face a face com seu próprio vazio completo. Enquanto a pessoa está buscando poder, seja pelo dinheiro ou pela virtude, deve haver vazio, e para esse vazio não há remédio, pois o poder em si mesmo é uma ilusão nascida da limitação egocêntrica, do medo. A compreensão só pode chegar no discernimento da falsidade do poder em si, e isto exige constante vigilância da mente, não uma renúncia depois da acumulação. Se existe este sentido de ganância, que destrói o amor, a caridade, então há um vazio, uma superficialidade, uma frustração da vida. Nisso não existe realização.

Interrogante: Alguns de seus seguidores dizem que você é o novo Messias. Eu gostaria de saber se você é um impostor, vivendo da reputação estabelecida para você por outros, ou se você, realmente, tem o interesse pela humanidade no coração e é capaz de fazer uma contribuição construtiva para o pensamento humano.

Krishnamurti: Eu não acho que importa muito aquilo que outros dizem ou não dizem em relação a mim. Se vocês são meramente seguidores, não podem conhecer a plenitude da vida. O que interessa é que você, sem imposição de autoridade, opinião, descubra por si mesmo se o que eu digo tem algum significado profundo. Alguns, simplesmente afirmando que tem, ajudam a criar a gaiola vazia da opinião que limita o descuidado, e outros podem facilmente criar uma opinião oposta declarando que o que eu digo é falso, impraticável e, assim, prendem o inconsciente numa rede de palavras.

O interrogante pergunta se eu vivo da reputação estabelecida para mim pelos outros. Por favor, tenha certeza que não. Esta ideia de viver do passado é destruidora da inteligência. Muitas pessoas, depois de atingir certo patamar, descansam sobre os louros e assim, lentamente, decaem; e como elas têm esse hábito fatal, tentam me forçar em sua própria ilusão. Para mim, viver é inteireza de ação, que é sua própria beleza, e não busca prêmios nem evita sofrimento. Para descobrir a verdade do que eu digo, você, como indivíduo, terá que experimentar e descobrir por si mesmo, e não confiar em opinião.

Se sou um impostor ou não, cabe a mim descobrir, não a você julgar. Como você pode julgar se sou um impostor ou não? Você só pode medir por um padrão, e todos os padrões são limitados. Julgar o outro é, fundamentalmente, errado. Eu sei, sem nenhum medo, ilusão ou autoilusão, que aquilo que estou dizendo e vivendo nasce da vida. Não pelo desejo de julgar, mas só pelo conflito você pode despertar a inteligência. Só no estado de conflito e sofrimento você pode compreender o que é verdadeiro; mas quando você começa a sofrer, deve se manter intensamente consciente, do contrário criará uma fuga pela ilusão. Ora, o círculo vicioso de sofrimento e fuga continuará até você começar a perceber a futilidade de fugir. Só então haverá inteligência, que pode resolver os muitos problemas humanos.

Interrogante: Você afirma que todos aqueles que pertencem a uma religião ou abraçam uma crença são escravizados pelo medo. A pessoa está livre do medo pelo simples fato de não pertencer a nenhuma religião? Você mesmo, que não pertence a nenhuma religião, está realmente livre do medo, ou está pregando uma teoria?

Krishnamurti: Não estou pregando simples teoria; estou falando a partir da plenitude da compreensão. Não pertencer a alguma religião, certamente, não indica que a pessoa está livre do medo. O medo é tão sutil, tão ligeiro, tão astuto que se esconde em muitos lugares. Para seguir a rota do medo até seu refúgio, deve haver o desejo ardente e intenso de expor o medo, o que significa que você deve querer perder completamente todo o interesse próprio. Mas você quer estar seguro, aqui e na próxima vida. Assim, desejando segurança, você cultiva o medo, e tendo medo, tenta escapar pela ilusão da religião, ideais, sensação e atividade. Enquanto houver medo, que nasce dos desejos de autoproteção, a mente estará presa na rede de muitas ilusões. Um homem que deseja realmente descobrir a origem do medo, e libertar-se dele, deve se tornar consciente do motivo e propósito de sua ação. Esta consciência, se é intensa, destruirá a causa do medo.

Interrogante: Quais são as características do nacionalismo, que você chama estupidez? Todas as formas de nacionalismo são más, ou apenas algumas? Não é maravilhoso que seu país esteja lutando para se libertar do jugo da Inglaterra? Por que você não luta pela independência de seu país?

Krishnamurti: Amar alguma coisa bela num país é normal e natural, mas quando esse amor é usado por exploradores em seu próprio interesse, isto é chamado nacionalismo. O nacionalismo se desdobra em imperialismo, e então, o povo mais forte divide e explora o mais fraco, com a Bíblia numa mão e uma baioneta na outra. O mundo está dominado pelo espírito da exploração astuta e cruel, da qual resulta a guerra. Este espírito de nacionalismo é a maior estupidez.

Todo indivíduo deveria ser livre para viver plenamente, completamente. Enquanto se tenta libertar seu próprio país particular e não o homem, deve haver ódios raciais, as divisões entre pessoas e classes. O problema do homem deve ser resolvido como um todo, não confinado a países ou povos.

Interrogante: O que você pensa de seus inimigos, os sacerdotes e os interesses investidos que na Argentina impediram a transmissão de suas palestras?

Krishnamurti: Considerar qualquer pessoa como um inimigo é uma grande tolice. Ou a pessoa compreende e, assim, ajuda, ou não compreende e, então, obstrui. A difusão daquilo que é inteligente só pode ser obstruída pela estupidez. Cada um de vocês tem interesses investidos aos quais estão presos, e que pelo contínuo pensamento e ação vocês estão aumentando. Se uma pessoa ataca seu interesse investido particular, sua reação imediata é ficar na defensiva e retaliar. Um homem que tem alguma coisa para guardar, algo para proteger, está sempre com medo, e, assim, age mais cruel e irrefletidamente; mas um homem que não tem, realmente, nada a perder, porque nada acumulou, não tem medo; ele vive completamente, verdadeiramente realizado.

Interrogante: A experiência tem algum valor?

Krishnamurti: O que acontece quando existe experiência? Ela deixa uma marca na mente, que chamamos memória. Com essa cicatriz, com essa memória, encontramos a próxima experiência, e dessa experiência reunimos mais memória, aumentando a cicatriz. Cada experiência deixa sua marca na mente. Ora, estas camadas coletivas de memórias se baseiam, essencialmente, no desejo de proteger a si mesmo do sofrimento. Ou seja, você chega à experiência já preparado, já protegido por suas memórias passadas. Você não está, realmente, vivendo completamente nessa experiência, mas está meramente aprendendo como proteger-se contra ela, contra a vida. A experiência se torna sem valor para o homem que a usa meramente como meio de mais autodefesa contra a vida. Mas se você vive uma experiência totalmente, integralmente, sem este desejo de autoproteção, então isto não destrói o discernimento, e revela as grandes alturas e profundezas da vida.

Ora, usar a experiência como meio de avançar, ou seja, aumentar os muros de autoproteção é, geralmente, chamado de evolução. Você pensa que pelo tempo esta memória, esta gravação auto protetora, pode alcançar a verdade ou a perfeição ou Deus. Não pode. A verdadeira experiência é o rompimento daqueles muros auto protetores e libertar a mente, a consciência, daquelas cicatrizes que impedem o discernimento, a realização.

Interrogante: Que tipo de ação você pensa que seria útil para o mundo?

Krishnamurti: Uma ação que nasce sem medo e, portanto, da inteligência, é inerentemente verdadeira. Se sua ação se baseia no medo, na autoridade, então tal ação deve criar caos e confusão. Libertando a ação de todo medo, há amor, inteligência.

Interrogante: O problema sexual não é uma real escravidão para o homem?

Krishnamurti: Se nós, meramente, lidamos com este problema superficialmente, não podemos encontrar solução para ele. Emocionalmente e mentalmente somos, na maior parte do tempo, frustrados pela autoridade e o medo. Nosso trabalho, que deveria ser a expressão de nossa realização, se tornou mecânico e cansativo. Somos, meramente, treinados para encaixar num sistema, e assim há frustração, vazio. Somos forçados a ter uma profissão particular devido à necessidade econômica, então somos contrariados em nossa verdadeira expressão. Pelo medo nos forçamos a aceitar as muitas superstições e ilusões da religião. Nossos desejos, contrariados e limitados, tentam nos expressar por meio do sexo, que se torna assim um problema devorador. Porque tentamos resolver isto exclusivamente, separado do resto dos problemas humanos, não podemos encontrar solução para ele. Porque destruímos o amor com possessividade, com simples sensação, o sexo se tornou um problema. Onde existe amor, sem o sentido de possessividade ou apego, o sexo não pode se tornar um problema.

Interrogante: Por que existem opressores e oprimidos, ricos e pobres, pessoas boas e más?

Krishnamurti: Existem porque você permite. O opressor existe porque você deseja se submeter à opressão, e porque você, também, está ansioso para oprimir o outro. Você considerar que se tornando rico será feliz, então você cria o pobre. Com sua ação você está criando o opressor e o oprimido, o rico e o pobre, e apoiando as condições que produzem o chamado mau, o criminoso. Se vocês como indivíduos estão atormentados por todo este terrível sofrimento em você e a sua volta, então vocês saberão como agir voluntariamente, sem medo, sem buscar recompensa.

Interrogante: O que deve ser garantido primeiro, o bem estar coletivo ou o individual?

Krishnamurti: Nós temos que considerar não qual deles deve vir primeiro, mas qual é a verdadeira realização do homem. Eu digo, você saberá o que é isto quando a mente estiver livre daquelas limitações que ela colocou para si mesma em sua busca por segurança. Seguir um sistema ou imitar o outro não leva à realização.

Quais são os impedimentos? O desejo de se proteger, aqui e na próxima vida. Onde existe o desejo de se proteger, deve haver medo, que cria muitas ilusões. Uma das ilusões é a autoridade ou compulsão de um ideal, crença ou tradição, a autoridade de memórias auto protetoras contra o movimento da vida. O medo cria muitas limitações. Quando a mente se torna consciente de uma de suas limitações, então, libertando-se disso, o real criador de ilusões e limitações se revela como sendo aquelas memórias auto protetoras chamadas “eu”. A libertação desta consciência limitada é verdadeira realização. O despertar da inteligência é a garantia do bem estar do indivíduo e, consequentemente, do todo.

Interrogante: Ouvi dizer que você é contra o amor? Você é?

Krishnamurti: Se eu fosse, seria muito estúpido. A possessividade destrói o amor, e sou contra isso. Para ajudá-lo a possuir, você tem leis, que são chamadas moral e que o estado e a religião apóiam. O amor é restringido pelo medo, que destrói sua beleza.

Interrogante: Nós somos responsáveis por nossas ações?

Krishnamurti: A maioria das pessoas preferiria não ser responsável por suas ações. Afinal, quem é responsável se você não é? O caos no mundo é provocado pela ação irresponsável do indivíduo; mas é só por meio da ação consciente, individual que a opressão, exploração e sofrimento podem ser varridos. Nós não queremos agir profundamente, pois isso envolveria conflito e sofrimento para nós mesmos, e assim tentamos nos evadir da responsabilidade plena. Aqueles que estão em sofrimento devem despertar para a plenitude de sua própria ação.

Interrogante: Suas ideias, embora destrutivas, me atraem grandemente, e eu as aceito e as estou praticando por um tempo. Abandonei as ideias de religião, nacionalismo e possessão, mas devo confessar francamente que sou atormentado por dúvida e sinto que posso, meramente, ter trocado uma gaiola por outra. Você pode me ajudar?

Krishnamurti: Qualquer um que lhe diga exatamente o que fazer e lhe dê um método para seguir, lhe parece ser positivo. Ele só está lhe ensinado a imitar, seguir e, então, realmente, é destrutivo da inteligência e gera negação. Se você simplesmente desistiu de religião, nacionalismo e possessão sem compreender sua significação profunda e intrínseca, então certamente, entrou em outra gaiola, pois você espera ganhar alguma coisa de volta. Você está, realmente, buscando uma troca e, assim, não há compreensão profunda, que pode destruir todas as gaiolas e limitações. Se você compreendesse verdadeiramente que religião, nacionalismo, possessividade, com sua plena significação, são venenos neles mesmos, então haveria inteligência, que está sempre livre de todo sentido de recompensa.

Interrogante: Você é fundador de uma nova religião universal?

Krishnamurti: Se com religião você quer dizer novos dogmas, credos, outra prisão para segurar o homem e criar mais medo nele, então, certamente, não sou. Quando você perde o sentido de divindade, o sentido de beleza, aí você se torna religioso ou se junta a uma seita religiosa. Eu desejo despertar essa inteligência que só ela pode ajudar o homem a se realizar, viver felizmente, sem sofrimento; mas depende de vocês se haverá mais seguidores e, portanto, destruidores, ou se haverá amor e unidade humana.

Interrogante: Você pode nos dar sua ideia de Deus e da imortalidade da alma, ou estas coisas são simples estupidez inventadas por homens espertos para explorar milhões de seres humanos?

Krishnamurti: Milhões são explorados porque buscam na vida futura sua própria continuação egocêntrica, que chamam de imortalidade. Eles querem segurança na vida futura e, assim, criam o explorador. Estamos acostumados com a ideia que o ego, o “eu”, é uma coisa que dura e permanece para sempre. O ego não é nada mais do que uma série de memórias. O que você é? Uma forma, um nome, com certos preconceitos, qualidades, esperanças e medos. (Riso) E passando por tudo isso, por estas limitações, existe alguma coisa que não é seu ou meu, que é eterno, que está sempre se tornando, que é verdadeiro. Você não pode medir isto com palavras ou conhecer por explicações. Isso é para ser percebido pelo processo liberador da ação. A simples investigação de Deus, vida, verdade, ou que nome você dê, indica o desejo de fugir do presente, do conflito da ignorância. A ignorância existe quando a mente não é mais do que um depósito de memórias acumulativas, auto protetoras, que é o “eu”, consciência. Esta consciência limitada impede a percepção, a compreensão desse eterno tornar-se, o movimento da vida.

25 de agosto de 1935

 

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