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04/05/1935 – T

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=97&chid=4457&w=

3ª Palestra no Rio de Janeiro

Amigos,

Através dos tempos e também na presente civilização, vê-se como o indivíduo astuto explora o grupo, e o grupo em troca explora o indivíduo. Há essa interação constante entre o indivíduo e o grupo como sociedade, religião, a ideias de líderes e ditadores. Há também a exploração das mulheres por homens em certos países, e em outros mulheres exploram homens. Há formas sutis ou grosseiras de exploração acontecendo onde há interesses investidos, quer seja nas propriedades privadas ou na religião ou na política.

É sempre difícil atingir o real significado além das palavras, e não ser enganado por elas. Pelo completo entendimento do significado atual da moralidade, descobriremos por nós mesmos a nova moralidade e seus pormenores em ação. A maioria das pessoas, após ouvir-me, dizem que dou somente ideias vagas que não são nada práticas. Mas eu não estou aqui para dar-lhe um novo conjunto de regras ou um novo modo de ação, que não seria nada além de outra forma de exploração, outra jaula para aprisioná-lo. Vocês estaria simplesmente deixando a prisão antiga por uma nova, o que seria completamente inútil.  Ao invés disso, se você começar a examinar e descobrir as bases do presente código de conduta, de toda a estrutura da moralidade, então o próprio processo de descoberta da verdade causará o que chamamos moralidade, você começará a discernir o modo da verdadeira ação individual, que será então moral. Esta ação de inteligência, livre da sedução ou compulsão é a moralidade verdadeira.

Nossa moralidade dos dias de hoje está baseada na proteção do indivíduo; é um sistema fechado que age como cobertura para manter o indivíduo no grupo. O indivíduo é tratado como algum animal depravado que precisa ser mantido na jaula da moralidade. Nós tornamo-nos escravos de uma moralidade de grupo que cada um de nós ajudou a construir a partir de seu próprio desejo individual por segurança e conforto. Cada um de nós contribuiu para esse sistema de moralidade que está baseado na aquisição e na autoproteção ardilosa. Nesse sistema fechado, dessa chamada moralidade, criamos religiões estáticas com seus deuses estáticos, imagens mortas, pensamentos petrificados. A prisão estreita da moralidade tornou-se tão poderosa, tão compulsiva que a maioria dos indivíduos vivem com medo de romperem com ela e meramente imitam as regras e conduta da prisão.

Agora, por meio dessa moralidade estreita nós não podemos encontrar a verdade, nem fugindo dela. Se você meramente escapar dessa moralidade pela destruição do código antigo sem o entendimento, nós não vamos criar nada, além de outra forma de autoproteção, outra prisão. Enquanto a mente estiver procurando segurança, buscando formas e meios de assegurar sua própria segurança, ela deve inevitavelmente criar leis e sistemas para sua própria proteção. Esta busca por autoproteção evita o entendimento da realidade. A realidade pode ser discernida somente quando a mente está absolutamente nua, completamente desnudada da ideia da autoproteção.

Logo, você tem que tornar-se intensamente cônscio da causa dessa prisão, dessa construção contínua de seguranças, confortos e fugas, nas quais a mente está engajada. Quando você estiver totalmente cônscio da causa, então a própria mente começa a discernir a maneira verdadeira de agir no exato momento da experiência, e então moralidade torna-se puramente individual. Ela não pode tornar-se um meio de exploração. Sabendo a causa e estando continuamente cônscio dela, a mente por si mesma, começa a atravessar a cobertura dessa moralidade autoprotetiva, que se tornou tão esmagadora, tão destrutiva da inteligência. Nessa consciência que é o acordar da inteligência, a mente atinge o fluxo da realidade, que não pode ser uma religião estática, uma forma de exploração, nem pode ser petrificada num livro de rezas de religiosos.

Pergunta: Uma mera revolução social e econômica resolveria todos os problemas humanos ou ela precisaria  ser precedida por uma revolução espiritual interior?

Krishnamurti: Uma revolução pode vir e ao invés de um sistema capitalista, suponha que se estabeleça uma forma de governo comunista; mas você pensa que a mera revolução externa resolverá os muitos problemas humanos? Sob o sistema atual você é forçado a ajustar-se a um certo método de pensamento, de moralidade, de ganhar dinheiro. Se um sistema diferente é estabelecido por meio da revolução, haverá outra forma de compulsão, talvez para melhor; mas como pode a mera compulsão alguma vez trazer entendimento? Você está satisfeito de continuar vivendo sem inteligência no sistema presente, acreditando e esperando por alguma mudança externa miraculosa acontecer que irá também alterar sua mente e coração? Certamente há apenas um modo que é constatar que o sistema atual baseia-se na exploração egoísta, na qual cada indivíduo está impiedosamente procurando sua própria segurança e portanto lutando para preservar suas próprias distinções e aquisições. Entendendo isto, o homem inteligente não esperará pela vinda de uma revolução, mas começará a alterar fundamentalmente suas ações, sua moralidade e começará a livrar sua mente e coração de toda a ganância. Tal homem está livre do peso de qualquer sistema e portanto pode viver inteligentemente no presente. Se você realmente deseja encontrar a verdeira forma de ação, tente viver no presente com a compreensão do inevitável.

Pergunta: Eu não pertenço a nenhuma religião, mas sou membro de duas sociedades que me dão conhecimento e sabedoria espiritual. Se desisto delas como poderei alcançar a perfeição?

Krishnamurti: Se você entende a inutilidade de todos os grupos religiosos organizados com seus interesses investidos, com suas explorações, a absoluta estupidez dos seus credos baseados em autoridade, superstição e medo – se você verdadeiramente entende o significado disto – então você não pertencerá a qualquer seita ou sociedade religiosa. Você acha que alguma sociedade ou algum livro pode lhe trazer sabedoria? Livros e sociedades podem lhe dar informações; mas se você diz que um sociedade pode lhe dar sabedoria, então você meramente depende dela, e torna-se um explorador dela. Se sabedoria pudesse ser adquirida por meio de uma seita ou sociedade religiosa, nos deveríamos todos ser sábios, pois temos religiões conosco por milhares de anos. Mas sabedoria não pode ser adquirida desta maneira. Sabedoria é o entendimento do fluxo contínuo da vida ou da realidade, que pode ser discernido somente quando a mente está aberta e vulnerável, isto é, quando a mente não está mais obstruída por seus próprios desejos de autoproteção, reações e ilusões. Nenhuma sociedade, religião, sacerdote ou líder irá jamais trazer-lhe sabedoria. É somente por meio do nosso próprio sofrimento, do qual nós tentamos escapar ao juntar-se a grupos religiosos e ao imergimos em teorias filosóficas  – é somente por meio da consciência da causa do sofrimento e em libertando-se dela que a sabedoria nasce naturalmente e suavemente.

Pergunta: Eu desejo muitas coisas da vida que eu não tenho. Você pode dizer-me como conseguí-las?

Krishnamurti: Por quê você quer muitas coisas? Todos nós devemos ter roupas, comida, abrigo. Mas o que está por trás do desejo por muitas coisas? Nós queremos coisas porque pensamos que por meio de bens iremos ser felizes, que por meio de aquisições obteremos poder. Atrás desta questão reside o desejo por poder. Na busca pelo poder há sofrimento, e por meio do sofrimento há o despertar da inteligência que revela a completa futilidade do poder. Então há o entendimento das necessidades. Você talvez possa não querer coisas materiais; talvez você possa ver o absurdo da acumulação de posses, mas você pode querer poder espiritual. Entre este e o desejo por muitas coisas não há diferença. Eles são parecidos; um você chama de materialista e o outro você dá um nome mais refinado – espiritual. Mas em essência eles são somente formas de procurar sua própria segurança, e nisto nunca poderá haver felicidade ou inteligência.

Pergunta: Você parece negar o valor da disciplina e dos padrões morais. A vida não será um caos sem disciplina e moralidade?

Krishnamurti: Como eu disse no início de minha palestra desta noite, nós transformamos moralidade e disciplina em um abrigo para nossa própria proteção, sem qualquer significado profundo, sem qualquer realidade. Não existem guerras, exploração impiedosa, caos total no mundo, apesar de suas disciplinas, suas religiões, suas convenções rígidas de moralidade? Logo, vamos olhar esta estrutura de moralidade e disciplina que construímos e que nos explora, a qual está destruindo a inteligência humana.  No próprio exame desta estrutura fechada de moralidade e disciplina, com grande cuidado e sem preconceito, você começará a entender e desenvolver a moralidade verdadeira que não pode ser sistematizada, petrificada.

A moralidade, a disciplina que você tem atualmente baseia-se sobre a procura do indivíduo por sua própria proteção, segurança, através de exploração econômica e religiosa. Você pode falar sobre amor e  fraternidade aos domingos, mas às segundas-feiras você explora outros em suas várias atividades. Religião, moralidade, disciplina atuam meramente como uma cobertura para a hipocrisia. Tal moralidade, sob meu ponto de vista, é imoral. Enquanto você impiedosamente procurar segurança econômica, da qual nasce uma moralidade que serve a esse propósito, logo você criou religiões espalhadas pelo mundo que lhe prometem imortalidade por meio de suas disciplinas e moralidades restritas e estranhas. Enquanto esta moralidade restrita existir, haverá guerras e exploração, não pode haver um amor real do homem. Esta moralidade, esta disciplina está realmente fundamentada no egoísmo e na impiedosa busca pela segurança individual. Quando a mente livrar-se deste centro de consciência limitada que baseia-se no auto-engrandecimento, então virá um ajustamento à vida, requintado e delicado, que não demandará  regras e regulamentos, mas que é perfeitamente inteligente, expressando-se em ação integrada de verdadeiro discernimento.

Pergunta: Eu não me importo com o que acontece após a morte, mas tenho medo de morrer. Eu devo lutar contra este medo? E como posso superá-lo?

Krishnamurti: Vivendo no presente. A eternidade não está no futuro, ela está sempre no presente. Não há remédio ou substituição para o medo, exceto o entendimento da própria causa do medo. A mente está sendo continuamente limitada pelas memórias do passado, e estas memórias estão impedindo a realização da ação no presente. Logo não há finalização da ação no presente o que cria o medo da morte.

Esta não é uma proeza intelectual, viver no presente. Ela demanda entendimento da ação e libertação da mente da ilusão. A mente tem o poder de criar ilusão, e com isto, nós mais nos ocupamos – criar ilusões, fugas, invólucros sobre as coisas que não queremos entender. A mente está criando ilusões como um meio de fuga, e estas ilusões, com seus poderes, evitam a finalização da ação e a completa compreensão do presente. Portanto ilusões antigas criam novos e adicionais entraves, limitações. É por isso que começamos a pensar em termos de tempo como meio de entendimento, crescimento. Entendimento é sempre no presente, não no futuro. E a mente recusa-se a discernir imediatamente porque isto implica numa revolta inteligente contra tudo que foi construído em sua busca pela própria segurança.

Pergunta: Eu permito que minha imaginação vagueie sem medo. Isto é certo?

Krishnamurti: Na verdade, você pode ficar com medo de muitas coisas. Este voo imaginativo é outra forma de fugir dos problemas da vida. Se ele for uma fuga, ele é um completo desperdício de energia mental. Essa energia torna-se criativa e efetiva somente quando ela liberta-se dos medos e ilusões, que as tradições e desejos autoprotecionistas impuseram sobre ela.

Pergunta: Você está pregando o individualismo?

Krishnamurti: Receio que o interrogante não entendeu muito bem o que eu disse. Não estou advogando o individualismo de forma alguma. Infelizmente, a vasta maioria dificilmente tem uma oportunidade de expressar-se individualmente. Eles podem pensar que eles estão agindo voluntariamente, livremente, mas lamentavelmente eles são meras máquinas, funcionando em uma rotina monótona sob a compulsão das circunstâncias e do ambiente. Logo como pode haver realização individual que é a mais alta forma de inteligência? O que nós chamamos expressão individual, no caso da vasta maioria das pessoas, não é mais nada além de uma reação na qual há muito pouca inteligência.

Mas há um tipo diferente de individualidade, aquela de unicidade que é o resultado da ação voluntária e compreensiva. Isto é, se se entende o ambiente e se age com inteligência criteriosa, então há a individualidade verdadeira. Essa unicidade não é separativa, pois ela é a própria inteligência.

Inteligência é sozinha, única. Mas se você meramente agir através da compulsão das circunstâncias, então, ainda que você possa pensar que você é um indivíduo, suas ações não são mais do que reações, nas quais não há inteligência verdadeira. Porque o indivíduo atual é uma mera reação, na qual não pode haver inteligência, existe este caos no mundo, cada indivíduo procurando sua própria segurança e realização irrefletida.

Inteligência é única; ela não pode ser dividida como sua ou minha. Somente a ausência de inteligência é que pode ser separada em unidades como sua ou minha, e esta é a maldade da distinção, da qual nasce exploração, crueldade e sofrimento.

04/05/1935.

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