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18/05/1935 – T

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=99&chid=4459&w=

Quinta Palestra no Rio de Janeiro

Amigos

Fui informado que o que eu digo é muito complicado, impraticável e inconcebível na vida cotidiana, na qual cada um tem que lutar pelo seu próprio viver. Alguns rejeitam sem pensar no que eu disse, e outros, igualmente sem cuidado, aceitam o que digo sem aprofundar o exame, esperando que o que digo se ajustará nos seus sistemas já existentes. Assim, o poder regenerativo da ação é negado.

Agora, nós estamos preocupados com o viver, e viver implica não somente pão, abrigo, roupas e trabalho, mas também amor e pensamento. Nós não podemos entender o total significado do viver se tratamos separadamente e individualmente com o problema do trabalho, do amor ou do pensamento. Como eles são inter-relacionados e inseparáveis, precisam ser entendidos detalhadamente como um todo. Somente as pessoas que estão confortavelmente estabelecidas na vida, aquelas que seguem os padrões ou sistemas tradicionais que tentam separar trabalho do viver, e elas esperam superar o conflito que surge a partir dessa divisão considerando cada problema isoladamente.

Existem tantas, assim chamadas, pessoas espirituais que consideram trabalho, ocupação como algo materialista, meramente para ser tolerado. Elas estão preocupadas somente com a verdade e Deus. E existem outras que se preocupam somente com a reorganização da sociedade para o bem estar do todo. Se quisermos entender a ação, que é o viver, temos que considerá-la como um todo, não dividi-la em compartimentos impermeáveis, como muitas pessoas o fazem. Viver é a ação harmoniosa de pensamento, emoção e trabalho, e quando estes estão em contradição um com outro, então há sofrimento, conflito, desarmonia. Nós estamos procurando, – não estamos? – viver harmoniosamente, viver completamente em nossas ações, realizar-nos. Para fazer isto, requer-se a mais alta inteligência, que é estar sem medo, exploração, sem procurar recompensa. A partir disso surge a ação renovadora da liberdade. Cada um está fundamentalmente procurando, tentando viver nesta ação; mas ao procurar descobrir este harmonioso movimento de viver, frequentemente a pessoa perde-se em alguma questão pouco importante, tal como, qual sistema ele deveria seguir, se existem Mestres, se existe a verdade, Deus.

Por que não vivemos esta ação inteligente, harmoniosa? Se nós alcançarmos isto, então a vida torna-se simples, extremamente objetiva e criativa. Logo, por que nós que estamos procurando este viver harmonioso – pelo menos, existem muitos que constantemente afirmam que o estão procurando – não atingimos isso? Uma das principais razões é que consideramos os diversos problemas da vida separadamente e individualmente, com eu tentei explicar. Dessa divisão surge o falso pensar que cria a exploração no trabalho e as complicações e confusão que inibe o amor. Estas somente podem ser entendidos e solucionados pelo pensar correto.

Para descobrir o que é o pensar correto, vamos descobrir primeiro o que é o falso em nosso pensamento. Se pudermos saber por nós mesmos o que é falso no nosso pensamento, então saberemos naturalmente, sem imposição, o que é verdadeiro. Através da massa de ideias falsas, através da tela de muitas ilusões, não pode haver a percepção da verdade. Portanto, temos que preocupar-nos em tentar descobrir o que é falso.

Agora, nosso pensamento está baseado no hábito, o hábito de séculos ao qual ele se acostumou. Ele segue um padrão, um sistema, vai se moldando a um ideal que foi estabelecido como uma forma de escape do conflito presente. Enquanto o pensamento estiver seguindo um sistema, um hábito ou meramente ajustando-se a uma tradição estabelecida, um ideal, haverá um falso pensar. Você segue um sistema ou molda-se a um padrão porque existe medo, o medo do certo e do errado, que foram estabelecidos de acordo com a tradição de um sistema. Se o pensamento está meramente funcionando no sulco de um padrão, sem entender o significado do ambiente, haverá medo, consciente ou inconsciente, e tal pensamento deverá inevitavelmente levar à confusão, ilusão e falsa ação.

O hábito tradicional do pensamento em relação ao trabalho é a busca de garantias econômicas, segurança e conforto. Logo, nós desenvolvemos um sistema mundial no qual exploração tornou-se justa e a ambição é honorável. Disto naturalmente surge o conflito de classes, nacionalismo e guerras.

A própria fundação de nosso amor é a possessividade, da qual nasce o ciúme e as complexidades e problemas do sexo. Agora, tentar resolver qualquer um destes problemas individualmente, não como uma parte do todo, é criar e perpetuar conflito e sofrimento, do qual levantam-se ainda mais ilusões e pensar falso.

Enquanto o pensamento estiver procurando e seguindo um padrão, conformando-se a um ambiente o qual ele não entendeu, e meramente agir a partir do hábito, haverá conflito e desarmonia. Portanto, a primeira coisa, se você realmente quiser entender a beleza da vida e sua riqueza, é tornar-se cônscio do ambiente, tanto do passado como do presente, aos quais a mente tornou-se apegada; e no entendimento das ilusões que ela criou para sua própria proteção, então vem naturalmente, sem que a mente precise procurar por ela, aquela ação espontânea, inteligente que é a mais alta realização da vida.

Tudo isso aplica-se aqueles que tem o desejo de entender e viver supremamente, mas não aos que meramente procuram conforto, nem aqueles que se satisfazem com explicações, pois explicações são muita poeira nos olhos. Portanto, para encontrar essa vida, tem que haver a purificação da mente por meio da dúvida, e isto significa o entendimento profundo das tradições e ideais, a dissipação da várias ilusões que a mente criou na procura por sua própria proteção. Então, quando houver discernimento verdadeiro, haverá o êxtase do imensurável, que não pode se imaginado ou preconcebido, mas somente experienciado.

Interrogante: Não podemos ser guiados em nossa vida diária pelo conselhos sábios dados a nós pelas vozes e espíritos dos mortos?

Krishnamurti: Alguns de vocês, eu vejo, estão impacientes com esta questão; vocês podem talvez achar que seja estúpido procurar conselhos dos espíritos. Para fazer esta questão aplicável também a outros, vamos simplificá-la. Algum de vocês podem não ir em sessões espíritas, podem não indulgenciar com a psicografia, mas vocês não se importam em procurar Mestres, que talvez morem em um país distante e em aceitar as mensagens deles por meio de mensageiros. Fundamentalmente, qual a diferença? Nenhuma, qualquer que seja. Ambos estão procurando aconselhamento de outros. Alguns tentam entrar em contato com aqueles que estão mortos – por meio de médiuns, psicografia e outros meios infantis – e há outros que procuram aconselhamento daqueles que chamam de Mestres, por meio de seus representantes, o que é igualmente infantil. Portanto, por favor, não condenem aqueles que vão aos médiuns e atendem sessões espíritas, quando vocês mesmos diligentemente procuram mensagens e sistemas dados por aqueles que você chama de representantes dos Mestres. Há outros que dependem de sacerdotes e cerimônias, tradições e convenções para seus aconselhamentos. Eles estão todos na mesma categoria.

Agora, atrás desta questão – se se pode procurar conselho e orientação dos espíritos, dos Mestres através de seus representantes, de salvadores através de seus sacerdotes – está o desejo de abrigar-se sob a cobertura da autoridade. Não estou preocupado, no momento, com a questão se os Mestres e os assim chamados espíritos existem ou não. Por que você procura por orientação e conselho, por que você anseia por direção? Este é o problema. Você dá valor muito maior ao morto, ao escondido, ao passado do que ao viver, ao presente, porque do morto, do escondido e do passado você pode esculpir suas próprias imagens aprazíveis e viver com estas ilusões completamente satisfeitos; mas o presente e o viver não deixarão você dormir com contentamento. Portanto para fugir deste conflito, que não é mais do que evadir-se do presente, você procura orientação, conselho. Um homem que procura orientação, um homem que cria ídolos para idolatrar, viverá no medo; ele será explorado e sua inteligências lentamente destruída, como isso está acontecendo em todo o mundo. O desejo em procurar orientação dos espíritos e Mestres através de seus representantes surge do medo do sofrimento.

Pode alguém, não importa quem, salvá-lo do sofrimento? Se você pudesse ser salvo por outro, então o problema da autoridade cessaria: você teria meramente que procurar a autoridade mais conveniente e adequada e cultuá-la. Mas eu digo que ninguém pode salvá-lo do sofrimento, exceto, você mesmo, por meio de seu próprio entendimento. É somente seu próprio discernimento da causa do sofrimento, não as explicações de outro, que pode abrir as portas para a maior felicidade, para o êxtase do entendimento. Enquanto você estiver procurando por conselho e orientação, que é nada menos do que um meio de fugir do conflito, enquanto você não discernir por você mesmo a causa do sofrimento, mas meramente ficar confuso pelas explicações, ninguém pode salvá-lo do sofrimento – nenhum sacerdote, nenhum livro, nenhuma teoria, nenhum sistema, nenhum espírito, nenhum Mestre. Porque a realidade, a libertação do sofrimento está em você mesmo, e somente você  poder ir até ela.

Interrogante: Os ensinamentos atribuídos aos grandes mestres – Cristo, Buda, Hermes e outros – tem algum valor para atingir o caminho direto para a verdade?

Krishnamurti: Se você não entender mal, eu diria que os ensinamentos deles tornaram-se sem valor porque a mente humana, sendo tão sutil, tão esperta no seu desejo de autoproteção, torce os ensinamentos para adequarem-se aos seus próprios propósitos e cria sistemas e ideais como um meio de fuga, dos quais crescem igrejas petrificadas e sacerdotes exploradores. Religiões, por todo o mundo, por meio de seus sistemas e o embuste de suas explorações organizadas, procuram ensinar o homem a amar, a pensar, a viver sadiamente, inteligentemente; mas como um sistema pode criar amor ou ensiná-lo a pensar altruisticamente? Como não se quer fazer isso, como não se tem disposição para viver completamente, integralmente, com a mente e coração vulneráveis, criou-se um sistema que se tornou seu mestre, um sistema que é contrário e destrutivo ao pensamento e amor. Portanto é completamente inútil multiplicar sistemas. Se a mente liberta-se a si mesma da ilusão de suas próprias demandas e desejos de autoproteção, então haverá amor, inteligência; então não haverá esta divisão criada por religiões e crenças; e o homem não estará contra o homem.

Interrogante: Se for um fato que seu futuro como Mestre Mundial foi predito, então não é a predestinação um fato da natureza, e nós não somos, portanto meramente escravos de nosso destino nomeado?

Krishnamurti: Se sua ação é condicionada pelo passado, pelo medo ou pelo ambiente, e é portanto feita incompleta, deverá haver amanhã para completar aquela ação. Isto é, se o seu pensamento é limitado, prejudicado pela tradição, pela consciência de classe, ou pelo medo, ou pelo preconceito religioso, então ele não pode completar-se em si mesmo na ação; portanto ele cria seu próprio destino, sua própria limitação. Isto é, sua própria ação incompleta modela seu próprio futuro limitado. Onde há ação incompleta há sofrimento, o qual cria sua própria dependência. Ação verdadeira é sem escolha, mas se a ação é impedida pelo preconceito da escolha, então todas as ações subsequentes devem inevitavelmente criar limitações ainda maiores e estreitas. Logo, ao invés de meramente inquirir se há predestinação ou não, comece a agir completamente. Ao perceber a necessidade por uma ação completa, você discernirá na própria ação os preconceitos de séculos, o qual começa a impedir aquela ação, cerceando sua realização. Quando há o fluxo da ação que é inteligência, então a vida é um contínuo tornar-se sem o conflito da escolha.

Interrogante: O que é o poder da vontade humana?

Krishnamurti: Não é nada, a não ser uma reação contra a resistência. A mente criou, através do seu desejo por autoproteção e conforto muitos obstáculos e barreiras, por conseguinte acarretou sua própria incompletude, seu próprio sofrimento. Para libertar-se deste sofrimento, a mente começa a lutar contra estas resistências e limitações auto-criadas. Neste conflito nasce e desenvolve-se a vontade com a qual a mente identifica-se, dando nascimento então ao “Eu” consciente. Se estas barreiras não existirem, haveria uma realização contínua em ação, não uma superação do conflito. Você está tentando matar, conquistar estas auto-impostas limitações, o que somente dará nascimento à resistência que nós chamamos de vontade. Mas se nós entendermos porque estas barreiras foram criadas, então não haveria uma superação, uma conquista que criam ainda mais resistência. Estas barreiras, estes obstáculos surgiram por meio do desejo de autoproteção, e portanto há um conflito entre o movimento da vida eterna e esse desejo. Deste conflito ergue-se o sofrimento e muitas fugas cuidadosamente cultivadas. Onde há fuga deve haver ilusão, deve haver o erguimento de barreiras.

A vontade nada mais é do que outra das ilusões que nós criamos na busca por autoproteção, e é somente quando a mente libera-se do seu próprio centro de ilusões e torna-se criativamente vazia que há discernimento do que é verdade. Discernimento não é o resultado da vontade, quando a vontade surge da resistência. A vontade é o resultado do conflito da escolha, mas discernimento é sem escolha.

Interrogante: O que é ação?

Krishnamurti: Ação é aquele desimpedido movimento da inteligência, destravado do medo, da compulsão, do conflito da escolha de autoproteção. Tal ação pura é a própria expressão da vida. Agora, esta não é uma resposta filosófica para ser tratada meramente como uma teoria, impraticável na vida diária. Nós estamos preocupados com a ação em cada momento do dia, e nós conheceremos o êxtase desta ação desimpedida quando a mente estiver renovando-se a sí mesma através da realização. Nós entenderemos o significado completo da ação, quando o pensamento estiver livre e desimpedido. Isto é, quando você tiver atravessado as falsas ilusões, os falsos valores que você criou, que tornaram-se seu ambiente, seu fardo, então há o fluxo da realidade, da vida, que é ação por si mesma. Você tem individualmente que começar a discernir o significado da aquisitividade, sobre a qual toda nossa estrutura de pensamento e ação está baseada. Em desembaraçando-se a si mesmo dela, o sofrimento surge somente quando não há compreensão, somente quando há compulsão. Mas para perceber o êxtase da ação desimpedida, o pensamento precisa libertar-se dos moldes dos ideais, acordar aquela incerteza única, a incerteza da não acumulação. Quando a mente é capaz de discernir sem o conflito da escolha, então há o êxtase da ação.

18 de maio de 1935.

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