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27/10/1935 – T

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=116&chid=4476&w=

 

 Segunda Palestra na Cidade do México

Amigos,

Todo mundo deseja ser feliz, ser completo e se realizar; se realizar a fim de que possa não haver vazio, nem vácuo, mas uma profunda riqueza de contínua suficiência. Isto é chamado busca da verdade ou Deus, ou se dá outro nome para transmitir o profundo desejo de realidade. Agora, este desejo, para a maioria das pessoas, se torna uma fuga simplesmente, um voo do fato do conflito. Existe tanto sofrimento e confusão em nós e a nossa volta que nós buscamos uma suposta realidade como meio de fugir do presente. Para a maioria das pessoas, o que elas chamam realidade, ou Deus, ou felicidade é, meramente, uma fuga do sofrimento, desta contínua tensão entre ação e compreensão. Cada pessoa tenta encontrar uma fuga deste conflito por meio de algum tipo de ilusão, o que é oferecido pelas religiões ou pelas ditas sociedades espirituais e seitas; ou ela busca se perder em algum tipo de atividade.

Agora, se você, cuidadosamente, examinar o que estas sociedades oferecem – organizadas, como são, em torno de uma crença, como são todas as religiões e seitas – verá que elas lhe dão segurança, conforto, por meio de um salvador ou um mestre, por meio de guias, seguindo certo sistema de pensamento, ideias e modos de conduta. Todos estes modos de conduta, sistemas, asseguram uma sutil forma de segurança egocêntrica, autodefesa contra a vida, contra a confusão criada pela negligência. Como nós não podemos compreender a vida com seu movimento veloz, procuramos sistemas para nos ajudar, e a eles chamamos de modos de conduta ou padrões de comportamento. Então, amedrontados com a confusão e o sofrimento, vocês criam por si mesmos uma autoridade que lhes assegure proteção e segurança contra o fluxo da realidade.

Tomemos, por exemplo, o desejo de seguir um ideal ou um modo de conduta. Ora, por que existe a necessidade de seguir um ideal, um princípio ou um padrão de comportamento? Você afirma que precisa de um ideal porque há muita confusão em você e a sua volta, que este ideal agirá como guia, como uma força diretiva para ajudá-lo a cruzar esta confusão, esta incerteza e tumulto. A fim de não ficar preso neste sofrimento, você, sutilmente, escapa por meio de um ideal, que você chama de viver nobremente. Ou seja, você não quer confrontar e compreender a própria confusão, e não deseja compreender as causas do conflito; sua única preocupação é evitar o sofrimento. Assim, ideais, modos de conduta, oferecem uma fuga conveniente da realidade. Do mesmo modo, se você examinar sua procura por guias e salvadores, existe aí um sutil e oculto desejo de fugir do sofrimento. Quando fala de buscar a verdade, a realidade, você está, realmente, procurando autoproteção, aqui ou na vida futura; você está se moldando a um padrão que o garanta contra o sofrimento. Este padrão, este modelo, você chama de moralidade, credo, crença.

Ora, tudo isto indica que existe um profundo, oculto medo da vida, que deve, naturalmente, criar autoridade. Então, quando existe autoridade na forma de um ideal, um modo de conduta ou uma pessoa, deve haver anseio por proteção e segurança. Nisto não existe uma fagulha de realidade. Assim nossas ações, modeladas e controladas por ideais, são sempre incompletas, pois se baseiam na reação defensiva contra a inteligência, a vida. Seguindo um ideal ou um modo de conduta, ou submetendo-se a uma autoridade particular, seja da religião ou da seita ou da sociedade, não pode haver verdadeira realização; e só pela realização vem a alegria da verdade.

Como o que chamamos de nossa moralidade e ideais se baseia em reações autodefensivas contra a vida, somos inconscientes delas como impedimentos, como barreiras que nos separam do movimento da vida. A realização completa só existe quando estas barreiras autoprotetoras forem totalmente dissipadas por nosso próprio esforço e inteligência.

Se você quiser conhecer a alegria da verdade, deve se tornar totalmente consciente destas barreiras autodefensivas e dissipá-las por sua própria decisão voluntária. Isto exige esforço contínuo e pronto. A maioria das pessoas não quer fazer esse esforço; elas preferem que lhes digam exatamente o que fazer, preferem ser como máquinas, agindo nas rotinas da superstição religiosa e do hábito. Você deve examinar estas barreiras defensivas de ideais e moralidade e ficar diretamente em conflito com elas. Até que você, como indivíduo, se liberte voluntariamente destas ilusões, não pode haver compreensão da verdade. Dissolvendo estas ilusões de autoproteção, a mente desperta para a realidade e seu êxtase.

Interrogante: É possível conhecer Deus?

Krishnamurti: Especular e, intelectualmente, tirar conclusões se Deus existe ou não, para mim não tem significação profunda. Você pode saber se existe Deus ou não apenas com todo seu ser, não com uma parte do seu ser, o intelecto. Você já tem uma crença fixa de que existe Deus ou de que não existe. Se você aborda esta questão com uma crença ou com não-crença, não pode descobrir a realidade, pois sua mente já está predisposta.

Você só pode descobrir se existe ou não existe Deus destruindo estas barreiras autoprotetoras e ficando completamente vulnerável à vida, totalmente desnudo. Isto envolve sofrimento, que pode despertar a inteligência de onde nasce o verdadeiro discernimento. Assim, qual valor tem isto se eu lhe digo que existe ou não existe Deus? As várias religiões e seitas mundo afora estão cheias de crenças mortas; e quando você me pergunta se eu acredito em Deus ou não, quer apenas que eu acrescente mais uma crença morta ao museu. Para descobrir, você deve entrar em conflito com as várias ilusões das quais está agora inconsciente; e nesse conflito, sem nenhuma fuga por meio de um ideal, pela autoridade ou a adoração do outro, nascerá o discernimento da realidade.

Interrogante: Você é ou não é um membro da Sociedade Teosófica?

Krishnamurti: Eu não pertenço a nenhuma sociedade ou seita ou partido. Não pertenço a nenhuma religião, pois a crença organizada é um grande impedimento, dividindo o homem contra o homem e destruindo sua inteligência. Estas sociedades e religiões se baseiam, fundamentalmente, em interesses investidos e exploração.

Interrogante: Como eu posso me livrar do desejo sexual que me impede de levar uma vida espiritual?

Krishnamurti: Para a maior parte das pessoas, a vida não é realização, mas frustração continuada. Nossa ocupação é, meramente, um meio de ganhar o sustento. Nisto não existe amor, mas só compulsão e frustração. Assim seu trabalho, que devia ser sua verdadeira expressão, é meramente ajustamento a um padrão, e nisto existe incompletude. Seus pensamentos e emoções são limitados e contrariados pelo medo, e a ação provoca sua própria frustração. Se você observar sua própria vida, verá que a sociedade por um lado, e toda a estrutura religiosa por outro, está forçando, compelindo você a moldar seus pensamentos e ações em um padrão baseado na autoproteção e no medo. Assim, onde há continuada frustração, naturalmente o problema do sexo se torna esmagador. Até que mente e coração não estejam mais escravizadas ao ambiente, ou seja, até discernirem o falso pela ação, o sexo será um problema crescente e poderoso. Tratar isto como não espiritual é um absurdo.

Muitas pessoas estão presas neste problema, e para resolvê-lo verdadeiramente você deve desembaraçar seu pensamento criativo e emoção das imposições da religião e da moralidade estúpida da sociedade. (Aplauso) Por meio de seu próprio esforço a mente deve desembaraçar-se da rede de falsos valores que a sociedade e a religião lhe impuseram. Então há verdadeira realização, em que não existem problemas.

Interrogante: Você nos dirá como nos comunicarmos com os espíritos dos mortos? Como podemos estar certos de não estarmos enganados?

Krishnamurti: Você sabe, está se iniciando no mundo todo uma mania de se comunicar com o morto. É um novo tipo de sensação, um novo brinquedo. Por que você quer se comunicar com o morto? Não é porque você deseja ser guiado? Novamente, você quer se defender da vida, e pensa que uma pessoa estando morta se tornou mais sábia e, assim, capaz de guiá-lo. Para você, o morto é mais importante do que o vivo. O que importa é, não se você pode se comunicar com o morto, mas que você se realize, sem medo, completamente e inteligentemente.

Para compreender a vida profunda e integralmente, não deve haver medo, seja do presente ou da vida futura. Se você não penetrar no ambiente presente por sua própria capacidade e inteligência, naturalmente, fugirá para a vida futura ou buscará orientação e, assim, evitará a beleza da vida. Porque este ambiente é restritivo, explorador, cruel, você encontra alívio na vida futura, na busca por guias, mestres, salvadores. Até você agir completamente em relação a todos os problemas humanos, terá vários medos e fugas sutis. Onde existe medo deve haver ilusão e ignorância. O medo só pode ser erradicado por seu próprio esforço e inteligência.

Interrogante: Eu deduzo que você prega a exaltação do indivíduo e que é contra a massa. Como pode o individualismo conduzir à cooperação e à fraternidade?

Krishnamurti: Eu não estou fazendo nada desse tipo. Não estou, absolutamente, pregando o individualismo. Estou dizendo que só pode haver cooperação quando existe inteligência; mas para despertar essa inteligência, cada indivíduo deve ser responsável por seu esforço e ação. Não pode haver um verdadeiro movimento de massa se cada um de vocês ainda se mantém preso em autodefesas. Como pode haver ação coletiva para o bem estar de todos se cada um de vocês é secretamente ganancioso, se defende e, por isso, amedronta seu vizinho, classificando a si mesmo por pertencer a uma religião ou crença particular, ou ferindo com a doença do nacionalismo? Como pode haver cooperação inteligente quando você tem estes preconceitos e desejos secretos? Gerar ação inteligente deve começar com você individualmente. Simplesmente criar um movimento de massa implica exploração e crueldade. Quando você, o indivíduo, percebe a estupidez e crueldade do ambiente social e religioso inter-relacionados, então, pela sua inteligência será possível criar ação coletiva sem exploração. Então a coisa importante não é a exaltação do indivíduo ou da massa, mas o despertar dessa inteligência que pode gerar o verdadeiro bem estar do homem.

Interrogante: Eu reencarnarei na terra em uma vida futura?

Krishnamurti: Vou lhe explicar brevemente o que, em geral, significa reencarnação. A ideia é que existe um lapso, uma divisão entre homem e realidade, e esta divisão é de tempo e entendimento. Para chegar à perfeição, Deus, ou verdade, você deve passar por várias experiências até haver acumulado conhecimento suficiente, equivalente à realidade. Esta divisão entre ignorância e sabedoria é para ser ultrapassada apenas com o constante acúmulo, aprendizagem, que acontece vida após vida até você atingir a perfeição. Você, que é imperfeito agora, se tornará perfeito; para isso deve ter tempo e oportunidade, o que necessita de renascimento. Esta é, brevemente, a teoria da reencarnação.

Quando você fala sobre o “eu”, o que quer dizer? Quer dizer o nome, a forma, certas virtudes, idiossincrasias, preconceitos, memórias. Em outras palavras, o “eu” não é nada mais que camadas de memórias, o resultado de frustração, a limitação da ação pelo ambiente, que causa incompletude e sofrimento. Estas muitas camadas de memórias, frustrações, se tornam a consciência limitada que chamo de “eu”. E você pensa que o “eu” é para continuar através do tempo, se tornando mais e mais perfeito. Mas desde que esse “eu” é, simplesmente, o resultado de frustração, como ele pode se tornar perfeito? O “eu” sendo uma limitação, não pode se tornar perfeito. Ele sempre vai permanecer uma limitação. A mente deve se libertar da causa da frustração agora, pois a sabedoria está sempre no presente. A compreensão não é para ser obtida no futuro.

Por favor, isto necessita de pensamento cuidadoso. Você quer que eu lhe dê certeza de que você vai ter outra vida, mas nisso não há felicidade ou sabedoria. A busca da imortalidade pela reencarnação é, essencialmente, egoísta e, portanto, não verdadeira. Sua busca pela imortalidade é apenas outra forma do desejo de continuidade de reações autodefensivas contra a vida e a inteligência. Tal anseio só pode levar à ilusão. Então o que importa não é se existe reencarnação, mas realizar o completo desempenho no presente. E você só pode fazer isso quando sua mente e coração não estiverem mais se protegendo contra a vida. A mente é astuciosa e sutil em sua autodefesa, e deve discernir por si mesma a natureza ilusória da autoproteção. Isto significa que você deve pensar e agir, completamente, de nova forma. Você deve se libertar da rede de falsos valores que o ambiente lhe impôs. Deve haver total despojamento. Aí existe imortalidade, realidade.

27 de outubro de 1935.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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