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30/10/1935 – T

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Terceira Palestra na Cidade do México

Amigos,

Muitas pessoas aceitaram a ideia de que o homem é alguma coisa mais do que o simples resultado do ambiente. Quero dizer com ambiente, não só a base social e religiosa, mas também o passado. Que o homem é alguma coisa mais do que isto é, especialmente, aceito por aqueles que se consideram pessoas religiosas, espirituais. A maioria de vocês aceitou esta ideia, se examinarem com cuidado, pela autoridade de outra pessoa; ou, ela lhes foi ditada por sua própria esperança e anseio, que vocês chamam de intuição. Vocês não descobriram por vocês mesmos se são alguma coisa além de meras entidades sociais. Vendo que a vida a sua volta é sufocante, sofrida, vocês anseiam por felicidade e se submetem a um modo de conduta particular que se baseia na autoproteção. Vocês acreditam que o homem é mais do que simples matéria porque professores afirmaram isto e muitas religiões e seitas sustentaram isto ao longo dos tempos. Mas se você despe sua mente destas autoridades e ilusões criadas pela esperança, inevitavelmente, chegará à conclusão que não existe certeza profunda em você com relação a este assunto.

E há aqueles que dizem que o homem não é nada mais do que o resultado do ambiente. Eles dizem que, para mudar o homem, o ambiente deve ser completamente controlado e o homem deve ser subjugado a ele, de modo que possa haver a certeza de sua felicidade.

Existe a ideia religiosa que concebe a felicidade eterna apenas depois da morte, que diz que você não pode encontrar a felicidade aqui. A partir daí se desenvolveram crenças, credos, dogmas, salvadores e Mestres, para levá-lo a essa felicidade eterna. Assim, temos inúmeras fugas por meio das quais o homem é explorado.

Portanto, você tem duas ideias diametralmente opostas em relação ao homem – pelo menos, parecem ser – mas, fundamentalmente, elas não são. Uma sustenta que o homem é simples barro a ser condicionado pelo ambiente inteligente, e a outra, que ele só pode ser verdadeiramente inteligente na vida futura se condicionando por meio de certas crenças. Alguns sustentam que o homem pode ser feito inteligente por meio da lei, controlando o ambiente; e as religiões, com ameaça e medo, prometem felicidade divina na vida futura se o homem se condicionar a certas crenças e dogmas. Se você examinar as duas ideias, elas têm atitudes comuns em relação ao homem: uma diz que o homem deve ser controlado pela lei do estado, e a outra que ele deve ser dominado pela punição e prêmio na vida futura. A religiosa e a não-religiosa, embora odeiem uma a outra, são, fundamentalmente, semelhantes, pois ambas acreditam em condicionar e controlar o homem. Isto aconteceu e vem acontecendo agora; em ambas existe esta ideia fundamental de dominar, compelir, forçar o homem em certo padrão.

Com esta compulsão não pode haver verdadeira realização. Pode haver inteligência criativa e felicidade apenas quando não existe compulsão, quando você age voluntariamente, sem medo. Para conhecer a ação criativa, sem esta compulsão contínua, limitante, você deve ficar consciente das inúmeras imposições que lhe são colocadas, e que você criou na busca por sua própria segurança egocêntrica por meio da sociedade e da religião. Voluntariamente se libertando destas compulsões egocêntricas, existe realização.

Como pode haver realização se existem compulsão e medo? Medo e compulsão existirão enquanto a ação se basear em expressão egocêntrica. Quando sua mente e coração se libertarem daqueles valores baseados em exploração e egoísmo religioso então pode haver realização verdadeira e inteligente. Só a ação voluntária manterá a sociedade pura e o homem inteligente.

Interrogante: Se o homem é vida e a vida é eternamente perfeita, por que deve o homem passar por experiência e sofrimento?

Krishnamurti: Novamente este é um de nossos preconceitos religiosos, que a vida é eternamente perfeita. Você nada sabe sobre isto. Tudo que você sabe é que a vida é contínua luta e dor e, ocasionalmente, há uma centelha de felicidade, beleza e amor. A pergunta verdadeira é: Deve haver sofrimento contínuo e que significado tem a experiência?

O sofrimento não é mais do que a indicação de uma mente e coração mantidos na limitação; a mera fuga do sofrimento e a busca por um remédio não liberta a mente, não a desperta para a inteligência. A experiência se torna limitação e obstáculo se a mente a usa como meio de mais autoproteção. Nós aprendemos pela experiência a nos proteger, ser mais espertos para não sofrer. Evitar o sofrimento é chamado de conhecimento obtido da experiência. Aprendemos pela experiência a nos guardar contra o movimento da vida. Assim, cada experiência deixa uma memória autodefensiva, e com essa limitação vivemos através de outra experiência, acrescentando mais muros de autoproteção. Desse modo, existe uma barreira sempre crescente e limitação, e quando isto entra em contato com o movimento da vida, há sofrimento. Quando a mente, voluntariamente, se liberta, pela compreensão, destes muros autoprotetores, então há o fluxo da realidade.

Interrogante: Qual deve ser a meta definitiva do indivíduo?

Krishnamurti: Não pode nunca haver uma meta, uma finalidade, pois a vida é uma contínua transformação, e essa transformação é imortalidade. Mas o desejo do homem é ter alguma coisa definitiva e certa a qual ele pode se agarrar e pela qual ele pode se guiar. Ele busca isto continuamente de muitas formas sutis, pois tem medo de ficar inseguro. Então ele diz: “Deve haver um objetivo definitivo ou meta.” Não pode haver. Você quer um ideal para seguir porque a vida é muito confusa, conflituosa, sofrida, e você diz: “Devo ter alguma coisa que possa me guiar de modo a não sofrer.” Se você examinar, isto é apenas um desejo profundo de fugir por uma ilusão. Então seu ideal, sua meta, sua perfeição, é simplesmente um meio de fugir deste tumulto e dor.

Interrogante: A lei do karma, ou causa e efeito, é um fato na natureza?

Krishnamurti: A palavra sânscrita karma significa ação. Você pode agir profundamente, completamente, apenas quando mente e coração não estão presos na limitação. Onde existe medo, deve haver a criação de ilusão, limitação. Esta limitação cria incompletude de ação e causa sofrimento. Desse sofrimento a mente procura uma saída por meio de alguma ilusão, ideal, crença, o que só cria maior limitação na ação e mais sofrimento. Neste círculo vicioso a mente está presa.

Enquanto a ação brotar do medo, nascido do egoísmo, deve haver incompletude. Toda ação nascida de uma mente e coração fechado deve criar conflito e sofrimento. Como nossas mentes estão cheias de muitas frustrações, causadas pelo medo, é necessário despertar para essas limitações, e a mente deve, voluntariamente, libertar-se delas pela ação. Então, há completude de ação, realização.

Interrogante: Qual é sua opinião sobre espiritualismo?

Krishanmurti: Há várias coisas implicadas neste desejo de saber se existe vida no futuro. Porque perdemos alguém que amávamos grandemente, em nosso sofrimento desejamos descobrir se essa pessoa continua a viver. Mas supondo que você sabe que a vida continua depois da morte, a questão do sofrimento não está resolvida. O vazio, a lacuna ainda está ali. Mas a felicidade momentânea de alguma segurança não pode encobrir nossa agonia eternamente. Esta constante busca por consolação torna nossa vida mais e mais vazia, superficial, sem valor. Também, existe um desejo de encontrar o que se chama de um guia, uma autoridade. Você quer ser guiado porque tem medo da vida, e então cria exploradores, como as religiões organizadas.

Então, em sua busca por conforto, consolação, você está se destruindo, criando vazio em sua mente e coração. Onde existe um desejo de seguir, há uma indicação de medo e a criação de autodefesas contra a inteligência, contra a vida, a realidade.

30 de outubro de 1935

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