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07/09/1935 – T

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Segunda Palestra em Santiago

Amigos,

Quero falar esta tarde, brevemente, sobre ação e realização. Nós percebemos a frustração e a limitação que surgem por meio de nossa ação. Com um ato parece que criamos muitos problemas, e nossa vida se torna uma infindável série deles, com seu conflito e miséria. A mente em seu movimento parece aumentar sua própria limitação, e a ação que deveria ser libertadora apenas intensifica sua própria frustração. Para compreender esta questão de ação e realização, a mente deve estar livre da ideia de interesses investidos. Onde há interesses investidos – seja num ideal, numa crença, numa esperança, ou em qualquer outra coisa – deve haver medo; e qualquer ação nascida do medo vai trazer frustração, limitação.

Tentarei expor quais são os obstáculos que realmente se encontram no caminho da realização. Não vou descrever o que é realização, pois a mera explicação disso não pode nos indicar as limitações e a maneira de libertar a mente delas. Por favor, vejam por que é necessário compreender quais são os obstáculos, e como eles são criados, e não o que é realização. Se eu fosse definir o que ela é, a mente transformaria isso num sistema rígido e simplesmente o imitaria. O próprio desejo de realização se torna um grande obstáculo. Em vez de imitar, se pudermos descobrir por nós mesmos quais são as limitações que mutilam a mente, e livrá-la delas, então, nessa própria liberdade está a realização.

Realização, então, não é busca de segurança. Onde existe uma busca por certeza, proteção, conforto, essa própria busca produz medo. A maioria das pessoas, sutil ou grosseiramente, anseia por esta segurança e, com seus atos, cria medo. Assim, onde existe medo, há um profundo anseio por certeza. Este desejo cria suas próprias limitações, e autoridade e compulsão são algumas delas.

Existem muitas formas sutis de autoridade. Ela se expressa pelo desejo de seguir um ideal, uma pessoa, ou um sistema. Por que nós queremos seguir um ideal? A vida é caótica, conflituosa, cheia de dor, e nós achamos que, se encontrarmos um ideal, então seremos capazes de nos guiar através desta confusão dolorosa. Mas na realidade, o que estamos fazendo? Estamos criando o que chamamos ideal como meio de escapar do conflito, do sofrimento. Seguindo e nos submetendo ao ideal, pensamos que seremos capazes de compreender nossa vida contraditória e sofrida. Em vez de nos libertarmos daquelas causas que nos impedem de viver humanamente, com amor, com consideração, tentamos escapar pela ilusão de um ideal. Esperamos que modelando nossas mentes e corações com disciplina, com a imitação de certos ideais e crenças, atingiremos aquele estado humano inteligente. Esta imitação cria uma atitude hipócrita em relação à vida. Com o desejo de escapar do movimento da vida, que está sempre no presente, buscamos encontrar o propósito da vida. Com o desejo de fugir da realidade, a mente se submete à compulsão dos ideais, que não são mais do que memórias autoprotetoras contra a vida.

Portanto, existe esta compulsão que é imposta pelas memórias autoprotetoras. A maioria de nós acha que por meio de uma contínua série de experiências, a mente pode se libertar de todas as suas muitas limitações. Mas não é assim. O que acontece é que cada experiência deixa na mente certas cicatrizes, memórias de autoproteção que são usadas como meio de defesa contra uma nova experiência. Isto é, você tem uma experiência, e pensa que aprendeu alguma coisa dela. O que você aprendeu é a ser cauteloso, a não ser pego no sofrimento novamente. Assim, por meio de cada experiência você desenvolve certos níveis de memória, que atuam como barreiras entre a mente e o movimento da vida.

Ideais e memórias, com toda sua significação, impedem cada um de viver completamente em ação, em experiência. Em vez de viver com a experiência completamente, com todo o nosso ser, você traz todos os seus preconceitos de ideais, moralidades e memórias autoprotetoras, e essas impedem a realização. Onde não há realização, há sempre o medo da morte, e o pensamento no futuro. Assim, gradualmente, o presente, o movimento vivo da vida, perde toda sua beleza e significado, e existe apenas vazio e medo.

Se for para haver verdadeira realização, a mente deve se libertar de ideais e memórias, com todo o seu significado. Pelo desejo de segurança, estas memórias e ideais se tornam meios de compulsão. Onde existe segurança não pode haver realização.

Interrogante: Você disse várias vezes: “Perceba e compreenda o completo significado do ambiente”. Isto significa, necessariamente, ação entrando em conflito com ambiente? Ou é simples percepção, sem nenhuma expressão dinâmica pela ação?

Krishnamurti: Como se pode, verdadeiramente, discernir se não existe ação? Não pode haver um discernimento intelectual. Ou há profunda compreensão ou a criação de simples teoria. Se você deseja compreender o ambiente, não só o objetivo, mas o subjetivo que é infinitamente sutil, então você deve, individualmente, entrar em conflito com ele. É apenas no conflito, no sofrimento, que você, o indivíduo, começa a discernir a verdadeira significação de valores; e como a maior parte das pessoas tem medo de entrar em contato com o sofrimento, elas preferem entender intelectualmente sua significação. Assim, deixam a responsabilidade da ação para a massa, essa entidade vaga e irreal, que elas esperam que miraculosamente vá alterar seu ambiente, e lhes trazer felicidade.

Para compreender profundamente o sutil significado do ambiente, você, o indivíduo, deve se tornar consciente e sair dessas condições limitantes, sejam elas sociais, religiosas ou tradicionais. A verdade, a beleza da realidade, só pode ser discernida quando a mente está sem medo – não a ausência de medo da intelectualidade, mas da profunda insegurança. Você só pode conhecer isso por meio da ação.

Interrogante: Existe algum valor em rezar para inteligências superiores nos ajudarem na vida diária?

Krishnamurti: Nenhum. Vou explicar o que quero dizer. O que causa miséria, conflito, sofrimento em nossa vida diária? Tradições, valores morais egoístas, imposições de interesses investidos, apego, ganância: estes criam condições que impedem a felicidade humana. E qual é a utilidade de rezar para alguém quando você, com sua própria inteligência, pode alterar toda esta terrível confusão? Não querendo encarar o sofrimento, nós tentamos escapar por meio da oração. Você pode escapar momentaneamente, mas a força de seu desejo se apresenta novamente, mergulhando a mente em miséria e confusão. Então o que importa é, não se tem valor rezar, mas despertar essa inteligência que resolverá nossas misérias humanas. Uma mente e um coração endurecidos, que se limitaram por seus medos egoístas, rezam. Mas se houver amor, você libertaria a mente de seus próprios medos egoístas, e só isto pode gerar inteligência e ordem feliz.

Interrogante: O amor livre da possessividade não leva à interrupção da reprodução e, por isso, à extinção da humanidade? Como isto parece não inteligente, não é o resultado de uma crença?

Krishnamurti: Antes de podermos dizer que é resultado de uma crença e, por isso, não inteligente, devemos compreender o que é nosso amor atual. Não é nada além de possessividade, exceto naqueles raros momentos quando o perfume do amor é conhecido. Para controlar, para possuir, temos certas leis que chamamos de moral. Para mim, onde há possessividade não pode haver amor. Sem estar consciente de todas as suas sutis imposições e crueldades, você diz: “Se nos libertarmos da possessividade, não nos livraríamos totalmente do amor?” Para descobrir isto, você deve experimentar, não pode, simplesmente, afirmar. Deixe a mente libertar-se inteiramente do apego, da possessividade; então você saberá.

É quando nós perdemos o amor devido à possessividade que temos problemas sexuais; queremos resolvê-los separadamente, apartados do resto dos problemas e dificuldades do homem. Você não pode isolar um problema humano e resolvê-lo isoladamente, exclusivamente. Para compreender profundamente o problema do sexo e dissolver suas dificuldades, devemos saber onde estamos sendo frustrados, dominados. Pelas condições econômicas o indivíduo se tornou uma máquina, e seu trabalho não é realização, mas compulsão. Onde deveria haver a liberação da auto-expressão por meio do trabalho, há frustração; e onde deveria haver pensamento profundo, completo, há medo, imposição, imitação. Assim, o problema do sexo se torna desgastante e intrincado. Achamos que podemos resolvê-lo exclusivamente, mas isto não é possível. Quando o trabalho se torna verdadeira expressão e quando não há mais desejo, pelo medo, de se apegar a crenças, tradições, ideias e religiões, então surge a singular realidade do amor. Onde existe amor, não existe o sentido da possessão; apego indica profunda frustração.

Interrogante: Temos que aperfeiçoar a ordem das coisas criadas pelo próprio Deus?

Krishnamurti: Essa é a atitude do explorador. Ele quer deixar as coisas como elas estão, estando no lado seguro. Mas pergunte ao homem que está sofrendo, pergunte ao homem que vive com roupas esfarrapadas num barraco; então você saberá se as coisas devem ser deixadas como estão. Os pobres e os ricos querem que as coisas permaneçam como estão: os pobres têm medo de perder o pouco que possuem, e os ricos de perder tudo o que possuem. Então, quando existe medo de perder, de ficar inseguro, vem o desejo de não interferir com a ordem das coisas que Deus ou a natureza criaram.

Para gerar ordem humana feliz, deve haver dentro de cada um de vocês uma mudança profunda, fundamental. Onde existe uma contínua adaptação ao movimento da vida, verdade, nunca existe medo. Cada um de vocês deve sentir o veneno da compulsão, da autoridade e da imitação. Cada um deve sentir a imensa necessidade, por seu próprio sofrimento, de uma mudança completa e radical de pensamento e desejo, livre da sutil busca de substituição. Então haverá a verdadeira realização do homem.

Interrogante: Se o sofrimento é necessário para a purificação de nossas almas, por que anular o sofrimento pela compreensão de sua causa?

Krishnamurti: O sofrimento não purifica. Por que existe sofrimento? Quando a mente está estagnada, entorpecida por crenças, mutilada por limitações, e é despertada pelo movimento da vida, a esse despertar chamamos sofrimento. Onde há perturbação de nossa segurança pela ação da vida, a isso chamamos sofrimento. Em vez de ver que o sofrimento é um obstáculo, tentamos utilizá-lo para conseguir algum outro resultado. Pela ilusão você não pode chegar à realidade.

Ora, o sofrimento não é mais do que indicação de limitação, de incompletude. Quando a pessoa discerne o impedimento do sofrimento, ela não pode transformar isto em meio de purificação. Você deve se livrar da limitação disto. Deve compreender a causa e seus efeitos. Se você o usa como um meio de purificação, está, sutilmente, tirando daí segurança e conforto. Isto só cria mais obstáculos, impedindo o despertar da inteligência. A partir destes muitos obstáculos, destas memórias autodefensivas, nasce a consciência limitada, o “eu”, que é a verdadeira causa de sofrimento.

Interrogante: Você não considera que é praticamente impossível que suas ideias elevadas e concepções germinem em cérebros degenerados por vícios e doença?

Krishnamurti: Naturalmente, isso é óbvio. Mas vício é um hábito cultivado, um meio de fuga, geralmente, da vida, da inteligência.

Pegue a questão da bebida. O interesse investido vende bebida, e o governo apóia. Então você forma sociedades moderadas e organizações religiosas para despertar o homem para a crueldade e estupidez do alcoolismo. De um lado você tem interesse investido, e do outro o reformador; e a vítima se torna o brinquedo dos dois. Se você quer ajudar o homem, que é você mesmo, então você cuidará para que não seja explorado através da sua própria estupidez. Isto exige discernimento de valores existentes e percepção de seu verdadeiro significado. Devido à ilusão, à estupidez, o homem é explorado pelo homem. Depois de nos rodearmos de muitas limitações que impedem a felicidade humana, a bondade, o amor, pensamos que vamos nos livrar delas buscando mais substituições. Pela sua ganância, pelo seu medo, você vai criando ilusões, e nessa rede você enreda seu vizinho também.

Interrogante: O que deve ser compreendido como Deus? Ele é um ser pessoal que guia o universo, ou Deus é um princípio cósmico?

Krishnamurti: Posso perguntar por que você quer saber? Ou você deseja ficar mais fortalecido em suas crenças, ou está procurando um meio de fugir do sofrimento e do conflito. Se você está pedindo confirmação, então existe dúvida, que não deve ser amenizada. Você nunca pergunta ao outro se está apaixonado. E se alguém fosse descrever a realidade, não seria mais real. Como você pode descrever para alguém que não conheceu isto, o que é estar apaixonado?

Agora, eu digo que existe uma realidade; ela não pode ser medida com palavras. Você não pode estar cônscio dessa realidade se existe medo, se existem limitações que destroem a delicada flexibilidade de mente e coração. Assim, em vez de perguntar o que é Deus, descubra se sua mente e coração estão escravizados pelo medo, o que cria ilusão e limitação. Quando mente e coração se libertam destas proteções auto-impostas, então na realização está a compreensão daquilo que é.

Interrogante: Em algumas de suas primeiras palestras, você disse que o conflito existe apenas entre o falso e o falso, nunca entre o real e o falso. Poderia, por favor, explicar isto?

Krishnamurti: Não pode haver uma luta entre luz e escuridão. A ilusão ocasiona conflito, não entre ela mesma e a realidade, mas com suas próprias criações. Nunca há conflito entre inteligência e estupidez.

Interrogante: Por favor, explique o significado de ação pura. Ela acontece quando a vida se expressa por meio do indivíduo liberto?

Krishnamurti: No momento vamos deixar de lado o indivíduo liberto e compreender o que chamamos de ação.

Com certas limitações e preconceitos a mente-coração encontra a vida ou a experiência. Neste contacto entre o morto e o vivo, existe ação. O desejo fica buscando realização. Em sua realização, em sua ação existe dor e prazer, e, outra vez, a mente os registra. Na expressão de outros desejos existe, novamente, dor e prazer, e, novamente, a mente os armazena; assim, a mente se torna o depósito de memórias. Estas memórias atuam como advertências. Consequentemente, a ação se torna mais e mais controlada e dirigida por estas memórias, baseadas em prazer e dor, em autodefesa. A ação, por ter se originado de memórias e desejos autoprotetores, está continuamente criando restrições, limitações. Existe a ação de memórias autodefensivas, e uma ação que está livre deste centro de limitação auto-imposta.

Interrogante: Você retém do público alguma coisa que sabe?

Krishnamurti: Existe, na maior parte das pessoas, um desejo de ser exclusivo, de se separar dos outros pelo conhecimento, pelos títulos, pelas posses. Esta forma de segregação fortalece sua presunção, suas pequenas vaidades. Nossa sociedade, a temporal e a chamada espiritual, se baseia nesta exclusividade hierárquica. Sujeitar-se a esta separatividade cria as mais grosseiras e sutis formas de exploração.

Eu não tenho ensinamentos secretos para os escolhidos. Naturalmente, existem aqueles que desejam se aprofundar mais no que digo; mas se eles se tornam exclusivos e criam um corpo secreto, estão sendo encorajados a isto pelo próprio desejo que têm de serem exclusivos.

Interrogante: Você crê em Deus?

Krishnamurti: Ou você faz esta pergunta pela curiosidade de descobrir o que eu penso, ou você quer descobrir se existe Deus. Se você está, simplesmente, curioso, naturalmente não há resposta; mas se quer descobrir por si mesmo se existe Deus, então deve abordar esta investigação sem preconceito; deve chegar a ela com a mente pura, nem acreditando nem desacreditando. Se eu dissesse que existe, você aceitaria como uma crença, e acrescentaria essa crença às crenças mortas já existentes. Ou, se eu dissesse não, isto se tornaria um apoio conveniente para o descrente.

Se um homem está verdadeiramente desejoso de saber, não o deixe buscar a realidade, a vida, Deus – o que será apenas uma fuga do sofrimento, do conflito – mas deixe-o compreender a própria causa do sofrimento, do conflito, e quando a mente estiver livre disto, ele saberá. Quando a mente está vulnerável, quando ela perdeu todo o apoio, as explicações, quando está despida, então ela conhecerá a alegria da verdade.

7 de setembro de 1935

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