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08/09/1935 – T

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Terceira Palestra em Santiago

Interrogante: O que você tem a dizer sobre o tratamento de criminosos?

Krishnamurti: Ora, tudo depende de quem você chama de criminoso. Uma pessoa patológica não é um criminoso, e é tolice colocá-la na prisão. Ela precisa de atenção médica e cuidado. Uma pessoa que rouba deliberadamente é, em geral, chamada de criminoso. A menos que seja um caso patológico, ela rouba porque não tem o suficiente para as necessidades da vida. Assim, qual é o sentido de transformá-la em criminoso levando-a para a prisão? Ela é o resultado de condições econômicas cruéis, absurdas, exploradoras. Ela não é a verdadeira culpada, mas todo o sistema de ganância que cria o explorador.

Existe ainda um outro tipo de homem que também é chamado de criminoso; suas ideias, sendo verdadeiras, se tornam perigosas, e você se livra dele o mandando para a prisão ou o matando. Por meio de sua própria ação, a pessoa ou cria as condições que produzem o chamado criminoso, ou destrói aquelas limitações que criam sofrimento.

Interrogante: Diz-se que você é um agente do governo britânico e que sua palestra contra o nacionalismo é parte de um vasto plano de propaganda direcionado para manter a Índia dentro e sujeita ao Império Britânico. Isto é verdade?

Krishnamurti: Receio que isto não seja verdade. É muito absurdo se afirmar, quando a pessoa diz o que pensa, que ela é agente de alguma causa ou país. (Riso) Para mim, o nacionalismo, seja no Chile, Inglaterra ou Índia, é destrutivo. Ele separa os seres humanos, causa muitos males. O nacionalismo é uma doença horrível, e quando digo isto, as pessoas de outros países que têm interesses investidos – aqui ou em qualquer outro país que não o deles mesmos – estão bem de acordo com isto, e aquelas para quem o nacionalismo é um meio de explorar seu próprio povo se opõem muito a ele. O nacionalismo é, afinal, um sentimento falso, estimulado por interesses investidos e usado para o imperialismo e a guerra.

Interrogante: O que você afirma sobre o nacionalismo não é prejudicial ao bem estar das nações menores? Como podemos nós, no Chile, esperarmos manter nossa integridade nacional e bem-estar a menos que nos sintamos intensamente nacionalistas e nos defendamos contra as nações maiores que buscam nos controlar e dominar?

Krishnamurti: Quando você fala de manter sua integridade nacional e bem-estar, quer dizer desenvolver sua própria classe particular de exploradores. (Riso) Não pense em termos de Chile ou algum outro país, mas pense na humanidade como um todo.

Ontem eu estava passeando pelo país, e havia um belo pôr-do-sol. As montanhas e a neve estavam incandescentes, claras, belas. Um trabalhador, literalmente em trapos, passou. Alguns têm dinheiro para viver confortavelmente e aproveitar o luxo e a beleza da vida; outros têm que trabalhar de manhã à noite, desde uma tenra idade até morrerem, sem descanso, sem esperança. Nós permitimos toda esta crueldade e horror em todo país. Perdemos nossos sentimentos delicados, estamos frustrados e nos destruindo pelo medo e pela ganância.

Certamente, para abolir a pobreza, vocês devem pensar como seres humanos, não como nações. Só pode haver humanidade, e não a cruel divisão de raças e a absurda tolice do nacionalismo. Por que este estado feliz e inteligente não pode ser gerado? Quem está impedindo? Cada um de vocês – porque pensam em termos de Chile, Inglaterra, Índia, ou algum outro país. Como crenças dividem pessoas, assim vocês deixam fronteiras destruírem a unidade do homem. Depende de você, não de uma coisa vaga chamada massa, gerar unidade humana e felicidade.

Interrogante: Aparentemente, você acredita que todos os sacerdotes são patifes. (Riso) Na igreja católica há muitos grandes e santificados homens. Você também os chama de exploradores?

Krishnamurti: Pelo medo se cria autoridade, e aceitar isto deve produzir exploração. Assim, cada um, pelo medo, cria exploradores. Por seus próprios desejos e medos vocês criaram as religiões com seus dogmas, credos e todo seu esplendor e espetáculo. As religiões como crenças organizadas, com seus interesses investidos, não levam o homem à realidade. Elas se tornaram máquinas de exploração. (Aplauso) Mas você é responsável pela existência delas. A mente deve se libertar dessas ilusões que o medo criou, essas ilusões que, agora, parecem realidade; e quando a mente é simples, direta, capaz de pensar verdadeiramente, então ela não criará mais exploradores.

Interrogante: Seu ensinamento em relação à família me parece insensível e frio. A família não é o resultado mais natural de afeição entre seres humanos?

Krishnamurti: O que é a família agora? Ela se baseia na possessividade, que destrói o amor. Onde existe um sentido de posse, deve haver exploração. Onde existe amor, não há imposição ou possessividade. Mas se você considera nossa atual moralidade, verá que ela se baseia na preservação desta atitude possessiva em relação à vida. Com nosso anseio egoísta estamos destruindo o perfume e a beleza da vida. Onde existe amor, a família não se torna um centro de exploração.

Interrogante: Se a pessoa vive livre de vícios como o uso de álcool e tabaco, e segue uma dieta estritamente vegetariana, isto não pode ser um grande fator que a auxilia a compreender seus ensinamentos?

Krishnamurti: Por favor, não é o que você põe na boca que lhe dá compreensão. (Riso) O que lhe dá compreensão é encarar a vida diretamente, simplesmente e verdadeiramente. Mas simplesmente desistindo de carne, álcool ou tabaco você não vai compreender a realidade. Muitas pessoas desistiram destas coisas, esperando a felicidade. A realização não está em desistir, mas em compreender. A mente não pode ser escrava do medo e das ilusões. Descubra primeiro, os impedimentos, as limitações que mutilam a mente e o coração, e quando você se libertar delas, então haverá existência natural e inteligente.

Interrogante: Como pode haver bem estar individual até acontecer um movimento de massa para remover os exploradores do poder? Certamente, o movimento de massa deve vir primeiro a fim de limpar o caminho para o prejudicado, e só então haverá oportunidade igual para todos.

Krishnamurti: Ora, colocar uma coisa ou outra primeiro, o bem estar individual ou a ação coletiva, deve, no final das contas, obstruir a realização do homem. A verdadeira realização gera o bem estar do todo bem como o do indivíduo. O que é isso que chamamos massa? É você. Não pode haver verdadeira ação coletiva sem compreensão individual. O movimento de massa é, realmente, o resultado de pensamento claro e ação por parte de cada indivíduo. Se cada um de vocês diz simplesmente que deveria haver ação coletiva, então tal ação nunca vai acontecer, pois você está apenas evitando sua responsabilidade individual de ação. Quando um homem confia na ação da massa, ele mesmo está, verdadeiramente, com medo de agir.

Se tiver de haver uma mudança completa, radical, você, o indivíduo, deve despertar para as limitações que hoje mutilam sua mente e coração. Liberando a si mesmo dessas esperanças egoístas, ilusórias, ambições e crueldades, haverá cooperação inteligente e não compulsão e exploração.

Interrogante: Tenho uma amiga que é médium. Quando ela entra em transe, muitos grandes espíritos falam através dela, inclusive Napoleão, Platão e Jesus, e o conselho deles é muito útil na vida espiritual. Por que você não fala sobre o valor do espiritualismo e da mediunidade?

Krishnamurti: Estive falando sobre autoridade e sua influência destrutiva na inteligência, seja a autoridade dos vivos ou a dos mortos. Ela não se torna mais sagrada porque pertence ao passado ou aos mortos. Autoridade, compulsão, destrói a realização, seja ela exercida pela religião, pela sociedade ou por médiuns. O que existe por trás deste desejo de ser guiado? A pessoa receia que por sua própria ação ficará presa no sofrimento; assim, para evitar isto – de fato, não viver – ela diz, “Eu devo seguir, devo ser guiado”. Só existe o movimento da verdade quando a mente não está mais presa no medo, com todas as suas ilusões, quando não está mais buscando orientação ou ser guiada. Esta solidão não é exclusividade; ela surge quando há discernimento do falso.

Interrogante: Você afirma que organizações espirituais são inúteis. Isto é verdade para todas as pessoas, ou apenas para aquelas pessoas que foram além do nível espiritual da humanidade em geral?

Krishnamurti: Quando você pensa que o que eu digo se aplica apenas aos escolhidos, faz de mim um explorador. Você pensa que o outro precisa do falso, das ilusões da crença organizada. Se for falso, se é não espiritual para você, então é não espiritual e falso para todos. Não existe estupidez relativa. Porque nós não desejamos pensar direta e claramente, nos acalmamos dizendo que a inteligência é uma questão de lento desenvolvimento. Por exemplo, ambição, se você pensar sobre ela realmente, profundamente, ela é um veneno em si mesma. Mas se pensasse nela profundamente, isto implicaria ação e sofrimento, então você diz que a liberdade da ganância é progressiva, relativa, para ser realizada em etapas. Em outras palavras, você não está realmente certo de que a ganância é um veneno. Do mesmo modo, não está certo de fato que as religiões, seitas são inerentemente estúpidas. Se uma coisa é falsa, ela é falsa para todos, sob todas as circunstâncias.

Interrogante: Se a ideia da imortalidade individual é falsa, qual o propósito da existência individual?

Krishnamurti: Para compreender este problema da imortalidade individual você deve chegar a ele sem nenhuma inclinação. A própria ânsia pela imortalidade impede sua compreensão profunda. Para compreender isto profundamente, a mente deve ter o poder do completo discernimento, não escolher baseado na identificação. Nossa ânsia é tão forte, nossos impulsos egoístas autoprotetores tão vitais, que nosso próprio desejo nos cega. Onde existe ânsia não pode haver discernimento. A verdadeira cultura é ação por sua própria beleza, sem buscar recompensa.

Quando você diz “eu”, o que quer dizer? Você quer dizer a forma, o nome, certos desejos não realizados, qualidades e as reações defensivas que você chama de virtude; tudo isto forma essa consciência limitada que chamamos “eu”. A mente se fechou dentro das muitas paredes de ilusões e limitação, e os muitos níveis de memória causam frustração. O que você está tentando fazer é imortalizar esta frustração que é o “eu”. Não pode haver imortalidade pela ilusão. A vida é eterna, sempre começando. Para discernir isto profundamente, a mente deve se libertar de todos os impedimentos que causam frustração. Estando totalmente cônscia, todos os desejos ocultos, secretos, medos e buscas entram na consciência; só então pode haver verdadeira liberdade deles. Então há realidade.

Interrogante: Tenho uma filha que era, inicialmente, muito estudiosa e amava sua música, mas hoje ela não faz nada além de ler seus livros. O que você aconselha a mãe dela a fazer? (Riso)

Krishnamurti: Por que sua filha desistiu da música? Pode ser que ela tenha descoberto que não era sua realização profunda, e ela está tentando encontrar sua verdadeira expressão. Mas se ela simplesmente lê o que eu disse, sem a plenitude da ação, então minhas palavras se tornarão uma prisão.

Nós, muitas vezes, pensamos que viver de acordo com uma ideia vai despertar a inteligência. O que realmente desperta a inteligência é a ação sem o medo de não se ajustar a um padrão ou ideal. Isto exige grande consciência e flexibilidade da mente.

Interrogante: Você alcançou o que você é nesta vida por meio de uma série de vidas passadas?

Krishnamurti: Você está me perguntando se a pessoa pode compreender a verdade, a vida ou Deus por meio da acumulação de experiência.

A experiência simplesmente nos ensinou a sermos espertamente autoprotetores, criarmos defesas contra o movimento da vida. Nesse fechamento a mente se abriga, guardando a si mesma mais e mais contra o contínuo tornar-se da vida. Estas barreiras defensivas dividem o movimento da vida em passado, presente e futuro. É esta divisão que destrói a continuidade da vida como um todo. Disto surge o medo, que é encoberto por ilusões, esperanças. Enquanto a mente-coração estiver presa nesta divisão, não pode haver a compreensão da verdade; pois então a experiência se torna, meramente, uma fonte de conflito e sofrimento, enquanto que, ela deveria acabar com estas barreiras autoprotetoras e, assim, libertar a mente e coração para o movimento da vida.

8 de setembro de 1935

 

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