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05/04/1936 – T

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Primeira Palestra em Oak Grove

As pessoas vêm a estas palestras com muitas expectativas e esperanças e com muitas ideias peculiares; e em nome do esclarecimento, vamos examiná-las e ver seu verdadeiro valor. Talvez haja alguns de nós cujas mentes não estão sobrecarregadas com jargões, que não são nada além de tediosas repetições verbais. Pode haver também outros que, tendo se libertado de crenças e superstições, estão ansiosos para compreender o significado do que falo. Vendo a natureza ilusória da imitação, eles não podem mais buscar padrões e modelos para sua conduta. Chegam com a esperança de despertar sua criatividade inata, de modo que possam viver profundamente no movimento da vida. Eles não procuram um novo jargão ou modelo de conduta, habilidade de ideias ou positividade emocional.

Agora, estou falando para aqueles que desejam despertar para a realidade da vida e criar para si mesmos o verdadeiro caminho de pensar e viver. Com isto não quero dizer que minhas palavras estão restritas àqueles poucos ou a alguma “panelinha” imaginária de intelectuais auto-escolhidos.

O que falo pode não parecer vital para aqueles meramente curiosos, pois não tenho frases vazias ou afirmações audaciosas para excitá-los. O curioso, que deseja meramente estimulação emocional, não encontrará satisfação em minhas palavras.

E há aqueles que vêm aqui para comparar o que digo com as muitas escolas de irreflexão (Riso). Não, por favor, isto não é um comentário espirituoso. De cartas que recebi e de pessoas com quem conversei, eu sei que há muitos que pensam que, por pertencerem a escolas de pensamento especiais, eles avançarão e vão estar a serviço do mundo. Mas o que chamam de escolas de pensamento não são mais do que jargões que só criam divisões e encorajam exclusividade e vaidade da mente. Estes sistemas de pensamento não têm realmente validade, se baseiam na ilusão. Embora seus seguidores possam se tornar muito eruditos e defenderem-se com sua erudição, eles são, na realidade, descuidados.

Novamente, existem muitos cujas mentes se tornaram complicadas pela busca de sistemas para a salvação humana. Eles buscam, ora pela economia, ora pela religião, ora pela ciência, gerar ordem e verdadeira harmonia na vida humana. O fanatismo se torna o impulso para muitos que tentam, por declarações dogmáticas, impor aos outros suas próprias imaginações e ilusões, que escolhem chamar de verdade ou Deus.

Então, você tem que descobrir por si mesmo por que está aqui, e sob que impulso veio ouvir esta palestra. Eu espero que estejamos aqui para descobrir juntos se podemos viver sensatamente, inteligentemente e em total compreensão. Sinto que este deveria ser o trabalho do orador e da audiência. Nós vamos iniciar uma jornada de profunda investigação e experimentação individual, não uma jornada de afirmações dogmáticas, criando novos conjuntos de crenças e ideais. Para descobrir a realidade do que eu digo, você deve experimentar com ela.

Muitos de nós são levados pela ideia que descobrindo alguma causa única para o sofrimento do homem, o conflito e a confusão, seremos capazes de resolver os muitos problemas da vida. Tornou-se moda dizer: “Curem os males econômicos, e a felicidade e a realização humanas estão asseguradas”, ou “Aceitem alguma ideia religiosa ou filosófica, então a paz e a felicidade podem ser universais”. Na busca por causas únicas não apenas encorajamos especialistas, mas também desenvolvemos peritos que estão prontos para criar e expor sistemas lógicos nos quais o homem descuidado é apanhado. Você vê sistemas exclusivos ou ideias para a salvação do homem surgindo em todo lugar mundo afora. Somos facilmente apanhados neles, pensando que esta conveniente simplicidade lógica de causas únicas nos ajudará a remover a miséria e a confusão.

Um homem que se entrega a estes especialistas e à causa única encontra apenas mais confusão e miséria. Ele se torna um instrumento nas mãos dos peritos ou um escravo pronto para aqueles que podem facilmente expor a simplicidade lógica de uma única causa.

Se você examinar profundamente o sofrimento e confusão do homem, verá sem qualquer dúvida que há muitas causas, algumas complexas, algumas simples, que devemos compreender totalmente antes de podermos nos libertar do conflito e do sofrimento. Se desejarmos compreender as muitas causas e seus transtornos, devemos tratar a vida como um todo, não separá-la em mental e emocional, econômica e religiosa, ou em hereditariedade e ambiente. Por esta razão não podemos nos entregar a especialistas, que, naturalmente, são treinados para ser exclusivos e para se concentrar em suas divisões estreitas. É essencial não fazer isto; contudo, inconscientemente nos entregamos ao outro para ser guiados, para que nos digam o que fazer, pensando que o perito religioso ou econômico, devido ao seu conhecimento especial e realizações, pode dirigir nossas vidas individuais. A maior parte dos especialistas é tão treinada que não pode ter uma visão compreensiva da vida; e porque ajustamos nossas vidas, nossas ações, ao determinado pelos peritos, nós simplesmente criamos maior confusão e sofrimento. Assim, percebendo que não podemos ser escravos de peritos, professores, filósofos, de pessoas que dizem ter encontrado Deus e que, aparentemente, fazem a vida muito simples, devíamos ter cuidado com elas. Devíamos buscar simplicidade, mas nessa própria busca devíamos estar conscientes das muitas ilusões e desilusões.

Estando conscientes de tudo isto, o que devíamos nós, como indivíduos, fazer? Temos que perceber profundamente, não casualmente ou superficialmente, que nenhuma pessoa particular ou sistema vai, absolutamente, resolver para nós nossos dolorosos problemas e esclarecer nossas reações complexas e sutis. Se pudermos perceber que não existe ninguém fora de nós mesmos que vai elucidar o caos e a confusão que existe dentro e fora de nós, então não seremos imitadores, não ansiaremos por identificação. Começaremos, então, a liberar o poder criativo dentro de nós. Isto significa que estamos começando a ficar conscientes da singularidade individual. Cada indivíduo é único, diferente, não semelhante a outro; mas com isto não quero dizer a expressão de desejos egocêntricos.

Devemos começar a ser autoconscientes, o que a maior parte de nós não é; trazendo o oculto para fora, para a luz, descobrimos as várias causas da desarmonia, do sofrimento. Só isto ajudará a produzir uma vida de realização e felicidade inteligente. Sem esta libertação do oculto, do dissimulado, nossos esforços devem levar à desilusão.

Até descobrirmos, pela experiência, nossas limitações sutis e profundas, com suas reações, e assim nos libertarmos delas, levaremos uma vida de confusão e disputa. Pois estas limitações impedem a flexibilidade de mente-emoção, tornando-a incapaz do verdadeiro ajustamento aos movimentos da vida. Esta ausência de flexibilidade é a fonte de nossa competição egocêntrica, medo e da busca de segurança, levando a muitas ilusões confortantes.

Embora possamos pensar que encontramos a verdade, alegria, e objetivemos a ideia abstrata de Deus, enquanto permanecemos inconscientes das origens ocultas de todo o nosso ser, não pode haver a realização da verdade. Falar de “boca pra fora” palavras como verdade, Deus, perfeição, não pode ter significação profunda e importância.

A verdadeira busca só pode começar quando não separamos mente de emoção. Como temos sido treinados a considerar a vida não como um todo completo, mas separada como corpo, mente e espírito, acharemos muito difícil nos orientarmos para esta nova concepção e reação em relação à vida. Educar a nós mesmos neste modo de considerar a vida, e não cair novamente no velho hábito do pensamento separativo, requer persistência, vigilância constante. Quando começamos a nos libertar, pela experimentação, destas falsas divisões com seus significados especiais, objetivos e ideais, que causaram tanto prejuízo e falsamente complicaram nossas vidas, então nós liberaremos energia criativa e descobriremos o movimento infinito da vida.

Pode a mente-coração saber e apreciar profundamente este estado de eternidade, incessante tornar-se? O infinito tem uma profunda significação apenas quando há liberação das limitações que criamos por meio de nossas falsas concepções e divisões – como corpo, mente e espírito, cada um com seus próprios ideias e objetivos distintos. Quando a mente-coração se desliga das reações prejudiciais e limitadoras e começa a viver intensamente, com profunda consciência, só então existe a possibilidade de conhecer profundamente este incessante tornar-se. A mente-emoção deve estar totalmente livre da identificação e limitação para conhecer esta ventura. Apenas o despertar desta inteligência criativa vai produzir a humanidade do homem, seu equilíbrio e profunda realização.

Até você se tornar consciente tanto de seu ambiente como de seu passado e compreender o significado deles – não como dois elementos contrastantes, o que apenas produziria falsas reações, mas como um todo coordenado – e até você ser capaz de reagir a este todo, profundamente, não pode haver a percepção do movimento infinito da vida.

A verdadeira busca só começa quando há uma liberação daquelas reações que são o resultado da divisão. Sem a compreensão da totalidade da vida, a busca pela verdade ou felicidade deve levar à ilusão. Na busca de uma ilusão, a pessoa muitas vezes sente uma alegria, um emocionalismo; mas quando se examina esta estrutura emocional, ela não é nada mais do que uma limitação, a construção de muros de refúgio. É uma prisão, embora se possa viver nela e até apreciá-la. Ela é uma fuga do conflito da vida pela limitação; e há muitas pessoas que o ajudarão e encorajarão neste voo.

Se estas palestras são para ter algum significado para você, você deve começar a experimentar com o que estou falando e viver novamente se tornando consciente de todas as suas reações. Fique consciente delas, mas não descarte algumas como sendo más ou aceitando outras como sendo boas; pois a mente, sendo limitada, é incapaz de discernir verdadeiramente. O importante é estar consciente delas. Então, por meio dessa constante conscientização, onde não há sentido de opostos nem divisão como mente e emoção, chega a harmonia da ação, somente ela pode produzir realização.

Interrogante: Não existem muitos explicadores da verdade além de você mesmo? Deve-se deixá-los todos e escutar apenas a você?

Krishnamurti: Não pode haver explicadores da verdade. A verdade não pode ser explicada, não mais do que você pode explicar o amor para o homem que nunca amou. Tal expressão “explicadores da verdade” não tem significado.

O que estamos tentando fazer aqui? Não estou pedindo que você acredite no que digo, nem estou, sutilmente, fazendo você me seguir a fim de que possa ser explorado. Independentemente de mim, você pode experimentar com o que digo. Estou tentando lhe mostrar como se pode viver sensata e profundamente, com riqueza criativa, de modo que a vida seja uma realização e não uma contínua frustração. Isto pode ser feito quando a mente-coração se liberta daquelas falsas reações, concepções e ideias que ela herdou e adquiriu – as reações nascidas dos medos egoístas e limitações, as reações nascidas da divisão e o conflito dos opostos. Essas limitações e reações estreitas impedem a mente-coração de se ajustar ao movimento da vida. Desta falta de flexibilidade surge confusão, desilusão e sofrimento. Só por meio de sua própria conscientização e esforço, e não pela autoridade e imitação, podem estas limitações ser varridas.

Interrogante: Qual é sua ideia de infinito?

Krishnamurti: Existe um movimento, um processo de vida, sem fim, que pode ser chamado infinito. Por meio de autoridade, imitação, nascimento do medo, a mente cria por si mesma muitas falsas reações e, por isso, se limita. Identificando-se com esta limitação, ela é incapaz de acompanhar o veloz movimento da vida. Porque a mente, instigada pelo medo e em seu desejo de segurança e conforto, busca um fim, um absoluto com que possa se identificar, ela se torna incapaz de acompanhar o movimento sem fim da vida. Até a mente-coração poder se libertar destas limitações, em completa consciência, não pode haver a compreensão deste infindável processo de tornar-se. Então não pergunte o que é infinito, mas descubra por si mesmo as limitações que mantém a mente-coração escravizada, impedindo-a de viver neste movimento de vida.

5 de abril de 1936

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