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12/04/1936 – T

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Segunda Palestra em Oak Grove

Muitas pessoas atentas têm o desejo de ajudar o mundo. Elas consideram a si mesmas como apartadas das massas. Elas veem muita exploração, muita miséria; vêem os avanços científicos e técnicos distantes do avanço da conduta humana, compreensão e inteligência. Vendo tudo isto sobre eles e desejando mudar as condições, consideram que a massa deve, primeiro, ser despertada.

Muitas vezes esta pergunta me tem sido feita: “Por que você enfatiza o indivíduo e não considera a massa?” Do meu ponto de vista, não pode haver tal divisão entre massa e indivíduo. Embora exista massa psicológica, intenção de massa, ação e propósito, não existe tal entidade como massa apartada do indivíduo. Quando você analisa o termo massa, o que é? Você verá que ele é composto de muitas unidades separadas, ou seja, nós mesmos, com as extraordinárias crenças, ideais, ilusões, superstições, ódios, preconceitos, ambições e atividades. Estas perversões e atividades compõe esse fenômeno nebuloso e incerto que chamamos de massa.

Então, a massa somos nós mesmos. Você é a massa e eu sou a massa, e em cada um de nós existe a unidade e a multidão – sendo a unidade o consciente e a multidão o inconsciente. Pode-se dizer que o consciente é o indivíduo. Assim, em cada um de nós temos a unidade e a multidão.

A multidão, o inconsciente, é composto por valores inquestionáveis – valores que são falsos aos fatos, valores que, ao longo do tempo e pelo uso, se tornaram agradáveis e aceitáveis – ele se compõe de ideais que nos dão segurança e conforto, sem significado profundo; de padrões de conformidade que impedem a percepção clara e a ação; de pensamentos e emoções que têm sua origem no medo e em reações primitivas. Isto eu chamo de inconsciente, a massa, da qual cada um de nós faz parte, saibamos ou não, reconheçamos ou não.

Se for para haver um reflexo claro, o espelho não deve estar distorcido; sua superfície deve ser regular e limpa. Então, deve a mente-coração – que é um todo integrado, não duas partes distintas e separadas – estar livre das perversões criadas por ela mesma antes que possa haver discernimento, compreensão, equilíbrio ou inteligência. Para viver completamente, a experiência deve ser trazida para a consciência continuamente.

A maioria de nós está inconsciente do “background”, das perversões, das distorções que impedem o discernimento, nos tornando incapazes de adaptação ao movimento da vida. Alguns de vocês podem dizer: “Tudo isto é bastante óbvio; conhecemos isto, e não há nada de novo aí”. Receio que se vocês simplesmente descartam o que digo sem pensamento profundo, não despertarão sua inteligência criativa.

Se vamos compreender a vida integralmente, totalmente, devemos trazer o inconsciente, pela experiência, pela experimentação, para o consciente. Então haverá equilíbrio e profunda inteligência. Só então pode haver verdadeira busca. Enquanto a mente-coração estiver constrangida por crenças, ideais, ou atividades vãs e ilusórias, aquilo que chamamos de busca da verdade ou realidade levará, inevitavelmente, a fugas. Nenhum psicólogo ou mestre pode libertar a mente; esta liberdade só chega por meio de sua própria necessidade inerente.

A busca pela verdade ou Deus – o próprio nomear ajuda a criar uma barreira – só pode começar realmente quando há esta inteligência harmoniosa. Como a mente-coração está pervertida, limitada por reações de ignorância, ela é incapaz de discernir aquilo que é. Como pode alguém compreender o que é verdadeiro se a mente-coração está prejudicada? Estes prejuízos estão tão profundamente enraizados e estendidos tão longe no passado que não se pode descobrir seu início. Com uma mente tão prejudicada, como podemos discernir verdadeiramente, como pode haver felicidade e inteligência? A mente-coração deve se tornar consciente de seu próprio processo de criar ilusões e limitações. Nenhum mestre pode libertá-la deste processo. Até a mente-coração estar profundamente consciente de seu próprio processo, seu próprio poder de criar ilusões, não pode haver discernimento. Para gerar esta inteligência harmoniosa, deve haver uma mudança fundamental em nossos hábitos de pensamento-emoção, e isto requer perseverança paciente, reflexão persistente.

Até agora tem sido dito que Deus existe, que existe verdade, que existe alguma coisa absoluta, derradeira, eterna, e sobre essa afirmação construímos nosso pensamento e emoção, nossa vida, nossa moralidade. Foi dito: “Aja desta maneira, siga isso, não faça aquilo.” Muitas pessoas consideram estes ensinamentos como positivos. Se você examina estes ensinamentos, que são chamados de instrução positiva, descobrirá que eles são destrutivos da inteligência, pois se tornam a moldura dentro da qual a mente se limita, para imitar e copiar, tornando-se incapaz de ajustamento ao movimento da vida, distorcendo a vida ao padrão de um ideal, o que só cria mais sofrimento e confusão.

Para compreender e despertar esta inteligência harmoniosa deve se começar não com suposições e afirmações autorizadas, mas negativamente. Quando a mente está livre destas reações ignorantes, há, então, a profunda harmonia nascida da inteligência. Começa, assim, a alegria de penetrar na realidade. Ninguém pode lhe falar de realidade, e qualquer descrição dela deve ser sempre falsa.

Para compreender a verdade, deve haver observação silenciosa, e a descrição dela apenas confunde e limita. Para compreender o infinito processo da vida, devemos começar negativamente, sem afirmações e suposições, e daí construir a estrutura de nosso pensamento-emoção, nossa ação e conduta. Se isto não é profundamente compreendido, o que eu digo se tornarão meramente crenças mecânicas e ideais e criará novos absurdos baseados em fé e autoridade. Nós, inconscientemente, recaímos em atitudes primitivas e reações nascidas do medo, com suas muitas ilusões, embora possam estar revestidas com novas palavras.

Quando você é realmente capaz de pensar sem nenhum anseio, sem nenhum desejo de escolha – pois escolha implica opostos – há discernimento.

O que forma este “background”? Ele é o resultado de um processo sem começo. É composto de muitas camadas, e algumas palavras não podem descrevê-las. Você pode pegar uma ou duas camadas e examiná-las – não objetivamente, pois a própria mente é a criadora delas e faz parte delas – e analisando e experimentando com elas, a mente em si começa a perceber sua própria obra e o processo de criar sua própria prisão. Esta profunda compreensão não apenas traz para a consciência as muitas camadas, mas também provoca o fim da criação de mais limitações e barreiras.

Uma das camadas ou seções deste “background” é a ignorância. Ignorância não é para ser confundida com mera falta de informação. Ignorância é a falta de compreensão de si mesmo. O “si mesmo” não é um dado período, e nenhuma palavra pode cobrir todo o processo da individualidade. A ignorância existirá enquanto a mente não descobrir o processo de criar suas próprias limitações, e também, o processo da ação auto-induzida. Para fazer isto, deve haver grande perseverança, experimentação e compreensão.

A profunda compreensão de “si mesmo”, o “si mesmo” sem um começo, é impedida pelos processos acumulativos. Chamo de processos acumulativos o anseio por identificação com a verdade, a imitação de um ideal, o desejo de conformidade, tudo isso que cria autoridade e engendra medo, levando a muitas ilusões. O processo acumulativo continua enquanto o pensamento está preso e em busca dos opostos – bom e mau, positivo e negativo, amor e ódio, virtude e pecado. O processo acumulativo confere à mente-coração conforto e abrigo contra o movimento da vida. Se a mente-coração percebe a si mesma em ação, então ela observará que está criando aquelas ilusões acumulativas para sua própria continuidade limitada e segurança. Este processo causa dor, miséria e conflito.

Como pode a mente se desembaraçar de seus próprios medos, reações ignorantes e das muitas ilusões? Todas as influências que forçam a mente a se libertar de suas limitações só criarão mais fugas e ilusões. Quando a mente confia em circunstâncias exteriores para provocar estas mudanças fundamentais, ela não está agindo como um todo, está separando e dividindo a si mesma em passado e presente, o externo e o interno. Se tal divisão existe, a mente-coração deve criar mais ilusão e sofrimento.

Por favor, tentem compreender isto cuidadosamente. Se a mente tenta se libertar destas limitações devido à compulsão, prêmio ou punição, ou porque está carregada de sofrimento e, assim, busca felicidade, ou por alguma razão superficial, sua tentativa levará, inevitavelmente, à frustração e confusão.

É importante compreender isto, pois só há liberdade destas limitações quando a própria mente compreende a total necessidade disto. Esta necessidade não pode ser auto-induzida ou auto-imposta.

Interrogante: Como podemos ajudar os desesperadamente insanos?

Krishnamurti: Ora, a insanidade é um problema de variedades sutis, pois alguém pode se considerar são e, contudo, parecer completamente insano para os outros. Existe a insanidade provocada por deficiência orgânica, física, e existe a falta de equilíbrio induzida pela mente-coração incapaz de se ajustar à vida. Naturalmente não existe tal divisão clara e distinção entre causas puramente físicas e as puramente mentais que levam aos muitos distúrbios e desajustes na vida. Eu pensaria que em muitos casos esta ausência de coesão e equilíbrio começa quando o indivíduo, criado e treinado em reações ignorantes, estreitas e egoístas é incapaz de se ajustar ao sempre mutante movimento da vida.

A maioria de nós não é equilibrada, como a maioria de nós está inconsciente das muitas camadas de valores limitados que retém a mente-coração. Estes valores limitados mutilam o pensamento e nos impedem de compreender os infinitos valores que podem gerar sanidade e inteligência. Nós aceitamos certas atitudes e ações como estando de acordo com valores humanos. Pegue, por exemplo, competição e guerra. Se examinarmos a competição com suas muitas implicações, vemos que ela nasce da reação ignorante de disputa com outro; por outro lado, na realização não pode haver este espírito competitivo. Nós aceitamos este espírito competitivo como sendo parte da natureza humana, daí surge não só a combatividade individual, mas também a disputa racial e nacional, contribuindo como uma das muitas causas da guerra. Uma mente aprisionada nesta reação primitiva deve ser considerada incapaz de profundo ajustamento às realidades da vida.

Um homem cujo pensamento-emoção é baseada na fé, portanto na crença, deve necessariamente ser desequilibrado, pois sua crença é apenas uma realização de desejos. Quando as pessoas dizem que acreditam em reencarnação, em imortalidade, em Deus – estas coisas não são mais do que anseios emocionais que para elas se tornam conceitos e fatos objetificados. Elas só podem descobrir a realidade quando compreenderem e dissolverem o processo da ignorância. Quando se diz: ”Eu creio”, se limita o pensamento e se transforma a crença em padrão pelo qual a pessoa se guia e conduz sua vida, permitindo, assim, que mente-coração se torne estreita, cristalizada, incapaz de ajustar-se à vida e à realidade. Com a maior parte das pessoas, a crença se torna, meramente, uma fuga do conflito e da confusão da vida.

A crença não deve ser confundida com intuição, e intuição não é desejo realizado. A crença, como tentei mostrar, se baseia na fuga, na frustração, na limitação, e esta própria crença impede a mente-coração de dissolver sua própria ignorância autocriada.

Portanto, cada um tem a capacidade, o poder, para ser sensato, equilibrado, ou diferente. Para descobrir se é equilibrada, a pessoa deve começar negativamente, não com afirmações, dogmas e crenças. Se a pessoa pensa profundamente, então se tornará consciente da extraordinária beleza da completude inteligente.

Interrogante: Você disse no último domingo que a maioria das pessoas não é autoconsciente. Parece-me que exatamente o contrário é verdadeiro, e que a maioria das pessoas é muito autoconsciente. O que você quer dizer com autoconsciência?

Krishnamurti: Esta é uma pergunta sutil e difícil de responder em poucas palavras, mas eu tentarei explicar o melhor que puder, e, por favor, lembre que palavras não transmitem todas as sutis implicações envolvidas na resposta.

Toda coisa viva é força, energia, única em si mesma. Esta força ou energia cria suas próprias matérias que podem ser chamadas o corpo, sensação, pensamento, ou consciência. Esta força ou energia em seu desenvolvimento de auto-ação se torna consciente. Disto surge o processo do “eu”, o movimento “eu”. Então se inicia o ciclo de criar sua própria ignorância. O processo do “eu” começa e continua na identificação com suas próprias limitações autocriadas. O “eu” não é uma entidade separada, como a maioria de nós pensa; ele é tanto a forma de energia e a própria energia. Mas essa força, em seu desenvolvimento, cria sua própria matéria, e a consciência é parte dela; e através dos sentidos, a consciência se torna conhecida como o indivíduo. Este processo de “eu” não é do momento, ele não tem começo. Mas por meio da conscientização e compreensão constante, este processo do “eu” pode acabar.

12 de abril de 1936

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