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19/04/1936 -T

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Terceira Palestra em Oak Grove

Para haver pensamento unido e, portanto, ação, deve haver concordância, acordo, e ter concordância parece ser muito difícil. Concordância não significa aceitação irrefletida ou tolerância, pois a tolerância é superficial. Concordância exige profunda inteligência e requer uma mente muito flexível. Neste mundo, aparentemente, a pessoa é mais facilmente convencida pela insensatez do que pelo pensamento que é integral e inteligente. Há uma concordância emocional que não é, absolutamente, concordância. É, meramente, uma excitação que leva a pessoa a certas atividades, atitudes e afirmações, mas não leva ao despertar completo, inteligente da realização individual.

Ora, se você concorda – como, aparentemente, a maioria das pessoas concorda – com a insensatez, deve haver confusão. Você pode sentir que, no momento, está supremamente feliz, contente e, assim, pensar que compreendeu a vida; mas se você permitir que sua mente considere sua pretensa felicidade, verá que o que você tem é, de fato, uma excitação emocional superficial induzida pelas afirmações repetidas de outra pessoa. Qualquer ação nascida desta superficialidade deve, inevitavelmente, levar à confusão, ao passo que concordância com pensamento inteligente leva à verdadeira felicidade e completo bem estar.

Eu estou enfatizando este ponto, porque sinto que é muito importante e necessário que não se tenha dentro de si quaisquer barreiras que criem divisão, discordância. Estas barreiras criam confusão e disputa no indivíduo e, também, impedem a ação unida e inteligente no mundo. A concordância inteligente é essencial para a ação combinada, mas não existe concordância quando há qualquer tipo de compulsão ou autoridade, seja sutil ou grosseira. Por favor, veja por que tal compreensão profunda é necessária, e também, por favor, veja se você está profundamente em concordância com o que eu digo. Com concordância, não quero dizer aceitação superficial e tolerante de certas ideias que expresso. Você deve considerar toda a implicação daquilo que digo e descobrir se você está profundamente em concordância com isto. É preciso pensamento e análise cuidadosa, e só então você pode aceitar ou rejeitar. Como a maioria de nós parece se render a afirmações enfaticamente repetidas, sinto que seria uma perda de tempo se você, simplesmente, se permitir ser convencido por certas afirmações que eu repito muitas vezes. Tal rendição de sua parte seria totalmente inútil e mesmo danosa.

Neste mundo há muitas opiniões contraditórias, teorias, afirmações grotescas e reivindicações emocionais tornando difícil discernir o que é verdadeiro, o que ajuda realmente na compreensão individual e na realização. Estas afirmações – algumas fantásticas, algumas verdadeiras, algumas violentas, algumas absurdamente confusas – são lançadas e alardeadas para nós. Por meio de livros, revistas, palestras, nos tornamos vítimas delas. Elas prometem recompensas e, ao mesmo tempo, sutilmente ameaçam e obrigam. Gradualmente nos permitimos tomar partido, atacar e defender. Assim, aceitamos esta ou aquela teoria, insistimos neste ou naquele dogma, e inconscientemente as afirmações repetidas por outros se tornam nossa crença, onde tentamos moldar nossas vidas. Isto não é exagero; está acontecendo em nós e a nossa volta. Somos bombardeados constantemente com reivindicações e ideias repetidas, e, infelizmente, tendemos a tomar partido, pois nosso desejo inconsciente é de conforto e segurança, emocional ou intelectual, o que nos leva a aceitar estas afirmações. Sob tais condições, embora possamos pensar que examinamos estas afirmações e, intuitivamente, sabemos serem verdadeiras, nossas mentes são incapazes de examinar ou de qualquer intuição. Dificilmente alguém escapa deste ataque constante pela propaganda; e, infelizmente, pelo seu próprio anseio por segurança e permanência, a pessoa ajuda a criar e encorajar declarações fantásticas.

Quando a mente-coração está sobrecarregada com muitas barreiras, preconceitos, distinções nacionais e de classe, é impossível chegar a uma concordância inteligente. O que está acontecendo não é concordância inteligente e sensata entre pessoas, mas uma guerra de crença contra crença, doutrina contra doutrina, grupo contra grupo, interesse investido contra interesse investido. Nesta batalha a inteligência, a compreensão, é negada.

Seria, realmente, uma calamidade se a partir destes encontros você desenvolvesse dogmas, crenças e instrumentos de compulsão. Minhas palestras não pretendem engendrar crenças ou ideais, que oferecem apenas uma fuga. Para compreender o que digo, a mente deve estar livre de crenças e de preconceitos de “eu sei”. Quando você diz “eu sei”, já está morto. Esta não é uma afirmação rude.

É uma tarefa muito séria tentar descobrir o que é verdadeiro, por que estamos aqui e aonde estamos indo. Esta descoberta não pode ser feita pela solução superficial de nossos problemas imediatos. A mente-coração deve se libertar desses dogmas, crenças e ideais dos quais a maioria de nós está inconsciente. Estamos aqui para descobrir inteligentemente o que é verdadeiro; e se você compreender isto, vai discernir algo que é real, não uma coisa que é auto-imposta ou inventada por outra pessoa. Por favor, acreditem que eu não estou, realmente, interessado em visões particulares, mas na compreensão individual, felicidade e realização.

Há muitos professores que sustentam vários sistemas, meditações, disciplinas, que eles declaram que levarão à derradeira realidade; há muitos intermediários que insistem na obediência em nome dos Mestres; e indivíduos que afirmam que existe Deus, que existe verdade – infelizmente, eu mesmo fiz estas afirmações no passado. Conhecendo tudo isto, eu percebi que no momento em que há uma afirmação, sua própria significação está perdida. Então como compreenderemos este mundo de contradições, confusões, crenças, dogmas e reivindicações? De onde começaremos? Se tentarmos compreender isto de qualquer outro ponto de vista diferente da compreensão de nós mesmos, apenas aumentaremos a dissensão, a disputa e o ódio. Existem muitas causas, muitos processos funcionando neste mundo de se tornar e decair, e quando tentamos investigar cada processo, cada causa, inevitavelmente chegamos a uma parede branca, a alguma coisa que não tem explicação, pois cada processo é único em si mesmo.

Ora, quando você encara o inexplicável, a fé se apresenta para ajudar e afirmar que existe um Deus, que Ele nos criou e nós somos instrumentos Dele, que somos seres transcendentais, com uma identidade permanente. Ou, se você não tem inclinação religiosa, tenta resolver este problema por meio da ciência. Aí, novamente, você tenta seguir causa após causa, reação após reação; e embora haja cientistas que sustentam que existe uma profunda inteligência atuando, ou que empregam diferentes símbolos para nos transmitir o inexplicável, chega um ponto além do qual mesmo a ciência não pode ir, pois ela lida apenas com a percepção e a reação dos sentidos.

Eu penso que existe um meio de compreender todo o processo de nascimento e morte, se tornar e decair, sofrimento e felicidade. Quando eu digo: “Eu penso” estou sendo propositalmente sugestivo, mais do que dogmático. Este processo só pode ser verdadeiramente compreendido e fundamentalmente captado através de nós mesmos, pois está focalizado em cada indivíduo. Nós vemos a nossa volta este contínuo se tornar e decair, esta agonia e prazer transitório, mas não podemos, possivelmente, compreender este processo fora de nós mesmos. Só podemos compreendê-lo em nossa própria consciência, pelo nosso próprio processo do “eu”; e se fizermos isto, então há uma possibilidade de perceber a significação de toda existência.

Por favor, veja a importância disto, do contrário ficaremos enredados na questão do ambiente e da hereditariedade. Deveremos compreender esta questão quando não dividirmos nossa vida entre passado e presente, o objetivo e o subjetivo, o centro e a circunferência, quando percebermos o trabalho do processo do “eu”, da consciência do “eu”. Como tenho dito muitas vezes, se simplesmente aceitarmos o “Eu” como um princípio vivo, uma entidade divina em isolamento, criada por Deus, só criaremos e encorajaremos a autoridade, com seus medos e explorações, e isto não pode levar à realização do homem.

Por favor, não traduza o que eu digo sobre o processo do “eu” na sua fraseologia particular de crença. Isso não ajudaria absolutamente; ao contrário, seria confuso; mas, por favor, ouça com mente e coração sem preconceitos.

O processo do “eu” é o resultado de ignorância, e essa ignorância, como a chama que é alimentada pelo óleo, se sustenta por meio de suas próprias atividades. Ou seja, o processo do “eu”, a energia do “eu”, a consciência do “eu”, é o resultado de ignorância, e a ignorância se mantém por suas próprias atividades autocriadas; é encorajada e sustentada por suas próprias ações de ansiar e querer. Esta ignorância não tem início, e a energia que a cria é única para cada indivíduo. Essa unicidade se torna individualidade para a consciência. O processo do “eu” é o resultado dessa força, única para cada indivíduo, que cria, em seu autodesenvolvimento, sua própria matéria como corpo, discernimento, consciência, que se tornam identificados como o “eu”.

Isto é muito simples realmente, mas parece complicado quando colocado em palavras. Se, por exemplo, alguém é criado na tradição do nacionalismo, essa atitude deve, inevitavelmente, criar barreiras à ação. Uma mente-coração reduzida e limitada à ação por preconceitos deve criar crescentes limitações. Isto é óbvio. Se você tem crenças, está traduzindo e modelando suas experiências de acordo com elas, e está, assim, limitando e forçando pensamento-emoção, e estas limitações se tornam o processo do “eu”. A ação, em vez de libertar, livrar a mente-coração de suas próprias dependências, está criando novas e mais profundas limitações, e estas limitações acumuladas podem ser chamadas ignorância. Esta ignorância é encorajada, alimentada por suas próprias atividades, nascidas de seus próprios desejos autocriados. A menos que você perceba que a ignorância é o resultado de suas próprias atividades autocriadas, auto-sustentadas, a mente-coração deve viver neste círculo vicioso. Quando você compreender isto profundamente, vai discernir que a vida não é mais uma série de conflitos e conquistas, lutas e feitos, tudo levando à frustração. Quando você tem, verdadeiramente, um insight neste processo da ignorância, viver não é mais um acúmulo de dores, mas se torna o êxtase de profunda alegria e harmonia.

A maioria de nós tem uma ideia de que o “eu” é um ser separado, divino, uma coisa que vai durar, se tornar mais e mais perfeita. Eu não defendo nada disto. A consciência em si é o “eu”. Você não pode separar o processo do “eu” da consciência. Não existe um “eu” acumulando experiência que está separado da experiência em si. Só existe este processo, esta energia, que cria suas próprias limitações por meio de seus próprios desejos auto-sustentados. Quando você discerne que não existe “eu” apartado da ação, que o ator é a ação em si, então, gradualmente, surge uma inteireza, uma alegria incomensurável.

Quando você entende isto, não existe método para libertá-lo de suas próprias limitações, da prisão onde você está detido. O processo do “eu” deve dissolver a si mesmo. Ele deve se desacostumar dele mesmo. Nenhum salvador, nem a adoração de outra pessoa podem libertar você; suas disciplinas auto-impostas e autoridades autocriadas não têm validade: elas só levam a mais ignorância e sofrimento. Se você puder compreender isto, não fará da vida uma batalha terrível, feia, de exploração e crueldade.

Interrogante: No último domingo você parecia muito inseguro do que dizia, e alguns de nós não pudemos fazer nada daquilo. Vários amigos meus disseram que não viriam mais ouvi-lo porque você está se tornando ambíguo e indeciso em relação à suas próprias ideias. Esta impressão é devida à falta de compreensão em nós, ou você não está tão seguro de si como costumava ser?

Krishnamurti: Você sabe, algumas coisas não podem ser colocadas em palavras categoricamente, precisamente. Eu tento expressar minha compreensão da vida tão claramente quanto possível, e é difícil. Algumas vezes posso ter sucesso, mas muitas vezes eu pareço incapaz de transmitir o que penso e sinto. Se alguém pensa profundamente sobre o que estive falando, aquilo se tornará claro e simples, mas permanecerá, simplesmente, uma concepção intelectual se não houver compreensão em ação. Alguns de vocês vêm a estes encontros repetidamente, e fico imaginando o que acontece com vocês nos intervalos entre estas palestras. É durante estes intervalos que você pode descobrir se a ação é libertadora, ou cria mais prisões e limitações. Esta em suas mãos talhar sua própria vida, seja para compreender ou para ampliar a ignorância.

Interrogante: Como pode alguém se libertar das reações primitivas de que você fala?

Krishnamurti: O próprio desejo de ser livre cria sua limitação. Estas reações primitivas ou ignorantes criam conflitos, perturbações e sofrimento em sua vida, e se livrando delas você espera conseguir alguma outra coisa – felicidade, alegria, paz e assim por diante. E você me faz a pergunta: “Como eu me livro destas reações?” Ou seja, você quer que eu lhe forneça um método, estabeleça um sistema, uma disciplina, um modo de conduta.

Se você compreende que não existe consciência separada do processo do “eu”, que o “eu” é a consciência em si, que a ignorância cria sua própria limitação e que o “eu” não é mais do que o resultado de sua própria ação, então você não pensará em termos de despojamento e aquisição. Pegue, por exemplo, a reação em relação ao nacionalismo. Se você pensar nisto, verá que esta reação é ignorante e muito perniciosa, não só para você mesmo, mas para o mundo. E você me perguntará: “Como me livrar disto?” Quando você percebe por que quer se livrar disto entenderá, então, como isto surgiu, artificialmente, com suas muitas implicações cruéis; e quando você compreender isto profundamente, não há esforço consciente para se livrar desta reação ignorante: ela desaparece.

Do mesmo modo, se a mente-coração está retida por medos, crenças, que são muito dominantes, potentes, opressivos, que pervertem a percepção clara, não é bom fazer grandes esforços para se livrar deles. Primeiro você tem que estar conscientes dessas coisas; e, em vez de querer se livrar delas, descobrir por que elas existem. Se você tenta se livrar, vai, inconscientemente, criar ou aceitar medos e crenças talvez mais sutis. Mas quando você percebe como surgiram – pelo desejo de segurança, conforto – então essa própria percepção vai dissolvê-los. Isto requer grande vigilância da mente-coração.

A disputa existe entre aqueles valores estabelecidos e os valores sempre mudando, indefinidos, entre o fixado e o movimento livre da vida, entre padrões, convenções, memórias acumuladas, e aquilo que não tem estadia fixa. Em vez de tentar ir ao encalço do desconhecido, examine o que você tem – o conhecido, os preconceitos estabelecidos, as limitações. Compreenda sua significação; então eles desaparecerão como as névoas da manhã. Quando você percebe que o que você pensava ser uma serpente na grama era apenas uma corda, você não fica mais amedrontado, não há mais uma luta, uma superação. E quando, por meio de profundo discernimento, percebemos que estas limitações são autocriadas, então nossa atitude em relação à vida não é mais de conquistar, de querer se libertar por algum método ou milagre, de buscar compreensão no outro. Então perceberemos por nós mesmos que, embora este processo de ignorância pareça não ter início, ele tem um fim.

19 de abril de 1936

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