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26/04/1936 – T

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Quarta Palestra em Oak Grove

Muitos de vocês vêm a estes encontros com a esperança de que, por algum milagre, eu vá resolver suas dificuldades, sejam econômicas, religiosas ou sociais. E se eu não puder resolvê-las, ou se vocês não são capazes de resolvê-las por vocês mesmos, esperam que algum evento miraculoso ou circunstância vá dissolvê-las; ou mesmo vocês se perdem em algum sistema filosófico, ou esperam que aderindo a uma igreja particular ou sociedade suas dificuldades desaparecerão por si só.

Como eu tenho tentado mostrar várias vezes, estes problemas – sejam sociais, religiosos ou econômicos – não vão ser resolvidos através de algum sistema particular. Eles devem ser resolvidos como um todo, e a pessoa deve compreender seu próprio processo de criar ignorância e ficar presa nela. Se a pessoa pode compreender este processo de acumular ignorância, com sua ação auto sustentada, e discernir a consciência como a combinação destas duas coisas – ignorância e ação – vai compreender profundamente esta existência conflituosa e sofrida. Mas, infelizmente, a maioria de nós está indiferente. Esperamos por circunstâncias externas que nos forcem a pensar, e esta compulsão só pode gerar maior sofrimento e confusão. Você pode testar isto por si mesmo.

E existem aqueles que dependem da fé para sua compreensão e conforto. Eles pensam que existe um ser supremo que os fez, que os guiará, que vai protegê-los e salvá-los. Eles acreditam fervorosamente que, seguindo certo credo ou certo sistema de pensamento, e se forçando em certo modelo de conduta e disciplina, eles alcançarão o supremo.

Como eu tentei explicar no último domingo, fé ou aceitação é um obstáculo à profunda compreensão da vida. A maioria de nós, infelizmente, é incapaz de experimentar por si mesmo, ou não se dispõe a fazer o esforço; relutamos em pensar profundamente e passar pela agonia real de estar inseguro. Assim, dependemos da fé para nossa compreensão e conforto. Muitas vezes pensamos que estamos mudando radicalmente, e que nossa atitude está sendo alterada fundamentalmente; mas, infelizmente, estamos mudando apenas as formas exteriores de nossa expressão, e ainda nos prendemos às demandas internas e anseios por apoio e conforto.

A maioria de nós pertence à categoria daqueles que dependem da fé para a explicação de sua existência. Eu incluo nessa palavra fé as muitas demandas sutis, preces e súplicas a um ser externo, seja ele um Mestre ou santo; ou, o apelo à autoridade de crenças, ideais e disciplinas auto impostas. Tendo tal fé, com todas as suas implicações, estamos fadados a criar dualidade em nossa vida – ou seja, há o ator sempre tentando aproximar a si e a suas ações de um conceito, de um padrão, de uma crença, de um ideal. Logo, há uma constante dualidade. Se você examina sua própria atitude e ação na vida, verá que parece existir uma entidade separada que está olhando a ação, que tenta modelar, talhar o processo da vida de acordo com certo padrão, com o resultado de haver sempre crescente conflito e sofrimento. Se você observar, perceberá que esta dualidade na ação é a causa de atrito, conflito e miséria, pois o esforço da pessoa é usado em fazer sua vida se adaptar a um padrão particular ou conceito. E pensamos que um homem feliz e inteligente é aquele capaz de viver em completa união com seu ideal, com suas crenças preconcebidas. Uma pessoa que pode moldar completamente suas ações a um princípio, um ideal, é considerada sincera, sábia e nobre. Isto não é mais do que uma forma de rigidez, ausência de profunda flexibilidade e, por isso, uma decadência.

Então, na vida da pessoa existe o abstrato e o real, sendo o real o conflito e o abstrato o inconsciente, constituído daquelas crenças e ideais, daqueles conceitos e memórias que se constrói diligentemente como forma de autoproteção. Há um conflito acontecendo em cada pessoa entre o abstrato e o real, o inconsciente e o consciente. Cada um tenta construir uma ponte sobre o espaço existente entre o inconsciente e o consciente, e esta tentativa deve levar à rigidez da mente-coração e, consequentemente, a uma gradual destruição, uma contradição, que impede a completa compreensão de si e do mundo. Muitas vezes se pensa que esta tentativa de unificar o real com o abstrato provocará profunda realização; mas se a pessoa discernir, isto não é mais do que uma forma sutil de fugir do conflito da vida, uma autoproteção contra o movimento da vida.

Antes de podermos tentar gerar esta unidade, devemos saber o que é nossa consciência, quem a criou e qual é seu significado. Se pudermos compreender isto profundamente, ou seja, se pudermos estar conscientes de nossos próprios motivos sutis, conceitos, ideias, ações e reações, vamos discernir, então, que existe só consciência, o processo do “eu”, que se torna perceptível ao sentido como individualidade. Este processo deve criar dualidade em ação sempre e provocar a divisão artificial do consciente e do inconsciente. Deste processo surge a concepção de uma divindade suprema, um ideal, um objetivo em direção ao qual há um constante esforço. Até compreendermos este processo, deve haver ignorância e, consequentemente, sofrimento.

A ausência de compreensão de si é ignorância. Isto é, deve-se discernir como se surgiu, o que se é, todas as tendências, as reações, os motivos ocultos, as crenças auto impostas e objetivos. Até cada pessoa compreender isto profundamente, não pode haver a cessação do sofrimento, e a confusão da ação dividida, como econômica e religiosa pública e privada, prosseguirá. Os problemas humanos que hoje nos perturbam só desaparecerão quando cada pessoa for capaz de discernir o processo da ignorância auto sustentada. Para discernir é preciso paciência e constante vigilância.

Como eu expliquei, não há início para a ignorância; ela é sustentada por seus próprios anseios, por meio de suas próprias demandas aquisitivas e objetivos, e a ação se torna meramente o meio de mantê-la. Este processo interativo de ignorância e ação produz a consciência e a identidade do “eu”. Enquanto você não sabe o que você é e não discerne as várias causas que resultam no continuado processo do “eu”, deve haver ilusão e sofrimento.

Cada um de nós é único no sentido de que cada um está, continuamente, criando sua própria ignorância, que não tem início e é auto sustentada por suas próprias ações. Esta ignorância, embora não tenha início, pode chegar ao fim quando há um profundo discernimento deste círculo vicioso. Aí não existe mais o “eu” tentando sair do círculo para uma realidade maior, mas o próprio “eu” percebe sua natureza ilusória e se desacostuma de si mesmo. Isto demanda precaução e constante vigilância.

Agora nós estamos fazendo um esforço para adquirir virtudes, prazeres, posses, e estamos desenvolvendo muitas tendências em direção à maior acumulação e segurança; ou, se não estamos fazendo isto, trabalhamos negativamente renegando estas coisas e tentando desenvolver outra série de sutis autoproteções. Se você examinar este processo cuidadosamente, perceberá que a consciência, a mente, está sempre se isolando pelos desejos de aquisição e autoproteção. Neste processo separativo a dualidade é criada, o que traz conflito, sofrimento e confusão. O processo do “eu” cria suas próprias ilusões, sofrimentos, por meio de sua auto criada ignorância. Para compreender este processo, deve haver vigilância sem o desejo de escolher entre opostos. Escolha na ação cria dualidade, e isto confirma o processo da consciência como individualidade. Se a mente-coração, não ciente de suas próprias demandas secretas, objetivos, de suas esperanças e medos, escolhe, deve haver mais criação de limitações e frustração. Assim, pela falta de compreensão de nós mesmos, existe escolha, que cria circunstâncias carentes de mais séries de escolhas, e a mente-coração, desse modo, fica presa outra e outra vez em seu próprio círculo de limitação auto criada.

Aqueles de vocês que querem experimentar com o que estou falando, logo descobrirão que não existe tal coisa como uma entidade externa ou ambiente guiando você, e que você é inteiramente responsável por si mesmo, por suas próprias limitações e sofrimentos. Se você vê isto, então o ambiente não se torna uma força separada controlando, dominando, distorcendo a realização do indivíduo. Então você começa a perceber que só existe consciência, percebida como individualidade, e que ela não esconde ou encobre nenhuma realidade. O processo do “eu” não emana realidade, maior felicidade, inteligência, mas ele em si cria seu próprio sofrimento e confusão.

Pegue um exemplo muito simples e você pode testar por si mesmo. Muitos de vocês têm crenças muito fortes, que vocês consideram o resultado de intuição, mas elas não são. Estas crenças são o resultado de medos secretos, anseios e esperanças. Tais crenças estão, inconscientemente, guiando vocês, forçando-os a certas atividades, e toda experiência é traduzida de acordo com seus ideais e crenças. Assim, não há compreensão da vida, mas apenas a acumulação de memórias auto protetoras que aumentam em sua intensidade, e a limitação por meio de mais experiência. Se você está vigilante, observará que este processo está acontecendo em você, e que suas atividades estão se aproximando de um padrão, de um ideal. A aproximação completa de um ideal é chamada sucesso, realização, felicidade; mas o que se consegue de fato é uma rigidez, um completo isolamento, autoproteção pela fuga para a segurança e assim, não há compreensão da vida, nem existe a cessação da ignorância com seu sofrimento e confusão.

Interrogante: Qual é o propósito do sofrimento? É nos ensinar a não repetir o mesmo erro?

Krishnamurti: Não há propósito no sofrimento. O sofrimento existe pela ausência de compreensão. A maioria de nós sofre economicamente, espiritualmente, ou em nossas relações uns com os outros. Por que há este sofrimento? Economicamente, nós temos um sistema baseado na aquisição, exploração, medo; este sistema vem sendo encorajado e mantido por nossos anseios e buscas e, portanto, ele é auto sustentado. A aquisição e um sistema de exploração têm que andar juntos, e estão sempre presentes onde existe ignorância de si mesmo. É, novamente, um círculo vicioso: nossos anseios produziram um sistema, e esse sistema se mantém nos explorando.

Há sofrimento em nossas relações com os outros. Ele é criado por nosso anseio por conforto, segurança, posse. Então existe esse sofrimento causado pela profunda incerteza, que nos induz a encontrar paz, segurança, realidade, Deus. Ansiando por certeza, nós inventamos muitas teorias, criamos muitas crenças, e a mente se torna limitada e enredada nelas, superaquecida com elas, e incapaz de ajustar-se ao movimento da vida.

Existem muitos tipos de sofrimento, e se você começa a discernir suas causas, perceberá que o sofrimento deve coexistir com a exigência por parte de cada indivíduo de estar seguro, seja financeiramente, espiritualmente, ou na relação humana. Onde existe busca de segurança, grosseira ou sutil, deve haver medo, exploração e sofrimento.

Em vez de compreender a causa do sofrimento, você pergunta qual é seu propósito. Você quer utilizar o sofrimento para conseguir alguma coisa mais. Então começa a inventar o propósito; você diz que o sofrimento é o resultado de uma vida passada, é o resultado do ambiente e assim por diante. Estas explicações lhe satisfazem, daí você continua em sua ignorância, com a constante recorrência do sofrimento.

O sofrimento existe onde há ignorância de si mesmo. Ele não é mais do que uma indicação de limitação, de incompletude. Não existe remédio para o sofrimento em si. No discernimento do processo de ignorância, o sofrimento desaparece.

Interrogante: Não é verdade que boas ações são recompensadas e que, levando uma vida mansa e correta, conseguiremos felicidade?

Krishnamurti: Quem recompensa você? Neste mundo, recompensa é ter sucesso na vida, chegar ao topo explorando pessoas, ser condecorado pelo governo ou por seu partido e assim por diante. E se lhe é negado este tipo de recompensa, você quer outro tipo, uma recompensa espiritual – ou o discipulado do Mestre, iniciação, ou um reconhecimento por ter feito o bem em sua vida passada.

Você considera seriamente que tal coisa exista, exceto como encorajamento infantil e ímpeto, que isto tem algum valor? Você é manso e ama porque vai ter uma recompensa agora ou numa vida futura? Você pode rir disto, mas se examinar profundamente e compreender seus motivos e ações, perceberá que elas estão coloridas por esta ideia de recompensa e punição. Assim, nossas ações nunca são integrais, completas e plenas. Daí surge sofrimento e conflito, e nossas vidas se tornam pequenas, triviais e sem qualquer significação profunda.

Se não existe recompensa e punição, e por isso, a completa liberdade do medo, então qual é o propósito de viver? Esta seria a pergunta natural que você faria, pois você foi treinado para pensar em termos de recompensa e punição, aquisição, competição, e todas aquelas qualidades que formam o que você considera ser a natureza humana. Quando compreendermos profundamente o significado de nossa existência, do processo de ignorância e ação, veremos que o que chamamos propósito não tem significação. A simples busca de um propósito da vida, encobre, prejudica a compreensão de si mesmo.

Recompensa não tem significado; é, meramente, uma compensação pelo esforço que você fez. Todo esforço feito a fim de ganhar uma recompensa, aqui ou na vida futura, leva à frustração, e a recompensa se torna um monte de poeira em sua boca.

Interrogante: Você não considera a filantropia um importante elemento na criação de um novo ambiente, levando ao bem estar do homem?

Krishnamurti: Se nós consideramos filantropia como o amor ao homem e o esforço para promover sua felicidade, então ela terá valor na medida em que o consideremos como um indivíduo único e o ajudemos a perceber que em suas próprias mãos está sua felicidade e o bem estar de todos. Mas, eu receio que isto não fosse considerado filantropia, pois a maioria de nós não percebe que somos únicos, que o processo de criar ignorância e sofrimento está em nosso próprio poder, e que só pela compreensão de nós mesmos pode haver liberdade dessas coisas. Se isto for compreendido completa e profundamente, então a filantropia terá significado.

A caridade se torna meramente uma compensação, e com ela seguem todas as explorações grosseiras e sutis com que o homem se acostumou.

26 de abril de 1936

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