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01/08/1936 – T

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Quinta Palestra em Ommen

Nossas mentes tornaram-se o campo de batalha de ideias, medos e ilusões, desejos e negações, esperanças e frustrações, arregimentação e espontaneidade. Podemos pôr um fim ao conflito na mente, sem criar, ao mesmo tempo, vazio, aridez e frustração? Você pode suprimir o conflito por um pouco, forçando a mente a um certo modelo, mas isto meramente cria ilusões e desajustamentos na vida. A maioria de nós tenta subjugar os nossos desejos, ou dar-lhes total liberdade, mas o conflito não termina dessa forma.

Existe uma forma pela qual possamos terminar o conflito e o sofrimento, sem destruir a inteligência criativa e a plenitude integral? Pode haver um viver sem escolha, isto é, pode haver ação sem negação ou vontade agressiva? Pode haver ação que é espontânea e, portanto, livre do conflito dos opostos? Pode haver uma vida de plenitude, sem o processo definhador da disciplina, negação, medo, e frustração? É um tal estado de compreensão profunda possível? Pergunto quantos de vós estais vitalmente conscientes deste conflito no campo de batalha da mente.

Uma vida de plenitude, uma vida de ação sem escolha, uma vida livre do processo definhador de subjugação e substituição, é possível. Como é este estado realizado? Sistemas e métodos não podem produzir este estado feliz da mente. Esta condição de vida sem escolha deve vir naturalmente, espontaneamente; não pode ser procurada. Não é para ser compreendida ou realizada, ou conquistada através de uma disciplina, através de um sistema. Uma pessoa pode condicionar a mente através de treino, disciplina e compulsão, mas tal condicionamento não pode nutrir o pensamento ou despertar a inteligência profunda. Tal mente treinada é como o solo que é estéril.

Poucos de nós estamos profundamente conscientes do conflito, com seu sofrimento, suas incertezas sutis, evasivas e, ao mesmo tempo, dessa luta por certezas na qual a mente repousa, para sua segurança e conforto. A consciência profunda e vital do conflito é como o cultivo do solo. Deve haver apenas o processo de cultivo do solo, deve haver apenas a consciência do conflito. Agora, quando há conflito, há ou o desejo de escapar dele, ou há o desejo de utilizá-lo para futura realização. Mas deve haver apenas a profunda consciência do sofrimento, do conflito, que não é senão o cultivo do solo, e a mente não deve permitir, para si mesma, a busca de remédios, substituições e fugas. Deve haver o cultivo do solo, a convulsão, a revolução da mente e ainda, ao mesmo tempo, deve haver quietude, percepção silenciosa, sem negação, aceitação ou resignação. A mente, quando está em conflito, imediatamente busca um remédio e assim cria, artificialmente, uma fuga para si mesma, dificultando, portanto, a total compreensão do sofrimento; mas, apenas através do discernimento espontâneo, pode haver aquela compreensão direta, que traz ajuste sem escolha à vida. Onde há imitação, deve haver também medo, e a ação que é imitativa não é inteligente. A disciplina da compulsão, do medo, leva ao definhamento lento da mente, e não pode haver aquela relação sem escolha e espontânea com o ambiente que, por si só, é ação correta.

Pode haver ação correta apenas quando existe a compreensão de todo o processo do ‘Eu’, que não é senão o processo de ignorância. Enquanto não houver o discernimento do processo da consciência, deste vasto complexo de ignorância, memórias, vontades, tendências, conflitos, a mera imitação da conduta não pode originar ordem inteligente e harmoniosa no mundo, e felicidade no homem. Tal imitação pode produzir uma ordem superficial do industrialismo econômico, mas não pode criar inteligência. Para compreender o significado pleno do processo do ‘Eu’, a persistência inteligente é essencial, não consciência ocasional em momentos estranhos.

A ação que nasce da vontade ou do medo pode apenas intensificar a ignorância e aumentar a limitação e, portanto, manter o processo do ‘Eu’. Através da cessação voluntária da vontade e do medo, a inteligência é despertada. O despertar da inteligência é o início da ação verdadeira. Esta inteligência, por si só, pode originar ajuste espontâneo na vida, sem a compulsão da escolha.

Questionador: Como posso despertar a inteligência?

Krishnamurti: Onde não há inteligência, deve haver sofrimento. A inteligência pode ser desperta por meio da percepção sem escolha da mente, de que ela está a criar, para ela mesma, fugas, dividindo-se em diferentes partes, em diferentes vontades. Se a mente estiver consciente dessas divisões ilusórias, com seus valores, então há o despertar da inteligência. O processo de escolha é meramente uma vontade superando outra, uma ilusão dissipando outra, um conjunto de valores substituindo outro. Esta dualidade na consciência perpetua o conflito e o sofrimento, e conflito é a falta de ação integral.

Questionador: Percebo que a liberação do indivíduo é essencial, mas como pode a ordem social duradoura ser estabelecida sem o esforço das massas?

Krishnamurti: Em todas as minhas palestras, tenho apontado a total necessidade de compreensão individual. A ordem social é o resultado da compreensão individual. A ênfase na liberação individual não é um encorajamento a atividade egoísta ou autoexpressão limitada. Apenas libertando o pensamento das limitações que agora aleijam a mente, pode a inteligência ser desperta, e somente a inteligência, pode originar a verdadeira ordem social. Ser responsável por suas próprias ações e ser integral em seu pensamento implica completude do ser, especialmente num mundo onde o movimento das massas parece ser de grande importância. É comparativamente fácil criar entusiamo de massas para ação concertada, mas é muito difícil compreender a si mesmo e agir corretamente. Somente a partir da profunda compreensão, pode haver cooperação e ordem social duradoura.

Estas palestras não são para induzir esforço de massas ou ação combinada; elas podem apenas ajudar a criar a compreensão e esforço individuais, e portanto livrar o indivíduo da prisão das limitações autocriadas. O despertar da compreensão integral de si mesmo, que é discernimento sem escolha, por si só, trará verdadeira ordem social num mundo livre de exploração e ódio.

Questionador: A arte pertence ao mundo da ilusão ou à realidade? Qual a relação da arte com a vida?

Krishnamurti: A arte divorciada da vida não tem realidade. A arte não deve ser uma expressão superficial da vida dual do homem, mas ela deve ser uma expressão integral do homem indivisível. Atualmente, a arte expressa não mais do que um aspeto do homem, e portanto, meramente enfatiza a divisão. Assim, há uma estranha separação entre a vida real e a arte. Quando a arte é a verdadeira expressão integral do homem, da sua vida e atividades, então ela é da realidade, e então ela tem relação direta conosco e nosso ambiente.

Questionador: Quando confrontados com a agonia da morte de alguém que amamos muito, é difícil manter que a vida é a coisa mais essencial e que a consideração da vida após a morte é fútil. Por outro lado, alguém questiona se a vida é, apesar de tudo, algo mais do que os processos fisiológicos e biológicos, condicionados pela hereditariedade e o ambiente, como alguns cientistas mantêm. Nesta confusão, o que se faz? Como deve alguém pensar e atuar para saber o que é verdade?

Krishnamurti: Como o próprio questionador aponta, alguns cientistas mantêm que a hereditariedade explica as tendências e particularidades individuais do homem, e outros afirmam que ele é o resultado do ambiente, meramente uma entidade social. Qual destas asserções confusas escolheremos? O que é o homem? Como podemos compreender o significado da morte e a agonia profunda que vem com ela? Apenas aceitando as várias asserções, podemos resolver o sofrimento e o mistério da morte? Somos capazes de escolher, de entre essas explicações, aquela que é verdadeira? É uma matéria de escolha?

O que é escolhido não pode ser verdadeiro. Nos opostos, o real não pode ser encontrado, pois os opostos são meramente a interação de reações. Se o que é verdade não é para ser encontrado nos opostos, e que o que é escolhido não leva à compreensão da verdade, então o que faremos? Vocês devem compreender, por vós mesmos, o processo de vosso próprio ser, e não meramente aceitar a investigação dos cientistas, ou as asserções das religiões. Ao discernirem completamente o processo de vosso próprio ser, vocês serão capazes de compreender o sofrimento e a agonia da solidão, que vem com a sombra da morte. Até que vocês percebam o vosso próprio processo profundamente, a consideração da vida após a morte, a teoria da reencarnação, as explicações dos espiritistas, devem permanecer superficiais, dando consolação temporária que apenas impede o despertar da inteligência. O discernimento é essencial para a compreensão do processo do ‘Eu’. Através do discernimento apenas, podem ser resolvidos os vários problemas que o processo do ‘Eu’ está sempre a criar por si mesmo.

Vocês tentam ver-se livres do sofrimento pelas explicações, drogas, bebidas, divertimento, ou resignação, e ainda assim o sofrimento continua. Se vocês trouxerem o sofrimento a um fim, vocês deverão entender o processo de divisão na consciência, que cria conflito e torna a mente um campo de batalha de muitas vontades. Através do discernimento sem escolha, é desperta aquela intuição criativa, inteligência, que por si só, pode libertar a mente e o coração dos muitos processos sutis da ignorância, da vontade, e do medo.

01 de agosto de 1936.

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