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02/08/1936 – T

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Sexta Palestra em Ommen

Interrogante: Quais, de acordo com você, são os princípios básicos pelos quais se cria e educa as crianças? Devemos ser sempre justificados ao assumir que as crianças são capazes de conhecer o que é bom e certo para elas, e que a menor interferência e orientação de adultos, o melhor?

Krishnamurti: Os vários problemas em relação à educação das crianças podem apenas ser resolvidos compreensivelmente, integralmente. A humanidade está sendo educada e regimentada de acordo com certas ideias industriais, filosóficas, e religiosas. Se o homem não é senão o resultado do ambiente e hereditariedade, se ele é meramente uma entidade social, então certamente que quanto mais houver de arregimentação, orientação, imposição, e compulsão, melhor. Se assim for, então, de uma muito tenra idade, a criança deve ser controlada, e suas reações íntimas para com a vida, devem ser corrigidas e disciplinadas de acordo com a necessidade industrial e a moralidade biológica.

Em oposição a esta concepção, está a fé, que mantém que existe apenas uma força universal, transcendental, que é Deus, e tudo é parte dele, e nada é desconhecido para ele. Então, o homem não é livre e seu destino está predeterminado. Na fé também há arregimentação de pensamento, através da crença e ideal. O que chamamos de educação religiosa é meramente forçar o indivíduo a se adaptar a certas ideias, moralidades e conclusões estabelecidas pelas organizações religiosas.

Se vocês examinarem ambos os opostos, as afirmações da fé e da ciência, verão que, embora estejam em oposição, ambas moldam o homem, evidente ou sutilmente, cada uma de acordo com seu próprio padrão. Antes de podermos saber como criar as crianças, ou nós mesmos, devemos compreender o significado destes opostos. Criamos através da fé, do medo, e compulsão, um sistema de pensamento e conduta que chamamos de religião, e ao qual estamos constantemente a ajustar-nos; ou, pela contínua afirmação de que o homem é meramente uma entidade social, um produto do ambiente e hereditariedade, criamos uma moralidade superficial que é oca e estéril. Portanto, antes de podermos educar as crianças ou nós próprios, temos de compreender o que é o homem.

O nosso pensamento e ação desenvolvem-se, por vezes, da fé, e noutras vezes, das reações da necessidade biológica ou industrial. Quando há grande ansiedade, medo, incerteza, nos voltamos para Deus, afirmamos que há uma força transcendental que nos guia, e com a moralidade da fé, tentamos viver num mundo de oportunismo, ódio e crueldades. Então, inevitavelmente existe conflito entre o sistema da fé e o sistema da moralidade egotística. Através de qualquer um desses sistemas, que se opõem, o que o homem é não pode ser discernido.

Como, então, descobriremos o que o homem é? Devemos, primeiro, tornar-nos conscientes de nosso pensamento e ação, e libertá-los da fé, do medo e da compulsão. Devemos desembaraçá-los da reação e do conflito de opostos no qual são atualmente mantidos. Estando alerta e constantemente conscientes, devemos descobrir, por nós mesmos, o verdadeiro processo da consciência. Tenho tentado explicar este processo nas minhas muitas palestras.

Em vez de pertencer a qualquer um dos sistemas de pensamento opostos – fé e ciência – devemos ir além deles, e apenas então devemos discernir aquilo que é verdadeiro. Então, devemos ver que há muitas energias cujos processos são únicos, e que não há uma força universal que põe em movimento essas energias separadas. O homem é esta energia única, autoativa, que não tem início. Em seu desenvolvimento autoativo, há consciência, da qual surge a individualidade. Este processo é autossustentado pelas suas próprias atividades de ignorância, preconceito, vontade, medo. Enquanto o processo de ignorância e vontade existir, deve haver medo, com suas muitas ilusões e fugas; deste processo, surge conflito e sofrimento.

Se discernirmos verdadeiramente este processo autossustentado de ignorância, então devemos ter uma atitude completamente diferente para com o homem e sua educação. Então, não haverá a compulsão da fé ou da moralidade superficial, mas o despertar da inteligência, que se ajustará a todas as provocações da vida. Até que compreendamos realmente o significado de tudo isto, a mera busca por outro sistema de educação é inteiramente inútil. Para despertar a inteligência criativa, de modo que cada ser humano seja capaz de ajustamento espontâneo à vida, deve haver o discernimento profundo do processo de si mesmo. Nenhum sistema filosófico pode ajudar alguém a se compreender a si mesmo. A compreensão vem apenas por meio do discernimento do processo do ‘Eu’, com sua ignorância, tendências e medos. Onde há inteligência profunda e criativa, haverá educação correta, ação correta e relação correta com o ambiente.

Interrogante: Não leva a experiência à plenitude da vida?

Krishnamurti: Vemos muitas pessoas passando por experiência após experiência, multiplicando sensação, vivendo em memórias passadas com antecipação futura. Vivem essas pessoas uma vida de plenitude? Trazem as memórias acumuladas a plenitude da vida? Ou existe a plenitude da vida apenas quando a mente está aberta, vulnerável, completamente despida de todas as memórias auto protetoras?

Quando há ação integral sem a divisão de muitas vontades, há plenitude, inteligência, a profundidade da realidade. Mera acumulação de experiência, ou viver na sensação da experiência, não é senão um enriquecimento superficial da memória, que proporciona uma sensação artificial de plenitude, através de estimulação. Mero enriquecimento da memória não é plenitude da vida; ele apenas constrói mais muros auto protetores contra o movimento da vida, contra o sofrimento. Muros auto protetores da memória impedem a espontaneidade da vida, e aumentam a resistência e, portanto, intensificam o sofrimento e o conflito. Memórias acumuladas de experiência não originam compreensão ou a força da profunda flexibilidade.

A memória guia-nos nas experiências. Abordamos cada nova experiência com uma mente condicionada – uma mente que está já carregada de memórias auto protetoras de medos, preconceitos, tendências. A memória condiciona sempre a mente e cria, para ela, um ambiente de valores do qual ela se torna prisioneira. Enquanto as memórias auto protetoras existirem e derem continuidade ao processo do ‘Eu’, não pode haver a plenitude da vida.

Então, temos de compreender o processo da experiência e perceber como a mente está sempre a reunir lições da experiência, que se torna seu guia. Essas lições, esses ideais e guias, que não são senão memórias auto protetoras, constantemente ajudam a mente a fugir da realidade. Embora a mente busque fugir do sofrimento, ajudada por essas memórias, ela apenas acentua o medo, a ilusão e o conflito. A plenitude da vida é possível apenas quando a mente e o coração estão completamente vulneráveis ao movimento da vida, sem quaisquer obstáculos auto criados e artificiais. A riqueza da vida vem quando a vontade, com suas ilusões e valores, acabou.

Interrogante: Por favor, fale-nos sobre a beleza e êxtase da liberdade. É possível alcançar esse estado de felicidade sem o uso de meditação ou outros métodos adequados ao nível em que estamos?

Krishnamurti: Por que querem que vos fale sobre a beleza e êxtase da liberdade? Para ter uma nova sensação, uma nova figura imaginativa, um novo ideal, ou é porque esperam que se crie, em vós, através da minha descrição, uma garantia, uma certeza? Vocês desejam ser estimulados. Como quando lê um poema, você é levado pela visão momentânea da fantasia do poeta, assim quer a estimulação da minha descrição. Quando olha para uma linda pintura, você é transportado, por um momento, pela sua beleza, do seu conflito, miséria, e medo diários. Você foge, mas cedo retorna ao seu sofrimento. De qual proveito é a minha descrição, para vós, do indescritível? Nenhuma palavra o pode medir. Então, não perguntemos o que é verdade, o que é liberdade.

Vocês saberão o que é liberdade quando vocês estiverem profundamente conscientes das paredes de vossa prisão, pois essa mesma consciência dissolve as limitações autocriadas. Quando perguntam o que é verdade, o que é o êxtase da liberdade, estão apenas demandando uma nova fuga do fardo pesado da luta, paixão, e ódio diários. Ocasionalmente, estamos conscientes da beleza do indescritível, mas esses momentos são tão raros, que nos agarramos a eles, em memória, e tentamos viver no passado, com a realidade sempre presente. Isto apenas cria e perpetua o conflito e a ilusão. Não nos deixemos viver, por meio de imaginação, num futuro antecipado, mas deixemo-nos estar conscientes de nossas lutas e medos diários.

Existem aqueles poucos que, compreendendo o processo de ignorância autossustentado, trouxeram-no voluntariamente a um fim. E há os muitos que têm escapado do real; eles não conseguem discernir o real, “o que se torna sempre”. Nenhum sistema, filosófico ou científico, pode levá-los ao êxtase da verdade. Nenhum sistema de meditação pode libertá-los das ilusões, conflitos, e misérias auto engendrados e auto ativos, que são tão insistentes que ajudam a criar aquelas condições que impedem a fruição da inteligência. Você quer dizer, por meditação, um conjunto de regras, uma disciplina, que, se seguida, espera que o ajude a despertar a inteligência. Pode a compulsão, quer de recompensa ou de punição, trazer a intuição criativa da realidade? Não deve você estar consciente, profundamente ciente do processo de ignorância, vontade, que está sempre criando mais vontade, e portanto, sempre gerando medo e ilusão? Quando começa realmente a estar consciente deste processo, essa mesma consciência é meditação, não a meditação artificial por uns poucos minutos do dia, nos quais você se afasta da vida, para contemplar a vida. Pensamos que, ao nos afastarmos da vida, mesmo por um minuto, devemos compreender a vida. Para compreender a vida, devemos estar no fluxo da vida, no movimento da vida. Devemos estar cientes do processo de ignorância, vontade, e medo, pois somos esse mesmo processo.

Temo que muitos de vós, que me ouvem tantas vezes, mas não experimentam aquilo que digo, irão meramente adquirir uma nova terminologia, sem aquela mudança fundamental de vontade, que por si só, pode libertar a mente e o coração do conflito e do sofrimento. Ao invés de pedir por um método de meditação, que nada é senão uma indicação de querer uma fuga da realidade, discirnam, por vós mesmos, o processo de ignorância e medo. Este profundo discernimento é meditação.

Interrogante: Você diz que a disciplina é fútil, quer externa ou autoimposta. Contudo, quando alguém considera a vida seriamente, ele submete-se inevitavelmente a um tipo de autodisciplina voluntária. Há algo errado nisto?

Krishnamurti: Tenho tentado explicar que a conduta que nasce da compulsão, quer seja a compulsão de recompensa ou de punição, de medo ou de amor, não é conduta correta. É meramente uma imitação, um forçar e treinar a mente de acordo com certas ideias, de forma a evitar o conflito. Este tipo de disciplina, imposta ou voluntária, não leva à conduta correta. A conduta correta é possível apenas quando compreendemos o inteiro significado do processo de ignorância auto ativo, e o reformar da limitação através da ação da vontade. No profundo discernimento do processo do medo, há o despertar daquela inteligência que gera a boa conduta. Pode a inteligência ser despertada através da disciplina, imposta ou voluntária? É uma questão de treinar o pensamento de acordo com um padrão particular? É a inteligência despertada através do medo, que o faz subjugar a si mesmo a um padrão de moralidade? A compulsão de qualquer tipo, quer externamente ou voluntariamente imposta, não pode despertar a inteligência, pois imposição é o resultado do medo. Onde há medo, não pode haver inteligência. Onde a inteligência funciona, há ajuste espontâneo sem o processo de disciplina. Então, a questão não é se a disciplina é certa ou errada, ou se é necessária, mas como a mente pode ser livre do medo autocriado. Pois quando há liberdade do medo, não há o senso de disciplina, mas apenas a plenitude da vida.

Qual é a causa do medo? Como o medo é gerado? Qual é seu processo e expressão? Deve haver medo enquanto o processo do ‘Eu’ existir, a consciência da vontade, que limita a ação. Toda a ação que nasce da limitação da vontade apenas cria mais limitação. Esta constante mudança da vontade, com suas várias atividades, não liberta a mente do medo; apenas dá ao processo do ‘Eu’ uma identidade e uma continuidade. A ação que surge da vontade deve sempre criar medo e, portanto, impedir a inteligência e o ajuste espontâneo à vida.

Ao invés de me perguntarem se é correto ou errado disciplinar-se, estejam conscientes da vossa própria vontade, e então, verão como o medo é criado e se perpetua. Em vez de querer se livrar do medo, estejam profundamente conscientes da vontade, sem compulsão de qualquer tipo. Então, haverá a cessação do medo, o despertar da inteligência, e a profunda plenitude da vida.

2 de agosto de 1936.

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