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03/08/1936 – T

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Sétima Palestra em Ommen

Para discernir a realidade a mente deve ser infinitamente flexível. A maioria de nós imagina que fora e acima da mente está a realidade, que fora e acima desta consciência de conflito e limitação, prazer e sofrimento, está a verdade. Mas para entender a realidade a mente deve compreender suas próprias criações, suas próprias limitações. Para discernir o processo da consciência, que é conceitual bem como real, para entrar profundamente em suas tremendas sutilezas, a mente deve ser perfeitamente flexível, e deve haver pensamento integral. O pensamento integral não é resultado de treinamento, controle ou imitação. Uma mente que não está dividida em opostos, que é capaz de perceber diretamente, não pode ser o resultado de treinamento. Ela não é o resultado de uma vontade dominando outra vontade, um desejo superando outro desejo. Toda antítese no pensamento deve ser falsa. A mente, consciente ou inconscientemente, prega uma peça em si mesma dividindo-se. Treinar e controlar indica um processo de dualidade no desejo, que produz conflito na consciência. Onde existe conflito, sujeição, superação, uma batalha de antítese, não pode haver flexibilidade, a mente não pode ser sutil, penetrante, perspicaz. Através do conflito de opostos a mente se torna condicionada; e o pensamento condicionado cria mais limitações e, assim, o processo de condicionamento continua. Este processo impede a flexibilidade.

Como podemos produzir esse estado que não é resultante do conflito dos opostos? Devemos nos tornar conscientes do conflito de opostos acontecendo em cada um de nós, sem nos identificar com um dos opostos ou interferir no conflito. O conflito excita a mente, e como a mente não gosta de ser agitada, ela busca uma saída artificial dessa condição perturbada. Tal saída deve ser uma fuga ou um oposto, o que cria para a mente mais limitação. Estar em conflito e, ao mesmo tempo, estar vibrantemente imóvel, não aceitando ou negando, não é fácil. Estar num estado de conflito e, ao mesmo tempo, não procurar remédio ou fuga gera pensamento integral. Isto é esforço correto.

Para libertar a mente do conflito de opostos, você deve estar cônscio do processo de dominação de uma parte da consciência por outra, uma divisão por outra. Este processo você chama de treinar a mente; mas ele não é mais do que a formação de um hábito nascido dos opostos.

Vamos considerar a mente presa na autoridade. Existe a autoridade da compulsão externa, de grupos, líderes, opiniões, tradições. Você pode ceder a essa autoridade totalmente sem compreendê-la e afirmar que é uma escolha voluntária; mas se você, realmente, examina a si mesmo, verá que nessa escolha existe um profundo desejo de segurança, que cria medo, e para superar esse medo você se submete à autoridade. E existe a autoridade sutil, subjetiva das memórias acumuladas, preconceitos, medos, antipatias, desejos, que se tornaram valores, ideais, padrões. Se você examina isto profundamente, verá que a mente está, constantemente, aceitando e rejeitando a autoridade e o condicionamento em si por novos valores e padrões nascidos da ânsia de autoproteção e segurança. Você pode dizer a si mesmo que não está de maneira nenhuma buscando segurança, o que cria as muitas formas sutis de autoridade, mas se observar, verá que está buscando insegurança a fim de que possa se convencer da falsidade da segurança. Assim, a ideia de insegurança se torna, apenas, outra forma de segurança e autoridade. Quando rejeita a autoridade e busca liberdade dela, está só buscando a antítese; ao passo que a verdadeira liberdade, o estado inteligente e desperto da mente, está além dos opostos. Ele é a vibrante quietude do pensamento profundo, da atenção sem escolha, aquela intuição criativa, que é a plenitude da vida.

Interrogante: Se estou em conflito com a família, amigos e as leis do estado, de fato, com as várias formas de exploração, buscar libertação de toda escravidão não tornará a vida praticamente impossível?

Krishnamurti: Receio que tornaria, se você estivesse meramente buscando libertação como oposto do conflito e, assim, uma fuga da realidade. Se você deseja tornar a vida prática e vital, então tem que compreender todo o processo de exploração, tanto o óbvio como o insidioso. A simples fuga do conflito com a família, amigos e ambiente não vai libertá-lo da exploração. Só na compreensão do significado de todo o processo de exploração existe inteligência. A inteligência torna a vida possível, prática e vital. Quero dizer com inteligência, não o processo intelectual superficial, mas aquela mudança de vontade que é gerada pela plenitude integral do ser total.

Estamos bem informados das formas óbvias de exploração, mas existem muitas formas sutis das quais não temos consciência. Se você quiser, realmente, compreender a exploração em suas formas óbvias e sutis, você tem que discernir o processo do “Eu” – este processo nascido da ignorância, medo, desejo. Toda ação nascida deste processo deve impor a exploração. Muitas pessoas se retiram do mundo para contemplar a realidade, e esperam levar o processo do “Eu” ao fim. Você não deveria se retirar da vida para considerar a vida. Esta fuga não leva o processo de ignorância, desejo e medo do “Eu” a um fim. Viver é estar em relação, e quando esta relação começa a se tornar cansativa, limitada, ela cria conflito, sofrimento. E aí surge o desejo pelo oposto, uma fuga da relação. A pessoa muitas vezes foge para uma vida árida de medo e ilusão, o que intensifica o conflito e produz decadência lenta. Esta fuga é que é não pratica e confusa. Se você quiser despir a vida de toda feiura e crueldade, deve, pelo esforço correto, levar o processo de autossustentação da ignorância a um fim.

Interrogante: Se a verdade está além e acima de todas as limitações, ela deve ser cósmica e, assim, abarcar toda expressão de vida. Tal consciência cósmica não deveria incluir a compreensão de todo aspecto e atividade da vida sem excluir nenhum?

Krishnamurti: Não vamos nos preocupar com a consciência cósmica, verdade e assim por diante. Aquilo que é real será conhecido quando todas as formas de ilusões cessarem. Como a mente é capaz de tais ilusões sutis e tem o poder de criar para si muitas ilusões, nosso interesse não deveria ser sobre o estado de realidade, mas dissipar as muitas ilusões que, consciente ou inconscientemente, surgem. Pertencendo a uma organização religiosa com seus dogmas, crenças e credos, ou sendo um destes novos nacionalistas dogmáticos, você espera perceber Deus, a verdade ou a felicidade humana. Mas como pode a mente compreender a realidade se ela está distorcida por crenças, preconceitos, dogmas e medos? Só quando estas limitações são dissolvidas pode haver verdade. Não preconceba o que é e, daí, ajuste a essas concepções seus desejos.

Para amar o homem você acha que deve pertencer a alguma nacionalidade; para amar a realidade você acha que é necessário pertencer a alguma religião organizada. Como nós não temos a capacidade de discernir a verdade entre as muitas ilusões que povoam nossa mente, nos iludimos pensando que o falso assim como o verdadeiro, ódio assim como amor, são partes essenciais da vida. Onde existe amor, o ódio não pode existir. Para compreender a realidade você não precisa passar por todas as experiências de ilusão.

Interrogante: Como podemos resolver o problema do sexo?

Krishnamurti: Onde existe amor, o problema do sexo não existe. Ele só se torna um problema quando o amor foi substituído pela sensação. Então a questão é, realmente, como controlar a sensação. Se houvesse a chama vital do amor, o problema do sexo cessaria. Ora, o sexo se tornou um problema pela sensação, hábito e estimulação, pelos muitos absurdos da civilização moderna. Literatura, filmes, anúncios, conversa, roupa – tudo isto estimula a sensação e intensifica o conflito. O problema do sexo não pode ser resolvido separadamente, por ele mesmo. É fútil tentar compreendê-lo pela moralidade comportamental ou científica. Restrições artificiais podem ser necessárias, mas elas só podem produzir uma vida árida e superficial.

Todos nós temos a capacidade do amor inclusivo e profundo, mas através do conflito e da relação falsa, sensação e hábito, nós destruímos a sua beleza. Pela possessividade com suas muitas crueldades, pela feiura da exploração recíproca, nós, lentamente, extinguimos a chama do amor. Nós não podemos manter a chama viva artificialmente, mas podemos despertar inteligência, amor, pelo constante discernimento das muitas ilusões e limitações que, agora, dominam nossa mente-coração, todo o nosso ser. Assim, o que temos que compreender não é que tipos de restrições, científicas ou religiosas, podem ser colocados em desejos e sensações, mas como gerar realização profunda e duradoura. Nós estamos frustrados em todo lado; o medo domina nossa vida moral e espiritual, nos forçando a imitar, nos adaptar a falsos valores e ilusões. Não existe expressão criativa de todo nosso ser, seja no trabalho ou no pensamento, então a sensação se torna monstruosamente importante e seus problemas esmagadores. A sensação é artificial, superficial, e se não penetrarmos profundamente no desejo e compreendermos seu processo, nossa vida se tornará superficial e completamente inútil e miserável. A mera satisfação do desejo ou a constante mudança no desejo destrói a inteligência, o amor. Só o amor pode libertar você dos problemas do sexo.

Interrogante: Você diz que podemos nos tornar totalmente conscientes desse processo do “Eu” que está focalizado em cada um de nós individualmente. Isso significa que nenhuma experiência pode ter algum valor exceto para a pessoa que a tem?

Krishnamurti: Se você está condicionando o pensamento com sua própria experiência, como pode a experiência de outra pessoa libertá-lo? Se você condicionou sua mente com suas próprias atividades volitivas, como pode a compreensão do outro libertar você? Ela pode estimulá-lo superficialmente, mas tal ajuda não é duradoura. Se você compreende isto, então todo o sistema daquilo que é chamado ajuda espiritual, através da adoração e disciplina ou através de mensagens da próxima vida, tem muito pouca significação. Se você discernir que o processo do “Eu” se mantém por meio de suas próprias atividades volitivas, nascidas de ignorância, desejo e medo, então a experiência do outro pode ter muito pouca significação. Grandes mestres religiosos declararam o que é moral e verdadeiro. Seus seguidores, meramente, os imitaram e, assim, não se realizaram. Se você diz que devemos ter ideais pelos quais viver, isto só indica que existe medo em sua mente-coração. Ideais criam dualidade na consciência, e simplesmente dão continuidade ao processo de conflito. Se você percebe que o despertar da inteligência é o fim do processo do “Eu”, então há o ajustamento espontâneo à vida, relação harmoniosa com o ambiente, em vez da compulsão do medo ou da imitação de um exemplo, o que só aumenta o processo de ignorância, desejo e medo do “Eu”.

Ora, se cada um de vocês perceber isto realmente, eu asseguro, haverá uma mudança vital em sua vontade e atitude em relação à vida. As pessoas muitas vezes me perguntam: “Não deveríamos ter autoridade? Não deveríamos seguir Mestres? Não deveríamos ter disciplina?” Há outros que dizem: “Não nos fale sobre autoridade porque já saímos disto.” Assim, enquanto o processo do “Eu” continua, devem existir as muitas formas sutis de autoridade, de desejo, com seus medos, ilusões e compulsão. A autoridade do exemplo implica que existe medo, e enquanto não compreendemos o processo do “Eu”, meros exemplos apenas se tornarão obstáculos.

Interrogante: Existe algum ser como Deus, separado do homem? A ideia de Deus tem algum valor para você?

Krishnamurti: Por que você está me fazendo esta pergunta? Você quer que eu encoraje sua fé ou apoie você em sua descrença? Ou existe Deus ou não existe. Alguns afirmam que existe, e alguns negam. O homem fica perplexo com estas contradições.

Para discernir o real, o verdadeiro, a mente deve estar livre dos opostos. Eu expliquei que o mundo é feito por forças únicas sem um início, que não são acionadas por uma força suprema ou por uma energia transcendental, única. Você não pode compreender nenhum outro processo de energia exceto aquele que está focalizado em você, que é você. Esta energia única em seu desenvolvimento auto-ativo se torna consciência criando suas próprias limitações e ambiente, tanto conceitual como real.

O processo do “Eu” é autossustentado por meio das atividades volitivas de ignorância, desejo. Enquanto o processo do “Eu” continua, deve haver conflito, medo e dualidade na ação. Levando as atividades da vontade a um fim, surge a alegria, o amor do verdadeiro. Quando você sofre, não considera a causa da totalidade do processo do sofrimento, mas apenas deseja fugir pela ilusão que chama de felicidade, realidade, Deus. Se toda ilusão é percebida e há profundo discernimento da causa do sofrimento, o que desperta o esforço correto, daí surge o imensurável, o desconhecido.

Interrogante: A ideia de predestinação tem alguma validade real?

Krishnamurti: A ação nascendo a cada momento da limitação, da ignorância, modifica e renova o processo do “Eu”, dando continuidade e identidade a ele. Esta continuidade de ação através da limitação é predestinação. Por seus próprios atos você vai sendo condicionado, mas a qualquer momento você pode romper a corrente da limitação. Assim, você é um agente livre todas as vezes, mas você está se condicionando por meio da ignorância, do medo. Você não é o brinquedo de alguma entidade, de alguma força misteriosa, boa ou maligna. Você não está à mercê de forças erráticas no mundo. Você não é, meramente, controlado pela hereditariedade ou pelo ambiente.

Quando pensamos sobre o destino, imaginamos que nosso presente e futuro são determinados por forças externas e, assim, nos rendemos à fé. Aceitamos, sob a autoridade da fé, que alguma energia única, inteligência, Deus, já determinou nosso destino. Em oposição à fé temos a ciência, com suas explicações mecanicistas da vida.

O que eu digo não pode ser compreendido por meio de opostos. O pensamento é condicionado pela ignorância e pelo medo, e através de suas próprias atividades volitivas, a consciência se sustenta e mantém sua identidade. A ação nascida da limitação deve criar mais condicionamento da mente; ou seja, a ignorância de si forma uma corrente de ações autolimitadoras. Este processo de pensamento-ação auto determinada e autolimitada confere identidade e continuidade à consciência como o “Eu”.

O passado é o substrato do pensamento-ação condicionado que domina e controla o presente e, desse modo, criando um futuro predeterminado. Uma ação nascida do medo cria certas memórias ou resistências autoprotetoras que determinam a ação futura. Assim, o passado controlando o presente ofusca o futuro. Daí, se forma uma corrente que mantém o pensamento na dependência. A consciência sem escolha deste processo é o início da verdadeira liberdade.

Se a mente está cônscia do processo de ignorância, ela pode se libertar dele a qualquer momento. Se você compreende isto profundamente, verá que o pensamento não precisa ser condicionado por causa e efeito. Se isto é compreendido, vivido, existe liberdade vital, sem medo, sem a superficialidade da antítese.

3 de agosto de 1936

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