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04/08/1936 – T

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Oitava Palestra em Ommen

Espero que tenham aproveitado estes dez dias com pensamentos significativos, pois agora vocês têm que retornar à rotina cotidiana de conflitos e problemas em um mundo enlouquecido pelo ódio. Durante estes poucos dias tentamos compreender de que modo podemos tratar os muitos problemas complexos do homem. Sem penetração profunda em todo o processo da luta humana, a mera resposta superficial às reações só pode levar à maior conflito e sofrimento. Este acampamento, espero, deu a cada um de nós uma oportunidade de pensar integralmente, completamente, e verdadeiramente. Voltando para o mundo novamente, cada um de nós tem que lutar com os muitos problemas de seu ambiente religioso, social e econômico, com suas divisões conflituosas e dolorosas.

Rastreando cada problema até sua causa, nos libertaremos dos conflitos? Estudando reações, podemos perceber a causa de toda ação? A ciência e a religião com suas afirmações conflitantes só criaram divisão na mente. Como nós, com nossos intrincados, sutis problemas humanos, vamos saber qual o verdadeiro centro ou causa de toda ação com seu conflito e sofrimento? Até descobrirmos por nós mesmos este centro de ação, e o discernirmos compreensivamente, integralmente, a mera análise de reações ou confiança na fé não libertará a mente da ignorância e do sofrimento. Se discernirmos totalmente o centro de toda ação, provocaremos uma tremenda mudança em nossa perspectiva e atividades. Sem compreender o processo da ação, o simples remendo com reformas sociais ou mudanças econômicas é completamente inútil; isto pode produzir resultados, mas eles serão remédios superficiais apenas.

Existem muitas forças ou energias únicas, separativas trabalhando no mundo, que não podemos compreender inteiramente. Só podemos compreender, fundamentalmente e integralmente, a energia única que está focalizada em cada um de nós, que é o “Eu”. Este é o único processo que podemos compreender.

Para compreender o processo desta energia única, o “Eu”, você precisa de profundo discernimento, não o estudo de deduções intelectuais e análise. Você deve ter uma mente capaz de grande flexibilidade. Uma mente sobrecarregada de desejo e medo, que cria opostos, e de onde nasce a escolha, é incapaz de discernir o processo sutil do “Eu”, o centro de toda ação. Como eu expliquei, esta energia é única; ela é condicionadora e condicionada ao mesmo tempo. Ela cria sua própria limitação através de sua própria ação nascida da ignorância. Esta energia única, sem um início, em seu desenvolvimento auto-ativo se tornou consciente, o processo do “Eu”.

Esta consciência, que se condiciona através de suas próprias atividades volitivas, este processo de ignorância do “Eu”, desejos, medos, ilusões, é um centro de ação. Este centro está, continuamente, se reformando e criando novamente sua própria limitação por meio de suas atividades volitivas e, assim, há sempre conflito, dor, sofrimento. Deve haver uma mudança fundamental na consciência, neste próprio centro de ação; a mera disciplina e a autoridade de ideais não pode produzir a cessação do sofrimento e da dor. Você tem que discernir que o processo do “Eu”, com seu medo e ilusão, é transitório e, assim, pode ser dissolvido.

Muitos de vocês, sutilmente, acreditam que o “Eu” é eterno, divino, e que sem o “Eu” não pode haver atividade, não pode haver amor, e com a cessação do processo do “Eu”, só pode haver aniquilação. Assim, primeiro, vocês têm que discernir por vocês mesmos, profundamente, se o processo do “Eu” é permanente, ou se é transitório. Você tem que conhecer sua natureza, seu ser. Esta é uma tarefa muito difícil, pois a maioria de vocês foi criada através da fé na tradição religiosa que faz com que se prendam ao “Eu”, e os impede de perceber sua verdadeira essência. Alguns de vocês, que rejeitaram as crenças religiosas apenas para aceitar dogmas científicos, considerarão igualmente difícil conhecer a verdadeira natureza do centro da ação. A investigação superficial na natureza do “Eu”, ou a afirmação casual de sua divindade, simplesmente indica uma falta essencial de compreensão da verdadeira natureza do processo do “Eu”.

Você pode discernir por si mesmo “o que é”, como eu conheço por mim mesmo a real natureza disto. Quando digo isto, não é para encorajar uma crença na compreensão do processo do “Eu”. Só quando você conhece por si mesmo “o que é”, este processo pode ser levado a um fim.

Com a cessação do processo do “Eu”, há uma mudança de vontade, que só ela pode acabar com o sofrimento. Nenhum sistema, nenhuma disciplina, pode provocar uma mudança de vontade. Fique consciente do processo do “Eu”. Na consciência sem escolha, a dualidade, que só existe na ação do desejo, o medo e a ignorância cessam. Existe, simplesmente, a percepção do ator, com suas memórias, desejos e medos, e suas ações – o centro único percebendo a si mesmo sem se objetivar.

O mero controle ou compulsão, um desejo se sobrepondo a outro, simples substituição, é só uma mudança na vontade, que nunca pode levar ao fim o sofrimento. A mudança na vontade é uma mudança na limitação, mais pensamento condicionante, o que resulta em reforma superficial. Se houver mudança de vontade através da compreensão do processo do “Eu”, então há inteligência, intuição criativa, de onde pode surgir a relação harmoniosa com os indivíduos, com o ambiente. Através do discernimento do processo de ignorância do “Eu”, surge a consciência; é espontaneidade sem escolha de ação, não ação nascida de discriminação – que pesa um ato em relação a outro, uma relação em relação a outra, um hábito de pensamento em relação a outro. Quando há completa compreensão e, daí, a cessação do processo do “Eu”, surge uma vida sem escolha, uma vida de plenitude, uma vida de alegria.

Interrogante: Quando se encontra aqueles que estão presos no pensamento coletivo e na psicologia da massa, que são responsáveis por muito do caos e disputa em nossa volta, como desembaraçá-los de sua mentalidade de massa e mostrar a eles a necessidade do pensamento individual?

Krishnamurti: Primeiro, desembarace a si mesmo da psicologia da massa, da negligência coletiva. Este desembaraçar o pensamento da estupidez das épocas é uma tarefa muito difícil. A negligência e a estupidez da massa existem em nós. Nós somos a massa, consciente de algumas de suas crueldades e de sua estupidez, mas a maioria das vezes inconsciente de seus preconceitos dominantes, falsos valores e ideais. Antes de poder desembaraçar o outro, você deve se libertar do grande poder daqueles desejos e medos. Ou seja, você deve saber por si mesmo que estupidez é essa, que valores são esses que condicionam a vida e a ação. Alguns de vocês estão conscientes dos, obviamente, falsos valores de ódio, divisões nacionais e exploração, mas vocês não discerniram o processo destas limitações e libertaram-se delas. Quando você começa a perceber os falsos valores que o prendem, e discernir a significação deles, então saberá que uma tremenda mudança acontece em você. Só então poderá ajudar o outro. Embora você possa não se tornar um líder de grandes multidões, embora possa não realizar reformas espetaculares, se realmente captar o significado do que estou dizendo, você se tornará um oásis num deserto escaldante, como uma chama na escuridão.

O fim do processo do “Eu” é o início da sabedoria que pode trazer ordem inteligente e felicidade para este mundo caótico.

Interrogante: Alguns de nós ouvimos você durante dez anos, e, contudo, como você animadoramente apontou, podemos ter mudado um pouco, nós não mudamos radicalmente. Por que isto? Devemos esperar pelo impulso do sofrimento?

Krishnamurti: Eu não acho que você precisa esperar pelo impulso do sofrimento para mudar radicalmente. Você está sofrendo agora. Você pode estar inconsciente do conflito e do sofrimento, mas você está sofrendo. O que provoca mudança superficial é o pensamento que busca remédios superficiais, fugas e segurança. A mudança profunda de vontade só pode surgir quando há profunda compreensão do processo do “Eu”. Apenas aí existe a plenitude da inteligência e do amor.

Interrogante: Qual é sua ideia de evolução?

Krishnamurti: Obviamente existe simplicidade e grande complexidade; simplicidade e grande complexidade de forma; simplicidade e grande sutileza de pensamento; a simples roda de milhares de anos atrás e o complexo maquinário de hoje. O simples se tornando complexo é evolução? Quando você fala de evolução, não está pensando, meramente, na evolução da forma. Está pensando na evolução sutil da consciência que você chama de “Eu”. Daí surge a pergunta: Existe crescimento, uma continuação futura, da consciência individual? Pode o “Eu” se tornar mais compreensivo, permanente, duradouro?

Aquilo que é capaz de crescimento não é eterno. Aquilo que é duradouro, verdadeiro, está sempre se tornando. É um movimento sem escolha. Você me pergunta se o “Eu” evoluirá, se tornará glorioso, divino. Você confia no tempo para destruir e diminuir o sofrimento. Enquanto a mente estiver ligada ao tempo, haverá conflito e sofrimento. Enquanto a consciência está se identificando, se renovando e se reformando através de suas próprias atividades de medo, que estão ligadas ao tempo, deve haver sofrimento. Não é o tempo que vai livrá-lo do sofrimento. Ansiar por experiência, por oportunidade, comparar memórias não pode gerar a plenitude da vida, o êxtase da verdade. A ignorância busca a perpetuação do processo do “Eu”; e a sabedoria surge com a cessação da renovação auto-ativa da consciência limitada. A mera complexidade da acumulação não é sabedoria, inteligência. Mera acumulação, crescimento, tempo, não gera a plenitude da vida. Estar sem medo é o início da compreensão, e o medo está sempre no presente.

Interrogante: Como exemplo vivo de alguém que atingiu a libertação, você é uma tremenda fonte de encorajamento para nós que ainda estamos envolvidos no sofrimento. Não existe um perigo de apesar de nós mesmos, este próprio encorajamento possa se tornar um obstáculo para nós?

Krishnamurti: Eu espero não estar me tornando um exemplo para vocês seguirem porque falo do processo de sofrimento e ignorância, a ilusão da mente, os falsos valores criados pelo medo, a liberdade da verdade. Um exemplo é um obstáculo, ele nasce do medo que leva à compulsão e à imitação. Imitação do outro não é compreensão de si mesmo.

Para conhecer a si mesmo não se pode seguir o outro; não pode haver memórias compulsivas que impedem que o processo do “Eu” se revele. Quando a mente cessa de fugir do sofrimento para ilusões e falsos valores, então esse próprio sofrimento traz compreensão, sem os falsos motivos de prêmio e punição. O centro da ação é a ignorância e seu resultado é sofrimento. Seguir o outro ou disciplinar a mente de acordo com a autoridade de um ideal não produzirá plenitude de vida nem a alegria da realidade.

Interrogante: Existe algum modo de extinguirmos o horror estúpido que, outra vez, se perpetra na Espanha?

Krishnamurti: A guerra é problema da humanidade. Como vamos acabar com as barbaridades de massa e individuais? Para despertar a ação de massa contra os horrores, crueldades e absurdos da presente civilização, deve haver compreensão individual.

Comece com você mesmo. Erradique os preconceitos apavorantemente cruéis e desejos, e você conhecerá um mundo feliz. Erradique suas ambições pessoais e sutis explorações, a ganância e o desejo de poder. Então você terá um mundo inteligente e ordenado. Enquanto houver crueldade e violência no indivíduo, o ódio coletivo, o patriotismo e a disputa devem continuar.

Quando você realizar sua responsabilidade individual em ação, então haverá a possibilidade de paz e amor e relação harmoniosa com seu vizinho. Então haverá a possibilidade de acabar com o horror da disputa, o horror do homem matando o homem.

4 de agosto de 1936

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