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13/12/1936 – T

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Segunda Palestra em Madras

Entre os muitos conflitantes remédios, teorias, ideias, qual é a verdadeira cura para nossas complexidades e crueldades sociais, para o profundo desentendimento que está criando confusão e caos no mundo?

Há muitos mestres com seus métodos, muitos filósofos com seus sistemas. Como se escolhe o que é verdadeiro? Cada sistema, cada mestre, põe ênfase em alguma parte da totalidade da existência humana.

Como, então, vai se compreender a totalidade do processo da vida, e como se vai libertar a mente, de modo que possa haver a percepção do que é verdadeiro? Cada líder tem seu próprio grupo de pessoas, em conflito com outro grupo, com outro líder. Há desacordo, confusão e caos. Alguns grupos se tornam cruéis, e outros tentam se tornar tolerantes, liberais, pois seus líderes lhes dizem: “Cultivem a tolerância, porque todos os caminhos levam à realidade.” Assim, tentando desenvolver o espírito de tolerância, fraternidade, eles, gradualmente, se tornam indiferentes, preguiçosos, até desumanos.

Num mundo de confusão, desacordo, quando as pessoas levam suas crenças e ideais a sério, vitalmente, pode haver verdadeira cooperação entre grupos que acreditam diferentemente e trabalham por ideais que variam? Se você acredita firmemente numa ideia, e outro, por sua ardente fé, trabalha em oposição a você, poderia haver tolerância, amizade entre você e o outro? Ou a concepção de cada um vai seguindo seu próprio falso caminho? A ideia de cultivar fraternidade e tolerância em meio ao conflito é impossível e hipócrita? Apesar de suas fortes crenças, convicções e esperanças, você pode estabelecer uma relação superficial de amizade e tolerância com alguém que está diametralmente em oposição com sua concepção de vida? Se você pode, deve haver compromisso, uma redução daquilo que é verdadeiro para você, e assim, você cede a alguém que é, circunstancialmente, mais poderoso que você. Isto só cria mais confusão. O cultivo da tolerância é só um feito intelectual e, assim, não tem nenhum significado profundo, levando à negligência e à pobreza de ser.

Se você examina a propaganda que está sendo feita mundo afora pelas nações, classes, grupos, seitas, indivíduos, verá que de vários modos elas estão determinadas a convertê-lo ao ponto de vista ou crença particular deles. Os propagandistas rivais podem ser amistosos e tolerantes, profundamente, verdadeiramente? Se você é hindu e o outro é muçulmano, você capitalista e o outro socialista, pode haver relação profunda entre vocês? Isto é possível? É impossível. O cultivo da tolerância é um processo intelectual e, portanto, artificial, que não tem realidade. Isto não significa que estou advogando a perseguição ou algum ato cruel em nome das crenças. Por favor, entendam o que estou dizendo.

Enquanto há conversão, incitação, forçar sutilmente o outro a aderir a um grupo particular ou contribuir para um grupo particular de crenças, enquanto há ideias opostas, contraditórias, não pode haver harmonia e paz, embora possamos pretender, intelectualmente, ser tolerantes e fraternos. Porque cada pessoa está tão interessada, tão entusiasmada com suas próprias ideias e métodos que deseja, urgentemente, que o outro as aceitará, e assim cria uma condição de conflito e confusão. Isto é óbvio.

Se você é cuidadoso e não um propagandista, é forçado a ver a superficialidade deste jargão de tolerância e fraternidade e encarar a feroz batalha de ideias contraditórias, esperanças e crenças. Em outras palavras, você deve perceber o real, o desacordo, a confusão que existe em nós hoje. Se pudermos deixar de lado este jargão fácil de tolerância e fraternidade, podemos ver, então, o meio de compreender o desacordo. Existe uma saída para este caos, mas ela não está na fraternidade artificial ou na tolerância intelectual. Apenas por meio do pensar correto e ação pode o conflito de grupos opostos e ideias findar.

O que quero dizer com pensamento correto? O pensamento deve ser vital, dinâmico, não mecânico ou imitativo. Um sistema que discipline a mente segundo um modo particular é considerado como pensamento positivo. Primeiro você cria ou aceita uma imagem intelectual, um ideal, e para concordar com isto, você retorce seu pensamento. Esta conformidade, imitação, é equivocada para a compreensão, mas na realidade, é apenas o anseio por segurança nascido do medo. A indução do medo leva apenas ao conformismo, e a disciplina nascida do medo não é pensamento correto.

Para despertar a inteligência você deve perceber o que impede o movimento criativo do pensamento. Ou seja, se você pode perceber por si mesmo que ideais, crenças, tradições, valores estão, constantemente, torcendo seu pensamento-ação, e estando cônscio destas distorções, a inteligência é despertada. Não pode haver pensamento criativo enquanto existem obstáculos conscientes e inconscientes, valores, preconceitos que pervertem o pensamento. Em vez de buscar a imitação, sistemas e gurus, você deve ficar consciente de seus impedimentos, seus próprios preconceitos e padrões, e discernindo seus significados haverá aquela inteligência criativa que pode destruir a confusão e gerar profunda harmonia de compreensão.

O mais resistente de todos os impedimentos é a tradição. Você pode perguntar: “O que acontecerá no mundo se a tradição for destruída? Não haverá caos? Não haverá imoralidade?” Confusão, conflito, dor existem agora, apesar de suas honradas tradições e doutrinas morais.

Qual é o processo por meio do qual a mente está sempre acumulando valores, memórias, hábitos, que nós chamamos de tradição? Não podemos discernir este processo enquanto a mente está condicionada por medo e desejo que estão constantemente criando ancoradouros na consciência que se tornam tradição.

Pode a mente se libertar desses ancoradouros de valores, tradições, memórias? O que você chama de pensar é, meramente, sair de um ancoradouro ou centro de tendências para outro, e a partir deste centro, julgar, escolher e criar substituições. Ancorado na limitação, você tem contato com outras ideias e valores, que modificam superficialmente suas próprias crenças condicionadas. Você, então, forma outro centro de novos valores, novas memórias, que, outra vez, condicionam pensamento e ação futuros. Assim, sempre a partir destes ancoradouros você julga, calcula e reage. Enquanto esse movimento de um ancoradouro para outro continua, deve haver conflito e sofrimento, não pode haver amor. O cultivo superficial da fraternidade e da tolerância só encoraja este movimento e intensifica a ilusão.

Pode a mente-coração se libertar do centro de pensamento condicionado? Se a mente-coração não cria para si estes ancoradouros de autoproteção, então pode haver pensamento claro, amor, que sozinho resolverá os muitos problemas que, agora, criam confusão e miséria. Se você começa a estar consciente destes centros, vai discernir que tremendo poder eles são para o desacordo, para a confusão. Quando você não está consciente deles, você é explorado pelas organizações, pelos líderes, que lhe prometem novas substituições. Você aprende a falar facilmente de fraternidade, gentileza, amor – palavras que podem não ter absolutamente significado enquanto você, meramente, muda de uma tendência para outra.

Ou você discerne o processo de ignorância com sua tradição, e daí há ação imediata, ou você está tão acostumado com a droga da substituição que a percepção se torna impossível, e, então, você começa a procurar um método para escapar. Percepção é ação, elas não estão divididas. O que você chama de percepção intelectual cria uma separação artificial entre pensamento e ação. Você luta, então, para cruzar esta divisão, um esforço que não tem significação, pois é a falta de compreensão que cria esta divisão ilusória. Ou você está cônscio do processo ou não está. Se não está, vamos considerar este processo profundamente, entusiasticamente, mas não vamos procurar um método. Esta avidez para compreender se torna a chama de consciência que apaga o desejo de substituição.

Interrogante: Eu posso ficar livre do sofrimento para sempre, e por qual método?

Krishnamurti: O sofrimento é companheiro de todos – o rico e o pobre, o crente e o descrente. Apesar de todas as suas crenças e doutrinas, apesar de seus templos e deuses, o sofrimento é sua companhia constante. Vamos compreendê-lo e não, simplesmente, pensar em nos livrar dele. Quando você compreende o sofrimento integralmente, então não vai procurar um modo de superá-lo.

Você quer se livrar da alegria, do êxtase, da felicidade? Então, por que diz que deve se livrar do sofrimento? Um dá prazer, o outro dor, e a mente se agarra àquilo que é agradável e a nutre. Toda interferência por parte da mente para estimular a alegria e superar o sofrimento deve ser artificial, não efetiva. Você está buscando uma saída para sua miséria, e há aqueles que vão ajudá-lo a esquecer o sofrimento oferecendo a você o narcótico da crença, doutrina e felicidade futura. Se a mente não interfere com a alegria ou a dor, então essa própria alegria, esse próprio sofrimento, desperta a chama criativa da consciência.

O sofrimento é uma indicação de pensamento condicionado, de mente limitada por crenças, medos, ilusões, mas você não dá atenção ao incessante aviso. Para esquecer o sofrimento, superá-lo, modificá-lo, você busca refúgio nas crenças, no amparo da autoproteção e da segurança. É muito difícil não interferir no processo do sofrimento, o que não significa que você deve se resignar a ele ou aceitá-lo como inevitável, como carma, como punição. Como você não quer alterar uma bela forma, o brilho depois do pôr-do-sol, a visão de uma árvore num campo, assim também não obstrua o movimento do sofrimento. Deixe que ele amadureça, pois no seu próprio processo de realização existe compreensão. Quando você está cônscio da ferida do sofrimento, sem aceitação, resignação, ou negação, sem convocá-lo artificialmente, então o sofrimento desperta a chama da inteligência criativa.

A própria procura por uma saída do sofrimento cria o explorador, e a mente permite a exploração. Enquanto o processo artificial de interferência com o sofrimento continua, o sofrimento será nossa companhia constante. Mas se há consciência vital, sem escolha, sem desapego, então há inteligência que pode desfazer toda confusão.

Interrogante: Com qual significação especial você usa a palavra inteligência? Ela é graduada e, portanto, capaz de constante evolução e variação?

Krishnamurti: Estou usando a palavra inteligência para transmitir a completude vital de pensamento-ação. A inteligência não é resultado de esforço intelectual nem de fervor emocional. Não é produto de teorias, crenças e informação. É a completude da ação surgindo da compreensão não dividida de pensamento-emoção. Em raros momentos de profundo amor conhecemos a completude.

A inteligência criativa não pode ser convocada ou mensurada, mas a mente procura definição, descrição, e está sempre presa na ilusão das palavras. Consciência sem escolha revela, no exato momento da ação, as distorções concebidas pelo pensamento e emoção e seu significado oculto.

A chama da inteligência, do amor, só pode ser despertada quando a mente está vitalmente cônscia de seu próprio pensamento condicionado, com seus medos, valores, desejos.

13 de dezembro de 1936.

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