Inicial

20/12/1936 – T

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=143&chid=4502&w=

 

Terceira Palestra em Madras

Eu tentei explicar o que é pensamento claro, criativo, e como tradição, ancoradouros, medo e segurança, constantemente impedem o livre movimento do pensamento. Se vocês despertarem a inteligência, sua mente não deve fugir para ideais e crenças nem pode ficar presa no processo acumulativo de lembranças autoprotetoras. Você deve estar consciente da fuga do real, e de viver no presente com os valores do passado ou do futuro.

Se você observa a si mesmo, verá que a mente está construindo segurança para si mesma, certeza, a fim de se livrar do medo, da apreensão, perigo. A mente está sempre procurando ancoradouros de onde sua escolha e ação pode brotar.

A mente está sempre buscando, e desenvolvendo, várias formas de segurança, com seus valores e ilusões; a segurança da riqueza com suas vantagens pessoais e poder; a segurança da crença e do ideal; e a segurança que a mente busca no amor. Uma mente que está segura desenvolve sua própria estupidez peculiar, criancices, que causam muita confusão e sofrimento.

Quando a mente está desnorteada e amedrontada, ela busca certezas inexpugnáveis que se tornam ideais, crenças. Por que a mente cria e se prende a estes ancoradouros de crenças e tradições? Não é porque, perplexa com o conflito e a mudança constante, ela busca uma finalidade, uma segurança profunda, um estado imutável? E, contudo, apesar destes ancoradouros, o sofrimento e a dor continuam. Então a mente começa a buscar novos substitutos, outros ideais e crenças, esperando, novamente, segurança e felicidade. A mente vai de uma esperança de certeza para outra, de uma ilusão para outra. Este perambular é chamado crescimento.

Quando a mente condicionada se torna consciente do sofrimento e da incerteza, logo começa a estagnar fugindo para crenças, teorias, esperanças. Este processo de substituição, de fuga, só leva a mais frustração.

A procura por segurança não é mais do que a expressão do medo que distorce a mente-coração. Quando você vê o significado de sua busca por segurança através da crença e do ideal, você fica cônscio de sua falsidade. E a mente busca, através da reação contra crença e ideal, uma antítese na qual ela espera encontrar certeza e felicidade, o que não é mais de que outra fuga da realidade. A mente tem que se tornar cônscia de seu hábito de desenvolver antítese.

Por que a mente se resguarda tenazmente contra o movimento da vida? Pode uma mente que não está vulnerável, que está buscando suas próprias vantagens baseadas em valores autocriados, conhecer o êxtase da vida e a completude do amor? A mente se faz impregnável para não sofrer, e, contudo, esta própria proteção é a causa do sofrimento.

Interrogante: Eu posso ver que a inteligência deve ser independente do intelecto e, também, de qualquer forma de disciplina. Existe uma maneira por meio da qual podemos apressar o processo de despertar a inteligência e torná-la permanente?

Krishnamurti: Não pode haver amor, inteligência criativa, enquanto houver medo sob qualquer forma. Se você está totalmente cônscio do medo com suas muitas atividades e ilusões, essa própria conscientização se torna a chama da inteligência.

Quando a mente discerne por si mesma os obstáculos que impedem o pensamento claro, então nenhum ímpeto artificial é necessário para despertar a inteligência. Uma mente que busca um método não está cônscia de si mesma, de sua ignorância, medos. Ela meramente espera que, talvez, um método, um sistema de disciplina, dissipará seus medos e sofrimentos. A disciplina só pode criar um hábito, e assim, amortecer a mente. Estar cônscio sem escolha, estar consciente das muitas atividades da mente, sua riqueza, suas sutilezas, suas desilusões, suas ilusões, é ser inteligente. Esta conscientização desfaz a ignorância, o medo, Se você faz um esforço para estar cônscio, então esse esforço cria um hábito, impelido pela esperança de fugir do sofrimento. Onde existe consciência profunda e sem escolha, há auto-revelação que pode impedir a mente de criar ilusões e deixar-se adormecer. Se existe alerta constante da mente sem a dualidade do observador e do observado, se a mente pode conhecer a si mesma como ela é sem negação, asserção, aceitação, ou resignação, então, a partir dessa própria realidade surge o amor, a inteligência criativa.

Interrogante: Por que existem tantos caminhos para a verdade? Esta ideia é uma ilusão, ardilosamente concebida para explicar e justificar diferenças?

Krishnamurti: Para o pensamento claro existem muitos caminhos? Pode algum sistema levar à inteligência criativa? Existe apenas inteligência criativa, não sistemas para despertá-la. Só existe verdade, não caminhos levando à verdade. Só a ignorância se divide em muitos caminhos e sistemas. Cada religião sustenta que só ela tem a verdade e que só através dela Deus pode ser percebido; várias organizações afirmam ou implicam que por meio de seus métodos especiais a verdade pode ser conhecida; cada seita sustenta que tem uma mensagem especial, que ela é o veículo especial da verdade. Profetas individuais e mensageiros espirituais oferecem suas panaceias como revelações diretas de Deus. Por que elas proclamam tal autoridade, tal eficácia para suas afirmações? Isto não é óbvio? Interesses investidos, no presente ou na próxima vida. Elas têm que manter suas ilusões de prestígio e poder, ou o que acontecerá com todas as criações de sua glória terrena? Outros, porque se empobreceram pela negação e sacrifício, imaginam-se florescidos em grandeza e assumem, assim, o direito espiritual de guiar o mundano. É uma das explicações fáceis de interesse espiritual dizer que existem muitos caminhos para a verdade, justificando, assim, suas próprias atividades organizadas e tentando ao mesmo tempo ser tolerantes àqueles que mantêm sistemas similares.

Também, nós estamos tão entrincheirados no preconceito, na tradição com suas crenças especiais e dogmas, que repetimos dogmaticamente, prontamente, que existem muitos caminhos para a verdade. Para produzir tolerância entre as muitas divisões de pensamento antagônico e condicionado, os líderes de interesses organizados tentam encobrir, com frases convincentes, a inerente brutalidade da divisão. A própria afirmação de caminhos para a verdade é a negação da verdade. Como pode alguém apontar um caminho para a verdade – que não tem domicílio, que não é para ser medida, ou perseguida? Aquilo que está fixo está morto, e para isso pode haver caminhos. A ignorância cria a ilusão de muitos caminhos e métodos.

Através de seu próprio pensamento condicionado, de seu próprio desejo de certeza, finalidade, através de seus próprios medos que estão constantemente criando segurança, você fabrica concepções mecânicas, artificiais de verdade, de percepção. E tendo as inventadas, busca caminhos e meios para mantê-las. Cada organização, grupo, seita, sabendo que essas divisões negam a amizade, tentam produzir unidade artificial e fraternidade. Dizem: “Você segue sua religião e eu seguirei a minha; você tem sua verdade e eu terei a minha; mas vamos cultivar a tolerância.” Tal tolerância só leva à ilusão e confusão.

Uma mente que está condicionada pela ignorância, pelo medo, não pode compreender a verdade, pois a partir de sua própria limitação, ela cria para si mais limitações. A verdade não é para ser convocada. A mente não pode criá-la. Se você compreende isto totalmente, então você discernirá a completa futilidade de sistemas, práticas e disciplinas.

Ora, você é tão parte do processo intelectual e mecânico de viver que não pode perceber sua artificialidade; ou se recusa a vê-la, pois percepção significaria ação, daí a pobreza de seu próprio ser. Quando você começa a ficar cônscio do processo de pensamento e se torna consciente de que ele está criando para si mesmo seu próprio vazio e frustração, então essa própria conscientização dispersará o medo. Então há amor, completude de vida.

Interrogante: Você não vê, senhor, que suas ideias podem nos levar apenas a um resultado – o vazio da negação e a ineficácia em nossa luta com os problemas da vida?

Krishnamurti: Quais são os problemas da vida? Ganhar a vida, amar, não ter medo, nem sofrimento, viver feliz, sensatamente, completamente? Esses são os problemas de nossa vida. Estou dizendo alguma coisa que pode levá-lo à negação, ao vazio que pode impedi-lo de compreender sua própria miséria e luta?

Você não me fez esta pergunta porque sua mente está acostumada a procurar o que se chama de instrução positiva? Ou seja, você quer que lhe digam o que fazer, aconselhem a praticar certas disciplinas, de modo que você leve uma vida de felicidade e conceba Deus. Você está acostumado a se conformar, na esperança de uma vida maior e mais completa. Eu digo, ao contrário, o conformismo nasce do medo, e esta imitação não é um modo positivo de vida. Apontar o processo em que você está preso, ajudá-lo a se tornar cônscio da prisão da limitação que a mente criou para si mesma, não é negação. Ao contrário, se você está cônscio do processo que o trouxe para a presente condição de sofrimento e confusão, e se você compreende a total significação disto, então essa própria compreensão dispersa a ignorância, o medo, o desejo. Só então pode haver uma vida de plenitude e relação verdadeira entre o indivíduo e a sociedade. Como isto pode levá-lo a uma vida de negação e ineficácia?

O que você tem agora? Algumas crenças e ideais, algumas posses, um líder ou dois para seguir, um ocasional sussurro de amor, constante luta e dor. Isto é riqueza de vida, realização e êxtase? Como pode a alegria da realidade existir quando a mente-coração está presa no medo? Como pode haver iluminação quando a mente-coração está criando sua própria limitação e confusão? Eu digo, considere o que você tem, se torne cônscio dessas limitações, e essa própria conscientização despertará a inteligência criativa.

Interrogante: A liberdade do conflito é possível para qualquer um, em qualquer tempo, não obstante a evolução? Você passou por outra instância, além de você mesmo, na qual a possibilidade se tornou uma realidade?

Krishnamurti: Não vamos inquirir se alguém mais se libertou da ignorância e do conflito. Pode você, sobrecarregado de ilusões e medo, se libertar do sofrimento a qualquer tempo? Pode você, com muitas crenças e valores, se libertar da ignorância e do desejo? A ideia de eventual perfeição não é mais do que uma ilusão. Uma mente indolente se agarra à ideia satisfatória de crescimento gradual, e acumulou para si muitas teorias confortantes.

Pode o movimento de experiência para experiência gerar inteligência criativa? Você teve muitas experiências. Qual é o resultado? De tais experiências você, apenas, acumulou memórias autoprotetoras, que defendem a mente do movimento da vida.

Pode a mente se tornar cônscia de seu próprio condicionamento e começar a se libertar de sua própria limitação? Seguramente, isto é possível.

Você pode admitir isto intelectualmente, mas isto não terá nenhuma significação enquanto não resultar em ação. Mas ação implica atrito, problema. Seu vizinho, sua família, seu líder, seus valores, todos criam oposição. Então a mente começa a se evadir do real e desenvolver teorias astuciosas, ardilosas para sua própria proteção. A mente condicionada, temendo o resultado de seu esforço, sutilmente escapa pela ilusão do adiamento, do crescimento.

20 de dezembro de 1936.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: