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28/12/1936 – T

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Quarta palestra em Madras

Em minhas palestras eu uso palavras sem o significado especial que lhes foram conferidos por filósofos ou psicólogos.

Que compreensão estas palavras lhes trouxeram? Vocês ainda estão afirmando que existe uma divindade, um amor que está além da existência humana? Ainda estão em busca de remédios parciais, curas superficiais? Qual é o estado de seu coração e mente?

Para gerar ordem inteligente deve haver pensamento correto, ação correta. Quando a mente é capaz de compreender seu próprio processo de luta, limitação, quando o pensamento é capaz de revelar-se sem o conflito da divisão, então há perfeição de ação. Se a mente se prepara para a ação, então tal preparação deve estar baseada no passado, nas memórias autoprotetoras, e deve, assim, impedir a integralidade da ação. A simples análise da ação passada não pode produzir sua significação integral. A mente que está, consciente ou inconscientemente, adaptando-se a um ideal, que não é mais do que a projeção da segurança pessoal e da satisfação, deve limitar a ação e se torna, assim, condicionada. Ela está, meramente, desenvolvendo memórias autoprotetoras e hábitos para resistir à vida. Então, há constante frustração.

Da acumulação de memórias autoprotetoras surge a identidade, a concepção do “Eu” e sua continuação, sua evolução em direção à perfeição, em direção à realidade. Este “Eu” busca se perpetuar por meio de suas próprias atividades volitivas de ignorância, medo, desejo. Enquanto a mente não está cônscia destas limitações, o esforço para evoluir, ter sucesso, só cria mais sofrimento e aumenta o inconsciente. O esforço se torna, então, uma prática, uma disciplina, um ajustamento mecânico, e conformidade.

A maioria de nós considera que o tempo e o progresso evolucionário são necessários para nossa realização. Consideramos que as experiências são essenciais para nosso crescimento e desenvolvimento. Muitos aceitam esta ideia prontamente, já que conforta a eles pensar que têm muitas vidas através das quais podem se aperfeiçoar; eles sustentam que o tempo é essencial para sua realização. É mesmo? A experiência libera verdadeiramente ou, simplesmente, limita o pensamento? Pode a experiência libertar a mente com suas memórias autoprotetoras, da ignorância, do medo, do desejo? As memórias autoprotetoras e os desejos usam as experiências para sua perpetuação. Portanto, estamos presos ao tempo.

O que queremos dizer com experiência? Ela não é o acúmulo de valores, baseado nas memórias autoprotetoras, que nos dão um modo de comportamento induzido pela vantagem pessoal? Ela é o processo de gostar e desgostar, de escolha. O acúmulo de memórias autoprotetoras é o processo da experiência, e relação é o contato entre duas memórias autoprotetoras e individualizadas, cuja moralidade é o acordo de resguardar o que elas possuem.

Você é seu próprio caminho e sua própria vida. A partir de seu próprio esforço correto a inteligência criativa será despertada. Até surgir esta inteligência criativa, nascida da consciência sem escolha, deve haver caos, deve haver disputa, ódio, conflito, sofrimento.

Interrogante: Você disse que a compreensão da verdade só é possível por meio da experimentação. Ora, experimentação significa ação, que, se tiver que ter algum valor, deve nascer do pensamento maduro. Mas se, para começar, meu pensamento é em si mesmo condicionado pelas memórias e reações, como eu posso agir e experimentar corretamente?

Krishnamurti: Para experimentar corretamente, a mente deve, primeiro, estar cônscia de que seu pensamento é condicionado. Pode-se pensar que se está experimentando; mas, se a pessoa não está cônscia da limitação, então ainda está agindo dentro da servidão da ignorância, medo. O pensamento condicionado não pode se conhecer como condicionado; o desejo de fugir desta limitação – pela análise, pelo processo artificial da compulsão, negação, ou afirmação – não lhe trará compreensão, liberdade. Nenhum sistema ou compulsão da vontade vai revelar à mente sua própria limitação, sua própria servidão.

Quando existe sofrimento, a mente busca uma saída e, assim, cria para si mais ilusões. Mas se a mente está totalmente cônscia do sofrimento e não busca uma saída, então essa própria consciência destrói a ilusão; essa consciência é compreensão. Então, em vez de inquirir como libertar o pensamento do medo, do desejo, esteja consciente do sofrimento. O sofrimento é a indicação de uma mente condicionada, e a simples saída disto só aumenta a limitação. No momento do sofrimento, comece a se conscientizar; então a própria mente perceberá a ilusória natureza da fuga, das memórias autoprotetoras e vantagens pessoais.

Interrogante: Deveríamos ser submissos?

Krishnamurti: Quem faz esta pergunta? Não um homem que está em busca de compreensão, verdade, mas o homem cuja mente está sobrecarregada de medo, tradição, ideais e lealdades raciais. Tal mente entrando em contato com o movimento da vida só cria atrito e sofrimento para si mesma.

Interrogante: Os mais velhos são culpados de exploração quando exigem respeito e obediência do jovem?

Krishnamurti: Mostrar respeito aos idosos é, geralmente, um hábito. O medo pode assumir a forma de veneração. O amor não pode se tornar um hábito, uma prática. Não existe respeito no idoso pelo jovem nem no jovem pelo idoso, mas apenas a demonstração de autoridade e o hábito do medo.

A organização de frases, o cultivo do respeito, não é cultura, mas uma armadilha para prender o descuidado. Nossas mentes se tornaram tão escravas dos valores habituais que nós perdemos toda a afeição e respeito profundo pela vida humana. Onde existe exploração não pode haver respeito pela dignidade humana. Se você demanda respeito só porque é idoso e tem autoridade, isto é exploração.

Interrogante: Se um homem está na ignorância ou perdido sem saber o que fazer, não há necessidade de um guru para guiá-lo?

Krishnamurti: Pode alguém ajudá-lo a cruzar este vazio doloroso da vida cotidiana? Pode alguém, conquanto grande, ajudá-lo a sair desta confusão? Ninguém pode. Esta confusão é autocriada; este tumulto é o resultado da vontade de um contra a vontade de outro. Vontade é ignorância.

Eu sei que a procura por gurus, professores, guias, Mestres é o esporte interior preferido por muitos, o esporte dos descuidados por todo o mundo. As pessoas dizem: “Como podemos impedir esta miséria caótica e crueldade a menos que aqueles que são livres, iluminados, venham em nossa ajuda e nos salvem de nosso sofrimento?” Ou eles criam uma imagem mental de um santo preferido e penduram todos os seus problemas no pescoço dele. Ou acreditam que algum superguia físico olhe por eles e lhes diz o que fazer, como agir. A procura por um guru, um Mestre, indica uma fuga da vida.

Conformidade é morte. Não é mais do que a formação de um hábito, o fortalecimento do inconsciente – quão frequentemente vemos alguma cena feia, cruel e recuamos dela. Vemos pobreza, crueldade, degradação de todo tipo; primeiro nos apavoramos com ela, mas logo nos tornamos inconscientes dela.

Nós nos acostumamos ao nosso meio, encolhemos os ombros e dizemos: “O que podemos fazer? É a vida.” Assim destruímos nossas reações sensíveis à feiura, à exploração, crueldade e sofrimento, também nossa apreciação e profunda alegria da beleza. Assim, surge um lento definhar da percepção.

O hábito, gradualmente, supera o pensamento. Observe a atividade de seu próprio pensamento e você verá como ele vai adquirindo a forma de um hábito depois de outro. O consciente, assim, se torna o inconsciente e o hábito endurece a mente pela vontade e disciplina. Forçar a mente a se disciplinar pelo medo, que é muitas vezes confundido com amor, gera frustração.

O problema de gurus existe quando você busca conforto, quando deseja satisfação. Não há conforto, mas compreensão; não há satisfação, mas realização.

Interrogante: Você parece dar uma nova significação à ideia de vontade, essa qualidade divina no homem. Eu compreendo você ao considerá-la um obstáculo. É isto?

Krishnamurti: O que você quer dizer com vontade? Não é uma superação, uma conquista, um esforço determinado? O que você tem para conquistar? Seus hábitos, resistências que você desenvolveu por medo, o conflito de seus desejos, a disputa dos opostos, a frustração de seu ambiente. Então você desenvolve a vontade. A vontade de ser, em toda sua significação, não é mais do que um processo de resistência, um processo de superação, induzido pela ânsia autoprotetora.

A vontade é, realmente, uma ilusória necessidade do medo, não uma qualidade divina. Não é mais do que a perpetuação das memórias autoprotetoras. A partir do medo você se torna invulnerável ao amor, à verdade; e o desenvolvimento do processo de autoproteção é chamado vontade. A vontade tem suas raízes no egoísmo. A vontade de existir, a vontade de se tornar perfeito, a vontade de ter sucesso, a vontade de adquirir, a vontade de encontrar Deus, é o impulso do egoísmo.

Quando a ação do medo, ambição, segurança, virtude pessoal e caráter permitem a inteligência, então você saberá como viver completamente, integralmente, sem a batalha da vontade.

A vontade é, apenas, o insistente impulso das memórias autoprotetoras, o resultado da ignorância individualizada e do medo. A cessação da vontade não é morte, é apenas a cassação da ilusão, nascida da ignorância. Só a ação destituída de medo e vantagem pessoal pode gerar relação harmoniosa e criativa com o outro, com a sociedade.

28 de dezembro de 1936.

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