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25/07/1936 – T

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Primeira Palestra em Ommen

Amigos,

Estou muito feliz em ver todos vocês aqui depois de muitos anos, e espero que este acampamento seja de alguma ajuda decisiva para cada um de vocês. Eu espero, também, que vocês façam todo o esforço possível para compreender o que eu tentarei explicar, e levem essa compreensão para a ação. Eu gostaria que vocês considerassem o que digo sem preconceito, sem aquelas reações instintivas que impedem o pensar claro e verdadeiro.

Nós não somos um corpo seleto de pessoas que estão fora deste mundo conflituoso. Nós somos parte dele, com sua confusão, miséria, incerteza, com seus grupos políticos opostos, com seus ódios raciais e nacionais, com suas guerras e crueldades. Nós não somos, até agora, um grupo separado; nem somos indivíduos definitivamente ativos que, com profunda compreensão, somos contra esta civilização atual. Estamos aqui para compreender por nós mesmos esse processo de consciência focalizada em cada indivíduo e, assim sendo, devemos deixar de lado os falsos valores que se tornaram princípios orientadores no mundo todo.

Embora você como indivíduo pertencente a certa classe ou nação, e mantendo certas crenças possa não estar envolvido nestes ódios e conflitos – você pode, por algum infortúnio, ter se protegido com diferentes formas de segurança – contudo deve ter uma atitude decisiva em relação a esta civilização com suas atividades políticas, sociais, estéticas e religiosas. Esta atitude levando à ação deve ser de compreensão do processo da consciência individual.

A ênfase na compreensão da consciência individual não é para ser considerada como estímulo ao egoísmo e a diminuição da ação compreensiva. Apenas pela compreensão do processo da consciência individual pode haver ação espontânea e verdadeira, sem criar ou aumentar mais o sofrimento e o conflito. Por favor, tente compreender este ponto inteiramente. Quando falo de consciência individual, não quero dizer o processo de introspecção e autoanálise que, gradualmente, limita toda atividade. Para gerar plenitude de ação deve haver a compreensão do processo da individualidade. Eu não estou interessado no progresso individual ou coletivo ou na atividade de massa, mas apenas na compreensão correta que produzirá atitude correta e ação em relação ao trabalho, em relação ao vizinho, em relação a toda a sociedade.

Assim, devemos compreender profundamente o processo da individualidade com sua consciência. Devemos ser capazes de discernir em nós mesmos de forma abrangente a influência da massa por meio das tradições, preconceitos raciais, ideais e crenças às quais nos rendemos, consciente ou inconscientemente. Enquanto isto nos domina, nós, como indivíduos, não somos capazes de ação clara, direta, simples e abrangente.

Assim, minha ênfase na individualidade não deve ser confundida como estímulo da auto expressão egoísta, nem deve ser compreendida como submissão a uma ideia ou princípio. Não é para ser usada como desculpa para se subjugar a um grupo de pessoas ou a um círculo de líderes. É para provocar a compreensão correta do processo da consciência individual, que só ela pode dar ensejo à ação espontânea e verdadeira.

Para compreender este processo de individualidade deve haver a urgência de saber, não de especular, não de sonhar. Esta compreensão do processo da individualidade não é para ser confundida com a aceitação de crenças ou de fé, ou se entregar a conclusões e definições lógicas. Para saber realmente, não deve haver inclinação para ser satisfeita pela solução imediata e superficial de problemas. Muitas pessoas consideram que com a simples reorganização econômica, a maioria dos problemas humanos se resolverá. Ou também, muitos ficam facilmente satisfeitos com as explicações relativas ao amanhã, ou com a crença na reencarnação e assim por diante. Mas isto não é conhecimento, isto não é compreensão, isto é, meramente, um narcótico que satisfaz e entorpece a mente-coração sofredora. Para saber, para compreender, deve haver vontade, deve haver persistência, deve haver contínua e essencial curiosidade.

Agora, então, o que é individualidade? Por favor, compreenda que não estou enfatizando o egoísmo ou que você se livre dele. Mas quando você compreende por si mesmo o processo do “Eu”, então há uma possibilidade de levá-lo a um fim. Para compreender este processo você deve começar fundamentalmente. A chamada alma é real ou ilusória? Ela é única? Ela existe apartada, e exerce sua influência sobre o ser fisiológico ou psicológico? Podemos nós, estudando os tecidos e fluídos orgânicos, saber o que é pensamento, o que é mente, o que é essa matéria oculta na matéria viva? Estudando seu comportamento sociológico podemos saber o que o homem é? Economistas e médicos deixaram tudo isto de lado, e nós, como indivíduos, nós que estamos sofrendo, devemos entrar nesta questão profunda e sinceramente. Como estamos lidando conosco mesmos, precisamos de grande persistência, esforço correto e paciência para compreender a nós mesmos. Médicos, economistas, sociólogos podem nos fornecer teorias, sistemas e técnicas, mas nós mesmos temos que fazer os esforços corretos para compreender o processo de nossa consciência, transpor as muitas ilusões até a realidade.

Os filósofos propuseram certas teorias e conceitos relativos à consciência e à individualidade. Existem muitas opiniões conflitantes, crenças e afirmações relativas à realidade. Cada um de nós, pela introspecção e observação, percebe que existe uma realidade viva oculta na matéria, mas ela tem um papel muito pequeno em nossa vida cotidiana. Ela é negada em nossas atividades, em nossa conduta diária. Porque nós construímos uma série de muros de memórias auto protetoras, se tornou quase impossível saber o que é o real. Como eu disse, há muitas crenças, muitas teorias, muitas afirmações sobre individualidade – seus processos, sua consciência e sua continuidade – e a escolha do que é verdadeiro entre estas várias opiniões e crenças cabe a você. A escolha cabe àqueles que não estão completamente subjugados à autoridade da tradição, crença, ou ideal, e àqueles que não se comprometeram intelectualmente ou emocionalmente com a fé.

Como você pode escolher o que é verdadeiro entre estas contradições? A compreensão da verdade é uma questão de escolha envolvendo o estudo de várias teorias, argumentos e conclusões lógicas que exigem apenas esforço intelectual? Este caminho nos levará a algum lugar? Talvez à argumentação intelectual, mas um homem que está sofrendo deseja saber e, para ele, conceitos e teorias são completamente inúteis. Ou existe outro caminho, uma percepção sem escolha? É absolutamente essencial para nosso bem-estar, para nossa ação e realização, compreender o que é individualidade. Você vai para líderes religiosos, psicólogos, e talvez cientistas, e estuda e experimenta com suas teorias e conclusões. Você pode ir de um especialista para outro, tentando, segundo seu prazer, os métodos deles, mas o sofrimento continua. O que se faz?

A ação é vital, mas não opiniões e conclusões lógicas, Vocês, como indivíduos, têm que compreender o processo da consciência pelo discernimento direto, sem escolha. A autoridade do ideal e do desejo impede e perverte o verdadeiro discernimento. Quando existe querer, quando a mente está presa nos opostos, não pode haver discernimento. As reações psicológicas impedem o verdadeiro discernimento. Se dependermos da escolha, do conflito de opostos, sempre criaremos dualidade em nossas ações, engendrando, assim, sofrimento.

Então, temos que discernir por nós mesmos a verdade, por meio da vida e da ação sem escolha. Só o discernimento pode dar fim a este venenoso processo de sofrimento que acontece pela ação da limitação.

Agora, para discernir a verdade, o pensamento deve ser imparcial, a mente não deve ter querer, nem escolha. Se você observar a si mesmo em ação, verá que seu querer, pelo peso da tradição, falsos valores e memórias auto protetoras, renova a todo o momento o processo do “Eu” que impede o verdadeiro discernimento.

Portanto, deve haver percepção profunda e sem escolha para compreender o processo da consciência. Tal necessidade surge apenas quando existe sofrimento. Para descobrir a causa do sofrimento, a mente deve ser penetrante, flexível, sem escolha, não embotada pelo querer nem subjugada por teorias. Se não há discernimento do processo da consciência individual, então a ação criará sempre confusão, limitação, e provocará sofrimento e conflito. Enquanto estamos neste processo, nossa investigação se preocuparia com a causa. Mas, infelizmente, a maioria de nós está buscando remediação. A compreensão da causa do sofrimento gera uma mudança sem escolha da vontade na plenitude de nosso ser. Então a experiência, sem suas memórias cumulativas que impedem compreensão e ação, tem profundo significado.

Assim, a verdadeira experiência leva ao processo da consciência que é individualidade, e não pode intensificar a consciência individual. Para discernir profundamente a causa do sofrimento, você não pode separar a si mesmo do mundo, da vida, e contemplar a consciência apartada, pois apenas no próprio processo do viver você pode compreender a consciência.

Este discernimento profundo da vida sem escolha implica grande vigilância e esforço correto. Eu vou explicar o que é, para mim, a consciência de onde surge a individualidade, mas, por favor, tenha isso em mente – isso não é uma realidade para você, só pode ser uma teoria. Para conhecer sua realidade, sua mente deve ser capaz de verdadeiro discernimento, de percepção sem escolha, livre do anseio de conforto e segurança. Não é suficiente ser simplesmente lógico. Você saberá se o que afirmo é verdade, apenas por sua própria experiência, e para experimentar, a mente deve estar livre de barreiras autocriadas. É muitíssimo difícil ser vulnerável, de modo que o movimento da vida possa ser compreendido com uma mente sensível, capaz de discernir aquilo que é duradouro e verdadeiro. Para compreender o processo da individualidade é preciso grande inteligência e não a intervenção do intelecto. Para despertar essa inteligência deve haver a urgência de saber, mas não de especular. Por favor, tenha em mente que o que para mim é uma certeza, um fato, deve ser para você uma teoria, e a mera repetição de minhas palavras não constitui seu conhecimento e realidade; pode ser uma hipótese, nada mais. Só pela experimentação e ação você pode discernir por si mesmo sua realidade. Então ela não é de nenhuma pessoa, nem sua nem minha.

Ora, toda vida é energia; é condicionante e condicionada, e esta energia em seu desenvolvimento auto-ativo cria seu próprio material – o corpo com suas células e sensações, percepção, discriminação e consciência. Tanto a energia como as formas de energia estão sempre se misturando, e isto faz a consciência parecer conceitual bem como real. A consciência individual é o resultado de ignorância, tendência, querer, ansiar. Esta ignorância não tem começo e é composta com energia, que em seu desenvolvimento auto-ativo é única, e isto é o que confere singularidade à individualidade.

A ignorância não tem começo, mas pode ser levada ao fim. A própria compreensão que a ignorância é auto sustentada leva esse processo ao fim. Ou seja, você observa como, por meio de suas próprias atividades, você está sustentando a ignorância, como pelo anseio, que engendra medo, a ignorância é mantida, e como isso dá continuidade ao processo do “Eu”, à consciência. Esta ignorância, este processo do “Eu”, está se mantendo por meio de suas próprias atividades volitivas nascidas do querer, do anseio. Com a cessação da auto-nutrição o processo do “Eu” chega a um fim. Você me perguntará: “Posso viver verdadeiramente sem querer?” Nas vidas da maioria das pessoas querer, ansiar, tem um papel tremendo; toda sua existência é o vigoroso processo de querer, e assim, elas não podem imaginar a vida, sua riqueza e beleza, sua relação e conduta, sem o querer. Quando você começa a discernir, pela experimentação, como a ação nascida do querer cria sua própria limitação, então há uma mudança na vontade. Até aí havia apenas uma mudança de vontade. É a atividade autossustentável da ignorância que dá continuidade à consciência, sempre se reformulando. A mudança fundamental da vontade é inteligência.

25 de julho de 1936

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