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27/07/1936 – T

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Segunda Palestra em Ommen

Todos nós estamos, em alguma medida, aprisionados no sofrimento, quer econômico, físico, psicológico, ou espiritual. Compreender a causa do sofrimento, e ser livre dessa causa, é o nosso constante problema.

Para compreendermos a causa fundamental do sofrimento, não podemos dividir o homem em diferentes partes. O homem é indivisível, embora ele se expresse através de muitos aspectos, e assuma muitas formas de expressão que lhe dão grande complexidade. Há especialistas que estudam essas várias divisões e aspectos do homem, e tentam descobrir pelas suas linhas especiais, a causa do sofrimento, mas não podemos deixar a compreensão de nós mesmos para outro. Devemos compreender nós mesmos como um todo, e examinar os nossos próprios desejos e atividades. Devemos discernir o processo do ‘Eu’, que busca sempre se perpetuar e manter separadamente, através de suas próprias atividades. Quando compreendemos inteiramente este processo, haverá o despertar daquela inteligência que, por si só, pode nos libertar do sofrimento.

Este processo do ‘Eu’ é a consciência que é a individualidade, e a causa do sofrimento é a ignorância deste processo auto ativo. Se não compreendermos este processo que engendra o sofrimento, não pode haver inteligência. A inteligência não é um presente, mas pode ser cultivada, despertada, através de um estado de alerta da mente, e uma vida sem escolha. Então, a ação pode tanto criar sofrimento, como destruir a ignorância, com suas tendências e desejos, e assim, terminar com o sofrimento.

Vocês podem ver, por vós mesmos, como isto se processa – com seus medos, ilusões e fugas – diminui a inteligência criativa, que, por si só, pode trazer o bem-estar do homem. A compreensão da realidade, verdade, vem com a cessação do sofrimento. A nossa consideração da vida futura, da imortalidade, é uma busca vã, pois a felicidade da realidade pode existir apenas com o fim do sofrimento.

Para compreendermos o sofrimento, devemos começar com nós mesmos, não com a ideia de sofrimento, que é apenas o vazio árido do intelecto. Devemos começar com nós mesmos, com as agonias, misérias, e conflitos que parecem não ter fim. A felicidade não é para ser buscada depois, mas com a cessação do sofrimento, há inteligência, a felicidade da realidade.

De qual fonte as nossas atividades diárias surgem? Qual é a base de nosso pensamento moral e religioso? Se nos examinarmos profundamente, compreensivelmente, veremos que muitas de nossas atividades e relações têm sua origem no medo e na ilusão. Elas são o resultado do desejo, de uma busca incessante por segurança e conforto exterior e interior. Esta busca produziu uma civilização na qual cada indivíduo, sutilmente ou grosseiramente, luta por ele mesmo, gerando assim ódio, crueldade, e opressão. Este processo tem fomentado uma civilização de exploração, guerras, e superstição religiosa organizada – os resultados de uma concepção falsa de individualidade e realização. O conflito externo de raças e religiões, a divisão de povos, as lutas econômicas, têm suas raízes em ideias falsas de cultura. As nossas vidas estão em conflito contínuo por causa do medo, da crença, da escolha e da subjugação. O nosso ambiente estimula o processo de ignorância, e nossas memórias e vontades renovam e dão continuidade e individualidade à consciência.

Quando vocês examinam este processo, discernirão que o ‘Eu’ está se reformando a todo o momento pelas suas próprias atividades volitivas baseadas em ignorância, vontade e medo. Quando começam a perceber que o ‘Eu’ não tem, portanto, nenhuma permanência, haverá uma mudança vital na vossa conduta e moralidade. Então, não pode haver nenhuma subserviência, aquiescência, mas apenas a ação de inteligência desperta, que cria condições sempre novas, sem ser escravizados por elas. Esta inteligência, por si só, pode trazer verdadeira cooperação sem frustração.

Cada um de vós deve tornar-se consciente do processo de ignorância. Esta consciência não é aquele poder diretivo de uma compreensão superior sobre uma inferior, que não é senão um truque da mente, mas aquela compreensão sem escolha, que é o resultado de ação persistente, sem medo e vontade. Desta percepção sem escolha, surgem a moralidade, relação e ação corretas. A conduta não é, então, a mera imitação de um padrão ou ideal, ou uma disciplina, mas é o resultado da verdadeira compreensão do processo do ‘Eu’. Este discernimento é inteligência desperta que, não sendo hierárquica ou pessoal, ajuda a criar uma nova cultura de realização e cooperação.

Interrogante: É o esforço consistente com a consciência?

Krishnamurti: Por favor, compreendam o que quero dizer com consciência. Consciência não é o resultado de escolha. Escolha implica opostos, uma discriminação entre o essencial e o não essencial, entre certo e errado. A escolha deve criar conflito, pois é baseada no auto incitamento, cálculo e preconceito. Escolha é sempre baseada em memórias. Discernimento é percepção direta – sem escolha – do que é, e perceber diretamente é ser livre do plano da vontade. Isto pode surgir apenas quando o esforço, que é agora exercido entre opostos, termina. Opostos são o resultado da vontade, do desejo, e portanto, do medo. Com a cessação do medo, há direta percepção do que é. Estamos, atualmente, fazendo esforço para alcançar, para ser bem-sucedidos, para conquistar um hábito sobre outro, para subjugar um medo sobre outro, uma ânsia sobre outra, um ideal sobre outro. Portanto, há constante esforço para substituir, para superar. Tal esforço é totalmente fútil, vão; ele leva a confusão e não ao despertar da inteligência. Se vocês começarem a estar conscientes deste processo de escolha, de conflito entre opostos, então, há uma mudança da vontade, e esta vontade é o resultado da não escolha.

Quando falo sobre esforço correto, quero dizer que uma pessoa deve tornar-se consciente do falso esforço que ela está fazendo agora. Tornar-se consciente da carga do passado – perceber como, a cada momento, o pensamento se modifica em limitação, através de suas próprias atividades volitivas nascidas da ignorância e do medo, que dão uma continuidade ao processo do ‘Eu’, à consciência.

Sofremos e queremos escapar desse sofrimento, então fazemos um esforço para buscar um remédio, uma substituição, mas dessa forma, não erradicamos a causa do sofrimento. Como a mente está sobrecarregada com muitas substituições, muitas fugas, que impedem o nascimento do discernimento sem escolha, então o esforço meramente cria mais sofrimento e frustração. Isto é falso esforço. Esforço correto é o discernimento espontâneo do falso esforço, que busca substituição ou fuga através das várias formas de segurança.

Interrogante: Como pode alguém chegar a um acordo com pessoas que têm objetivos na vida, radicalmente diferentes dos dele?

Krishnamurti: Não pode haver acordo entre um falso objetivo e um verdadeiro objetivo. Pode haver acordo entre dois objetivos falsos. Ao tentar trazer acordo entre o falso e o verdadeiro, tentamos desenvolver o que chamamos de tolerância, com suas muitas falsas pretensões. Pode haver acordo real apenas quando os objetivos são inteligentes e verdadeiros. Quando dois indivíduos percebem a ilusão fundamental de segurança, há acordo, cooperação. Mas, se uma pessoa compreende a crueldade da segurança aquisitiva, e outra não, então há conflito, e para superar esta fricção, a falsa virtude da tolerância é desenvolvida, mas isto não significa que ele, que compreende, é intolerante.

Em vez de tentar concordar, de tentar encontrar o fator comum entre dois absurdos, deixe-nos ver se podemos ser inteligentes. Um homem que tem medo, não pode ser inteligente – pois o medo impede o discernimento sem escolha. Enquanto houver aquisição, não pode haver inteligência, pois ela indica que a mente está enredada no processo de ignorância e vontade. O cultivo da virtude não é inteligência. Enquanto existir a atividade volitiva da ignorância, deve haver medo, ilusão, e conflito.

Em vez de cultivar a tolerância, que não é senão um truque da mente, deve haver o despertar da inteligência, que não tem quaisquer memórias auto protetoras e medos.

Interrogante: Aqueles que possuem – quer seja terra ou maquinaria ou trabalho – não partilharão voluntariamente com aqueles que são menos afortunados. Não têm os últimos, portanto, o direito e, em última instância, o dever, de tirar daqueles que possuem, para o benefício comum de todos?

Não está você antes inclinado a desperdiçar os seus ensinamentos nos mais afortunados, que são os menos prováveis de querer alterar a estrutura econômica e social existente?

Krishnamurti: Sei que este é um problema vital para muitas pessoas. Não estou me desviando dele quando digo que quero lidar com todos os problemas da vida compreensivelmente, integralmente, não separadamente. Onde a inteligência funciona livremente, esses problemas separados não existirão. Onde não há inteligência, embora vocês possam tomar a maquinaria, a terra, o trabalho, vocês criarão, de novo, divisão, com sua aquisição cruel e guerras. Então, do meu ponto de vista, o que é importante é o cultivo da verdadeira inteligência que, por si só, pode trazer ordem. Deve haver aquela revolução interior que, para mim, é muito mais importante que a agitação exterior. Esta revolução interior não pode ser adiada. Ela é muito mais vital, muito mais imediata do que a exterior. Esta mudança completa de vontade está no vosso próprio poder.

A revolução interior, vital, é o resultado da compreensão, e não de compulsão. A inteligência não reconhece ricos ou pobres. Não estou falando, quer para os ricos quer para os pobres, para os afortunados ou menos afortunados. Estou falando para indivíduos, aos quais digo que é necessário, para eles, compreender o processo da vida, porque, como indivíduos, são apanhados no sofrimento. Eles, como indivíduos, são os criadores do ambiente, da moralidade e das relações sociais. Portanto, devemos lidar com o homem compreensivelmente, e não meramente com um de seus aspetos. Enquanto não houver aquela compreensão profunda do processo de individualidade, a mera mudança não despertará a inteligência. Se discernirmos isto verdadeiramente, não devemos, como indivíduos, buscar felicidade através das várias crueldades e absurdos que chamamos de civilização moderna.

Se vocês compreenderem a necessidade total desta revolução interior, esta mudança de vontade, então, ajudarão naturalmente, espontaneamente, a trazer ordem correta, ação e conduta corretas.

Interrogante: Não é a concepção Teosófica dos Mestres da Sabedoria e a evolução da alma tão boa como a concepção científica do crescimento biológico da vida na matéria orgânica?

Krishnamurti: Aquilo que é capaz de crescimento não é eterno. A concepção teosófica ou a religiosa é de crescimento individual – o processo do ‘Eu’ tornando-se maior e maior, adquirindo mais e mais virtude e compreensão. Isto é, o ‘Eu’ é capaz de crescimento indefinido, alcançando graus de perfeição cada vez maiores, e para ajudá-lo nisso, Mestres, disciplinas, e organizações religiosas são necessários.

Enquanto não compreendermos o que é o ‘Eu’, então Mestres de algum tipo ou outro se tornam uma necessidade ilusória. Pode não ser um Mestre no sentido Teosófico; pode ser um santo de uma igreja, ou uma autoridade espiritual de uma organização. O que temos de compreender, não é se os Mestres existem ou não, se eles são necessários ou não, mas se o ‘Eu’, em seu crescimento, em sua expansão, pode tornar-se eterno, ou levar à compreensão da verdade. O problema não é se a Maestria é um processo perfeitamente natural, mas se o discernimento da verdade pode vir a uma mente que é mantida no processo do ‘Eu’. Se vocês considerarem o ‘Eu’ como sendo eterno, então ele não pode crescer, ele deve ser intemporal, sem limites. Então, a ideia de que o ‘Eu’ se torna um Mestre através de crescimento, de experiência, é uma ilusão. Ou, o processo do ‘Eu’ é transiente. Para terminar este processo, nenhum agente externo, quão grande ele seja, pode alguma vez ajudar, pois o processo do ‘Eu’ é auto ativo, sustentando-se através de suas atividades volitivas. Vocês têm de considerar se o ‘Eu’ é eterno ou transiente. Mas não é uma questão de escolha, pois toda escolha é baseada na ignorância, no preconceito, na vontade.

Alguns de vós podem não estar preocupados com a crença nos Mestres dos Teosofistas, ainda assim o sofrimento vem até vós, vocês podem buscar alguma outra autoridade ou orientação espiritual, e é esta dependência noutro que perpetua o processo do ‘Eu’, com sua exploração sutil e sofrimento.

Interrogante: Muitas pessoas encontram uma grande dificuldade em estar completamente concentradas nas suas ações. De forma a treinar a capacidade de concentração, não podem certos exercícios ser de grande ajuda, ou você os considera como obstáculos?

Krishnamurti: Quando vocês estão profundamente interessados, não há necessidade de exercícios que vos ajudem a desenvolver a concentração. Quando apreciam um belo cenário, há uma espontaneidade de deleite e interesse que está além de todas as ajudas artificiais de concentração. É apenas quando vocês não estão interessados, que há uma divisão na consciência. Em vez de tentar encontrar exercícios para desenvolver a capacidade de concentração, vejam se têm profundo interesse nas coisas da vida. Para compreender a vida, vocês precisam interesse compreensivo, não apenas em pão e manteiga, mas no processo do pensamento, do amor, em experiências, no relacionamento. Onde há profundo interesse, há concentração. Não é o interrogante tentando estimular artificialmente a concentração? Tal estimulação artificial torna-se uma barreira à rica compreensão da vida. Meditações disciplinadas são estimulações artificiais, e tornam-se barreiras que criam uma divisão entre viver o real e ânsias e desejos ilusórios. Não busquem a felicidade da realidade, pois a mera busca da realidade apenas leva a ilusão, mas compreendam aquele processo de pensamento, consciência, focado em vós mesmos. Isto exige flexibilidade da mente e interesse auto sustentado, e não mera concentração.

Interrogante: A ideia de liderança é, para muitos, uma grande inspiração. Também leva ao cultivo do respeito e um espírito de auto sacrifício. Em você, reconhecemos um grande líder espiritual e sentimos profunda reverência em relação a você. Não devemos, portanto, encorajar, tanto noutros como em nós mesmos, essas grandes qualidades de respeito e auto sacrifício?

Krishnamurti: O espetáculo do respeito é pessoalmente desagradável para mim. (Risos) Por favor, não riam. Se houvesse verdadeiro respeito, vocês não apenas o mostrariam a mim, mas a todos. O vosso espetáculo de respeito a mim, apenas indica uma mentalidade de troca. Vocês pensam que vou dar algo ou ajudar-vos de alguma forma, e portanto, vocês mostram respeito. O que vocês estão realmente fazendo é mostrar respeito a uma ideia de que vocês devem mostrar consideração a uma pessoa que vos pode ajudar, mas a partir deste falso respeito, nasce desprezo por outros. Não há nenhuma consideração das ideias em si mesmas, mas infelizmente apenas da pessoa que vos dá essas ideias. Nisto, reside grave perigo, levando a exploração recíproca. O mero respeito pela autoridade indica medo, que gera muitas ilusões. Deste falso respeito, surge a distinção artificial entre líderes e seguidores, com suas muitas formas óbvias e sutis de exploração. Onde não há inteligência, há respeito pelos poucos e desdém pelo resto.

27 de julho de 1936.

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