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28/07/1936 – T

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=134&chid=4494&w=

Terceira palestra em Ommen

Como despertaremos essa inteligência, essa intuição criativa que compreende o significado da realidade, sem o processo de análise e lógica? Por intuição, não quero dizer realização de um desejo, como é para a maioria das pessoas. Se moralidade, que é relação, é baseada na inteligência e intuição, então há riqueza, plenitude, e uma beleza permanente na vida. Mas se baseamos nossa conduta e relação em necessidades industriais e biológicas, então a ação deve inevitavelmente tornar a nossa vida superficial, incerta e triste. Temos a possibilidade desta inteligência ou intuição, mas como pode ela ser despertada? O que é que devemos ou não fazer para despertar esta inteligência?

Todo desejo, com seus medos, deve cessar antes que possa haver esta intuição criativa. A cessação da vontade não é o resultado de negação, nem através de análise cuidadosa pode a vontade ser racionalizada. A liberdade da vontade, de seus medos e ilusões, vem através da percepção persistente e silenciosa, sem a escolha deliberada da volição. Por esta profunda observação, vocês perceberão como a vontade gerou medo e ilusão, e fragmenta a consciência em passado, presente, e futuro; em superior e inferior; em memórias acumuladas e aquelas a serem adquiridas. Então a ignorância, com suas vontades, preconceitos, e medo, cria dualidade na consciência, e desta dualidade surgem os muitos problemas de controle e conflito. Desta dualidade surge o processo de auto disciplina, através da autoridade do ideal e da memória, que controla e limita a ação, e portanto, origina frustração. Esta limitação da ação cria, naturalmente, mais limitações, e então, traz atrito e sofrimento. Portanto, a roda da ignorância-medo-preconceito é posta em movimento, e impede o ajuste completo à vida. Onde há vontade, deve haver também memórias acumulativas, cálculos auto protetivos, que dão à consciência continuidade e identificação.

Esta consciência, com sua divisão e conflito, cria, para si mesma, limitação por meio de suas próprias atividades volitivas, e assim, mantém a sua própria individualidade. Ela está presa na sua própria criação, em seu próprio ambiente de confusão sombria, luta incessante, e frustração. Se vocês, silenciosamente, observarem sem a interferência da escolha, discernirão este processo de ignorância e medo. Quando a mente percebe que ela gera a sua própria ignorância, e assim, o seu próprio medo, então há o começo da consciência sem escolha. Através de observação silenciosa e profundo discernimento, no qual não há escolha, e portanto, nenhum conflito, vem a cessação da ignorância. Ela não pode ser trazida por meio de negação ou mera racionalização. Este é o verdadeiro processo de inteligência desperta e intuição.

A consciência limitada é o conflito de inúmeras vontades. Tornem-se conscientes deste conflito, desta batalha incessante de divisão, mas não tentem dominar uma parte da consciência com suas vontades, por outra. Quando a mente se identifica com a vontade ou com opostos, existe conflito; então, a mente tenta escapar através da ilusão e falsos valores, e portanto, apenas intensifica todo o processo da vontade. Com profundo discernimento, vem a cessação da vontade, o despertar da inteligência, da intuição criativa. Esta inteligência é a própria realidade.

Interrogante: Perdi todo o entusiasmo, toda a vontade na vida, que me lembro de ter tido uma vez. Agora, para mim, a vida não tem cor, um vazio sem esperança, um fardo que, de alguma forma, devo suportar. Poder-me-ia indicar as causas possíveis que podem ter trazido esta condição, e explicar como posso quebrar esta casca dura na qual pareço estar?

Krishnamurti: Através de falsos valores, forçamo-nos a certo tipo de ações, e ajustamos os nossos pensamentos e sentimentos a certas condições. Então, por meio de nosso próprio condicionamento, perdemos o nosso entusiasmo, e consequentemente, a vida torna-se maçante e pesada. Para quebrar esta casca de desesperança, devemos estar conscientes de nosso pensamento e ação limitados. Quando nos tornamos conscientes deste estado e, em vez de lutar contra este vazio sem esperança, consideramos profundamente as causas da frustração, então, sem qualquer conflito de antítese, tem lugar aquela mudança vital, que é realização, a rica compreensão da vida. Se uma pessoa meramente disciplinou sua mente sem compreender o processo da consciência, ou subjugou as atividades mentais e a conduta à autoridade de um ideal, sem discernir a estupidez da autoridade, então a vida torna-se árida, superficial, e vã.

A menos que compreendamos completamente o processo da consciência, a ilusão pode, momentaneamente, dar o ímpeto necessário à ação, mas tal ação deve inevitavelmente levar à miséria e frustração. O conflito entre ilusões, embora aparentemente com propósito e satisfatórias, devem inevitavelmente levar a confusão e sofrimento. Temos de nos tornar conscientes dos muitos medos e ilusões, e quando a mente se liberta deles, há a rica plenitude da vida.

Quando você começa a perceber a total futilidade da própria vontade, haverá o despertar daquela inteligência que dá origem ao relacionamento correto com o ambiente. Somente então, pode haver riqueza e beleza da vida.

Interrogante: Pode soar impertinente dizê-lo, mas é fácil para você, aconselhar outros a experimentar ação inteligente; a você nunca faltará pão. De qual utilidade é o vosso conselho para a vasta maioria dos homens e mulheres no mundo, para os quais ação inteligente apenas significará mais fome?

Krishnamurti: Por que você coloca tanta ênfase no pão? O pão é essencial, mas apenas ao colocar ênfase no pão, você está privando o homem dele. Ao colocar ênfase em qualquer necessidade do homem, que é indivisível, você está privando-o dessa mesma coisa que você enfatiza. É o medo que leva a ação ininteligente e, consequentemente, ao sofrimento, e como os indivíduos são mantidos neste medo, estou tentando despertar neles, a percepção de sua barreira auto criada de ignorância e preconceito. Porque cada indivíduo busca auto segurança, de muitas formas, não pode haver nenhuma cooperação inteligente com seu ambiente, e seguem-se muitos problemas que não podem ser superficialmente resolvidos. Se cada um de nós não tivesse medo, não desejando segurança de qualquer forma, quer aqui ou na próxima vida, então, neste estado de não medo, a inteligência podia funcionar e trazer ordem e felicidade. Meramente considerar uma parte, uma divisão artificial do homem, que é indivisível, não podemos compreender o todo dele, e é apenas através da compreensão do todo, que a parte pode ser compreendida. Sempre houve este problema, se a ênfase deve ser colocada no pão, ambiente, ou na mente ou coração. No passado, também, esta divisão existiu, este dualismo no homem, da alma e do corpo, cada divisão insistindo no seu próprio conjunto de valores e, portanto, criando muita confusão e miséria. E continuamos a perpetuar, talvez de novas formas, esta divisão falsa e artificial do homem. Um grupo considera apenas a importância do pão, e outro coloca ênfase na alma. Esta divisão do homem é completamente falsa, e deve levar sempre a ação ininteligente. Ação inteligente é o resultado de se compreender o homem como um ser completo.

Interrogante: Os meus sofrimentos têm-me mostrado que não devo mais buscar conforto de qualquer tipo. Sinto-me convencido que outro não pode curar a dor que existe em mim. E ainda, como o meu sofrimento continua, há algo errado com a forma como tenho feito face ao meu sofrimento?

Krishnamurti: Você diz que já não busca conforto, mas essa busca não teria sido suspensa deliberadamente, mediante decisão, resolução? Não é o resultado espontâneo da compreensão. É meramente o resultado de uma decisão de não buscar conforto, porque a busca por conforto trouxe-lhe desilusão. Então, você diz a você mesmo, “Não devo mais buscar conforto.” Quando um homem que tem sido profundamente magoado através do apego, começa a cultivar o desapego, elogiando-o como uma qualidade nobre, o que ele está realmente fazendo é protegendo-se de mais dor – e este processo ele chama de desapego. Então, da mesma forma, o medo do sofrimento fê-lo ver que conforto, dependência, envolve mais sofrimento, e portanto, você diz para você mesmo, “Não devo procurar conforto, devo ser autoconfiante.” Ainda assim, a vontade, com suas muitas formas sutis de medo, continua.

A vontade cria dualidade no pensamento, e quando uma vontade cria sofrimento, a mente busca o oposto dessa vontade. Quer seja um desejo por conforto ou a negação do conforto, é o mesmo, ainda é vontade. Então, a mente mantém o conflito dos opostos. Quando você começa a sofrer, não diga, “Devo me livrar desta ou daquela vontade ou causa”, mas silenciosamente observar, sem negação ou aceitação, e desta consciência sem escolha, a vontade, com seus medos e ilusões, começa a dar lugar à inteligência. Esta inteligência é a própria vida, e não é condicionada pela compulsão da vontade.

Interrogante: É dito que iniciações ocultas, como aquelas descritas pela Teosofia e outros rituais e mistérios antigos, formam as várias fases da viagem espiritual da vida. É assim? Você lembra-se de qualquer mudança súbita na sua consciência?

Krishnamurti: A consciência sofre constante mudança dentro de suas próprias restrições e limitações. Dentro de seu próprio círculo, ela está flutuando, expandindo e contraindo, e esta expansão é chamada por alguns de avanço espiritual. Mas ainda é dentro dos confins de sua própria limitação, e esta expansão não é uma mudança de consciência, mas apenas uma mudança na consciência. Esta mudança de consciência não é o resultado de rituais ou iniciações misteriosas. Ele, que discerne a futilidade da mudança na consciência apenas, pode trazer a mudança de consciência. Discernir e mudar fundamentalmente, requer consciência persistente. O que é importante é se podemos individualmente originar esta mudança vital. Vamos nos preocupar, não com a iminência da mudança, mas apenas com a mudança fundamental de consciência, e para isto, o processo do “Eu”, com sua ignorância, tendências, vontades, medos, deve ele mesmo, chegar a um fim.

28 de Julho de 1936.

 

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