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12/06/1936 – T

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Primeira Palestra em Eddington

É importante perguntar a si mesmo por que você vem a estes encontros, e o que é que está procurando. A menos que você saiba isso por você mesmo, você está apto para estar muito confuso ao tentar resolver os vários problemas e questões que nos confrontam a todos.

Para compreender o motivo e a finalidade da sua busca, se você estiver em busca de algo, deve saber se considera a vida do ponto de vista mecanicista, ou do ponto de vista da crença no outro mundo, que é chamado de religioso. Muitas pessoas irão dizer –lhe que elas estão trabalhando por um mundo, no qual a exploração do homem pelo homem – com suas crueldades, guerras, e terríveis misérias – irá terminar. Enquanto todas elas concordarão quanto a este último objetivo, algumas aceitarão o mecânico, e outras a visão religiosa da vida.

A visão mecanicista da vida é que, como o homem é meramente o produto do ambiente e de várias reações perceptíveis apenas aos sentidos, o ambiente e as reações devem ser controlados por um sistema racionalizado, que permitirá ao indivíduo funcionar apenas dentro de sua estrutura. Por favor, compreendam o total significado desta visão mecanicista da vida. Ela não concebe nenhuma entidade suprema, transcendental, nada que tenha continuidade; esta visão não admite qualquer tipo de sobrevivência após a morte; a vida nada mais é do que um breve período que leva à aniquilação. Como o homem nada mais é do que o resultado de reações ambientais, preocupado com a busca de sua segurança egoísta, ele tem ajudado a criar um sistema de exploração, crueldade, e guerra. Portanto, suas atividades devem ser moldadas e guiadas, mudando e controlando o ambiente.

A visão mecanicista da vida priva o homem da verdadeira experiência da realidade. Esta não é alguma experiência fantástica, imaginativa, mas aquilo que surge quando a mente está livre de toda a sobrecarga do medo, dogma, crença, e aquelas doenças psicológicas que resultam de restrições e limitações, que aceitamos em nossa procura de autoproteção, segurança, e conforto.

Então, existem aqueles que aceitam a visão que o homem é essencialmente divino, que seu destino é controlado e guiado por alguma inteligência suprema. Esses afirmam que estão buscando Deus, perfeição, libertação, felicidade, um estado de ser no qual todo o conflito subjetivo cessou. A sua crença numa entidade suprema, que guia o destino do homem, é baseada na fé. Eles dirão que esta entidade transcendental ou inteligência suprema criou o mundo e que o ‘Eu’, o ego, o indivíduo, é algo permanente em si mesmo, e tem uma qualidade eterna.

Se você pensar criticamente sobre isto, perceberá que esta concepção, baseada na fé, tem levado o homem deste mundo para um mundo de conjeturas, esperanças, e idealismo, e portanto, ajudando-o a escapar do conflito e confusão. Esta atitude de pertencer a outro mundo, baseada na fé e, portanto, no medo, tem desenvolvido crenças, dogmas, cerimônias, e tem encorajado uma moralidade de segurança individual, resultando num sistema de fugas deste mundo de dor e conflito; ela originou uma divisão entre o real e o ideal, o aqui e o depois, terra e céu, o interior e o exterior. E, a partir desta concepção, desenvolveu-se uma moralidade baseada no medo, na ganância, na segurança e conforto individuais aqui e no depois, e numa série de valores imorais, hipócritas e não saudáveis que são completamente contrários à vida. Esta concepção da vida com suas fugas, baseada na fé, também priva o homem da verdadeira experiência da realidade.

Então, ou alguém é limitado pela fé, com seus medos, crenças organizadas, e disciplinas; ou, rejeitando a fé, aceita a visão mecanicista da vida, com suas doutrinas, suas crenças racionalizadas, e conformidade a um padrão de pensamento e conduta.

A maioria das pessoas pertence a um desses dois grupos, a um desses opostos. Opostos nunca podem ser verdadeiros; e, se nenhum deles é verdadeiro, como pode alguém compreender a vida, seus valores, sua moralidade, e o significado profundo que se sente que ela tem?

Existe uma forma diferente de olhar para a vida – não do ponto de vista dos opostos, da fé e da ciência, do medo e do mecânico – e isso é compreender a vida, não como manifestada no universo, mas como um processo focado em cada indivíduo. Isto é, cada um tem que discernir o processo de se transformar, e o processo de, aparentemente, cessar, de nascer e de morrer. Este processo somente é totalmente perceptível ao indivíduo como consciência. Por favor, vejam este ponto claramente. O processo que está em funcionamento no universo, ou noutro indivíduo, não pode ser discernido, exceto quando ele está focado em você, o indivíduo.

A inclinação para aceitar a visão mecanicista da vida, ou para abraçar a segurança e conforto que a fé oferece, não leva ao verdadeiro discernimento do que é. A realidade é para ser compreendida apenas através do processo do ‘Eu’, como consciência, do qual surge a individualidade. Isto é, temos que entender o próprio processo de se transformar, o que envolve inteligência, um discernimento aguçado, uma consciência aguçada. No compreender-se integralmente, vem a possibilidade de surgir os verdadeiros valores da vida, do verdadeiro relacionamento com outros indivíduos, com a sociedade.

Pertencer a qualquer um dos dois grupos opostos de pensamento que mencionei, levará apenas, no final das contas, a maior confusão e miséria. Todos os opostos impedem o discernimento. Para discernir o que é, tem de se compreender a si mesmo, e para fazer isto, é preciso romper com toda aquela sobrecarga e limitações produzidas pela visão mecanicista da vida, ou pela fé; somente assim será possível discernir de forma sã, sem violência, o processo do ‘Eu’ como consciência, do qual surge a individualidade.

Todas as coisas surgem por meio do processo de energia, que é único a cada indivíduo. Você e eu somos o resultado dessa energia que, no curso de seu desenvolvimento, cria aqueles preconceitos, tendências, e ânsias que tornam cada indivíduo único. Agora, este processo, que não tem um início, em seu movimento, em sua ação, torna-se consciência através da sensação, da percepção e do discernimento. Esta consciência é perceptível aos sentidos como individualidade. A sua ação nasce da ignorância, que é atrito. A energia, que é única a cada indivíduo, não é para ser glorificada.

Deste processo de perpetuar a ignorância como consciência, perceptível aos sentidos como individualidade, você deve tornar-se consciente, de forma que, para você, ela se torne uma realidade, e não mais uma teoria. Só então, haverá uma mudança fundamental de valores que, sozinhos, vão dar origem ao verdadeiro relacionamento do indivíduo com o seu ambiente, e com a sociedade. Se você é capaz de discernir este processo de ignorância, que não tem um início, e compreende que ele também pode terminar através da cessação de sua própria atividade volitiva, então, você perceberá que está inteiramente no comando de seu destino, completamente autoconfiante, e não dependente das circunstâncias ou da fé, para a conduta e o relacionamento.

Para produzir esta profunda mudança de valores, e estabelecer o relacionamento correto do indivíduo com a sociedade, você, o indivíduo, deve, conscientemente, libertar-se da visão mecanicista da vida, com suas muitas implicações e estruturas de ajustamento superficial. Você deve, também, ser livre da sobrecarga da fé, com seus medos, crenças, e credos.

Algumas vezes, pensamos que a vida é mecânica e, noutras, quando há tristeza e confusão, retornamos à fé, procurando por orientação e ajuda por parte de um ser supremo. Vacilamos entre os opostos, enquanto que apenas através da compreensão dos opostos, você pode libertar a si mesmo de suas limitações e sobrecargas. Muitas vezes, imaginamos que estamos livres delas, mas podemos ser radicalmente livres somente quando compreendemos inteiramente o processo de construção dessas limitações, e damos um fim a elas. Você não pode ter a compreensão do real, do que é, enquanto este processo de ignorância sem início, é perpetuado. Quando este processo, que se mantém por meio de suas próprias atividades volitivas de desejo, termina, existe aquilo que pode ser chamado de realidade, verdade, felicidade.

Para compreender a vida e ter verdadeiros valores, devemos perceber como somos mantidos pelos opostos, e antes de os rejeitar, devemos discernir o seu profundo significado. E, no próprio processo de se libertar deles, nasce a compreensão da ignorância sem começo, que cria valores falsos e, portanto, estabelece um relacionamento falso entre o indivíduo e seu ambiente, trazendo confusão, medo, e sofrimento.

Para compreender a confusão e o sofrimento, você, o indivíduo, deve discernir o seu próprio processo de se transformar, através da intensidade de pensamento e consciência integral. Isto não significa que você se afaste do mundo: pelo contrário, envolve a compreensão dos muitos valores falsos do mundo, e se libertar deles. Você mesmo criou esses valores, e apenas através de um constante estado de alerta e discernimento, este processo de ignorância pode acabar.

Interrogante: Não há a possibilidade de que a consciência, que demanda constante ocupação com os próprios pensamentos e sentimentos, possa produzir uma atitude indiferente em relação aos outros? Ensinará a simpatia, que é uma sensibilidade ao sofrimento de outros?

Krishnamurti: Consciência não é ocupação com os próprios pensamentos e sentimentos. Tal ocupação, que é introspecção, visa a ação e calcula os resultados de um ato. Nisso, não pode haver simpatia, nem a plenitude do ser. Cada um está tão ocupado consigo mesmo, com suas próprias necessidades psicológicas, sua própria segurança, que se torna incapaz de simpatia.

Agora, consciência não é isto. Consciência é discernimento, sem julgamento, do processo de criação de muros auto protetores e limitações por trás das quais, a mente busca abrigo e conforto. Tome, por exemplo, a questão da fé, com seu medo e esperança. A fé dá-lhe conforto, um consolo na infelicidade ou tristeza. Na fé, você construiu um sistema de compulsão, disciplina, um conjunto de falsos valores. Por trás da parede protetora da fé, você busca abrigo, e essa parede impediu o amor, simpatia, e bondade, pois a sua ocupação tem sido com você, com sua própria salvação, com seu próprio bem-estar, aqui e no depois.

Se você começa a se tornar consciente, a discernir como criou este processo por meio do medo, como está constantemente buscando abrigo, sempre que há alguma reação, atrás desses ideais, conceitos, e valores, então, perceberá que consciência não é ocupação com seus próprios pensamentos e sentimentos, mas a profunda compreensão da tolice de criar esses valores atrás dos quais, a mente se refugia.

A maioria de nós está inconsciente de que seguimos um padrão, um ideal, e que ele nos guia na vida. Aceitamos e seguimos um ideal porque pensamos que ele nos ajudará a caminhar na confusão da existência. Com isso nos ocupamos, ao invés de compreender todo o processo da própria vida. Estamos, portanto, inconscientes deste ajuste constante a um ideal, e nunca questionamos por que ele existe; mas, se nós examinássemos criticamente, deveríamos ver que um ideal, nada mais é do que uma forma de escapar da realidade, e ao nos conformarmos a um ideal, estamos permitindo a nós mesmos nos tornar mais e mais restritos, confusos, e cheios de tristeza. Na compreensão do real, com seus sofrimentos, aquisições, crueldades, e ao eliminá-los, existe verdadeira simpatia, afeição. Esta consciência não é ocupação com os próprios pensamentos e sentimentos, mas um constante discernimento, livre de escolha, do que é verdade. Toda a escolha é baseada na tendência, desejo, e ignorância, o que impede o verdadeiro discernimento. Se a escolha existe, não pode haver consciência.

Interrogante: Pela observação inteligente das vidas de outras pessoas, alguém pode, muitas vezes, tirar conclusões valiosas para si mesmo. Qual o valor, você pensa que tal experiência vicária tem?

Krishnamurti: Fundamentalmente, experiência vicária não pode ter valor integral. Existe apenas aquele processo de perpetuar a ignorância, como focado em cada um, e é somente através da compreensão deste processo, que alguém pode compreender a vida, não através de uma rota indireta – a experiência de outro. Através de uma rota indireta, isto é, seguir o outro ou aceitar a sabedoria de outro, não pode haver satisfação.

Interrogante: Assumindo que, algumas vezes, agimos em resposta a algum prejulgamento mental, ou algum estresse emocional, há alguma técnica pela qual podemos tornar-nos conscientes de tal prejulgamento ou estresse, no momento da ação, antes de ter, na verdade, realizado a ação?

Krishnamurti: Em outras palavras, você está buscando um método, um sistema, que o irá possibilitar manter-se acordado no momento da ação. Sistema e ação não podem existir juntos, se matam um ao outro. Você está perguntando, “Posso tomar um sedativo, e ainda assim, estar acordado no momento da ação?” Como pode um sistema mantê-lo acordado, ou alguma outra coisa, exceto a sua própria intensidade de interesse, a necessidade de manter acordado? Por favor, vejam a importância desta questão. Se está consciente de que a sua mente está tendenciosa, então não quer qualquer disciplina, ou sistema, ou modo de conduta. O seu próprio discernimento de um preconceito, dissipa esse conceito, e assim é capaz de agir sensatamente e claramente. Mas, porque não percebe uma tendência, que causa sofrimento, espera livrar-se da tristeza, seguindo um sistema, que nada é senão o desenvolvimento de outra tendência, e a esta nova tendência, chama de o processo de manter acordado, tornando-se consciente. A busca por um sistema, meramente indica uma mente lenta, e o seguir um sistema, encoraja-o a agir automaticamente, destruindo a inteligência. Os assim chamados instrutores religiosos deram-vos sistemas. Você pensa que, por seguir um novo sistema, treinará a mente a discernir e aceitar novos valores. Quando é bem-sucedido ao fazer isto, o que realmente fez foi amortecer a mente, colocou-a a dormir, e se engana pela felicidade, paz.

Alguém ouve tudo isto, e contudo, permanece uma lacuna entre a vida diária e a busca do real. Esta lacuna existe porque mudança envolve, não apenas desconforto físico, mas incerteza mental, e nós não gostamos de estar incertos. Porque esta incerteza cria perturbação, adiamos a mudança e, portanto, acentuamos a lacuna. Continuamos então a criar conflito e miséria, das quais desejamos escapar. Aceitamos tanto a visão mecanicista da vida, quanto aquela da fé, e portanto, escapamos da realidade. A lacuna entre nós mesmos e o real é superada apenas quando vemos a absoluta necessidade de cessação de todas as fugas e, portanto, a necessidade por ação integral, a partir da qual nasce o verdadeiro relacionamento humano com indivíduos, com a sociedade.

12 de junho de 1936

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