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16/06/1936 – T

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=131&chid=4491&w=

 

Terceira Palestra em Eddington

Vou resumir o que tenho dito durante as palestras e discussões que tivemos aqui. Não preciso entrar em detalhes, ou apontar as muitas implicações, mas essas ideias, quando pensadas profundamente, revelarão a vocês o seu significado detalhado.

Estamos todos procurando viver sem confusão e tristeza, e libertarmo-nos da luta, não apenas com nossos vizinhos, família e amigos, mas especialmente com nós mesmos, com as concepções de certo e errado, falso e verdadeiro, bem e mal. Não existe apenas o conflito de nossa relação com o ambiente, mas também o conflito dentro de nós, que inevitavelmente se reflete na moralidade social.

Claro, há aquelas exceções brutais e estúpidas que estão totalmente à vontade; ou, receosas por sua própria segurança pessoal, vivem sem pensamento e consideração. Suas mentes estão tão almofadadas, tão invulneráveis, que elas se recusam a ser abaladas pela dúvida ou investigação. Eles não se permitem pensar; ou, se permitem, seus pensamentos ocorrerão ao longo de linhas tradicionais. Eles têm sua própria recompensa.

Estamos preocupados, contudo, com aqueles que estão seriamente tentando compreender a vida, com suas misérias e o conflito aparentemente sem fim. Estamos preocupados com aqueles que, percebendo profundamente seu ambiente, buscam o seu verdadeiro significado e a causa de seu sofrimento, de suas alegrias transitórias. Na sua busca, elas se tornaram emaranhadas, quer na explicação mecanicista da vida, ou nas explicações da fé, da crença. Nessas explicações opostas, a mente se tornou envolvida e desembaraçada.

A visão mecanicista da vida, rejeitando toda a coisa que não é perceptível aos sentidos, mantém que o homem é uma mera criatura de reações; que o mecanismo de seu ser é mantido, como foi, por uma série de reações, não pela força ou energia capaz, em si mesma, de trazer ação; que seu desenvolvimento, suas ideias, concepções e suas emoções são meramente o resultado de impactos externos; que a causa adequada de cada acontecimento é simplesmente uma série de acontecimentos antecedentes. E, disto, é argumentado que ao controlar os acontecimentos e reações do homem a eles, através da arregimentação de seu pensamento e ação, e através de propaganda, ele será capaz de estabelecer um relacionamento correto com seu ambiente. Isto é, a arregimentação e controle de suas várias reações, trará ações que darão ao homem felicidade.

Em oposição a isto, vem a fé. Esta visão mantém que a causa adequada da existência do homem é uma força universal, uma força divina em si mesma, imperceptível aos sentidos. Esta força transcendental, esta super inteligência, está sempre guiando, vendo e decreta que nada pode ter lugar sem seu conhecimento do acontecimento. Disto, naturalmente, surge a ideia de predestinação. Se há uma super inteligência vendo e guiando suas ações, então você, o indivíduo, não tem grande responsabilidade na vida. Seu destino é predeterminado, e, portanto, não pode haver livre vontade. Se não há livre vontade, a ideia da alma e sua imortalidade não tem sentido. Se é assim, então não há realidade ou Deus ou força universal. A fé destrói o seu próprio fim.

Entre esses dois opostos, a visão mecanicista da vida e aquela da fé, alguém vacila, de acordo com a inclinação pessoal do momento. Dependência da fé num momento e no outro, em seu oposto, tem aumentado a nossa confusão e tristeza.

Agora, digo que há outra forma de abordar a nossa existência e de verdadeiramente compreendê-la. Realidade é aquilo que alguém experimenta. Não tem nada a ver com opostos, quer com a fé ou com a rejeição do que é imperceptível aos sentidos. Toda a existência é um processo de energia que é tanto condicionado e condicionador. Esta energia, em seu desenvolvimento auto ativo, auto sustentador, cria a sua própria substância material, sensação, percepção, escolha e consciência, da qual surge a individualidade. Esta energia é única a cada indivíduo, a cada processo, que é sem começo.

Individualidade ou consciência é o resultado do processo desta energia única. Com a consciência, estão juntos a ignorância e desejo. Esta consciência se mantém por suas próprias atividades volitivas nascidas da ignorância, tendências, desejos. A este processo auto sustentador de individualidade, que é único, que não tem início, não é dado, como era, um impulso, empurrado para adiante, por outra força ou energia. É um processo que, em todos os momentos, é auto ativo através de suas exigências, desejos, e atividades volitivas.

Se pensarem nisto muito cuidadosamente e profundamente, verão que isto tem um significado totalmente diferente da visão mecanicista da vida ou aquela da fé. Aquelas são teorias baseadas nos opostos, enquanto aquilo que tenho explicado não é dos opostos. Vocês, como indivíduos, têm de descobrir, por vós mesmos, qual é a verdadeira causa da existência, do sofrimento e sua continuação aparente. Como disse, realidade é aquilo que alguém experimenta; uma pessoa não pode experimentar uma teoria, uma explicação. Permitindo que a mente aceite uma teoria, e ser treinado de acordo com essa concepção, podemos ter uma série de experiências, mas elas não serão experiências da realidade. Crença ou fé tem dado um certo treinamento à mente, e experiências baseadas nela, não são reais, sendo o produto de pressuposições e convicções. Tais experiências são meramente o resultado do desejo de realização.

Para compreender a realidade, ou experimentar a realidade, deve haver discernimento. Discernimento é aquele estado de pensamento-emoção integrado, no qual todo desejo, escolha, terminou; não é um estado induzido por mera negação e supressão. Toda vontade, desejo, perverte o discernimento, mesmo o desejo pela realidade. A vontade condiciona o pensamento e a emoção, e portanto, torna-a incapaz de discernimento direto. Portanto, se a mente é preconceituosa por meio de qualquer teoria ou explicação, ou se ela é apanhada em qualquer crença, tal como aquela de qualquer religião ou filosofia, ela é completamente incapaz de discernimento.

Então, temos de considerar, primeiro, quais são aquelas tendências e desejos que continuam e perpetuam o processo do ‘Eu’. Esta consideração profunda do processo da vontade e seus resultados, esta consciência constante em ação, liberta a mente e o coração da vontade, daquelas resistências auto protetoras que ela criou para si mesma, como segurança e conforto. Pois toda vontade age como um impedimento ao discernimento; todo desejo distorce a percepção.

Todo desejo, e qualquer experiência nascida dele, compõem o processo auto sustentador do ‘Eu’. Este processo do ‘Eu’, com suas vontades e tendências, cria o medo, e disto surge a aceitação do conforto e segurança, que a autoridade oferece. Existem vários tipos de autoridade: há a autoridade do exterior, a autoridade de um ideal, e a autoridade da experiência ou da memória.

A autoridade do exterior nasce do medo, que faz a mente e o coração aceitarem a compulsão da opinião – quer do vizinho ou do líder – e as afirmações da crença organizada, chamada de religião, com seus sistemas e dogmas. Essas afirmações e crenças tornam-se parte do ser de uma pessoa e, conscientemente ou não, os seus pensamentos e ações ajustam-se ao padrão estabelecido pela autoridade.

Há a autoridade de um ideal, que impede a verdadeira autoconfiança, nascida da compreensão da realidade. Como vocês não podem entender esta luta e miséria, procuram por um ideal, por um conceito, para vos guiar ao longo deste mar de confusão e sofrimento. Se vocês examinarem cuidadosamente esta vontade, verão que é apenas uma fuga da realidade, do conflito do presente. Para escapar da realidade, do agora, vocês têm a autoridade de um ideal, que se torna sagrado através do tempo e da tradição. A autoridade de um ideal impede a compreensão do real.

Então, existe a autoridade da experiência e memória. Não somos senão o resultado do processo do tempo. Cada um tira inspiração, orientação e compreensão do passado; o passado age como um fundamento, o passado é o depósito da experiência, e a mente tornou-se meramente uma gravação das várias lições da experiência. Essas experiências, com suas lições, tornaram-se memórias, e essas memórias se tornaram avisos auto protetores. Se vocês examinarem profundamente as assim chamadas lições ganhas da experiência, verão que elas são meramente o desejo astuto por autoproteção, que vos guia no presente. Esta orientação auto protetora astuta impede a compreensão do presente vivo. Portanto, a experiência adiciona ao depósito mais lições, mais memórias – conhecimento astuto pelo qual se guiar em tempos de tribulação. Mas se vocês examinarem este assim chamado conhecimento, verão que não é nada senão memórias auto protetoras armazenadas para o futuro, e que se tornam a autoridade que orienta e direciona a ação.

Assim, através do desejo, através da vontade, há o medo gerado, e disto surge a busca por conforto e segurança encontrados na autoridade do exterior, a autoridade do ideal, e a autoridade da experiência. Esta autoridade, nas suas várias formas, mantém o processo do ‘Eu’, que é baseado no medo. Considerem os vossos pensamentos e atividade, e a forma da vossa moralidade, e verão que são baseados no medo auto protetor, com suas autoridades sutis e confortantes. Portanto, a ação que nasce do medo está sempre limitando a si mesma, e portanto, o processo do ‘Eu’ é auto sustentador, por meio das suas atividades volitivas.

Colocando de forma diferente, há a vontade do querer, que é esforço, e a vontade da compreensão, que é discernimento. A vontade do querer está sempre na busca de recompensa, de ganho, e portanto ela cria seus próprios medos. Nisto está baseada a moralidade social, e a aspiração espiritual não é senão a tentativa de estabelecer uma relação protetora com o superior. O indivíduo é a expressão da vontade do querer, e no processo de sua atividade, o querer está criando seu próprio conflito e tristeza. Disto, o indivíduo tenta escapar, para o idealismo, para ilusões, para explicações, e portanto, ainda mantém o processo do ‘Eu’. A vontade da compreensão surge quando há a cessação do querer, com suas experiências sempre recorrentes.

Se existir compreensão correta do fato de que não pode haver verdadeiro discernimento, enquanto a vontade do querer continuar, esta mesma compreensão leva o processo do ‘Eu’ a um fim. Não há outro ou ‘Eu’ superior, para trazer este processo do ‘Eu’ a um fim; nenhum ambiente e nenhuma divindade pode pôr um fim a este processo do ‘Eu’. Mas a própria percepção do processo do ‘Eu’, o próprio discernimento de sua tolice, de sua natureza transiente, coloca um fim nele.

O processo do ‘Eu’ é auto sustentador, auto ativo, através de sua própria ignorância, tendências, desejos. Ele tem de colocar um fim a si mesmo através da cessação de seus próprios quereres volitivos. Se vocês compreenderem profundamente o significado de toda esta concepção do ‘Eu’, então verão que não são o mero ambiente, opinião, ou o acaso, mas os criadores, os originadores da ação. Vocês criam a vossa própria prisão de tristeza e conflito. Através da cessação de vossas próprias atividades volitivas, há a realidade, felicidade.

Interrogante: Você disse que, para compreender o processo do ‘Eu’, esforço vigorosos é requerido. Como devemos entender a sua afirmação repetida, de forma que o esforço supere a consciência?

Krishnamurti: Onde há o esforço do querer, há escolha, que deve ser baseada no preconceito, na tendência. A consciência não nasce da escolha, ela surge quando existe a percepção da transitoriedade da vontade da escolha ou a vontade do querer.

Pela constante consideração e forte interesse, a vontade do querer é compreendida e surge a vontade da compreensão. Onde há a vontade do querer, deve haver esforço incorreto, aquele esforço que deve produzir sempre confusão, limitação e aumentar a tristeza. A consciência é discernimento constante do que é verdade. Tristeza e a investigação da sua verdadeira causa – não a teórica, mas a investigação real pela experimentação e ação – trarão esta flexibilidade desperta da mente e do coração.

Não há ninguém que não sofra. Ele, que sofre, faz um esforço para escapar da realidade, e essa fuga apenas aumenta o sofrimento. Mas, se através de observação silenciosa e paciência, ele discerne a verdadeira causa do sofrimento, essa mesma percepção dissolve a própria causa do sofrimento.

Interrogante: Você está descomprometido como esteve na sua atitude em relação às cerimônias e a Sociedade Teosófica?

Krishnamurti: Uma vez que você perceba um ato como sendo completamente tolo, você não reverte a ele. Se você percebe profundamente, como foi comigo, toda a tolice das cerimônias, então ela nunca poderá ter qualquer efeito sobre você, novamente. Nenhuma opinião, embora possa ser da maioria, nenhuma autoridade, embora seja da tradição ou das circunstâncias, pode persuadir diferentemente alguém que tenha discernido a sua insignificância. Mas, enquanto alguém não vê o seu significado completamente, há um voltar para isso. É o mesmo em relação à Sociedade Teosófica. A ideia de crença organizada, com suas autoridades, com sua propaganda, com sua conversão e exploração é, para mim, fundamentalmente mal.

Não é importante o que penso sobre a Sociedade Teosófica. O que é importante é que vocês devem encontrar, por vós mesmos, o que é a verdade, o que é o real, não o que vocês querem que seja real; e, para compreender o atual, o real, o verdadeiro, sem qualquer dúvida, vocês devem chegar a ele despojados de todo querer, todo desejo por segurança ou conforto. Só então, há uma possibilidade de discernir aquilo que é. Mas, como a maioria das pessoas está condicionada pelo querer, pelo desejo por segurança, por conforto, aqui e na outra vida, elas são completamente incapazes de verdadeira percepção.

Antes que possam compreender o que é a verdade, quer nos ensinos da Sociedade Teosófica ou de qualquer outra organização, vocês devem, primeiro, considerar se estão livres do querer. Se não estão, essas organizações, com suas crenças, tornar-se-ão o meio de vos explorar. Se meramente considerarem seus ensinos, então estarão perdidos em opiniões, em explicações. Então, primeiro, comecem por discernir, por vós mesmos, o processo de desejo, que distorce a percepção, mantém o processo do ‘Eu’ e nutre o medo. Então, esses sistemas, essas organizações, com suas crenças, ameaças, e cerimônias, não terão nenhum significado.

Infelizmente, não começamos fundamentalmente. Pensamos que sistemas e organizações vão nos ajudar a ficarmos livres de nossos preconceitos, tristezas, e conflitos. Pensamos que eles nos libertarão de nossas limitações, e portanto, através deles, esperamos compreender a realidade. Isto nunca aconteceu, nem acontecerá. Nenhuma crença ou organização pode alguma vez libertar o homem do querer, com seus medos e agonias.

Interrogante: O que você pensa que acontecerá à sua alma após a morte do corpo?

Krishnamurti: Se o interrogante examinar o motivo que levou à sua questão, ele verá que é o medo. Não há nenhuma satisfação, nenhuma felicidade, no presente, portanto ele demanda uma vida futura de felicidade e oportunidade. Em outras palavras, o ‘Eu’ está se perguntando se ele continuará. Para compreender o significado de seu desejo por continuação, você deve compreender o que é o ‘Eu’.

Como tenho tentado explicar, a fé destrói a sua própria ideia de alma. A fé sustenta que existe uma força universal, uma entidade suprema além do homem, direcionando, guiando a existência do homem e determinando o seu futuro. Esta concepção, se pensarem nela completamente, bane a ideia da alma. Se não há nenhuma alma, então vocês se viram para a visão mecanicista da vida, e portanto, são meramente apanhados nos opostos. A verdade não existe nos opostos. Se vocês compreenderam inteiramente o significado dos opostos, com suas implicações, então discernirão o verdadeiro processo do ‘Eu’. Então veriam que é um processo de querer, formando-se no medo, e assim sustentando-se a si mesmo. Este medo leva o ‘Eu’ a se perguntar se ele tem uma continuidade, se ele deve viver depois da morte do corpo. A questão real, então, é se esta limitação, o ‘Eu’, o ego, tendo passado por muitas experiências, e reunido as suas lições, se torna finalmente perfeito. Pode o egoísmo alguma vez se tornar perfeito através do tempo, através da experiência? O ‘Eu’ pode se tornar maior, mais expandido, mais rico em egoísmo, em limitação, tomando para si mesmo outras unidades de limitação e egoísmo. Mas certamente, este processo deve permanecer sempre o processo do ‘Eu’, ainda que expandido e glorificado.

Se este processo continua ou chega a um fim, depende da compreensão de cada indivíduo. Quando vocês discernem profundamente que o processo do ‘Eu’ se mantém por meio de vossas próprias limitações, as vossas próprias atividades volitivas de desejo, então a vossa ação, a vossa moralidade, toda a vossa atitude em relação à vida, passa por uma mudança fundamental. Nisso, está a realidade, felicidade.

Posso dar explicações da causa da existência e do sofrimento. Mas um homem que busca uma explicação não discernirá a realidade. Definições e explicações atuam meramente como uma nuvem que escurece a percepção. Este processo do ‘Eu’, sobre o qual falei, pode ser para vós apenas uma teoria. Para discernir a sua realidade, vocês devem experimentá-lo. Para experimentá-lo, vocês devem considerá-lo criticamente, analisá-lo e experimentá-lo. A sua compreensão inteligente trará ação correta.

16 de Junho de 1936

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