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17/05/1936 – T

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Sétima Palestra em Oak Grove

Já devemos ter nos questionado, muitas vezes, se existe algo dentro de nós mesmos, que tem continuação, um princípio vivo que tem uma permanência, uma qualidade duradoura, uma realidade que persiste por toda esta transitoriedade. Na minha palestra desta manhã, devo tentar explicar o que está por trás deste desejo por continuidade, e considerar se existe realmente algo que tem uma permanência. Iria sugerir que amavelmente ouçam o que digo com pensamento crítico e discernimento.

A vida está a cada momento num estado de nascer, surgir, vir a ser. Neste surgir, vir a ser, em si mesmo não há continuidade, nada que possa ser identificado como permanente. A vida está em constante movimento, ação; nunca houve nem nunca haverá outra vez, cada momento desta ação. Mas cada momento novo forma uma continuidade de movimento.

A consciência forma a sua própria continuidade como uma individualidade, através da ação da ignorância e apega-se, com ânsia desesperada, a esta identificação. O que é esse algo ao qual cada um se apega, esperando que possa ser imortal, ou que possa esconder o permanente, ou que além dele, possa estar o eterno?

Este algo ao qual cada um se apega é a consciência da individualidade. Esta consciência é composta de muitas camadas de memórias que surgem, ou permanecem presentes, onde há ignorância, desejo, vontade. Desejo, vontade, tendência, sob qualquer forma, devem criar conflito entre si mesmos e aquilo que os provoca, isto é, o objeto da vontade. Este conflito entre o desejo e o objeto desejado aparece na consciência como individualidade. Então, é esta fricção, realmente, que busca se perpetuar. O que desejamos intensamente que tenha continuidade nada mais é do que esta fricção, esta tensão, entre as várias formas de desejo e os seus agentes provocadores. Esta fricção, esta tensão, é esta consciência que sustenta a individualidade.

O movimento da vida não tem continuidade. Ele surge e é criado a cada momento, e portanto, está num estado de ação, fluxo perpétuo. Quando alguém deseja a sua própria imortalidade, deve discernir qual o significado profundo deste desejo e o que é que ele deseja que continue. Continuidade é o processo auto sustentador da consciência, do qual surge a individualidade, através da ignorância, que é o resultado da vontade, desejo; disto vem a fricção e o conflito no relacionamento, na moralidade, e na ação.

O processo do ‘Eu’ que busca se perpetuar nada é senão desejo acumulado. Esta acumulação e suas memórias formam a individualidade, à qual nos apegamos e desejamos imortalizar. As muitas camadas de memórias, tendências, e vontades acumuladas, formam o processo do ‘Eu’; e queremos saber se esse ‘Eu’ pode viver para sempre, se pode tornar-se imortal. Podem essas memórias auto protetoras tornar-se ou ser feitas permanentes? Ou, correndo através delas como um cordão sólido, há o permanente? Ou, além deste processo de fricção, limitação do ‘Eu’, existe o eterno? Desejamos tornar as limitações acumuladas permanentes, ou pensamos que além dessas camadas de memórias, da consciência, existe algo que é perpétuo. Ou ainda, imaginamos que além dessas limitações da individualidade, deve estar o eterno.

Novamente, podem as memórias de ignorância, vontades, tendências acumuladas, das quais surge fricção e tristeza, serem feitas para durar? Essa é a questão. Não podemos aceitar profundamente que, além da individualidade, há algo que é eterno, ou que além desta limitação, há algo permanente, pois esta conceção pode apenas ser baseada na crença, fé, ou naquilo que é chamado de intuição, que é quase sempre uma realização de desejo. Das nossas inclinações, esperanças, e desejos de auto perpetuação, aceitamos teorias, dogmas, crenças, que nos dão a certeza de auto continuidade. Ainda assim, a incerteza profunda continua, e disto tentamos escapar, procurando por certeza, acumulando crença sobre crença, indo de um sistema para outro, seguindo um instrutor após outro, aumentando meramente assim a confusão e o conflito.

Agora, não quero criar mais crenças ou sistemas; Quero ajudar-vos a discernir, por vós mesmos, se há continuidade, e compreender seu significado. Portanto, a questão importante é: pode o processo do ‘Eu’ ser feito permanente? Pode a consciência de tendências, vontades, e memórias acumuladas, da qual surge a individualidade, tornar-se permanente? Em outras palavras, podem essas limitações tornar-se o eterno? A vida, a energia, está num estado perpétuo de ação, movimento, no qual não pode haver nenhuma continuidade individual. Mas, como indivíduos, desejamos nos perpetuar; e quando você discerne profundamente o que é individualidade, você perceberá que ela não é nada senão o resultado de ignorância, mantendo-se a si mesma através das muitas camadas de memórias, tendências, e vontades. Essas limitações devem inevitavelmente causar tristeza e confusão.

Podem essas limitações, que podemos chamar de individualidade, tornar-se permanentes? Isto é realmente o que a maioria das pessoas está buscando quando elas desejam a imortalidade, a realidade, Deus. Elas estão profundamente preocupadas com a perpetuação de sua própria individualidade. Pode a limitação tornar-se eterna? A resposta é óbvia. Se alguém discernir profundamente a sua transitoriedade óbvia, então há a possibilidade de realizar o permanente, e somente nisto, existe verdadeiro relacionamento, moralidade.

Se pudermos discernir profundamente o aparecimento do processo do ‘Eu’, e tornarmo-nos extremamente cientes da construção das limitações e sua transitoriedade, então essa mesma consciência traz a sua dissolução; e nisso há o permanente. A qualidade desta permanência não pode ser descrita, nem ninguém a pode buscar. Ela  surge com o discernimento do processo transitório do ‘Eu’. A realidade do permanente pode apenas acontecer, ter lugar, e não pode ser cultivada. Ou alguém está buscando o permanente, algo que é durável, além dele mesmo, ou está tentando tornar-se no permanente. Ambas as concepções estão erradas. Se você está buscando o eterno além de você mesmo, então você é compelido a criar e ser apanhado em ilusões, que lhe irão oferecer apenas meios de escapar da realidade, e nisto não pode haver compreensão do que é. O indivíduo deve estar ciente de si mesmo e, conhecendo-se a si mesmo, ele irá então ser capaz de discernir se existe permanência ou não. A nossa busca pelo eterno deve levar-nos à ilusão; mas se, através de esforço e experiencia vigorosos, pudermos compreender a nós mesmos profundamente e discernir o que somos, então somente pode haver o surgimento do permanente – não a permanência de algo externo a nós mesmos, mas aquela realidade que surge quando o processo transitório do ‘Eu’ não mais se perpetua.

Para muitos, o que digo permanecerá uma teoria, será vago e incerto; mas se você discernir a sua validade ou aceitá-lo como uma hipótese, não como uma lei ou como um dogma, então você pode compreender o seu significado ativo na vida diária. A nossa moralidade, conduta, conceitos, e desejos são baseados fundamentalmente no desejo por auto perpetuação. O ego não é senão o resultado de memórias acumuladas, que causa fricção entre ela mesma e o movimento da vida, entre os valores definidos e indefinidos. Esta mesma fricção é o processo do ‘Eu’, e não pode se tornar o eterno. Se pudermos compreender isto fundamentalmente, completamente, então toda a nossa atitude e esforço terão um significado e propósito diferentes.

Existem dois tipos de vontade: a vontade que nasce do desejo, querer, desejar, e a vontade que é de discernimento, compreensão. A vontade que é o resultado de desejo, está baseada no esforço consciente de aquisição, quer seja aquisição do querer, ou aquela do não-querer. Este esforço, consciente ou inconsciente, de querer, desejar, cria todo o processo do ‘Eu’, e disto surge a fricção, tristeza, e a consideração da vida futura. Deste processo surge também o conflito entre os opostos, e portanto, a batalha constante entre o essencial e o não essencial, escolha e não escolha. E deste processo, surgem as várias paredes auto protetoras de limitação, que impedem a compreensão real dos valores indefinidos. Agora, se estamos conscientes deste processo, conscientes de que desenvolvemos uma vontade através do desejo de adquirir, possuir, e que essa vontade está criando conflito contínuo, sofrimento, dor, então surge, sem esforço consciente, a compreensão da realidade, que pode ser chamada de permanente.

Discernir que o querer está presente onde há ignorância, e portanto traz sofrimento, e ainda assim não deixar a mente se treinar a não querer, é uma tarefa muito vigorosa e difícil. Podemos discernir que possuir, adquirir, cria sofrimento e perpetua a ignorância, que o movimento de desejar impede discernimento claro. Se você pensar sobre isso, perceberá que é assim. Quando não há nem querer nem não querer, existe então a compreensão do que é o permanente. Este é um estado muito difícil e sutil de se compreender; ele requer esforço correto e vigoroso para não ser apanhado entre os opostos, renúncia e aceitação. Se formos capazes de discernir que opostos são errados, que eles devem levar ao conflito, então esse mesmo discernimento, essa mesma consciência, traz esclarecimento. Falar sobre isto é muito difícil, como qualquer símbolo que alguém possa usar deve despertar, na mente, um conceito, que tem em si o oposto. Mas se conseguirmos discernir completamente que, através de nossa própria ignorância, criamos tristeza, então não há o estabelecer do processo do oposto.

Discernir exige esforço correto, e apenas neste esforço correto, existe a compreensão do permanente.

Interrogante: Todas as pessoas inteligentes são contra a guerra, mas você é contra guerra defensiva, como quando uma nação é atacada?

Krishnamurti: Considerar uma guerra como defensiva e ofensiva nos levará apenas a mais confusão e miséria. O que devemos questionar é matar, quer na guerra ou através de exploração. O que é, afinal, uma guerra defensiva? Por que uma nação ataca outra? Provavelmente a nação que é atacada provocou esse ataque através de exploração econômica e ganância. Se lidarmos com a questão da guerra como defensiva e ofensiva, nunca devemos chegar a qualquer solução satisfatória e verdadeira; devemos lidar apenas com preconceitos aquisitivos. Existe tal coisa como morrer voluntariamente por uma causa, mas que um grupo de pessoas deva enviar outros seres humanos para serem treinados para matar e ser mortos, é mais bárbaro e desumano. Vocês nunca perguntarão esta questão sobre a guerra – na qual há a regimentação do ódio, mecanizando o homem através de disciplina militar – e se é correto matar, em defesa ou em agressão, se vocês conseguem discernir, por vós mesmos, a verdadeira natureza do homem.

Do meu ponto de vista, matar é fundamentalmente mau, como é mau explorar outra pessoa. A maioria de vós está horrorizada com a ideia de matar, mas quando há a provocação, vocês estão em pé de guerra. Essa provocação vem por meio de propaganda, por meio do apelo às vossas falsas emoções de nacionalismo, família, honra e prestígio, que são palavras sem profundo significado; elas não são senão absurdos aos quais vocês se acostumaram e através dos quais exploram e são explorados. Se vocês pensarem sobre isto profundamente e verdadeiramente, então vocês ajudarão a demolir todas essas causas que criam ódio, exploração, e ultimamente levam a guerra, quer seja chamada de ofensiva ou defensiva.

Vocês parecem não sentir nenhuma resposta vital a tudo isto. Alguns de vós, sendo treinados na religião, provavelmente muitas vezes repetem a frase que devemos amar o próximo. Mas contra outros, vocês tem tais preconceitos profundamente enraizados de nacionalismo e de distinções raciais, perdendo assim a resposta humana e afetuosa. Somos tão orgulhosos de ser um Americano ou pertencer a alguma raça particular; a distinção de classe e raça é tão falsamente e rudemente estimulada em cada um de nós, que desprezamos estrangeiros, Judeus, Negros, ou Asiáticos. Até que estejamos livres desses preconceitos absurdos e infantis, guerras de vários tipos existirão. Se vocês, que ouvem com discernimento essas palestras, sentirem e agirem com compreensão, e portanto, se libertam dessas ideias limitadoras, prejudiciais, e perniciosas, então há uma possibilidade de ter um mundo feliz e pacífico. Isto não é mero sentimento; mas, como esta questão da exploração e assassínio preocupa cada um de vós, vocês têm de fazer esforços vigorosos para libertar a vossa mente dessas ideias auto impostas de segurança e perpetuação individual, que criam confusão e miséria.

Interrogante: Não devemos ter alguma ideia do que é ação pura? Meramente se tornar consciente, mesmo profundamente consciente, parece ser um estado negativo de consciência. Não é consciência positiva essencial para ação pura?

Krishnamurti: Você quer que eu descreva, para você, o que é ação pura; tal descrição, você iria chamar de ensino positivo. Ação pura é para ser discernida por cada um, individualmente, e não pode haver uma substituição do verdadeiro pelo falso. Discernimento do falso origina ação verdadeira. Mera substituição ou ter uma noção de ação pura, deve inevitavelmente levar a imitação, frustração, e às muitas práticas que destroem a verdadeira inteligência. Mas, se vocês discernirem as vossas próprias limitações, então dessa compreensão virá ação positiva.

Se vocês experimentarem isto, verão que não é uma atitude negativa perante a vida; pelo contrário, a única forma de viver positiva, satisfatória, é discernir o processo de ignorância, que deve estar presente onde há desejo, e do qual surge tristeza e confusão. A mente busca uma definição com a qual fazer um molde para si mesma, de forma a escapar dessas reações que causam fricção e dor. Nisto, não há nenhuma compreensão. Disse isto muitas vezes. Interiormente, o processo do ‘Eu’, com suas demandas, desejos, vaidades, e crueldades, persiste e continua. Na compreensão deste processo – não que ela possa vos trazer recompensa, felicidade, mas por si mesma – reside ação verdadeira e clara.

Interrogante: Você disse que as assim chamadas organizações espirituais são obstáculos à obtenção da espiritualidade. Mas, afinal, não residem todos os obstáculos que impedem a realização da vida espiritual em nós mesmos, e não nas circunstâncias externas?

Krishnamurti: A maioria de nós se vira para as assim chamadas organizações espirituais porque elas prometem recompensas; e, como a maioria de nós busca segurança e conforto espiritual, emocional, ou mental, de uma forma ou outra, sucumbimos às suas promessas e tornamo-nos instrumentos de exploração, e somos explorados. Descobrir, por si mesmo, se você é apanhado nesta prisão auto criada, e ser livre de suas influências sutis, demanda grande discernimento e esforço correto. Essas organizações surgem e existem por causa de nosso desejo por nosso próprio bem-estar espiritual egoísta, e nossa continuidade e conforto. Tais organizações não têm nada de espiritual nelas, nem podem elas libertar o homem de sua própria ignorância, confusão, e sofrimento.

Interrogante: Se não é para ter ideais, se devemos ser livres do desejo de nos melhorarmos, de servir Deus e os seres humanos menos afortunados, qual então é o propósito de viver? Por que não apenas morrer e pronto?

Krishnamurti: O que disse em relação a ideais é isto: que eles se tornam um meio conveniente de fuga do conflito da vida, e portanto, eles impedem a compreensão de si mesmo. Nunca disse que vocês não devem ajudar os seres humanos menos afortunados.

Agora, ideais agem meramente como padrões de medida; e, como a vida desafia a medida, a mente deve libertar-se de ideais, para que ela possa compreender o movimento da vida. Ideais são impedimentos, obstáculos. Em vez de meramente aceitar o que digo e, portanto, dizer a vós mesmos que vocês não devem ter ideais, discirnam, por vós mesmos, se eles não perturbam a vossa compreensão. Quando a mente se liberta de preconcepções, explicações, e definições, então ela está pronta a confrontar a causa de seu próprio sofrimento, sua própria ignorância, e sua própria existência limitada. Então, a mente deve estar preocupada com o próprio sofrimento, e não com o que ela pode obter da vida. A mera busca de ideais, o desejo por felicidade, a busca da verdade, Deus, é uma indicação de fuga do movimento da vida. Não se preocupem com qual é o objeto do viver, mas tornem-se conscientes e discirnam a causa do sofrimento; e, na dissolução dessa causa, existe compreensão do que é.

Interrogante: Poderia, por favor, explicar o que você quer dizer com a afirmação de que, mesmo a contabilidade pode ser criativa? A maioria de nós pensa que apenas trabalho construtivo é criativo.

Krishnamurti: Não é uma matéria de como você considera o trabalho, quer seja escrituração, o cultivo da terra, escrever livros, ou pintar quadros? Para um homem que é preguiçoso e desinteressado, todo o trabalho se torna não criativo. Por que perguntar o que é e o que não é trabalho criativo, se pintar um quadro é mais criativo do que escrever à máquina? Realizar é ser inteligente; e, para despertar a inteligência, deve haver esforço correto. Esta vigorosidade não pode ser artificial; viver não deve ser dividido em trabalho e realização interior. Trabalho e vida interior devem estar unidos. A própria alegria do esforço correto abre a porta para a inteligência. O discernimento do processo do ‘Eu’ é o começo da realização.

17 de maio de 1936

 

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