Inicial

01/08/1937 – T

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=145&chid=4504&w=

 

Primeira palestra em Ommen

No meio de todas as circunstâncias mutáveis da vida, existe alguma coisa permanente? Existe alguma relação entre nós mesmos e a constante mudança em torno de nós? Se aceitássemos que tudo é mudança, inclusive nós mesmos, então nunca haveria a ideia de permanência. Se pensássemos em nós mesmos como em um estado de contínuo movimento, então não haveria conflito entre as circunstâncias mutantes da vida e a coisa que agora consideramos como sendo permanente.

Existe uma profunda, duradoura esperança ou uma certeza em nós de que existe uma coisa permanente no meio da contínua mudança, e isto dá origem ao conflito. Vemos que a mudança existe em torno de nós. Vemos todas as coisas decaindo, definhando. Vemos cataclismos, guerras, fome, morte, insegurança, desilusão. Tudo a nossa volta está em constante mudança, se tornando e decaindo. Todas as coisas ficam gastas pelo uso. Não há nada permanente a nossa volta. Em nossas instituições, nossas morais, nossas teorias de governo, de economia, de relação social – em todas as coisas há um fluxo, há uma mudança.

E, contudo, no meio desta impermanência, sentimos que existe permanência; estando insatisfeitos com esta impermanência, nós criamos um estado de permanência, dando surgimento ao conflito entre aquilo que se supõe ser permanente e aquilo que está mudando, o transitório. Mas se percebêssemos que todas as coisas, inclusive nós mesmos, o “Eu”, são transitórias e as coisas no ambiente da vida são, também, impermanentes, certamente não haveria este conflito doloroso.

O que é isto que exige permanência, segurança, que anseia por continuidade? É nesta exigência que nossa relação social, moral está baseada.

Se você, realmente, acreditasse ou sentisse profundamente a incessante mudança da vida, então nunca haveria um anseio por segurança, por permanência. Mas porque existe um profundo anseio por permanência, nós criamos um muro fechado contra o movimento da vida.

Assim, o conflito existe entre os valores mutantes da vida e o desejo que busca permanência. Se nós sentíssemos e compreendêssemos profundamente a impermanência de nós mesmos e das coisas deste mundo, então haveria a cessação do conflito penoso, dores e medos. Daí não haveria apego do qual surge a disputa social e individual.

O que é, então, esta coisa que assumiu permanência e está sempre buscando mais continuidade? Não podemos examinar isto inteligentemente até analisarmos e compreendermos a própria capacidade crítica.

Nossa capacidade crítica nasce de preconceitos, crenças, teorias, esperanças e assim por diante, ou daquilo que chamamos experiência. A experiência se baseia na tradição, nas memórias acumuladas. Nossa experiência está sempre tingida pelo passado. Se você crê em Deus, talvez possa ter tido o que você chama de experiência divina. Certamente esta não é uma experiência verdadeira. Foi registrado em nossas mentes durante séculos que existe Deus, e por esse condicionamento nós temos uma experiência. Esta não é uma experiência verdadeira, de primeira mão.

Uma mente condicionada agindo de modo condicionado não pode experimentar completamente. Tal mente é incapaz de experimentar integralmente a realidade ou a não-realidade de Deus. Do mesmo modo, uma mente que já é preconceituosa por um desejo consciente ou inconsciente pelo permanente, não pode compreender integralmente a realidade. Para tal mente preconceituosa toda investigação é, meramente, um reforço daquele preconceito.

A busca e o anseio por imortalidade é o impulso de memórias acumuladas da consciência individual, o “Eu”, com seus medos e esperanças, amores e ódios. Esse “Eu” se quebra em muitas partes conflitantes: o mais elevado e o mais inferior, o permanente e o transitório, e assim por diante. Este “Eu”, em seu desejo de se perpetuar, busca e usa formas e meios para se fortalecer.

Talvez alguns de vocês digam para si mesmos: “Certamente com o desaparecimento destes anseios, deve estar a realidade”. O próprio desejo de saber se existe algo além da consciência conflituosa da existência é uma indicação de que a mente está em busca de uma segurança, uma certeza, um prêmio pelos seus esforços.

Nós vemos como a resistência contra o outro é criada, e essa resistência pelas memórias acumulativas, pela experiência, é mais e mais fortalecida, tornando-se mais e mais consciência de si mesmo. Assim, há sua resistência pessoal e a do seu vizinho, da sociedade. O ajustamento entre duas ou mais resistências é chamado relacionamento, sobre o qual a moralidade é construída.

Onde existe amor, não existe a consciência da relação. Apenas num estado de resistência pode haver esta consciência da relação, que é meramente um ajustamento de conflitos opostos.

O conflito não é apenas entre várias resistências, mas também dentro de si, dentro da própria qualidade de permanente e impermanente.

Existe alguma coisa permanente nesta resistência? Nós vemos que a resistência pode se perpetuar pela ganância, pela ignorância, pelo anseio consciente ou inconsciente de experiência. Mas, certamente, esta continuidade não é o eterno; ela é, meramente, a perpetuação do conflito. O que chamamos de permanente na resistência é apenas parte de resistência em si e, portanto, do conflito.

Onde existe incompletude, a não-realização, há o anseio por continuidade que cria resistência, e confere a qualidade da permanência. A coisa a que a mente se prende como permanente é em sua própria essência o transitório. É o resultado de ignorância, medo e anseio. Se entendermos isto, então vemos que o problema não é aquele de uma resistência em conflito com outra, mas como essa resistência surge e como ela é para ser dissolvida. Quando enfrentamos este problema profundamente, há um novo despertar, um estado que pode ser chamado de amor.

1 de agosto de 1937

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: