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03/08/1937 – T

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=146&chid=4505&w=

 

Segunda Palestra em Ommen

O conflito, invariavelmente, surge quando há um centro estático dentro da pessoa, e em torno dela há valores que mudam. Este centro estático deve estar em luta com a qualidade natural da vida.

Mudança implica que não existe nada permanente em que a mente possa se fixar, mas ela deseja, constantemente, se prender a alguma forma de segurança. A forma de fixação passa por constante mudança, e esta mudança é considerada progresso, mas a fixação continua.

Ora, esta mudança implica que não pode haver centro pessoal que fica acumulando, armazenando memórias como defesas e virtudes, nenhum centro que está constantemente juntando para si experiências, lições para o futuro. Embora, intelectualmente, possamos captar isto, emocionalmente cada pessoa se prende a um centro pessoal, estático, identificando-se com ele. Na realidade não existe um centro como o “Eu” com suas qualidades permanentes. Devemos compreender isto integralmente, não intelectualmente apenas, se vamos alterar fundamentalmente nossa relação com nosso vizinho, a qual se baseia em ignorância, medo, desejos.

Agora nós, cada um de nós, pensamos que este centro, de onde a maior parte de nossa ação acontece – nós pensamos que este centro é impermanente?

O que pensar significa para você? Você é, meramente, estimulado por minha descrição, por uma explicação que você examinará intelectualmente no seu lazer e transformará em padrão, em princípio para ser seguido e vivido? Tal método produz um viver integral? A simples explicação do sofrimento não o faz desaparecer, nem seguir um princípio ou um padrão, mas o que o destrói é pensamento integral e emoção.

Se você não está sofrendo, então a descrição do outro sobre sofrimento – sua explicação relativa a ele – pode, no momento, ser estimulante e pode fazer você pensar que devia sofrer. Mas tal sofrimento não tem significação.

Há dois modos de pensar. Um é por meio de estimulação intelectual simplesmente, sem nenhum conteúdo emocional; mas quando as emoções são mexidas profundamente, há um processo de pensamento integral que não é superficial, intelectual. Só este pensamento-emoção integral pode gerar compreensão duradoura e ação.

Se o que estou dizendo atua, meramente, como estimulação, então surge a questão de como aplicar isto a sua vida diária com suas dores e conflitos. O como, o método, só se torna importante quando explicações e estimulações empurram você para uma ação particular. O como, o método, deixa de ser importante apenas quando você está consciente, integralmente.

Quando a mente revela a si seus próprios esforços de medos e desejos, então surge a consciência integral de sua própria impermanência, o que pode libertar a mente de seus labores obrigatórios. A menos que isto esteja acontecendo, toda estimulação se torna mais escravidão.

Todas as qualidades artificialmente cultivadas dividem; todo cultivo intelectual de moralidade, ética, é cruel, nascido do medo, só criando mais resistência do homem contra o homem.

A qualidade da resistência é ignorância. Estar familiarizado com muitas teorias intelectuais não é liberdade da ignorância. Um homem que não está integralmente cônscio do processo de sua própria mente é ignorante.

Libertar o pensamento da ganância através da disciplina, da vontade, não é livramento da ignorância, pois ele está, ainda, preso no conflito dos opostos. Quando o pensamento percebe integralmente que o esforço para livrar-se da ganância é, também, parte da ganância, então há um início da iluminação.

Qualquer que seja o esforço que a mente faz para livrar-se de certas qualidades, ela está ainda presa na ignorância; mas quando a mente discerne que todo esforço que ela faz para se libertar faz parte ainda do processo da ignorância, então há uma possibilidade de romper o círculo vicioso da ignorância.

A vontade de satisfação fragmenta a mente em muitas partes, cada uma em conflito com a outra, e esta vontade não pode ser destruída por uma vontade superior, que não é nada além de outra vontade de satisfação. Este círculo de ignorância rompe, por assim dizer, só quando a mente deixa de ser gananciosa.

A vontade de satisfação destrói o amor.

Interrogante: Como nós vamos distinguir entre revelação, que é pensamento verdadeiro, e experiência? Para mim, a experiência, devido a nossos falsos métodos de viver, se torna limitada e, assim, não é revelação pura. Elas deveriam ser uma só.

Interrogante: Você quer dizer que experiência é uma memória, uma memória de alguma coisa feita?

Krishnamurti: A experiência pode condicionar mais o pensamento ou pode soltá-lo das limitações; nós experimentamos de acordo com nosso condicionamento, mas esse condicionamento pode ser rompido, o que pode conferir ao ser inteiro da pessoa uma liberdade integral. A moralidade, que devia ser espontânea, foi feita para se seguir um padrão, um princípio que se torna certo ou errado de acordo com as crenças que se abraça. Para alterar este padrão alguns recorrem à violência, esperando criar um padrão “verdadeiro”, e outros se voltam para a lei para reformá-lo. Ambos esperam criar moralidade “certa” através de força e conformismo. Mas tal coação não é mais moralidade.

A violência sob alguma forma é considerada necessária para um fim pacífico. Nós não vemos que o fim é controlado e talhado pelos meios que empregamos.

A verdade é uma experiência desassociada do passado. O apego ao passado com suas memórias, tradições, é a continuação de um centro estático que impede a experiência da verdade.

Quando a mente não está sobrecarregada com crença, com desejo, com apego, quando ela está criativamente vazia, então existe uma possibilidade de experimentar a realidade.

3 de agosto de 1937.

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