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08/08/1937 – T

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Sexta Conversa em Ommen

O relacionamento pode ser limitado, entre dois indivíduos, ou pode ser com muitos, em uma esfera cada vez mais abrangente. Limitado ou abrangente, a importância reside no caráter de relacionamento.

O que queremos dizer com relação? É um ajuste entre dois desejos individualistas. Nessa relação há conflito de ambições opostas, apegos, esperanças, quereres. Assim, quase todos os relacionamentos se tornam de tensão e conflito. Há relação não só com pessoas e valores externos, mas também com esses valores e concepções dentro de nós.

Estamos conscientes dessa disputa entre amigos, entre vizinhos, entre nós e a sociedade. Esse conflito deve continuar? Podemos ajustar nosso relacionamento com o outro de maneira tão astuta que nunca entremos vitalmente em contato com cada um; ou o ajuste sendo impossível, duas pessoas podem ser obrigadas a separar. Mas, enquanto houver qualquer tipo de atividade, deve haver uma relação entre o indivíduo e a sociedade, que pode ser um ou muitos. O isolamento só é possível num estado completo de neurose. A menos que alguém aja mecanicamente, não pensando e não sentindo, ou esteja tão condicionado que existe apenas um padrão de pensamento e de sentimento, toda relação é de ajustamento – seja de contenda e resistência, ou de complacencia.

O amor não é de relacionamento nem de ajuste; é de uma qualidade totalmente diferente.

Pode esta disputa no relacionamento nunca cessar? Não podemos, por mera experiência, criar um relacionamento sem conflitos. A experiência é uma reação ao condicionamento prévio que na relação produz conflito. A mera dominação do meio ambiente com seus valores sociais, hábitos e pensamentos, não pode trazer um relacionamento livre de conflitos.

Há conflito entre as influências condicionantes do desejo e a rápida e viva corrente do relacionamento. Não é, como a maioria das pessoas pensa, o relacionamento que é limitante, mas é o desejo que condiciona. É desejo, consciente ou inconsciente, que está sempre causando atrito no relacionamento.

O desejo brota da ignorância. O desejo não pode existir independentemente; ele deve alimentar-se do condicionamento prévio, que é a ignorância. A ignorância pode ser dissipada. É possível. A ignorância consiste em muitas formas de medo, de crença, de querer, de apego. Estes criam conflito no relacionamento.

Quando estamos integralmente conscientes do processo de ignorância, voluntariamente, espontaneamente, há o início dessa inteligência que atende a todas as influências condicionantes. Estamos preocupados com o despertar desta inteligência, deste amor, que sozinho pode libertar a mente e o coração das contendas.

O despertar desta inteligência, este amor, não é o resultado de uma moralidade disciplinada e sistematizada, nem é uma conquista a ser buscada, mas é um processo de consciência constante.

Interrogante: O relacionamento também é um contato entre hábitos, e por hábito há a continuidade da atividade.

Krishnamurti: Na maioria dos casos, a ação é o resultado do hábito, o hábito baseado na tradição, nos padrões de pensamento e desejo, e isso dá à ação uma continuidade aparente. Geralmente, então, o hábito regulamenta nossa ação e relacionamento.

A ação é meramente um hábito? Se a ação é o resultado do mero hábito mecânico, então deve levar à confusão e ao sofrimento. Da mesma forma, se a relação é meramente o contato de dois hábitos individualizados, então toda essa relação é sofrimento. Mas, infelizmente, reduzimos todos os contatos uns com os outros para um padrão maçante e cansado através da incapacidade de ajuste, através do medo, por falta de amor.

O hábito é a repetição consciente ou inconsciente de ação que é guiada pela memória de incidentes passados, de tradição, de padrões de desejo de pensamento, e assim por diante. Muitas vezes se percebe que se está vivendo em um estreito sulco de pensamento e, rompendo com ele, desliza para outro. Esta mudança de hábito para hábito é muitas vezes chamado progresso, experiência ou crescimento.

A ação, que uma vez pode ter seguido a plena consciência, muitas vezes torna-se habitual, sem pensamento, sem qualquer profundidade de sentimento.

A relação verdadeira pode existir quando a mente está meramente seguindo um padrão?

Interrogante: Mas há uma resposta espontânea, que não é hábito.

Krishnamurti: Sim, sabemos disto, mas tais ocasiões são raras, e gostaríamos de estabelecer uma relação de espontaneidade. Entre o que gostaríamos de ser e o que somos, há uma grande lacuna. O que gostaríamos de ser é uma forma de apego ambicioso que não tem significado para quem procura a realidade. Se pudermos entender o que somos, talvez possamos saber o que ela é.

A relação verdadeira pode existir quando a mente está meramente seguindo um padrão? Quando se tem consciência daquele estado chamado amor, há uma relação dinâmica que não é de um padrão, que está além de todas as definições e cálculos mentais. Mas, através da influência condicionante do medo e do desejo, tal relação é reduzida à mera gratificação, ao hábito, à rotina. Tal estado não é relação verdadeira, mas uma forma de morte e decadência. Como pode haver verdadeira relação entre dois padrões individualizados, embora possa haver resposta mecânica de cada um?

Interrogante: Há um ajuste contínuo entre esses dois hábitos.

Krishnamurti: Sim, mas esse ajuste é meramente mecânico, que o conflito e o sofrimento impõem; tal imposição não quebra o desejo fundamental de formar padrões de hábito. As influências externas e as determinações internas não desagregam a formação do hábito, mas apenas ajudam no ajustamento superficial e intelectual que não favorece a relação verdadeira.

Esse estado de padrões, de ideais, de conformidade, é contributivo para a realização, à vida e à ação criativas e inteligentes? Antes de podermos responder a esta pergunta, percebemos ou estamos conscientes desse estado? Se não estamos conscientes disso, não há conflito; mas, se estamos, então há ansiedade e sofrimento. A partir disto tentamos escapar ou tentar quebrar velhos hábitos e padrões. Ao superá-los, um só cria outros; o desejo de mera mudança é mais forte do que o desejo de estar consciente de todo o processo de formação do hábito dos padrões. Assim, passamos do hábito ao hábito.

Interrogante: Sim, eu sei que o hábito é tolo, mas posso me desprender dele?

Krishnamurti: Antes que você me pergunte como superar um hábito particular, vamos descobrir o que é a coisa que está criando hábito, porque você pode romper com um hábito, um padrão, mas nesse processo você pode estar formando outro. Isto é o que geralmente fazemos, vamos de um hábito para outro. Continuaremos fazendo isso indefinidamente a menos que descubramos por que é que a mente sempre procura formar hábitos, seguir padrões de desejo de pensamento.

Toda relação verdadeira requer atenção constante e ajuste não de acordo com o padrão. Onde há hábito, o seguimento de padrões, ideais, este estado de flexibilidade é impossível. Ser flexível exige constante pensamento e afeição, e como a mente acha que é mais fácil estabelecer padrões de comportamento do que estar ciente, ela passa a formar hábitos; e quando é abalada por algum particular, através de aflição e incerteza, move-se para outro. O medo por sua própria segurança e conforto obriga a mente a seguir padrões de desejo de pensamento. A sociedade torna-se, portanto, a criadora do hábito, dos padrões, dos ideais, pois a sociedade é o próximo, a relação imediata com a qual alguém está sempre em contato.

8 de agosto de 1937

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