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10/08/1937 – T

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Oitava Palestra em Ommen

O ódio não é dissolvido pela experiência, nem por qualquer acumulação de virtude, nem pode ser superado pela prática do amor. Tudo isso apenas encobre o medo, o ódio. Esteja consciente disso, e então haverá uma tremenda transformação em sua vida.

Interrogante: Que relação tem a ilusão deste desenvolvimento psicológico com o desenvolvimento que vemos a nossa volta?

Krishnamurti: Vemos que aquilo que é capaz de desenvolvimento não é duradouro. Mas em relação ao nosso desenvolvimento psicológico, nós nos apegamos como algo permanente. Se sentíssemos profundamente e, assim, estivéssemos conscientes de que todas as coisas estão em contínua mudança, em constante se tornar, então, talvez, fôssemos capazes de nos libertar do conflito que existe em nós e, consequentemente com o vizinho, com a sociedade.

Interrogante: Parece-me que eu não posso pular do ódio para o amor, mas eu posso transformar minha antipatia lentamente em um sentimento de compreensão e gosto.

Krishnamurti: Nós não podemos limpar a mente do condicionamento passado e começar novamente, mas podemos estar conscientes daquilo que sustenta o medo, o ódio. Podemos estar conscientes das causas psicológicas e reações que nos impedem de agir integralmente. O passado nos domina com suas crenças, esperanças, medos, conclusões, memórias – isso nos impede da ação integral. Não podemos varrer o passado, pois, em sua essência, a mente pertence ao passado. Mas estando consciente das acumulações do passado e de seu efeito no presente, poderemos começar a nos libertar sem violência daqueles valores que mutilam a mente e o coração.

O passado com suas influências dominantes, medos, é um problema crítico para você pessoalmente?

A vida como ela é, gerando guerras, ódios, divisões, privando de unidade – isso é um problema para você? Se for, então, você como parte dela só a compreenderá através de seus próprios sofrimentos, ambições, medos. O mundo é você, e o problema dele é seu problema pessoal. Se for um problema crítico, como espero que seja para cada um de vocês, então você não escapará por meio de teorias, explicações, “fatos”, ilusões. Mas isso requer grande vigilância – deve-se estar intensamente cônscio – e preferimos o caminho mais fácil, o caminho da fuga. Como você pode resolver esse problema se sua mente e coração estão sendo desviados dele?

Eu não afirmo que esse problema é simples. Ele é complexo. Assim, você deve dedicar sua mente e coração a ele. Mas como dedicar todo o seu ser se você foge dele, se você se desvia por meio de várias fugas que a mente estabeleceu para si mesma?

Interrogante: Mas nós não vemos isso no momento da fuga.

Krishnamurti: Estamos tentando compreender a nós mesmos, abrir os cantos ocultos da mente, ver as diversas saídas, de modo que, espontaneamente, poderemos encarar a vida profunda e plenamente. Qualquer meio de dominar um hábito com outro – dominar o ódio com a virtude – é uma substituição, e o cultivo de opostos não suprime aquelas qualidades de que queremos nos livrar. Temos que perceber o ódio, não como a antítese do amor, mas como nocivo em si mesmo, um mal.

Interrogante: Você não acha que podemos ver as diferentes fugas? Podemos ver que o ódio é nocivo, e ao mesmo tempo sabemos que seguimos com ele. Mas acho que, se o compreendêssemos plenamente, aí íamos querer largar tudo – casa, esposa, tudo; devemos nos cumprimentar e dizer adeus e ir para um campo de concentração.

Krishnamurti: Não pense nas consequências de ficar livre do ódio, mas considere se você pode se libertar dele. Você diz para si mesmo que é incapaz de se livrar do ódio?

Interrogante: Nós só podemos tentar; não sabemos.

Krishnamurti: Por que você afirma que não sabe?

Interrogante: Porque não é nosso problema atual.

Krishnamurti: Embora o ódio exista no mundo, em você e a sua volta, você ainda diz que ele não é um problema crítico para você. Você não está consciente dele. Por que não está consciente dele? Ou você está livre dele ou se defendeu tanto, se protegeu tão astutamente, que você não tem medo, nem ódio, pois está certo de sua própria segurança.

Interrogante: Nós não sentimos ódio nesse momento.

Krishnamurti: Quando você não está aqui, então você sente, então ele é um problema para você. Aqui você escapou dele momentaneamente, mas o problema ainda existe. Você não pode fugir dele, aqui ou em qualquer outro lugar; ele é um problema para você, queira você ou não. Embora seja um problema, você o colocou de lado, se tornou inconsciente dele. E, por isso, você diz que não sabe como agirá em relação a ele.

Interrogante: Muitas vezes nós desejamos que a própria vida agisse diretamente e afastasse aquelas coisas que estimamos embora saibamos de sua inutilidade. Isso também é uma fuga?

Krishnamurti: Algumas pessoas parecem aliviadas em tempo de guerra. Elas não têm responsabilidades; suas vidas são direcionadas pelo ofício da guerra. Aí reside uma das principais razões por que a autoridade, temporal ou espiritual, floresce e é adorada. A morte é preferível à vida.

Nós fomos treinados para considerar que o ódio é inevitável, que devemos passar por esse estágio; que é parte da herança humana, instinto.

Nós nos acostumamos a pensar que o ódio não pode ser eliminado imediatamente, que devemos passar por algum tipo de disciplina para superar o ódio. Assim, há um processo dual acontecendo dentro de nós, violência e paz, ódio e afeição, raiva e benevolência. Nosso esforço segue na direção de atravessar essas duas forças separadas, ou dominar uma com a outra, ou se concentrar em uma de modo que a outra desaparecerá.

Qualquer esforço que você faça para destruir o ódio com amor é inútil, pois violência, medo se revelam sob outra forma. Nós temos que ir muito mais profundamente do que a mera disciplina; temos que descobrir por que esta dualidade de ódio e afeição existe em nós. Até este processo dual cessar, o conflito de opostos vai existir.

Interrogante: Talvez o ódio não me pertença realmente?

Interrogante: Então nosso amor é muito pobre?

Krishnamurti: Essas perguntas são muito reveladoras; elas mostram como a mente está condicionada. Qualquer esforço que a mente faça, deve ser parte daquilo de que ela está tentando fugir.

A mente acha que não paga pelo ódio, pois descobriu que há muito sofrimento envolvido nele e, assim, ela faz um esforço para se disciplinar, para superar o ódio com amor, subjugar violência e medo com paz. Tudo isso indica o desejo fundamental de simplesmente fugir do sofrimento; ou seja, se resguardar naquelas virtudes e qualidades que não lhe causarão dor, que não causarão perturbação. Até esse desejo, esse anseio por segurança autoprotetora cessar, o medo deve continuar com todas as suas consequências. A mente não pode se livrar do medo. Em suas tentativas para fazê-lo, ela cultiva os opostos, o que é parte do próprio medo. Assim a mente se divide, criando em si um processo dual. Todo esforço por parte da mente mantém essa dualidade, embora ele possa desenvolver tendências, características, virtudes, para superar essa própria dualidade.

Interrogante: Eu não vejo bem como a mente se dividiu entre amor e ódio.

Krishnamurti: Existe bem e mal, a luz e a escuridão. Luz e escuridão não podem existir juntas. Uma destrói a outra.

Se luz é luz, então escuridão, o mal, deixa de existir. O esforço não é necessário, ele é, então, não-existente. Mas nós estamos em um estado de esforço contínuo porque isso que para nós é luz, não é luz – é apenas a luz, o bem, do intelecto.

Ficamos fazendo esforço constante para superar, adquirir, possuir, nos apegar, nos expandir. Há momentos de clareza no meio da confusão. Desejamos essa clareza e nos prendemos nela, esperando que dissolva os desejos conflitantes. Esse desejo de clareza, esse desejo de superar uma qualidade com outra, é perda de energia; pois o desejo que anseia, o desejo de subjugar, é o desejo de sucesso, satisfação, o desejo de segurança. Esse desejo deve continuar criando e mantendo o medo, mesmo que afirme buscar a verdade, Deus. Sua clareza é a clareza da fuga, da ilusão, mas não a clareza da realidade. Quando a vontade se destrói espontaneamente, então surge aquela verdade que está além de todo esforço. Esforço é violência, amor e violência não podem existir ao mesmo tempo.

O conflito em que existimos não é uma disputa entre bem e mal, entre o ego e o não-ego. A disputa está em nossa própria dualidade autocriada, entre nossos vários desejos autoprotetores. Não pode haver um conflito entre luz e escuridão; onde a luz está, a escuridão não está. Enquanto o medo existir, o conflito deve continuar, embora esse medo possa se disfarçar sob diferentes nomes. E, como o medo não pode se libertar por meio de coisa alguma, pois todos os seus esforços nascem de sua própria fonte, deve haver a cessação de todas as defesas intelectuais. Essa cessação chega, espontaneamente, quando a mente revela a si mesma seu próprio processo. Isso só acontece quando há consciência integral, que não é o resultado de uma disciplina, ou de um sistema moral ou econômico, ou de coação.

Cada pessoa tem que se tornar consciente do processo da ignorância, das ilusões que criou.

O intelecto não pode tirar você do caos atual, da confusão, do sofrimento. A razão tem que se exaurir, não pelo retraimento, mas pela compreensão integral e amor da vida.

Quando a razão não tem mais a capacidade de protegê-lo pelas explicações, fugas, conclusões lógicas, então, quando há completa vulnerabilidade, total desnudamento de todo o seu ser, surge a chama do amor.

Só a verdade pode libertar cada ser do sofrimento e da ignorância. A verdade não é o fim da experiência, é a própria vida. Ela não está no amanhã, não pertence ao tempo. Não é um resultado, uma aquisição, mas a cessação do medo, do querer.

10 de agosto de 1937.

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