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04/08/1938 – T

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Primeira Palestra em Ommen

Você já tentou comunicar a um amigo aquilo que sente muito profundamente? Você deve ter achado muito difícil, conquanto íntima essa amizade possa ser. Você pode imaginar quão difícil é para nós aqui compreender uns aos outros, pois nossa relação é peculiar. Não existe aquela amizade que é essencial para a comunicação profunda e a compreensão. A maioria de nós tem a atitude ou de um discípulo em relação ao mestre, ou de um seguidor, ou daquele que tenta impor a si um determinado ponto de vista, e a comunicação se torna muito difícil. É mais complicado se você tem uma atitude propagandista, se você chega meramente a fim de propagar certas ideias de uma sociedade ou seita particular, ou uma ideologia que é popular no momento. A livre comunicação só é possível quando quem escuta e quem fala estão pensando juntos no mesmo ponto.

Ao longo desses dias do acampamento não deve haver essa atitude de um mestre e um discípulo, de um líder e um seguidor, mas antes uma comunicação amistosa um com o outro, o que é impossível se a mente estiver presa em alguma crença ou alguma ideologia. Não existe amizade entre um líder e um seguidor e, assim, a profunda comunicação entre eles é impossível.

Estou falando de uma coisa que para mim é real, em que tenho alegria, e será de pouca significação para você se estiver pensando sobre uma coisa completamente diferente. Se pudermos, de algum modo, ir além dessa absurda relação que estabelecemos pela tradição e pela lenda, pela superstição e todos os tipos de fantasias, então talvez sejamos capazes de compreender um ao outro naturalmente.

O que quero dizer parece, ao menos para mim, muito simples, mas quando esses pensamentos e sentimentos são colocados em palavras, eles se tornam complicados. A comunicação se torna mais difícil quando você, com seus preconceitos particulares, superstições e barreiras, tenta perceber o que estou tentando dizer, em vez de procurar afastar de sua própria mente aquelas perversões que impedem a compreensão integral que pode gerar uma atitude crítica e afetuosa.

Como você sabe, este acampamento não tem propósitos de propaganda, de direita ou de esquerda, ou de alguma sociedade ou ideologia particular. Sei que há muitos aqui que vem regularmente ao acampamento para fazer propaganda para suas sociedades, sua nacionalidade, sua igreja e assim por diante. Assim, eu, seriamente, lhes peço que não se permitam esse tipo de passatempo. Estamos aqui com propósitos mais sérios. Aqueles que têm um desejo por esse tipo de passatempo encontram muitas oportunidades em outros lugares. Aqui, pelo menos, vamos tentar descobrir o que nós, individualmente, pensamos e sentimos, e então, talvez, começaremos a compreender o caos, o ódio que existe em nós e a nossa volta.

Cada um de nós tem muitos problemas: se devia se tornar pacifista, ou até onde poderia ir em relação ao pacifismo; se deveria lutar por seu país; problemas sociais e econômicos, e os problemas de crença, conduta e afeto. Não vou dar uma resposta que resolverá esses problemas imediatamente. Mas o que eu gostaria de fazer é mostrar uma nova abordagem para eles, de modo que quando estiverem frente a frente com esses problemas de nacionalismo, guerra, paz, exploração, crença, amor, sejam capazes de enfrentá-los integralmente e de um ponto de vista que seja real.

Então, por favor, no início dessas palestras, não esperem uma solução imediata para seus vários problemas. Sei que a Europa é um perfeito hospício onde se fala de paz e, ao mesmo tempo, se prepara a guerra, onde as fronteiras e o nacionalismo estão sendo reforçados ao mesmo tempo em que se fala da unidade humana; fala-se de Deus, de amor e, ao mesmo tempo, o ódio é exaltado. Esse não é só o problema do mundo, mas seu próprio problema, pois o mundo é você.

Para enfrentar esses problemas você deve estar incondicionalmente livre. Se você está comprometido, ou seja, de algum modo você tem medo, não pode resolver qualquer desses problemas. Apenas em liberdade incondicional existe verdade; isto é, só nessa liberdade você pode ser você mesmo verdadeiramente. Ser completo em todo o seu ser é ser incondicionado. Se, de algum modo, em alguma questão, você tem dúvida, anseio, medo, isso cria uma mente condicionada que impede a solução fundamental dos muitos problemas.

Quero explicar de que maneira abordar a liberdade do condicionamento, do medo, de modo que você possa ser você mesmo em todas as horas e sob todas as circunstâncias. Esse estado sem medo é possível, e só nele pode haver êxtase, realidade, Deus. A menos que se esteja totalmente, integralmente livre do medo, os problemas simplesmente aumentam e se tornam sufocantes, sem nenhum significado ou propósito.

Isto é o que quero dizer: que só em liberdade incondicional existe verdade, e ser totalmente você mesmo, integral no próprio ser, é ser incondicionado, o que revela a realidade.

Então o que é – ser você mesmo? E podemos ser nós mesmos o tempo todo? A pessoa pode ser ela mesma o tempo todo apenas se estiver fazendo alguma coisa que realmente ama e se amar completamente. Quando você está fazendo uma coisa que não pode se abster de fazer com todo o seu ser, você está sendo você mesmo. Ou quando você ama o outro completamente, nesse estado está sendo você mesmo, sem nenhum medo, sem nenhum obstáculo. Nesses dois estados a pessoa é ela mesma completamente.

Então é preciso descobrir o que se ama fazer. Estou usando a palavra ama deliberadamente. O que você ama fazer com todo o seu ser? Você não sabe. Nós não sabemos o que é sábio fazer e o que é tolice, e a descoberta do que é sábio e do que é tolice é todo o processo de viver. Você não vai descobrir isso num piscar de olhos.

Mas como se vai descobrir? Isto é para ser descoberto – o que é sábio e o que é tolice – mecanicamente, ou espontaneamente? Quando você faz uma coisa com todo o seu ser, em que não há sensação de frustração ou medo, nem limitação, nesse estado de ação você é você mesmo, sem considerar qualquer condição exterior. Eu digo, se você puder chegar nesse estado, quando você é você mesmo em ação, então descobrirá o êxtase da realidade, Deus.

Esse estado é conseguido mecanicamente, cultivado, ou ele surge espontaneamente? Vou explicar o que quero dizer com processo mecânico. Toda ação imposta de dentro para fora deve ser formadora de hábito, deve ser mecânica e, por isso, não espontânea. Você pode descobrir o que é ser você mesmo através da tradição?

Deixem-me desviar um pouco e dizer que tentaremos, como fizemos no ano passado, debater essas ideias durante os próximos encontros. Tentaremos pegar os vários tópicos – não discutir um com o outro, mas, de modo amistoso, descobrir o que nós, individualmente, pensamos sobre essas coisas. Em minha primeira palestra quero fazer um breve esboço do que, para mim, é o verdadeiro processo de viver.

Você pode ser você mesmo se seu ser está de algum modo tocado pela tradição? Ou você pode descobrir a si mesmo através do exemplo, através do preceito?

Interrogante: O que é preceito?

Krishnamurti: Através de um preceito, através de um dito – que o mal é que divide e o bem é que une – simplesmente seguindo um princípio, você pode ser você mesmo? Viver de acordo com um padrão, um ideal, segui-lo implacavelmente, meditar a seu respeito, levará à descoberta de si mesmo? Pode aquilo que é real ser percebido por meio da disciplina ou vontade? Ou seja, pelo empenho, por um esforço do intelecto, refreando, controlando, disciplinando, guiando, forçando o pensamento numa direção particular, você pode conhecer a si mesmo? E você pode conhecer a si mesmo através de padrões de comportamento; ou seja, preconcebendo um modo de vida, do que é bom, o ideal, e segui-lo constantemente, distorcendo seu pensamento e sentimento segundo o que ele dita, deixando de lado o que você considera mal e seguindo implacavelmente o que você considera bem? Esse processo revelará a você aquilo que você é, o que quer que seja? Você pode descobrir a si mesmo através da compulsão? É uma forma de compulsão, esta superação implacável de dificuldades pela vontade, disciplina – este subjugar e resistir, deter e consentir.

Tudo isso é o empenho da vontade, que considero ser mecânico, um processo do intelecto. Você pode conhecer a si mesmo por esses meios – por esses meios mecânicos? Todo esforço, mecânico ou da vontade, é formador de hábito. Por meio da formação de hábito você pode ser capaz de criar certo estado, adquirir certo ideal que você pode considerar como sendo você, mas como ele é o resultado de um esforço intelectual ou o esforço da vontade, é totalmente mecânico e, por isso, não verdadeiro. Pode esse processo permitir a compreensão de você mesmo, do que você é?

E existe outro estado, que é espontâneo. Você só pode conhecer a si mesmo quando está sem intenção, quando não está calculando, protegendo, procurando constantemente uma direção para transformar, subjugar, controlar; quando vê a si mesmo inesperadamente, ou seja, quando a mente não tem preconceitos em relação a si mesma; quando a mente está aberta, despreparada para encontrar o desconhecido.

Se sua mente estiver preparada, certamente você não pode conhecer o desconhecido, pois você é o desconhecido. Se você disser a si mesmo “Eu sou Deus” ou “Nada sou além de uma massa de influências ou um fardo de qualidades” – se você tiver algum preconceito de si mesmo, não pode compreender o desconhecido, aquilo que é espontâneo.

Assim, a espontaneidade só pode surgir quando o intelecto estiver desprotegido, quando não estiver protegendo a si mesmo, quando não tiver mais medo de si; e isso só pode acontecer a partir do interior. Ou seja, o espontâneo deve ser o novo – o desconhecido, o incalculável, o criativo, aquilo que deve ser expresso, amado – onde a vontade como processo do intelecto, controlando, dirigindo, não toma parte. Observe seus próprios estados emocionais e você verá que os momentos de grande alegria, grande êxtase, não são premeditados, eles acontecem misteriosamente, ocultamente, desconhecidamente. Quando eles passam, a mente deseja recriar aqueles momentos, recapturá-los, e você diz a si mesmo “Se eu seguir certas leis, agir desse modo e não daquele, então terei aqueles momentos de êxtase novamente.”

Há sempre uma guerra entre o espontâneo e o mecânico. Por favor, não adapte isso para servir aos seus próprios termos religiosos, filosóficos. Para mim, o que estou dizendo é vitalmente novo e não pode ser distorcido para servir aos seus preconceitos particulares do ego mais elevado e mais baixo, o transitório e o permanente, o ego e o não-ego, e assim por diante. A maioria de nós, infelizmente, quase destruiu essa espontaneidade, esta alegria criativa do desconhecido de onde pode surgir a ação sábia. Nós cultivamos laboriosamente ao longo de gerações de tradição, de moralidade baseada na vontade, de compulsão, a atitude mecânica de viver, dando-lhe nomes agradáveis; em essência ela é puramente mecânica, intelectual. O processo de disciplina, de violência, de subjugação, de resistência, de imitação – tudo isso é o resultado do desenvolvimento de simples intelecto, que tem suas raízes no medo. O mecânico é esmagadoramente dominante em nossas vidas. Nisso se baseia nossa civilização e moralidade, e em raros momentos, quando a vontade está adormecida, esquecida, surge a alegria do espontâneo, o desconhecido.

Eu afirmo que apenas nesse estado de espontaneidade você pode perceber aquilo que é verdade. Apenas nesse estado pode haver ação sábia, não a ação da moralidade calculada ou da vontade.

As variadas formas de moral e disciplinas religiosas, as muitas imposições de instituições sociais e éticas, são o resultado de atitude mecânica cuidadosamente calculada em relação à vida, que destrói a espontaneidade e provoca a destruição da verdade.

Através de nenhum método – e todos os métodos devem ser, inevitavelmente, mecânicos – você pode desvendar a verdade de seu próprio ser. Não se pode forçar a espontaneidade por nenhum meio. Nenhum método lhe dará espontaneidade; todos os métodos só podem criar reações mecânicas. Nenhuma disciplina produzirá a alegria espontânea do desconhecido. Quanto mais você se força a ser espontâneo, mais a espontaneidade se retrai, mais obscura e oculta ela se torna e menos ela pode ser compreendida. E, contudo, é isso que você tenta fazer quando segue disciplinas, padrões, ideias, líderes, exemplos e assim por diante. Você deve abordar isso negativamente, não com a intenção de capturar o desconhecido, o real.

Estamos conscientes do processo mecânico do intelecto, da vontade, que destrói o espontâneo, o real? Você não pode responder imediatamente, mas pode começar a pensar no intelecto, na vontade, e sentir especialmente sua qualidade destrutiva. Você pode perceber a natureza ilusória da vontade, não por meio de alguma compulsão, não por meio de algum desejo de aquisição, de obtenção, de compreensão, mas apenas quando o intelecto se permite ser desnudado de todas as suas capas protetoras.

Você pode conhecer a si mesmo apenas quando ama completamente. Isso, novamente, é a totalidade do processo da vida, não algo para ser obtido em alguns momentos com algumas palavras minhas. Você não pode ser você mesmo quando o amor é dependente. Não é amor quando é simplesmente autogratificação, embora possa ser mútuo. Não é amor quando existe contenção; não é amor quando é simplesmente um meio para um fim; quando é meramente sensação. Você não pode ser você mesmo quando o amor está sob o comando do medo; é, então, medo, não amor, que está se expressando de vários meios, embora você possa encobri-lo chamando de amor. O medo não pode permitir que você seja você mesmo. O intelecto, simplesmente, guia o medo, o controla, mas não pode destruí-lo, pois o intelecto é a própria causa do medo.

Como o medo não pode permitir que você seja você mesmo, como se supera esse medo – medo de todas as espécies, não de um tipo particular? Como a pessoa se liberta desse medo, do qual pode se estar consciente ou inconsciente? Se você está inconsciente do medo, conscientize-se dele; fique cônscio de seus pensamentos e ações, e logo estará consciente do medo. E se você está consciente dele, como vai se libertar? Você vai se libertar do medo mecanicamente, pela vontade; ou ele vai se dissolver por conta própria, espontaneamente? O processo mecânico, ou o da vontade, não pode mais do que esconder o medo mais e mais, guardá-lo e retê-lo cuidadosamente, permitindo apenas as reações da moralidade controlada. Sob esses padrões de comportamento controlados, o medo deve continuar sempre. Esse é o resultado inevitável do processo mecânico da vontade com suas disciplinas, desejos, controles e assim por diante.

Até que a pessoa se liberte do mecânico, não pode haver o espontâneo, o real. Ansiar pelo real, por aquela chama que arde por dentro, não pode provocar isso.

O que vai libertá-lo do mecânico é a profunda observação do processo da vontade, ser um com ele, sem nenhum desejo de se libertar. Agora você observa a atitude mecânica em relação à vida com o desejo de se livrar dela, alterá-la, transformá-la. Como você transforma a vontade quando o desejo é da própria vontade?

Você deve estar consciente de todo o processo da vontade, do mecânico, de sua luta, suas fugas, suas misérias; e como o fazendeiro permite que o solo fique desocupado depois da colheita, você deve se permitir ficar em silêncio, negativo, sem nenhuma expectativa. Não é fácil: se na esperança de ganhar o real, você se permite ficar em silêncio mecanicamente, se obriga a ser negativo, então o medo é a recompensa. Como eu disse, esse vazio criativo não é para se correr atrás ou buscar por caminhos tortuosos – ele deve acontecer. A verdade existe; ela não é o resultado da moralidade organizada, pois a moralidade baseada na vontade não é moral.

Nós temos muitos problemas, individuais bem como sociais, e para esses problemas não existe solução do intelecto, da vontade. Enquanto o processo da vontade continuar de alguma forma, deve haver confusão e sofrimento. Pela vontade você não pode conhecer a si mesmo, não pode haver o real.

4 de agosto de 1938

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