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06/08/1938 – T

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Segunda Palestra em Ommen

Vocês devem lembrar que eu estava tentando explicar a diferença entre espontaneidade e ação mecânica, mecânica sendo a moralidade da vontade, e o espontâneo que nasce do fundo de nosso próprio ser. Essa manhã falarei sobre uma ou duas coisas relacionadas a isso e, depois, as discutiremos.

Eu dizia que o medo sob qualquer forma cria hábito, que impede a liberdade incondicionada na qual existe realidade, na qual pode estar a integridade da pessoa. O medo impede a espontaneidade.

Ora, seria bem ridículo, e impossível, considerar o que é ser espontâneo, ou julgar quem é espontâneo e quem não é, e considerar também as qualidades, as características da espontaneidade. Cada um saberá o que é ser espontâneo, ser real, quando houver a condição interna correta. Você saberá por si mesmo quando for verdadeiramente espontâneo, quando for realmente você mesmo. Julgar o outro para ver se ele é espontâneo significa, realmente, que você tem um padrão de espontaneidade, o que é absurdo. O julgamento do que é espontâneo revela uma mente que reage mecanicamente ao seu próprio hábito e padrões morais.

Então é fútil e uma perda de tempo, levando à mera opinião, considerar o que é ser real, espontâneo, ser você mesmo. Tal consideração leva à ilusão. Vamos nos preocupar com qual é a condição necessária que revelará o real.

Agora, qual é a condição correta? Não existe divisão entre a condição interna e a externa; estou dividindo como interna e externa apenas para propósitos de observação, para compreender mais claramente. Essa divisão não existe na realidade.

Só a partir do estado interno correto as condições externas podem ser mudadas, melhoradas e transformadas fundamentalmente. A abordagem a partir do meramente superficial, ou seja, a partir do exterior, para criar condições corretas, terá pequena significação na compreensão da verdade, Deus.

Deve-se compreender qual é a condição interior correta, mas não a partir de qualquer compulsão superficial ou autoridade. A mudança profunda interna lidará sempre inteligentemente com as condições exteriores. De uma vez por todas, vamos perceber inteiramente a importância dessa necessária mudança interna e não, meramente, confiar na mudança das circunstâncias externas. É sempre o motivo interno e as intenções que mudam e controlam o exterior. Motivos, desejos, não são fundamentalmente alterados simplesmente controlando o exterior.

Se um homem for internamente pacífico e afetuoso, sem ganância, certamente tal homem não precisa de leis que lhe imponham a paz, polícia para regular sua conduta, instituições para manter sua moralidade.

Agora, nós demos grande significação ao exterior, para manter a paz; por meio de instituições, leis, polícia, exércitos, igrejas e assim por diante, procuramos manter uma paz que não existe.

Por imposição e dominação, opondo violência com violência, esperamos criar um estado pacífico.

Se você compreender isso realmente, profundamente, honestamente, então verá a importância de não abordar os muitos problemas da vida como o exterior e o interior, mas apenas a partir do compreensivo e do integral.

Então qual é a condição interior necessária para ser você mesmo, ser espontâneo? A primeira condição interior necessária é que o mecanismo de formar hábito deve cessar. Qual é a força motriz por trás desse mecanismo?

Antes de respondermos, devemos primeiro descobrir se nossos pensamentos e sentimentos são o resultado de simples hábito, tradições, e estão seguindo ideais e princípios. A maioria de nós, se realmente pensarmos nisso inteligentemente, honestamente, veremos que nossos pensamentos e sentimentos, em geral, nascem de vários padrões regulamentados, sejam eles ideais ou princípios.

A continuação desse hábito mecânico e sua força motriz é o desejo de estar seguro. Todo o mecanismo de tradição, de imitação, de exemplo, a construção de um futuro, de um ideal, do perfeito e sua realização, é o desejo de estar seguro; e o desenvolvimento de várias qualidades supostamente necessárias é para sua realização, seu sucesso.

O desejo confere uma falsa continuidade ao nosso pensamento, e a mente se agarra a essa continuidade cujas ações são o simples seguimento de padrões, ideais, princípios e o estabelecimento de hábito. Assim, a experiência nunca é nova, nunca fresca, nunca ditosa, nunca criativa – e daí a extraordinária vitalidade das coisas mortas, do passado.

Agora vamos dar alguns exemplos e ver o que quero dizer. Pegue o hábito do nacionalismo, que está se tornando mais e mais forte e cruel agora. O nacionalismo não é, realmente, um falso amor do homem? Aquele que é nacionalista de coração não pode ser um ser humano completo. Para um nacionalista, o internacionalismo é uma mentira. Muitos insistem que é possível ser nacionalista e, ao mesmo tempo, não pertencer a nenhuma nação: isso é uma impossibilidade e apenas um artifício da mente.

Estar apegado a um pedaço particular da terra impede o amor pelo todo. Tendo criado o problema falso e não natural do nacionalismo, nós agimos para resolvê-lo por meio de argumentos complexos e ardilosos pela necessidade do nacionalismo e sua manutenção através de armamentos, ódio e divisão. Todas essas respostas devem ser completamente estúpidas e falsas, pois o problema em si é uma ilusão e uma perversão. Vamos compreender essa questão do nacionalismo, e a esse respeito, pelo menos, vamos permanecer sensatos num mundo de brutal arregimentação e insanidade. O amor organizado por seu país, com seu ódio e afeto arregimentado, cultivado e imposto por meio da propaganda, dos líderes, não é meramente interesse investido? Esse chamado amor pelo país não existe porque alimenta o próprio egoísmo da pessoa por meios tortuosos? Todo esforço e gratificação deve, inevitavelmente, criar hábitos mecânicos que entram em conflito constantemente com a própria integridade e afeições da pessoa. Preconceito, ódio, medo, devem criar divisão, que gera guerra inevitavelmente – guerra não apenas dentro de si, mas também entre as pessoas.

Se o nacionalismo é apenas um hábito, o que se faz? Não ter um passaporte não o torna livre do hábito nacionalista. Mera ação superficial não liberta você da brutal convicção interna de uma superioridade racial particular. Quando você é confrontado com sentimentos de nacionalismo, qual é sua reação? Você sente que eles são inevitáveis, que você tem que passar pelo nacionalismo para chegar ao internacionalismo, que tem que passar pelo brutal para se tornar pacífico? Qual é sua argumentação? Ou você não argumenta de fato, mas simplesmente segue a bandeira, pois há milhões fazendo essa coisa absurda? Por que vocês todos estão tão calados? Mas como estarão ansiosos para discutir comigo sobre Deus, reencarnação, ou cerimônias!

Essa questão do nacionalismo está batendo em sua porta queira você ou não, e qual é sua resposta?

Interrogante: Não é possível considerar o nacionalismo como aperfeiçoamento do provincianismo e, por isso, o primeiro passo em direção ao internacionalismo?

Interrogante: É a mesma coisa certamente.

Interrogante: Considero o nacionalismo um provincianismo ampliado.

Interrogante: A mim parece, senhor, que você talvez enfatize demais a posição nacionalista. Parece-me que há menos sentimento nacionalista hoje em algumas partes do globo do que havia cinquenta anos atrás, e que, conforme o tempo passa, o sentimento nacional pode se tornar menor entre mais e mais pessoas, e que o internacionalismo pode ter mais chance assim. Eu penso que é muito importante haver tempo para os elementos moderados na população reforçarem seus sentimentos e pensamentos internacionais e, se possível, impedirem alguma explosão que afastaria o bem na presente civilização junto com o mal.

Krishnamurti: O ponto é este, não: Você pode, em qualquer tempo, chegar à paz através da violência – chame-a você de provincianismo, nacionalismo ou internacionalismo? A paz é para ser atingida através de estágios lentos? O amor não é uma questão de educação ou de tempo. A última guerra foi lutada pela democracia, creio, e veja, estamos mais preparados para a guerra do que nunca antes, e as pessoas são menos livres. Por favor, não ceda a simples argumentações intelectuais. Ou você leva seus sentimentos e pensamentos a sério e os considera profundamente, ou está satisfeito com respostas intelectuais superficiais.

Se você pensa que está em busca da verdade ou criando no mundo uma verdadeira relação humana, o nacionalismo não é o caminho; nem pode essa relação humana de afeição, de amizade, ser estabelecida por meio de armas. Se você ama profundamente não existe nem o único nem os muitos. Existe apenas esse estado de ser que é amor, em que pode haver o único, mas não é a exclusão dos muitos. Mas se você diz para si mesmo que através do amor de um haverá o amor dos muitos, então você não está considerando o amor de fato, mas meramente o resultado do amor, o que é uma forma de medo.

Agora vamos pegar outro exemplo do mecanismo da formação de hábito que destrói o viver criativo. Você deve ser novo para compreender a realidade.

Pegue a questão do modo como tratamos as pessoas. Você notou como você mesmo trata as pessoas – alguém que você pensa ser superior, com grande consideração, e o inferior com desdém ofensivo e indiferença? Você notou isso? (Sim) Isso fica óbvio nesse acampamento; o modo como você me trata e o modo como trata seus colegas de acampamento ou aqueles que ajudam a dirigir o acampamento: o modo como você se comporta com uma pessoa nobre e com um cidadão; o respeito que você tem pelo dinheiro, e o respeito que não tem ao pobre e assim por diante. Isso não é o resultado de simples hábito, da tradição, da imitação, do desejo de ter sucesso, o hábito de gratificar a própria vaidade?

Por favor, pense nisso e perceba como a mente vive e continua no hábito, embora afirme que deve ser espontânea, livre. Qual o benefício de me ouvir se a coisa óbvia escapa à sua consideração? Novamente você fica em silêncio, pois esse é um evento comum em nossas vidas e, por isso, você fica um pouco nervoso ao abordá-lo porque não quer ser exposto tão radicalmente.

Se esse hábito existe – e é meramente um hábito e não uma ação deliberada, consciente exceto em poucos casos – quando você fica consciente dele, ele desaparecerá se você ama realmente todo esse processo de viver. Mas se você não está interessado, você me escutará, e talvez possa ficar intelectualmente estimulado por alguns minutos, mas continuará do mesmo antigo jeito. Mas aqueles de vocês que estiverem profundamente interessados, que amem compreender a verdade, para vocês eu afirmo: Observem como este ou qualquer outro hábito cria uma cadeia de memórias que se torna mais e mais forte, até que exista somente o “Eu”, o “ego”. Esse mecanismo é o “Eu”, e enquanto esse processo existir, não pode haver o êxtase do amor, da verdade.

Vamos pegar outro exemplo – o da meditação. Agora vejo que vocês estão se interessando. O nacionalismo, o modo como tratamos as pessoas, amor, meditação – tudo isso faz parte do mesmo processo; todos têm origem na mesma fonte, mas estamos examinando cada um separadamente para compreendê-los melhor.

Talvez vocês discutam comigo essa questão da meditação, pois a maior parte de vocês, de um modo ou outro, praticam essa coisa chamada meditação, não? (Sim e não) Alguns o fazem, outros não. Aqueles que o fazem, por que fazem? E aqueles que não fazem, por que não fazem? Aqueles que não meditam, qual é seu motivo? Ou sua atitude é de completa negligência, indiferença, ou têm medo de se envolver em toda essa tolice, ou temem se revelar a si mesmos, ou temem adquirir novos e inconvenientes hábitos e assim por diante. Aqueles que meditam, qual é seu motivo?

Interrogante: Egoísmo.

Krishnamurti: Você está propondo essa palavra como uma explicação? Eu também posso lhe dar uma explicação muito boa, mas estamos tentando ir além de meras explicações. Meras explicações, em geral, colocam um ponto final na reflexão. O que estamos tentando fazer discutindo esse assunto? Estamos nos expondo. Estamos nos ajudando a ver o que somos. Você está atuando como um espelho para mim, e eu como espelho para você, sem distorção. Mas se você meramente dá uma explicação, apenas vomita algumas palavras, você escurece o espelho, o que impede a percepção clara.

Estamos tentando descobrir por que meditamos e o que isso significa. Aqueles de vocês que meditam, provavelmente o fazem porque sentem que precisam de certo equilíbrio e clareza, através do recolhimento, para lidar com os problemas da vida. E se afastam por um tempo com esse propósito, e esperam, durante esse período, entrar em contato com alguma coisa real, que os ajudará a guiá-los durante o dia. É isso? (Sim) Durante esse período você começa a se disciplinar, ou durante o dia todo você disciplina seus pensamentos e sentimentos, e suas ações também, segundo o padrão estabelecido naqueles poucos momentos da chamada meditação.

Interrogante: Não, eu a considero um passo no caminho da libertação do ego, um degrau apenas.

Krishnamurti: Certamente você está dizendo a mesma coisa que estou apontando, apenas está colocando em suas próprias palavras. Pela disciplina você pode libertar o pensamento, libertar a emoção? Esse é o ponto que o interrogante trouxe. É possível se disciplinar a fim de se tornar espontâneo, compreender o desconhecido, o real? Disciplina implica um padrão, uma forma que modela, e aquilo que é verdade deve ser o desconhecido e não pode ser abordado pelo conhecido.

Interrogante: Penso que medito porque quero me conhecer, porque tenho medo de mim mesmo, porque odeio a mim como odeio a meu vizinho, e quero me conhecer para me proteger. Odeio meu vizinho, e o amo. Eu o odeio porque ele ameaça meus hábitos, meu bem-estar. Eu o amo porque o quero. E sou nacionalista porque tenho medo daqueles que estão do outro lado da fronteira. Eu me protejo de todos os modos possíveis.

Krishnamurti: Você está dizendo que medita para se proteger. (Sim) É isso, mas você deveria ir mais profundamente nessa questão da disciplina, não apenas a disciplina imposta pelo mundo exterior através das várias instituições da moralidade organizada, através de sistemas sociais particulares, mas também a disciplina que o desejo desenvolve.

A disciplina imposta do exterior, pela sociedade, pelos líderes e assim por diante, deve inevitavelmente destruir a realização individual; acho que isso é bastante óbvio. Pois tal disciplina, compulsão, conformismo, meramente transfere o inevitável problema do medo individual com suas muitas ilusões.

Agora, existem muitas razões para a pessoa se disciplinar, existe o desejo de se proteger de vários modos: por empreendimento, tentando se tornar mais sábio, mais nobre, encontrando o Mestre, se tornando mais virtuoso, seguindo princípios, ideais, querendo e ansiando pela verdade, por amor e assim por diante. Tudo isso indica o trabalho do medo, e as razões nobres não são mais do que o revestimento desse medo inato.

Você diz para si mesmo “Para alcançar Deus, para descobrir a realidade, para me colocar em comunhão com o absoluto, com o cósmico” – você conhece todas as expressões – “devo começar a me disciplinar, devo aprender a ser mais concentrado. Devo praticar a atenção, desenvolver certas virtudes.” Quando você afirma essas coisas e se disciplina, o que acontece com seus pensamentos e emoções?

Interrogante: Você quer dizer que é uma forma de autoglorificação?

Interrogante: Estamos formando hábitos.

Krishnamurti: Suponha que alguém concebe um padrão daquilo que é bom, ou que foi imposto pela tradição, educação, ou alguém aprendeu que o mal é aquilo que divide; e se isso for o ideal, o padrão para a conduta de vida que se procura através da meditação, da disciplina auto-imposta, então o que acontece com os pensamentos e emoções dessa pessoa? Ela está os forçando, violenta ou amorosamente, a se adaptar e, assim, estabelecendo um novo hábito no lugar do antigo. Não é assim? (Sim) Daí o intelecto, a vontade, está controlando e moldando a pessoa. O desejo de se proteger nasce do medo, que nega a realidade. O caminho da disciplina é o processo do medo, e o hábito criado pela chamada meditação destrói a espontaneidade, a revelação do desconhecido.

Interrogante: Não é possível formar um hábito de amor sem perder a espontaneidade?

Krishnamurti: O hábito pertence à mente, à vontade, que meramente domina o medo sem suprimi-lo. Emoções são criativas, vitais, novas e, por isso, não podem ser transformadas em hábito por mais que a vontade tente dominá-las e controlá-las.

É a mente, a vontade, com seus apegos, desejos, medos, que cria o conflito entre ela mesma e a emoção. O amor não é a causa da miséria: são os medos, desejos, hábitos da mente que criam a dor, a agonia do ciúme, a desilusão. Tendo criado o conflito e o sofrimento, a mente, com sua vontade de satisfação, encontra razões, desculpas, fugas, que são chamadas de vários nomes – desapego, amor impessoal e assim por diante. Devemos compreender todo o processo do mecanismo de formação de hábito e não perguntar que disciplina, padrão ou ideal é melhor. Se disciplina é coordenação, então não é para ser efetuada pelo esforço, por nenhum sistema. O indivíduo deve compreender sua própria complexidade profunda e não meramente buscar um padrão para a realização.

Não pratique disciplina, não siga padrões e meros ideais, mas esteja consciente do processo de formar hábitos. Esteja consciente das velhas rotinas ao longo das quais a mente corre e, também, do desejo de criar novas. Seriamente, experimente com isso; talvez haja maior confusão e sofrimento, pois a disciplina, as leis morais, agiram meramente para oprimir desejos e propósitos ocultos. Quando você fica consciente integralmente, com todo o seu ser, dessa confusão e sofrimento, sem nenhuma esperança de saída, então surgirá espontaneamente aquilo que é real. Mas você deve amar, se entusiasmar com essa própria confusão e sofrimento. Você deve amar com seu próprio coração, não com o de outro.

Se você começar a experimentar consigo mesmo, verá uma curiosa transformação acontecendo. No momento de maior confusão há clareza; no momento de maior medo há amor. Você deve chegar a isso espontaneamente, sem o empenho da vontade.

Eu sugiro seriamente que você experimente o que estive dizendo e, então, você verá de que maneira o hábito destrói a percepção criativa. Mas ela não é uma coisa para ser desejada e cultivada. Não se pode ir ao encalço disso.

6 de agosto de 1938

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