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08/08/1938 – T

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Terceira Palestra em Ommen

Estive tentando explicar qual é a condição interna correta para a pessoa ser ela mesma verdadeiramente; que enquanto existir o mecanismo de formação de hábitos, a pessoa não pode ser ela mesma, mesmo considerando que ele (o hábito) seja bom. Todo hábito impede a clareza da percepção e dissimula a própria integridade da pessoa. Esse mecanismo foi desenvolvido como meio de fuga, um processo de dissimulação, de ocultar a confusão e as incertezas da própria pessoa; foi desenvolvido para encobrir a futilidade de suas próprias ações e a rotina de trabalho, de ocupação; ou para fugir do vazio, do sofrimento, dos desapontamentos e assim por diante.

Tentamos fugir, escapar da ignorância e do medo formando hábitos que irão neutralizá-los, que vão lhes impor resistência – hábitos de ideais e moralidade. Quando existe descontentamento, sofrimento, o intelecto, mecanicamente, aparece com soluções, explicações, sugestões experimentais, que se cristalizam gradualmente e se tornam hábitos de pensamento. Assim, o sofrimento e a dúvida são encobertos.

Portanto, o medo é a origem desse mecanismo de formação de hábitos. Devemos compreender seu processo. Por compreender não quero dizer o mero alcance intelectual dele, mas o se tornar consciente dele como um processo real que está ocorrendo, não superficialmente, mas como uma coisa que acontece todo dia de sua vida. Compreensão é um processo de auto-revelação, de estar consciente não apenas objetivamente, mecanicamente, mas como uma parte de nossa própria existência.

Para compreender esse mecanismo de fuga através do hábito, devemos primeiro descobrir a força motriz – o motivo que nos leva a certas ações, que traz em seu rastro o que chamamos experiência. Enquanto não compreendermos a força motriz desse mecanismo que cria fuga, simplesmente considerar as fugas é de pouco valor.

A experiência é um processo de acumulação e despojamento, de revelação e um fortalecimento de antigos hábitos, um rompimento e construção daquilo que chamamos a vontade. A experiência ou fortalece a vontade ou, em alguns momentos, a destrói, ou constrói desejos vantajosos ou quebra aqueles desejos que armazenamos, apenas para criar novos. Nesse processo de experimentar, viver, há a gradual formação da vontade.

Agora, não existe vontade divina, mas apenas a vontade comum, ordinária do desejo – a vontade de ter sucesso, de estar satisfeito, de ser. Essa vontade é uma resistência, e é o fruto do medo que guia, escolhe, justifica, disciplina. Essa vontade não é divina. Ela não está em conflito com a chamada vontade divina, mas por sua própria existência, é uma fonte de sofrimento e conflito, pois é a vontade do medo. Não pode haver conflito entre luz e escuridão; onde uma está, a outra não está. Conquanto possamos querer vestir essa vontade com divindade, com princípios e nomes altamente sonoros, a vontade é, em sua essência, o resultado do medo, do desejo.

Alguns estão conscientes dessa vontade do medo, com todas as suas permutações e combinações. Talvez alguns percebam essa vontade como medo e tentem rompê-lo perseguindo-o em suas muitas expressões, criando, assim, outra forma de vontade: quebrando sua resistência só para criar outra.

Então, antes de começarmos a investigar os modos e meios de quebrar o medo através da disciplina, através da formação de novos hábitos e assim por diante, devemos primeiro compreender a força motriz que está por trás da vontade. Eu expliquei o que quero dizer por compreender: essa compreensão não é um processo intelectual, analítico; ela não está na sala de visitas ou no especialista, mas deve ser compreendida nas ações cotidianas, em nossas relações diárias. Ou seja, o processo de viver nos revelará, se estivermos despertos realmente, o funcionamento dessa vontade, desse hábito, o círculo vicioso de criar uma resistência depois de outra, o que podemos chamar de diferentes nomes – ideais, amor, Deus, verdade e por aí vai.

A força motriz por trás da vontade é o medo, e quando começamos a perceber isso, o mecanismo do hábito intervém, oferecendo novas saídas, novas esperanças, novos deuses. Ora, é nesse exato momento, quando a mente começa a interferir com a percepção do medo, que tem que haver grande vigilância para não se apartar, não se distrair com as ofertas do intelecto, pois a mente é sutil e astuta. Quando só existe medo sem nenhuma esperança de fuga, em seus momentos mais sombrios, na mais completa solidão do medo, daí surge, por assim dizer, a luz que o dissipará.

Qualquer tentativa que fizermos – superficialmente, intelectualmente – para destruir o medo através de várias formas de disciplina, padrões de comportamento, só criará outras formas de resistência; e é nesse hábito que estamos presos. Quando você pergunta como se livrar do medo, como romper hábitos, você está, realmente, abordando isso pelo exterior, intelectualmente, e sua pergunta não tem significado. Você não pode dissolver o medo por meio da vontade, pois a vontade é filha do medo; e ele também não pode ser destruído pelo “amor”, pois se o amor for usado com propósitos de destruição, não é mais amor, mas outro nome para vontade.

Interrogante: Por favor, o que é “samadhi”? Aqueles que o alcançaram sustentam que é uma verdadeira realização. Não é, ao contrário, apenas um tipo de suicídio, o resultado final de um caminho artificial? Não é uma ausência absoluta de toda atividade criativa? Você mostra a necessidade de ser você mesmo, e isso não é uma mera morte da pessoa?

Krishnamurti: Qualquer processo que leve à limitação, à resistência, à supressão de si mesmo, por assim dizer, em um estado intelectual ou ideal, é destrutivo do viver criativo. Isso certamente é óbvio. Ou seja, se a pessoa tem um ideal de amor – e todos os ideais são intelectuais e, portanto, mecânicos – e tenta praticá-lo, tornar o amor um hábito, ela alcança, com certeza, um estado delimitado. Mas não é o amor, é apenas um estado de realização intelectual.

Essa busca pelo ideal é tentada por todos os povos; os hindus a fazem a seu modo, e os cristãos e outros grupos religiosos também a fazem. O medo cria o ideal, o padrão, o princípio, pois a mente está em busca de satisfação. Quando essa satisfação é ameaçada, a mente foge para o ideal. O medo, tendo criado o padrão, modela o pensamento e o desejo, destruindo gradualmente a espontaneidade, o desconhecido, o criativo.

Interrogante: O maior medo que tenho é que a vida de outro, ou a minha própria, possa ser arruinada.

Krishnamurti: Cada um de nós, a seu próprio modo, não está arruinando a própria vida? Não estamos destruindo nossa própria integridade? Com nossos próprios desejos, nossos próprios condicionamentos, estamos arruinando nossas vidas individuais. Tendo controle sobre o outro, e tendo a capacidade de arruinar nossa própria vida, procedemos distorcendo a vida do outro, seja de um filho, um dependente, ou um vizinho.

Existem instituições, governamentais e religiosas, as quais somos forçados, prontamente ou com relutância, a nos adaptarmos. Então, a que tipo de destruição o interrogante se refere? À deliberada perversão de sua própria vida, ou à distorção por instituições poderosas? Nossa reação natural é dizer que as instituições, grandes ou pequenas, estão corrompendo nossas vidas. A reação da pessoa é pôr a culpa no exterior, nas circunstâncias.

Apresentando de outra forma, aqui estamos num mundo de arregimentação, de compulsão, de inteligentes técnicas do governo e das religiões organizadas para vencer resistências individuais – e o que se faz? Como o indivíduo vai agir? Imagino quantos de vocês se fizeram essa pergunta? Alguns podem ter percebido a brutalidade de tudo isso e se juntado a sociedades ou grupos que prometem alterar certas condições. Mas no processo de alteração, a organização do partido, da sociedade, adquiriu vastas proporções e se tornou o mais importante. Assim, o indivíduo está preso em seu mecanismo novamente.

Como vamos abordar essa questão? A partir de fora ou a partir do interior? Não existe divisão entre exterior e interior, mas mudar o exterior simplesmente, não pode alterar o interior fundamentalmente. Se você estiver consciente de que está destruindo sua própria vida, como pode esperar que uma instituição ou um padrão exterior o ajude?

Se você sentir profundamente que a violência sob qualquer forma só pode levar à violência, embora não possa interromper as guerras, você será, pelo menos, um centro de sensatez, como um médico em meio à doença. Assim, do mesmo modo, se você perceber integralmente de que modo está destruindo sua vida, essa própria percepção começa a endireitar as coisas que estão distorcidas. Tal ação não é uma fuga.

Interrogante: Devemos voltar ao passado? Devo ficar consciente do que fui? Devo conhecer meu “karma”?

Krishnamurti: Estando consciente, tanto o passado como o presente são revelados, o que não é um processo misterioso, mas tentando compreender o presente, os medos passados e limitações são revelados.

“Karma” é uma palavra sânscrita cujo verbo correspondente significa agir. Uma filosofia de ação foi criada em torno da ideia central “O que você planta, você colhe”, mas não precisamos examinar tudo isso agora. Vemos que qualquer ação nascida da ideia de recompensa ou de punição deve ser limitadora, pois tal ação nasce do medo. A ação traz clareza ou confusão, dependendo do condicionamento da pessoa. Se ela é criada para adorar o sucesso, aqui ou na chamada esfera espiritual, haverá a busca de recompensa com seus medos e esperanças, que condicionam toda ação, todo viver. Viver se torna, então, um processo de aprendizagem, de constante acumulação de conhecimento. Por que guardamos esse chamado conhecimento?

Interrogante: Não temos que ter em nós mesmos algum padrão de ação?

Krishnamurti: Agora chegamos à pergunta fundamental: “Deve-se viver por padrões, sejam externos ou internos?” Nós admitimos facilmente que o padrão exterior é aquele da compulsão e, por isso, impede a realização individual. Confiamos num padrão interno que cada um criou através de ação e reação, através do julgamento de valores, desejos, experiências, medos e assim por diante. Em que se baseia o padrão interno, embora ele varie constantemente? Ele não se baseia no desejo de autoproteção e seus muitos medos? Esses desejos e medos criam um padrão de comportamento, de moralidade, e o medo é a norma constante, assumindo diferentes formas sob diferentes condições. Existem aqueles que se abrigam na fórmula intelectual, “A vida é única”, e outros no amor a Deus, que também é uma fórmula intelectual, e transformam isso em padrões, princípios, para sua vida cotidiana. A moralidade da vontade não é moral, mas a expressão do medo.

8 de agosto de 1938

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