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01/07/1934 – T

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=90&chid=4450&w=

Décima segunda palestra em Oak Grove, Ojai, California.

Penso que muitas pessoas perderam a arte de ouvir. Elas chegam com seus problemas particulares e acham que por ouvir minha palestra seus problemas se resolverão. Receio que isso não vá acontecer; mas se você sabe como ouvir, então começará a compreender o todo, e sua mente não ficará enredada no particular.

Assim, se me permitem sugerir, não busque nesta palestra uma solução para seu problema particular, ou um alívio para seu sofrimento. Eu posso ajudá-lo, ou melhor, você ajudará a si mesmo, apenas se pensar de uma nova maneira, criativamente. Considere a vida, não como vários problemas isolados, mas compreensivamente, como um todo, com uma mente que não está sufocada pela procura de soluções. Se você vai ouvir sem o fardo de problemas e tiver uma perspectiva compreensiva, então verá que seu problema particular tem uma diferente significação; e embora ele possa não ser resolvido de uma vez, você começará a ver a verdadeira causa dele. Pensando de uma maneira diferente, reaprendendo como pensar, chegará à dissolução dos problemas e conflitos com os quais a mente da pessoa está sobrecarregada e de onde surge toda desarmonia, dor e sofrimento.

Ora, toda pessoa é, mais ou menos, consumida por desejos cujos objetos variam de acordo com o ambiente, temperamento e herança. De acordo com sua condição particular, sua educação particular e criação – religiosa, social e econômica – vocês estabeleceram certos objetivos cuja realização perseguem incessantemente, e essa busca se tornou soberana em suas vidas.

Uma vez que você estabeleceu estes objetivos, surgem naturalmente especialistas que agem como seus guias na realização de seus desejos. Por isso a perfeição da técnica, especialização se torna meramente o meio para chegar ao seu fim; e a fim de alcançar este fim, que você estabeleceu através de seu condicionamento religioso, econômico e social, você deve ter especialistas. Assim sua ação perde o significado, seu valor, porque você está interessado em atingir um objetivo, não na realização da inteligência, que é ação; você está interessado na chegada, não com aquilo que é a realização em si. Viver se torna meramente o meio para um fim, e a vida uma escola onde você aprende a alcançar um fim. A ação se torna, portanto, nada mais que um meio através do qual você pode chegar àquele objetivo que estabeleceu através de seus vários ambientes e condições. Assim a vida se torna uma escola de grande conflito e luta, nunca uma coisa de realização, de riqueza, de completude.

Então você começa a perguntar, qual é o fim, o propósito de viver. É isto que a maior parte das pessoas pergunta; é isto que está nas mentes da maioria das pessoas aqui. Por que vivemos? Qual é o fim? Qual é a meta? Qual é o propósito? Você está interessado no propósito, no fim, mais do que em viver o presente; ao contrário, um homem que realiza nunca pergunta pelo fim porque a realização em si é suficiente. Mas como você não sabe como se realizar, como viver ricamente, suficientemente, começa a perguntar sobre o propósito, a meta, o fim, pois pensa que pode então encontrar a vida, conhecendo o fim – pelo menos você pensa que pode conhecer o fim – então, conhecendo o fim, você espera usar a experiência como meio em direção a esse fim; por isso a vida se torna um agente, uma medida, um valor para chegar àquele resultado.

Consciente ou inconscientemente, sub-repticiamente ou abertamente, a pessoa começa a investigar o propósito da vida, e cada um recebe uma resposta dos chamados especialistas. O artista, se você pergunta a ele qual o propósito da vida, lhe dirá que é a auto-expressão através da pintura, escultura, música ou poesia; o economista, se você lhe pergunta, dirá que é trabalho, produção, cooperação, viver junto, funcionar como um grupo, como sociedade; e, se você pergunta ao religioso, ele lhe dirá que o propósito da vida é buscar e compreender Deus, viver de acordo com as leis determinadas pelos mestres, profetas, salvadores, e que vivendo segundo suas leis e editos você pode compreender a verdade que é Deus. Cada especialista dá sua resposta sobre o propósito da vida, e de acordo com seu temperamento, fantasias e imaginação você começa a estabelecer estes propósitos, estes fins, como seus ideais.

Tais ideais e fins se tornaram meramente um porto de abrigo porque você os usa para guiar e proteger a si mesmo neste tumulto. Assim você começa a usar estes ideais para medir suas experiências, para investigar as condições de seu ambiente. Você começa, sem o desejo de compreender ou realizar, meramente a investigar o propósito do ambiente; e ao descobrir esse propósito, de acordo com seu condicionamento, seus preconceitos, você meramente evita o conflito de viver, sem compreender.

Assim a mente dividiu a vida em ideais, propósitos, clímax, realizações, fins; e tumulto, conflito, perturbação, desarmonia; e você, você mesmo, a autoconsciência. Ou seja, a mente separou a vida nestas três divisões. Você fica preso no tumulto e através deste tumulto, deste conflito, desta perturbação que não é mais que sofrimento, você trabalha em direção a um fim, um propósito. Você vagueia, vai arando através deste tumulto para a meta, o fim, o porto de abrigo, a realização do ideal; e estes ideais, fins, abrigos foram designados por especialistas econômicos, religiosos e espirituais.

Assim você está, de um lado, tateando através de condições e ambiente, e criando conflito enquanto tenta realizar ideais, propósitos, e feitos, que se tornaram refúgios e abrigos do outro. A própria investigação do propósito da vida indica a falta de inteligência no presente; e o homem que está totalmente ativo – não perdido em atividades, como a maioria dos americanos está, mas totalmente ativo, inteligentemente, emocionalmente, totalmente vivo – realizou-se. Então a investigação de um fim é fútil, porque não existe tal coisa como um fim e um começo; existe o contínuo movimento do pensar criativo, e o que você chama de problemas são os resultados de você arar esta confusão em direção ao auge. Ou seja, você está interessado em como superar a confusão, como se ajustar ao ambiente para chegar a um fim. Com isso toda sua vida é preocupação, não com você mesmo e a meta. Você não está interessado nisso, está interessado na confusão, como passar por ela, como dominá-la, como superá-la, e, portanto, como evadir-se. Você quer chegar a essa evasão perfeita que chama de ideais, a esse refúgio perfeito que você chama de propósito de vida, que não é nada além de fuga do presente tumulto.

Naturalmente, quando você busca superar, dominar, evadir-se, e chegar à meta definitiva, aí surge a busca por sistemas e seus líderes, guias, mestres, e especialistas; para mim todos eles são exploradores. Os sistemas, os métodos, e seus mestres, e todas as complicações de suas rivalidades, tentações, promessas, e engodos criam divisões na vida conhecidas como seitas e cultos.

É isso que está acontecendo. Quando você está em busca de uma meta, um resultado, uma superação do tumulto, e não considerando o “você”, o “eu” consciente, e o fim que você incessante e conscientemente, ou inconscientemente, persegue, naturalmente você deve criar exploradores, no passado ou no presente; e você fica preso na pequenez deles, seus ciúmes, suas disciplinas, suas desarmonias e divisões. Assim, o simples desejo de passar por este tumulto sempre cria mais problemas, porque não há consideração pelo ator ou pela forma de sua ação, mas simplesmente a consideração pelo cenário de tumulto como meio de chegar a um fim.

Ora, para mim o tumulto, o fim, e o “você” são o mesmo; não existe divisão. Esta divisão é artificial, e é criada pelo desejo de ganhar, pela busca de acumulação aquisitiva, que nasce da deficiência.

Tornando-se consciente do vazio, da superficialidade, a pessoa começa a perceber a completa deficiência de seu próprio pensar e sentir, e assim, nos pensamentos dela surge a ideia de acumulação, e daí nasce essa divisão entre “você”, a autoconsciência, e o fim. Para mim, como eu disse, não pode haver tal distinção, porque no momento em que você realiza não pode haver mais o ator e a ação, mas apenas esse movimento criativo do pensamento que não busca um resultado, e assim há um viver contínuo, que é imortalidade.

Mas você dividiu a vida. Vamos considerar o que este “eu”, este ator, este observador, este centro de conflito é. Ele não é mais do que um contínuo rolo de memória. Eu discuti a memória muito cuidadosamente em minhas palestras anteriores, e não posso entrar em detalhes agora. Se você estiver interessado, lerá o que eu disse. Este “eu” é um rolo de memória no qual há ênfases. Estas ênfases ou depressões chamamos de complexos, e a partir daí agimos. Ou seja, a mente, estando consciente da deficiência, busca um ganho e, portanto, cria uma distinção, uma divisão. Tal mente não pode compreender o ambiente, e como não pode compreendê-lo, tem que confiar no acúmulo de memória como guia; porque a memória não é mais do que acúmulos que agem como um guia em direção ao fim. Esse é o propósito da memória. Memória é a falta de compreensão; essa falta de compreensão é sua base, e daí vem sua ação.

Esta memória está agindo como um guia em direção a um fim, e esse fim, sendo preestabelecido, é meramente um refúgio de autoproteção que você chama de ideais, objetivo, verdade, Deus, ou perfeição. O início e o fim, o “você” e a meta, são os resultados desta mente autoprotetora.

Eu expliquei como uma mente autoprotetora surge; ela surge como resultado da consciência ou percepção do vazio, do vácuo. Assim ela começa a pensar em termos de realização, aquisição, e a partir daí começa a funcionar, dividindo a vida e restringindo suas ações. Então o fim e o “você” são o resultado desta mente autoprotetora; e tumulto, conflito, e desarmonia não são mais que o processo de autoproteção, e nascem desta autoproteção, espiritual e econômica.

Espiritualmente e economicamente você está buscando segurança, porque confia na acumulação para sua riqueza, para sua compreensão, para sua plenitude, para sua realização. E assim o esperto, no mundo espiritual bem como no econômico, explora você, pois ambos buscam poder glorificando a autoproteção. Então toda mente faz um tremendo esforço para se proteger, e o fim, os meios, e o “você” não são nada mais do que o processo de autoproteção. O que ocorre quando existe este processo de autoproteção? Deve haver conflito com as circunstâncias que chamamos de sociedade; existe o “você” tentando se proteger do coletivo, do grupo, da sociedade.

Ora, o reverso disso não é verdadeiro. Ou seja, não pense que se você deixar de se proteger estará perdido. Ao contrário, você estará perdido se estiver se protegendo devido à deficiência, devido à superficialidade de pensamento e afeto. Mas se você meramente deixar de se proteger porque pensa que através disso vai descobrir a verdade, novamente será outra forma de proteçãoda sociedade.

Assim, como nós construímos através de séculos, geração após geração, este mecanismo de autoproteção, espiritual e econômico, vamos descobrir se a autoproteção espiritual e econômica é real. Talvez economicamente você possa asseverar a autoproteção por um pouco. O homem que tem dinheiro e muitas posses, e que tem confortos e prazeres assegurados para seu corpo, é geralmente, se você observar, o mais deficiente e ignorante, e está procurando a chamada proteção espiritual.

Vamos examinar, no entanto, se existe realmente autoproteção espiritual, porque economicamente vemos que não há segurança. A ilusão da segurança econômica é mostrada mundo afora por estas depressões, crises, guerras, calamidades e caos. Reconhecemos isto e, então, nos voltamos para a segurança espiritual. Mas para mim não existe segurança, não existe autoproteção, e nunca pode haver nenhuma. Eu digo, só existe sabedoria, que é compreensão, não proteção. Ou seja, segurança, autoproteção, é o resultado da deficiência, em que não há inteligência, em que não há pensar criativo, em que existe constante batalha entre “você” e a sociedade, e em que o esperto explora você cruelmente. Enquanto houver a busca por autoproteção deve haver conflito, e assim não pode haver compreensão, nem sabedoria. E enquanto esta atitude existir, sua busca por espiritualidade, pela verdade, ou por Deus é vã, inútil, porque é meramente a busca por maior poder, maior segurança.

Apenas quando a mente que se abrigou por trás dos muros da autoproteção se liberta de suas próprias criações é que pode haver essa extraordinária realidade. Afinal, estes muros de autoproteção são criações da mente que, consciente de sua deficiência, constrói estes muros de proteção e por trás deles se abriga. A pessoa construiu estas barreiras, inconscientemente ou conscientemente, e a mente da pessoa está tão mutilada, limitada, presa, que a ação traz maior conflito, mais perturbações.

Assim a simples busca por solução para seus problemas não vai livrar a mente de criar mais problemas. Enquanto este centro de autoproteção, nascido da deficiência, existir, deve haver perturbações, tremendo sofrimento e dor; e você não pode libertar a mente do sofrimento disciplinando-a para não ser deficiente. Ou seja, você não pode disciplinar a si mesmo, ou ser influenciado pelas condições e ambiente, a fim de não ser superficial. Você diz a si mesmo, “Eu sou superficial; reconheço o fato, e como vou me livrar disto?” Eu digo, não procure se livrar disto, o que é meramente um processo de substituição, mas fique consciente, fique atento ao que está causando esta deficiência. Você não pode compelir isto; não pode forçar; isto não pode ser influenciado por um ideal, por um medo, pela busca de diversões e poderes. Você só pode descobrir a causa da deficiência através da conscientização. Ou seja, examinando o ambiente e penetrando em sua significação, serão reveladas as ardilosas sutilezas da autoproteção.

Afinal, autoproteção é resultado da deficiência, e como a mente foi treinada, presa em sua servidão durante séculos, você não pode discipliná-la, não pode dominá-la. Se fizer isto, perde o significado dos artifícios e sutilezas do pensamento e emoção por trás dos quais a mente se abrigou; e para descobrir estas sutilezas você deve estar cônscio, atento.

Ora, estar cônscio é não alterar. Nossa mente está acostumada à alteração, que é meramente modificação, ajustamento, ficar disciplinada a uma condição; ao contrário, se você estiver cônscio, descobrirá a completa significação do ambiente. Portanto, não há modificação mas completa liberdade daquele ambiente.

Só quando todos estes muros de proteção são destruídos na chama da conscientização, onde não há modificação ou alteração ou ajustamento, mas completa compreensão da significação do ambiente com todas as suas fragilidades e sutilezas – apenas através dessa compreensão está o eterno; porque nisso não existe um “você” funcionando como foco autoprotetor. Mas enquanto o foco autoprotetor que você chama de “eu” existir, haverá tumulto, haverá perturbação, desarmonia e conflito. Você não pode destruir estes obstáculos se disciplinando ou seguindo um sistema ou imitando um padrão; você pode compreendê-los com todas as suas complicações apenas através da plena conscientização da mente e do coração. Então há um êxtase, há aquele movimento vivo da verdade, que não é um fim, um auge, mas um viver sempre criativo, um êxtase que não pode ser descrito, porque toda descrição deve destruí-lo. Enquanto você não estiver vulnerável à verdade, não há êxtase, não há imortalidade.

1 de julho de 1934

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