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19/06/1934 – T

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=82&chid=4442&w=

4ª palestra em Oak Grove,Ojai, Califórnia

Primeiro responderei a algumas perguntas que me foram enviadas e, depois, farei uma pequena palestra.

Pergunta: A intuição inclui experiências passadas e mais alguma coisa, ou apenas experiência passada?

Krishnamurti: Para mim intuição é inteligência, e inteligência não é experiência passada, é a compreensão da experiência passada. Falarei presentemente sobre a totalidade desta ideia de experiência passada, memória, inteligência e a mente, mas, agora, responderei a este ponto particular, se a intuição nasce do passado.

Para mim, o passado é um fardo, passado sendo falhas na compreensão; e se você realmente baseia sua ação no passado, na chamada intuição, está fadado a ficar perdido. Ao contrário, se existe ação espontânea no presente que sempre muda, nessa ação há inteligência e essa inteligência é intuição. A inteligência não é para ser separada da intuição. Muitas pessoas gostam de separar intuição de inteligência porque a intuição confere a elas certa segurança e esperança. Muitas pessoas dizem que agem “por intuição”, ou seja, agem sem razão, sem pensamento profundo. Muitas pessoas aceitam uma teoria, uma ideia porque dizem que sua “intuição” lhes diz que é verdadeira. Não há razão por trás disto, elas simplesmente aceitam porque essa teoria ou ideia lhes dá alguma solução, algum conforto. Realmente não é a razão que está funcionando, mas apenas suas próprias esperanças, seus próprios anseios que dirigem suas mentes. Ao contrário, a inteligência está apartada do ambiente e, portanto, existe razão, pensamento, por trás dela.

Pergunta: Como posso agir livremente e sem auto-repressão quando sei que minha ação vai ferir alguém que eu amo? Em tal caso qual é o indício da ação correta?

Krishnamurti: Penso que respondi a esta pergunta outro dia, mas provavelmente o interrogante não estava aqui, então vou respondê-la de novo. O indício da ação correta está em sua espontaneidade, mas agir espontaneamente é ser grandemente inteligente. A maioria das pessoas tem simplesmente reações que são pervertidas, distorcidas e reprimidas pela falta de inteligência. Onde a inteligência está funcionando, existe ação espontânea.

Ora, o interrogante quer saber como pode agir livremente e sem auto-repressão quando ele sabe que sua ação vai ferir àqueles que ama. Você sabe, amar é ser livre – ambas as partes são livres. Onde existe possibilidade de dor, onde existe possibilidade de sofrimento no amor, não é amor, é simplesmente uma forma de possessão, de aquisição. Se você ama, realmente ama alguém, não há possibilidade de lhe causar dor quando você faz uma coisa que considera certa. Apenas quando você quer que a pessoa faça o que você deseja ou ela quer que você faça o que ela deseja, existe dor. Ou seja, você gosta de ser possuído; se sente seguro, protegido, confortável; embora saiba que esse conforto é transitório, você se abriga nesse conforto, nessa transitoriedade. Então, toda luta por conforto, por encorajamento, realmente revela a falta de riqueza interior; e, assim, uma ação separada, apartada do outro indivíduo, naturalmente, cria perturbação, dor e sofrimento e um indivíduo tem que suprimir o que realmente sente a fim de se ajustar ao outro. Em outras palavras, esta constante repressão, gerada pelo chamado amor, destrói os dois indivíduos. Nesse amor não existe liberdade; ele é simplesmente uma sutil escravidão. Quando você sente muito ardentemente que deve fazer algo, você faz, algumas vezes habilmente e sutilmente, mas você faz. Existe sempre esse impulso para fazer, agir independentemente.

Pergunta: Estou certo em acreditar que todas as condições e ambiente se tornam corretas para uma mente realmente inteligente? Isto não é uma questão de ver a arte num padrão?

Krishnamurti: Para uma mente inteligente, o ambiente concede sua significação; portanto, essa mente inteligente é a mestra do ambiente, essa mente está livre do ambiente, não é condicionada pelo ambiente. O que condiciona a mente? A falta de compreensão. Não é? Não o ambiente, o ambiente não limita a mente; o que limita a mente é a falta de compreensão de uma condição particular.

Onde existe inteligência, a mente não é condicionada por nenhum ambiente, porque ela esta todo o tempo consciente, atenta e funcionando e, portanto, entendendo, percebendo todo o valor do ambiente. A mente só pode ficar condicionada pelo ambiente quando está letárgica e preguiçosa, tentando fugir da própria condição. Embora a mente possa pensar nessa condição, ela não está funcionando verdadeiramente, está apenas pensando dentro desse círculo limitado de condição, que para mim não é absolutamente nada.

Assim, o que cria inteligência, o que desperta inteligência é a percepção de verdadeiros valores, e como a mente está incapacitada pelos muitos valores impostos pela tradição, a pessoa deve ficar livre destas experiências passadas, fardos passados a fim de compreender o ambiente presente. Então a batalha é entre o passado e o presente. A luta é entre o background que nós cultivamos através de séculos e as circunstâncias sempre mutáveis do presente. Ora, uma mente obscurecida pelo passado não pode compreender estas leves mudanças do ambiente. Em outras palavras, para compreender o presente, a mente deve estar supremamente livre do passado; isto é, ela deve ter uma apreciação espontânea de valores no presente. Falarei sobre isso mais tarde.

Pergunta: Parece haver a ideia que liberação é uma meta, um ápice. Neste caso, qual é a diferença entre o esforço para a liberação e o esforço para qualquer outra meta? Certamente a ideia de um fim, uma meta, um ápice, está errada. Como então poderíamos considerar a liberação se não assim?

Krishnamurti: Receio que o interrogante não tenha escutado o que estou falando; provavelmente ele leu alguns livros meus antigos e fez a pergunta.

Ora, a mente procura um ápice, uma meta, um fim porque a mente quer estar certa, assegurada. Tire todas as seguranças e certezas da mente, que são formas sutis de autoglorificação ou da ânsia da própria continuidade. Tire tudo isso da mente, deixe-a despida, e então você verá que a mente está novamente lutando por segurança, por abrigo, porque a partir dessa segurança ela pode julgar, funcionar, pode agir sem perigo como um animal preso num poste.

Como eu disse, liberação não é um fim, não é uma meta: é a compreensão de valores corretos, valores eternos. A inteligência está sempre se tornando, ela não tem fim, não tem finalidade. No desejo de obter existe um anseio sutil da própria continuidade; e toda luta, todo esforço para obter liberação indica uma fuga do presente. Esta soma de inteligência, que é liberação, não é para ser compreendida pelo esforço. Afinal, você faz esforço quando quer, quando deseja conseguir alguma coisa. Mas a liberação não é para ser adquirida, a verdade não é para ser adquirida. Assim, onde existe um anseio por liberação, por um ápice, por obtenção, deve haver um esforço para sustentar, preservar, perpetuar essa consciência que chamamos de “eu”. A própria essência desse “eu” é um esforço para chegar ao ápice, porque  vive em uma série de movimentos de memória, se movimentando para um fim.

A liberação não é para ser “considerada” de modo algum. Ela nasce. Ela surge apenas quando a mente não está tentando fugir da condição em que está presa, mas antes compreender a significação dessa condição que cria conflito. Veja, como você não compreende a condição, o ambiente que cria conflito, você busca uma ideia, um ápice, um fim, dizendo para si mesmo, “Se eu compreender isso, isto desaparecerá” ou, “Se eu tiver aquilo, posso impor isso nesta condição”. Assim, isto não é mais que uma forma sutil de fuga constante do presente. Todos os ideais, crenças, metas e ápices não são mais do que desvios do presente. Considerando que, se você realmente chegou a pensar nisso, mais você está perseguindo um fim, uma meta, um objetivo, uma crença, um ideal, mais você está sobrecarregando o futuro, porque você está fugindo do presente e, portanto, criando mais e mais limitação, conflito, tristeza.

Pergunta: Algumas pessoas dizem que sua ideia é que deveríamos nos libertar agora, enquanto temos oportunidade, e que podemos nos tornar Mestres depois, em alguma outra ocasião. Mas se vamos nos tornar Mestres de fato, por que não é bom para nós colocar os pés no caminho agora?

Krishnamurti: Agora existe oportunidade para vocês se libertarem? O que você quer dizer com oportunidade? Como você se libertaria agora? Através de algum processo milagroso? E depois se torna um Mestre? Senhor, o que é um Mestre, e o que é liberação? O que é Maestria? Certamente se não existe liberação não pode haver Maestria? Se liberação não é a soma de inteligência no presente, certamente essa inteligência não vai ser adquirida em algum futuro distante. Então você quer liberação agora e Maestria depois? Imagino por que você quer liberação agora. Receio que a liberação não tem significado quando você a quer. E esta ideia de se tornar um Mestre – o interrogante deve pensar que a vida é como passar num exame, se tornar alguma coisa – receio que este se tornar um Mestre, se libertar não tem significado para você. Você não vê que quando de fato você não quer se tornar algo, mas vive totalmente um dia, na riqueza de um único dia, você saberá o que Maestria ou liberação é? Este querer cria continuamente um futuro que nunca pode se realizar, e você fica vivendo incompletamente no presente.

Nos últimos três dias estive falando sobre mente e inteligência. Ora, para mim não há divisão entre mente e inteligência. A mente despida de todas as suas memórias e obstáculos, funcionando espontaneamente, integralmente, estando consciente, cria compreensão, e isso é inteligência, isso é êxtase; isso para mim é imortalidade, eternidade. Inteligência é eternidade, e inteligência é a própria mente. Esta inteligência é o real, é a própria mente, não é para ser dividida da mente; esta inteligência é êxtase, está sempre se tornando, sempre em movimento.

Ora, a memória não é mais do que um impedimento para essa inteligência; a memória é independente dessa inteligência; a memória é a perpetuação desse “eu” consciente que é resultado do ambiente, desse ambiente cuja completa significação a mente não viu. Assim, a memória entorpece, impede a inteligência mudando constantemente, a inteligência infinita. Mente é inteligência, mas a memória se impôs à mente. Ou seja, a memória sendo esse “eu” consciente, se identifica com a mente, e o “eu” consciente fica por assim dizer entre a inteligência e a mente, dividindo, impedindo, entorpecendo, pervertendo-a. Então a memória, se identificando com a mente, tenta se tornar inteligência, o que para mim é errado – se me permitem usar o termo “errado” aqui – porque a mente em si é inteligência, e é a memória que perverte a mente e encobre a inteligência. E por isso a mente parece sempre buscar essa inteligência eterna, que é a própria mente.

Então o que é memória? Não é a memória  incidente, experiência, medo, esperança, anseio, crença, ideia, preconceito e tradição, ação, proeza, com suas reações complexas e sutis? No momento em que há esperança, anseio, medo, preconceito, temperamento, isto condiciona a mente, e esse condicionamento cria memória, que obscurece a clareza da mente que é inteligência. Esta memória desliza através do tempo, se coagulando e endurecendo na autoconsciência do “Eu”. Quando você fala sobre o “Eu”, é isso. Ele é a cristalização, o endurecimento da memória de suas reações, as reações de experiência, incidentes, crenças, ideais, e depois de se tornar uma massa solidificada, essa memória fica identificada e confundida com a mente. Se você refletir nisto verá. A consciência de si, ou essa consciência do particular, o “Eu”, não é nada mais que um feixe de memória, e o tempo não é nada além do que o campo em que ela pode funcionar e jogar. Assim, essa massa endurecida de reações não pode ser resolvida, não pode ser resolvida voltando no tempo pela análise, a análise do passado, porque este próprio olhar para trás, esta análise do passado é um dos truques da própria memória. Você sabe, pegar um prazer doentio reafirmar e recondicionar o passado no presente é a atividade constante, o trabalho da memória, não é? Por favor, isto não é astúcia, não é um conceito filosófico. Reflita por um minuto, e você verá que isso é verdadeiro. Existe esta massa de reações nascidas da condição, do ambiente, preconceito, vários anseios, e tudo isto – consequentemente existe a coisa que você chama o “Eu”.

Então nasce esta ideia de que você deve dissolver o “Eu”, devido ao que eu estive dizendo. Ou você mesmo sente a estupidez disto e começa a se desembaralhar; a própria memória começa a se desembaralhar voltando ao passado, que é o processo de auto-análise. E se você realmente chega a pensar nisto, a própria memória tem um prazer doentio em recondicionar o passado no presente. E do mesmo modo, o futuro da memória é mais endurecido por mais anseio, mais acumulação de experiências e reações. Em outras palavras, tempo é memória ou autoconsciência. Você não pode resolver ou dissolver a autoconsciência voltando ao passado. O passado é apenas a acumulação de memória, e mergulhar no passado não vai resolver essa consciência no presente e nem ir para o futuro – que é mais acumulação, mais anseio, mais reação e endurecimento, que nós chamamos crenças, ideais, esperanças – o futuro que ainda implica tempo. Enquanto este processo de memória como passado e futuro continua, a inteligência não pode atuar completamente ou integralmente no presente.

A intuição, como é comumente entendida, se baseia no passado, na acumulação de memória do passado, acumulação de experiências passadas, o que é uma prevenção para agir cuidadosamente – ou livremente – no presente. Como eu disse, essa eternidade não é um conceito filosófico para mim, é uma realidade, e você verá que é uma realidade se experimentar o que estou dizendo. Ou seja, você verá que é uma realidade se sua mente não estiver obstruída pela acumulação passada que você chama de memória, que funciona e o direciona no presente, impedindo-o de ser totalmente inteligente e, portanto, viver completamente no presente.

Então liberação ou verdade ou Deus é o livramento da mente, que é em si inteligência, do fardo da memória. Eu lhes expliquei o que quero dizer com memória, não memória de fatos ou falsidades, mas o fardo colocado na mente pela autoconsciência que é memória, e essa memória é a reação ao ambiente que não foi compreendido. Imortalidade não é a perpetuação desse “Eu” consciente, que é resultado de um falso ambiente, mas imortalidade é a liberdade, o livramento da mente do fardo da memória.

19 de junho de 1934.

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