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24/06/1934 – T

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=85&chid=4445&w=

Sétima palestra em The Oak Grove

Ojai, California

Vamos por um momento, pelo menos supostamente, examinar o mundo de um ponto de vista que revelará os funcionamentos internos e  externos do homem, suas criações e suas batalhas;  se puder visualizar por um momento, o que você vê se abrir diante de você? Você, homem aprisionado por inúmeras barreiras, barreiras da religião, da sociedade, da política, e das limitações nacionais – barreiras criadas por suas próprias ambições, aspirações, medos, esperanças, segurança, preconceitos, ódio, amor. Dentro dessas barreiras e prisões são mantidos, limitados pelos mapas coloridos das fronteiras nacionais, antagonismos raciais, lutas de classes, e distinções culturais. Vemos o homem em todo o mundo aprisonado, cercado pelas limitações, barreiras de sua própria criação. Através dessas barreiras, desses invólucros, ele tenta expressar o que sente, e dentro disso funciona com alegria e tristeza.

Assim você vê o homem em todos os lugares do mundo como um prisioneiro, aprisonado pelas barreiras de sua própria criação, de seu próprio fazer; e através desses invólucros, dessas barreiras em seu meio, da limitação de suas ideias, ambições, e aspirações – ele está tentando agir, às vezes com êxito, e às vezes com lutas hediondas. E o homem que consegue fazer-se confortável nessa prisão, chamamos de bem sucedido, enquanto o homem que sucumbe nessa prisão chamamos de fracassado; mas ambos, sucesso e fracasso, estão entre as barreiras dessa prisão.

Assim sendo, quando olhamos para o mundo dessa forma, vemos o homem nessa limitação, nesse invólucro. E o que é esse homem, o que é essa individualidade? O que é esse ambiente, o que são essas ações? É sobre isso que quero falar nessa manhã.

Antes de tudo, o que é individualidade? Quando você diz, “Eu sou um indivíduo”, o que você quer dizer com isso? Acho que você quer dizer – sem dar sutís explicações filosóficas ou metafísicas – quer dizer por individualidade a consciência de divisão, e a expressão dessa consciência dividida chamamos de auto-expressão. Isto é, individualidade é esse pleno reconhecimento, plena consciência do pensamento dividido, emoção dividida, limitada e presa à escravidão do próprio meio; e a expressão desse pensamento limitado e desse sentimento limitado, que são essencialmente os mesmos, chamamos de auto-expressão. Essa auto-expressão do indivíduo, que não é senão a ideia de divisão, ou é forçada e obrigada pelas circunstâncias a tomar algum canal particular de ação, ou apesar das circunstâncias, expressa inteligência, que é o viver criativo. Ou seja, como indivíduo ele tornou-se cônscio de sua ação separativa, ele é pressionado, forçado, limitado, convencido a funcionar em determinado meio que não é de sua escolha. A maioria das pessoas são forçadas ao trabalho, atividades que não lhe são compatíveis. Elas passam o resto de suas existências no combate contra essas circunstâncias e assim gastam toda a energia na luta, na dor, no sofrimento e ocasionalmente no prazer. Ou o homem vai a fundo nas limitações do seu meio, pois ele entende o seu significado pleno e vive de forma inteligente, criativa, seja no mundo da música, da arte, da ciência, ou de profissões, sem o sentido de divisão pela expressão.

Essa expressão da inteligência criativa é muito rara, e embora tenha a aparência de individualidade ou separatividade, para mim não é individualidade, mas sim inteligência. Onde há inteligência verdadeira agindo, não há ideia da individualidade, mas onde há frustração, esforço, e luta contra as circunstâncias, existe a ideia de individualidade que não é inteligência.

O homem que age de forma inteligente e por isso está livre das circunstâncias, chamamos de criativo, divino. Para um homem que está aprisionado, o homem livre, o homem inteligente é como um deus. Então não precisamos discutir que aquele homem é livre, porque não estamos interessados nele; a maioria das pessoas não estão interessadas nele, e eu não vou lidar com essa liberdade, porque libertação, divindade, pode ser entendida, compreendida somente se a prisão for deixada. Não podemos entender divindade numa prisão. Seria totalmente inútil, meramente metafisico ou filosófico, discutir o que é libertação, o que é divindade, o que é Deus; porque agora o que você deve discernir como Deus deve ser limitado, já que a sua mente está limitada, mantida em um cativeiro; portanto não entrarei nesses detalhes.

Enquanto essa espontânea, essa manifestação inteligente que chamamos de vida, que é uma realidade requintada, é frustrada, existe somente o aumento da consciência do indivíduo. Quanto mais você luta sem compreensão contra o seu meio, quanto mais você luta contra a sua condição, mais você se torna consciente, nesse esforço, de sua limitação.

Por favor, não pense que o contrário dessa consciência limitada, possa ser aniquilação completa, ações mecânicas, ou trabalho conjunto. Estou mostrando pra vocês a causa da individualidade, como a individualidade surge; mas com a dissipação, o desaparecimento dessa consciência limitada, não resultará em nos tornarmos mecânicos, ou que haverá ações coletivas através do foco de um único indivíduo dominante. Porque a inteligência está livre do particular que é o indivíduo, assim como o coletivo – pois afinal, o coletivo é a multiplicidade dos indivíduos- e então há o desaparecimento dessa consciência limitada que chamamos de individualidade, isso não significa que você se torne mecânico, coletivo; mas sim que há inteligência, e essa inteligência é cooperativa, não destrutiva, não individualista ou coletiva.

Todo homem, então, é frustrado, e consciente de sua própria divisão, ele funciona e atua através de seu meio, lutando contra e fazendo esforços colossais para ajustá-lo, modificá-lo, alterar as suas condições. Não é isso que estamos fazendo? Você está  frustrado no amor, na sua vocação, nas suas ações; e na luta contra as limitações a sua consciência se torna apurada, e começa a mudar, alterar as situações do próprio meio. Então o que acontece? Você simplesmente aumenta a barreira da resistência para a modificar ou alterar, mas esse é o resultado da falta de compreensão. Quando entendemos, não tentamos mudar, alterar, reformar.

Então nessa modificação, ajuste, alteração dos seus esforços para romper as limitações, as barreiras, há o que chamamos de ação. Para a grande maioria das pessoas, ação não é nada mais que a modificação do meio, e essa ação leva a ampliação das muralhas dessa prisão, ou da limitação do meio. Se você não entende algo e meramente tenta modificar, suas ações irão aumentar as barreiras, construir outras barreiras; seus esforços simplesmente ampliam a prisão. E essas barreiras, essas muralhas o homem chama de seu próprio meio; e os mecanismos dentro dela, chamamos de ação.

Não sei se eu já comentei: Sem a compreensão do sentido do seu meio, o homem luta para alterar, modificá-lo, e assim aumenta as muralhas de sua prisão, embora ele pense que a tenha removido. Essas muralhas são o meio, sempre mudando, e ação para ele é unicamente a modificação desse meio.

Então nunca há um desprendimento, uma completude, uma riqueza nessa ação; e sim o medo crescente, nunca a realização. A multiplicação dos problemas é todo o processo da existência do indivíduo, de si mesmo. Achamos que determinado problema foi resolvido, e no seu lugar aparece outro, e assim continuamos até o fim da vida, e quando não há nenhum problema, chamamos isso de morte. Quando não há possibilidade de um outro problema, naturalmente que pra você é aniquilação e morte.

E ainda não seria a afeição, o amor, frutos do medo, rondado pelo ciúme, pela desconfiança, que dessa forma somos oprimidos pela possessividade e tristeza? Esse amor nasce do desejo de possuir, nasce da insuficiência, da incompletude. E o pensamento  é meramente a reação da limitação, a reação do próprio meio. Não é? Quando dizemos, “Eu acho”, “Eu sinto” você está reagindo ao seu meio e não tentando se aprofundar nele. Inteligência é o processo de se aprofundar no próprio meio e não de reagir. Ou seja, quando você diz “Eu acho” quer dizer que você tem certas ideias, crenças, dogmas e credos. Certamente que isso não é pensamento, isso são apenas reações à escravidão, às crenças, aos dogmas e credos; essas reações desencadeam um esforço, um conflito, e esse conflito chamamos de pensamento, mas é como simplesmente acordar cercado pelas barreiras de uma prisão. Sua ação é apenas uma reação a essa prisão, causando mais medo, induzindo à limitação. Não é assim?

Quando falamos sobre ação, o que queremos dizer? O movimento dentro da limitação do próprio meio, um movimento confinado em uma ideia fixa, a uma predisposição fixa a uma crença fixa, dogma, ou credo; tal movimento dentro dessa limitação chamamos de ação. Quanto mais agimos, menos inteligentes e livres nos tornamos, porque sempre há esse ponto estático de segurança, de refúgio, dogma ou credo; e quando você começa a agir dentro disso, naturalmente que  está se criando limitações, barreiras de restrições. Então a sua ação não é criativa, não é fruto da inteligência, que é em si a completude. Portanto não há alegria, não há êxtase, não há plenitude na vida, não há amor.

Se não houver essa inteligência criativa que é a compreensão do seu meio, o homem começa a atuar entre as paredes dessa prisão, ele começa a embelezar e decorar a prisão e se sentir confortável nessas paredes, ele pensa e espera trazer a beleza para dentro dessa prisão desagradável. Dessa forma, ele começa a reformar, procura sociedades que falam de fraternidade, mas que também estão aprisionadas, tenta tornar-se livre permanecendo possessivo. De modo que esse embelezamento, reforma, tentativa de conseguir a busca de conforto entre as paredes dessa prisão ele chama de viver, de atuar, agir. E como não há inteligência, um êxtase criativo de viver, ele vai ser sempre esmagado pela falsa estrutura que criou. Assim, ele começa a resignar-se à prisão, pois ele vê que não pode alterar, não pode quebrar essas limitações; porque ele não sente o desejo ou a intensidade do sofrimento que exige a quebra dessa a prisão, ele se resigna e se refugia no romantismo ou escapa através da glorificação do próprio ego. Ora, essa glorificação do próprio ego ele chama de espiritualismo, ocultismo, ambos científicos ou sem legitimidade.

Não é o que cada um faz? Digam, isso não se aplica a vocês? Não diga que isso se aplica a um indivíduo que estamos observando do topo do mundo. Esse indivíduo é você, seu vizinho, cada um de vocês. Quando eu falo dessas coisas, não olhe para seu vizinho ou pense em um amigo distante, o que é apenas uma fuga imediata. Pelo contrário, como estou falando, deixe o espelho da inteligência ser criado em sua frente, então você verá a sua própria imagem, sem retoques, sem viés, e com clareza. Da clareza vai nascer a ação, não um pensamento letárgico ou uma mera modificação do meio.

Mais uma vez, se você não é imaginativo ou romântico, se você não busca o que é chamado de Deus ou religião, você cria ao seu redor um furacão de precipitação, você se torna inventor de sistemas, começa a reformar o seu ambiente para alterar as paredes de sua prisão, e aumenta ainda mais o dinamismo nessa prisão.

Você começa, se não é imaginativo, romântico ou místico, a criar mais e mais dinamismo dentro dessa prisão, se auto nomeando de reformadores, e então criando mais e mais limitação, restrição, e caos nessa prisão. Portanto você tem divisões artificiais chamadas de religiões e nacionalidades, baseadas ou criadas por exploradores e perpetuadas pela sua própria profissão e benefício.

Agora, o que é religião? Qual é a função da religião como ela é? Não imagine religiões maravilhosas, verdadeiras, perfeitas; estamos discutindo o que existe, não o que deveria existir. O que é religião para o homem que tornou-se escravo, que sucumbiu tolamente, desesperadamente para ser sacrificado no altar pelo explorador? Como isso foi criado? Foi o indivíduo que criou devido ao desejo pela sua própria segurança, o que naturalmente gera medo. Quando você começa a procurar a sua própria segurança através do que vocês chamam de espiritualidade, que é falso, você tem medo. Quando a mente busca segurança, o que é esperado? Para ter certeza de uma condição a qual possa ser cômoda, um estado de certeza no qual eu possa pensar,  agir, e viver perpetuamente nessa condição. Mas uma mente que busca certeza nunca está assegurada. É a mente que não busca certeza que pode tornar-se segura, é a mente que não tem medo, que vê a inutilidade de um objetivo, do auge, de uma conquista, que vive de maneira inteligente, portanto certamente ela é imortal.

Assim, a busca por segurança cria o medo, e do medo nasce o desejo de credos e crenças a fim de evitar o medo. Com suas crenças, credos, dogmas e autoridades, você  esconde o medo. Para afastá-lo você procura guias, mestres, sistemas, porque você espera que seguindo-os, obedecendo-os, imitando-os, você terá paz, você terá conforto. Eles são trapaceiros que se tornam sacerdotes, exploradores, pregadores, mediadores, swamis e iogues.

Não acenem com a cabeça em aprovação, porque todos vocês estão nesse caos. Todos vocês estão presos nisso. Você só pode acenar a sua cabeça em aprovação quando você estiver livre disso. Me ouvindo e acenando a sua cabeça você demonstra uma mera aprovação intelectual de uma ideia que estou expressando. E que valor tem isso?

Onde há desejo de segurança, existe medo, então a mente e o coração buscam formadores espirituais para aprender com eles formas de fuga. Como em um circo, os animais são treinados para divertir os espectadores, de modo que o indivíduo por conta do medo procura esses formadores a quem chamam de sacerdotes e swamis, que são os defensores da espiritualidade falsa e as inanidades da religião. Naturalmente que a função desses instrutores espirituais é de criar divertimento para vocês, então eles inventam cerimônias, diciplinas, e idolatria; todos eles fingem beleza em sua expresssão, mas degenarada em supertição. Isso é senão a desonestidade sob o disfarce do serviço.

Diciplina é apenas uma forma de adaptação a um meio de maneira diferente, e ainda a luta continua constantemente dentro de você, contudo através da disciplina você sufoca a inteligência criativa. E a veneração, que na verdade é mais encantadora, que é afeto, amor em si, torna-se objetivado, explorado, sem importância ou qualquer valor.

Naturalmente, de todo esse medo nasce a procura por segurança, a procura por Deus ou verdade. Será que você consegue encontrar Deus? Será que você consegue encontrar a verdade? Mas a verdade existe; é Deus. Você não pode encontrar a verdade, você não pode encontrar Deus, porque a sua busca é apenas uma fuga do medo, a sua busca é apenas o desejo pelo ápice. Portanto quando você busca Deus, você está somente à procura de um lugar confortável para descanso. Certamente que não é Deus, que não é a verdade, é apenas um lugar, uma morada de estagnação  a partir da qual toda a inteligência é banida, toda a vida criativa é extinta. Para mim a própria busca por Deus ou pela verdade, é a própra negação do mesmo. A mente que não está à procura de um ápice, um objetivo, um fim, irá descobrir a verdade. Então, divinidade não é exteriorizada, um desejo não realizável, mas uma inteligência que é o próprio Deus, que é a beleza, a verdade, a completude.

Como eu disse, nós temos criado divisões anormais que chamamos de religiões e organizações sociais para a vida humana. Afinal, essas organizações estão essencialmente baseadas em nossas necessidades, nossas necessidades de abrigo, comida e sexo. Toda a estrutura de nossa civilização está baseada nisso. Mas essa estrutura tornou-se monstruosa, e nós glorificamos nossas necessidades tão terrivelmente que nossas necessidades por abrigo, comida e sexo – que são simples, natural, e pura – tornou-se complicada e feita de maneira hedionda, cruel, terrível, por essa estrutura colossal que está sempre em desmoramento, a qual chamamos de sociedade e que o homem criou.

Afinal, para descobrir nossas necessidades em sua simplicidade, em sua naturalidade, em sua pureza, em sua espontaneidade, demanda uma extraordinária inteligência. O homem que descobre as suas necessidades não é mais aprisionado pelo seu meio.

Devido a tanta exploração, a tanta falta de inteligência, a tanta crueldade em glorificar essas necessidades, essa estrutura que chamamos de nacionalismo, independência econômica, organizações política e social, divisão de classes, prestigio de pessoas e suas culturas raciais – essa estrutura existe para a exploração do homem pelo homem que o leva ao conflito, à desarmonia, à guerra e destruição. Afinal, esse é o propósito das distinções de classe, essa é a função de todas as nacionalidades, de governos soberanos, preconceitos raciais – essa extrema espoliação e exploração do homem pelo homem é que dão origem às guerras.

É assim como as coisas são, toda essa estrutura, a criação de nossa mente humana, que temos individualmente construída. Essas monstruosas, cruéis, terríves distinções sociais e religiosas, dividir, separar, a desunião dos seres humanos criaram o caos no mundo. Você como indivíduo criou tudo isso; não apareceu naturalmente, misteriosamente, espontaneamente. Algum milagroso deus não os criou. Foi o indivíduo quem os criou, e você sozinho como indivíduo pode destruir. Se esperarmos por algum outro sistema monstruoso para criar uma nova condição de vida, então você irá somente se tornar escravo mais uma vez dessa nova condição, onde não pode haver inteligência, espontaneidade, vida criativa.

Como um indivíduo você deve começar a perceber o verdadeiro significado do seu meio, quer seja do passado ou do presente, isto é, perceber o verdadeiro significado das circunstâncias em constante mudança, e nessa percepção do que é verdadeiro nesse meio, deve haver um grande conflito. Por outro lado você não deseja conflito, você quer reformas, você quer alguém para reformar o seu meio. Como a maioria das pessoas estão em conflito e tentando fugir dele buscando uma solução – a qual pode ser apenas pela modificação do meio – a maioria das pessoas estão envolvidas em conflitos, eu digo: Torne-se intensamente consciente desse conflito, não tente escapar, não tente buscar soluções para ele. Então, nessa acuidade do sofrimento, você irá perceber a discernir o verdadeiro significado do meio. Nessa clareza de pensamento não há decepção, sem segurança, sem recusa, e sem limitação.

Isso é inteligência, e essa inteligência é pura ação. Quando a ação nasce dessa inteligência, quando a ação é a inteligência, então você não busca  inteligência ou a adquire pela ação. Há então a completude, suficiência, riqueza, a realização da eternidade, que é Deus. E essa completude, essa inteligência impede para sempre a criação de barreiras e prisões.

24 de Junho de 1934.

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